O birmanês (no alfabeto birmanês မြန်မာဘာသာ; ; transl.: myanma bhasa) é a língua oficial de Mianmar (antiga Birmânia). Embora o governo reconheça o idioma oficialmente como Myanmar, continua a ser conhecido como língua birmanesa. É a língua nativa dos bamar e de outros subgrupos étnicos relacionados, e é falado como língua materna por 32 milhões de pessoas, e pelas minorias étnicas do país, como segundo idioma.

O birmanês faz parte das línguas tibeto-birmanesas, uma subfamília da família linguística sino-tibetanas. É um idioma tonal e analítico, que usa o alfabeto birmanês, derivado do alfabeto mon, que por sua vez vem do alfabeto brami.

Língua literária e oral A língua birmanesa é chamada de မြန်မာဘာသာ (), onde ဘာသာ vem do páli bhasa, que significa "língua". O idioma é classificado em duas categorias; uma, formal, é usada em obras literárias, publicações oficiais, transmissões de rádio e discursos formais, enquanto a outra é coloquial, usada na conversação cotidiana. Isto se reflete nas palavras birmaneses para "língua": စာ, ca se refere à língua escrita, e စကား, ca.ka: se refere à língua falada. Birmanês, portanto, pode ser tanto မြန်မာစာ, mranma ca (birmanês escrito), ou မြန်မာစကား, mranma ca.ka: (birmanês falado). A porção mranma destes nomes pode ser pronunciado como [mjàmmà] ou, coloquialmente, ဗမာ ().

Diglossia A diglossia ocorre extensivamente no birmanês. A discrepância é grande, e diversos linguistas consideram o birmanês formal como um idioma separado do birmanês coloquial. A forma escrita e prestigiosa do birmanês passou por poucas mudanças ao longo dos tempos, e tende a não acomodar a fonologia coloquial do birmanês padrão moderno. O ditado birmanês "a pronúncia é apenas o som, enquanto a ortografia é correta" (ဖတ်တော့အသံ၊ ရေးတော့အမှန်, ) reflete as diferenças entre o birmanês falado e escrito, onde a maneira com que uma palavra é soletrada nem sempre é um reflexo preciso de sua pronúncia.

Além disso, partículas destinadas a modificar substantivos e verbos são usadas mais na forma culta que na oral; os falantes do birmanês literário também são capazes de interpretar intuitivamente o antigo birmanês, apesar das inscrições terem séculos de idade, devido às regras inatas de pronúncia. Por exemplo, ၌ (hnai.), que serve como uma posposição usada depois de substantivos apenas no birmanês formal, e é မှာ (hma) no birmanês coloquial.

Um sistema mais novo de ortografia para o birmanês, baseado na fonologia, foi proposto para acomodar tais diferenças, porém um empecilho às tentativas de reformas ortográficas no birmanês se encontra na existência de dialetos conservadores do idioma, que mantêm pronúncias arcaicas, mais semelhantes ao birmanês formal, especialmente em áreas litorâneas como o estado de Rakhine. Alguns linguistas birmaneses propuseram um afastamento do birmanês formal, na medida em que alguns meios de comunicação, como programas de televisão, passaram a adotar o vernáculo; apesar disso, o birmanês formal permanece solidamente estabelecido na sociedade birmanesa. Desde meados da década de 1960 iniciou-se um movimento de reforma, por alguns escritores birmaneses (especialmente de esquerda, que acreditam que a língua do povo leigo), para que se abandonasse o estilo literário em favor do vernáculo na própria escrita, porém o estilo literário permanece a forma mais usada, com o argumento que "ao estilo oral falta gravidade, autoridade, dignidade". O estilo literário formal continua a ser usado na literatura birmanesa, em boletins de notícias no rádio, cartas formais, romances, jornalismo e livros sobre assuntos sérios ou educativos.

A sentença abaixo mostra que muitas das diferenças entre o birmanês coloquial e o formal ocorrem nas suas partículas:

Formalရှစ်လေးလုံးအရေးအခင်းဖြစ်သောအခါကလူဦးရေသုံးထောင်မျှသေဆုံးကြခဲ့သည်။Coloquialရှစ်လေးလုံးအရေးအခင်းဖြစ်တုံးကလူအယောက်သုံးထောင်လောက်သေခဲ့တယ်။Glosssubstantivoverbopart.subst.part.adj.part.verbpart.part.part.(Levante de 8888)(acontecer)(quando ocorreu)(pessoas)(indicador de contagem)3.000(aproximadamente)(morrer)(indicador de plural)(indicador de tempo passado)(indicador de fim da oração)TraduçãoQuando a Revolta 8888 aconteceu, aproximadamente 3.000 pessoas morreram.

O birmanês coloquial apresenta diversos níveis de polidez; os pronomes de primeira e segunda pessoas de fato do idioma, (nga ; "eu; mim") e (; "você") são usados apenas com as pessoas mais próximas, da mesma idade ou mais jovens. O uso de nga e nin com idosos e estranhos é considerado extremamente rude ou vulgar. Para se dirigir a anciãos, professores e estranhos, as formas mais polidas empregam pronomes de terceira pessoa da era feudal, no lugar destes pronomes de primeira e segunda pessoa. Deve-se referir a si próprio na terceira pessoa: (kya. nau ), para homens, e (kya. ma. ) para mulheres, ambos com o significado de "seu criado") e referir-se ao interlocutor como (min ; "sua alteza"), (khin bya: ; "senhor mestre")de thakin paya ou (shin ; "soberano/mestre"). Estes termos impregnaram de tal maneira o birmanês falado formal ou polido cotidiano que as pessoas os usam como pronomes de primeira e segunda pessoa sem pensar duas vezes sobre o significado original destes pronomes.

Ao falar com uma pessoa do mesmo status social, ou mais jovem, nga e nin podem ser usados. Ainda assim, a maior parte das pessoas prefere utilizar os pronomes de terceira pessoa, por segurança. Por exemplo, um indivíduo mais velho pode usar daw-lay ("tia") ou u-lay ("tio") para se referir a si próprio, e referir-se ao indivíduo mais jovem como tha ("filho") ou thami ("filha"). Ao se dirigir a um monk, costuma-se referir ao próprio monge como poun-poun e a si próprio como daga ( (da. ga ), ou ainda dabyidaw ou dabyidawma. Já os próprios monges birmaneses costumam falar entre si usando o páli, e esperam que os fiéis budistas birmaneses tenham um conhecimento básico deste idioma.

Apesar das grandes diferenças, os falantes do birmanês raramente distinguem entre o birmanês formal e o coloquial como idiomas diferentes, mas sim como dois registros do mesmo idioma.

Dialetos e sotaques Apesar de suas origens na Alta Birmânia, o dialeto padrão do birmanês atual vem de Rangum, devido à influência da maior cidade do país na sua mídia. Anteriormente o dialeto de Mandalay representava o birmanês padrão, e até hoje as diferenças entre Rangum (Baixa Birmânia) e Mandalay (Alta Birmânia) não estão no sotaque ou na pronúncia, e sim no uso do vocabulário. Por exemplo, a característica mais notável do dialeto de Mandalay é o seu uso do pronome (kya. nau ) tanto para homens quanto mulheres, enquanto em Rangum (kya. ma. ) é usado para se referir a mulheres. Além disso, o falar da Alta Birmânia também diferencia os parentes dos lados paternos e maternos, enquanto o birmanês da Baixa Birmânia não mais o faz.

Exemplo:

TermoBaixo birmanêsAlto birmanês tia maternal (velha) tia maternal (jovem) daw-gyi (ou kyikyi) daw-lay daw-gyi (ou kyikyi) daw-lay tia paternal (velha) tia paternal (jovem) daw-gyi (ou kyikyi) daw-lay ah-yi-gyi ou yi-gyi ah-yi-lay ou yi-lay tio maternal (velho) tio maternal (jovem) ba-gyi u-lay u-gyi u-lay tio paternal (velho) tio paternal (jovem) ba-gyi u-lay ba-gyi ba-lay

Como prova do poder da mídia, o dialeto de Rangum está ganhando força até mesmo na Alta Birmânia. Certas formas específicas do dialeto alto birmanês, embora sejam precisas histórica e tecnicamente, são cada vez mais vistas como pertencentes a um falar rural, ou pelo menos regional.

As diferenças mais significantes entre os sotaques e o uso de determinadas palavras surgem à medida que se afasta do vale do Ayeyarwady, rumo às áreas periféricas do país. Dialetos importantes incluem o merguês, o yaw, o palaw, o beik (myeik) e o dawei (tavoyan). O dialeto de Rakhine (arakanês) é reminiscente do birmanês arcaico, especialmente em seu uso do som de , que se tornou um no birmanês padrão. Os dialetos da Divisão Tanintharyi, como o beik, frequentemente reduz a intensidade da oclusiva glotal. O dialeto dawei preservou a medial , que é encontrada apenas em inscrições do antigo birmanês. Apesar de diferenças em vocabulário e pronúncia, há uma inteligibilidade mútua entre os dialetos.

Vocabulário A maior parte do vocabulário birmanês é monossilábico, e pertence ao grupo tibeto-birmanês, embora muitas das palavras, especialmente aqueles empréstimos de outros idiomas, são polissilábicas. O birmanês foi muito influenciado pelo páli, pelo inglês e pelo mon e, em menor grau, pelo chinês, sânscrito e hindi.

Os empréstimos do páli frequentemente estão relacionados a religião, governo, artes e ciência, enquanto os empréstimos do inglês frequentemente se referem a tecnologia, medidas e instituições modernas. O mon influenciou o birmanês de tal maneira que diversos destes empréstimos linguísticos deste idioma não são mais distinguidos pelos falantes do birmanês como tal; relacionam-se principalmente à flora, fauna, administração, indústria têxtil, náutica, arquitetura e música. Também apresentam algum destaque, embora em menor escala, os empréstimos do sânscrito, relacionados à religião, do chinês, a jogos e comida, e do hindi, a comida, administração e navegação.

Esta é uma amostra destes empréstimos comumente encontrados no birmanês: sofrimento: (), do páli dukkha rádio: (), do inglês "radio" método: (), do mon rolinho primavera: (), do hokkien 潤餅 (jūn-piáⁿ) esposa: (), do hindi jani macarrão: (), do shan pé (unidade de medida): (), do português pé bandeira: (), do árabe علم ʕalam almoxarifado: (), do malaio gudang

O birmanês costuma apresentar muitos sinônimos para a mesma palavra, cada qual usado em determinada circunstância, seja ela formal, literária, coloquial ou poética. Um exemplo é a palavra "lua", que pode ser (; tibeto-birmanês), (); derivados páli de chanda), ou ( (sânscrito).

O birmanês também tem uma tendência a fazer 'duplos-empréstimos' do páli, adotando dois termos diferentes baseados no mesmo radical páli. Um exemplo é o páli mana, que em birmanês apresentou dois derivados diferentes, (), ou 'arrogância' e (), ou 'orgulho').

Além disso, algumas palavras do birmanês emprestadas de outros idiomas, especialmente do páli, frequentemente anexam palavras birmanesas a radicais do páli. Um exemplo é "avião" (, literalmente "ar máquina voar"), que inclui (palavra nativa birmanesa, "ar"), (empréstimo do páli, derivado de yana, "veículo") e (palavra nativa birmanesa, "voar"). Uma tendência similar tem sido vista com relação ao inglês, na qual palavras birmanesas são anexadas a empréstimos do inglês, como no verbo "to sign" ("assinar"), ( "inscrever uma assinatura"), com (empréstimo do inglês "sign") e (palavra nativa birmanesa "inscrever"). Os empréstimos do mon são difíceis de ser distinguidos, na maior parte dos casos, porque frequentemente são empréstimos do idioma oral, e não do escrito, já que por muitos séculos o birmanês e o mon foram usados de maneira alternada no território da atual Birmânia e, posteriormente, Mianmar.

Por vezes o governo birmanês tentou limitar o uso de empréstimos ocidentais, especialmente do inglês. No país, por exemplo, publicações que contenham a palavra (transliteração direta do inglês television, 'televisão') devem ter em seu lugar um substituto birmanês, , literalmente 'ver figura, ouvir som.' Outro empréstimo comum do inglês cujo uso foi desestimulado é (, do inglês university, "universidade"), que foi substituído com um empréstimo recente do páli, (), criado pelo governo birmanês, e que recebeu o nome de uma antiga cidade universitária no Paquistão atual, chamada Taxila.

Escrita

thumb|Amostras de diversos estilos de escrita utilizados no birmanês