miniaturadaimagem|Praia Fluvial da Mina de São Domingos A povoação ou aldeia de Mina de São Domingos pertence à freguesia de Corte do Pinto, Município de Mértola, Distrito de Beja, em Portugal. Este povoamento faz parte de uma série de infraestruturas criadas como apoio ao complexo mineiro de São Domingos.

Apesar de existirem vestígios arqueológicos romanos e anteriores, a povoação foi criada em 1858 de raiz na serra de S. Domingos. É também o ano de início da exploração moderna da Mina pela empresa "Mason & Barry". Parte das infraestruturas primitivas como a Igreja, a residência do engenheiro director (palácio), os escritórios da administração, o teatro, a sala de recreio e habitações de mineiros são demolidas em 1869 para aumentar a área de exploração a céu aberto.

Descrição

Muito perto da aldeia situa-se a Praia Fluvial da Tapada Grande, classificada com a bandeira azul, e que conta com parques de estacionamentos, lavabos e outros serviços para os banhistas. Nas imediações inicia-se o percurso de visita da Rota do Minério, que segue o antigo itinerário do caminho de ferro entre a mina e o porto fluvial do Pomarão.

Do ponto de vista das comunicações, a aldeia está ligada à Estrada Regional 267, que permite acesso tanto à vila de Mértola como ao concelho de Serpa.

A povoação está incluída na Zona de Protecção Especial do Vale do Guadiana (Rede Natura 2000) assim como se encontra classificada como Conjunto de Interesse Público desde 2013 juntamente com o restante complexo mineiro.

No interior da aldeia destaca-se a Casa do Mineiro, um núcleo museológico que tem como finalidade preservar uma casa típica da aldeia durante o período de funcionamento das minas.

Junto à aldeia, mas separada do casario por uma colina, encontrava-se o quarteirão britânico, onde residiam os administradores da mina. Esta área incluía palacetes e outras estruturas de grandes dimensões, além de vários equipamentos próprios para os residentes, como um coreto, campos de ténis, críquete e golfe, e um cemitério. Os imóveis são de especial interesse devido à sua mistura de estilos, combinando as influências vitorianas e os modelos tradicionais do Alentejo, sendo um exemplo da prática britânica de utilizar versões modificadas da arquitectura vernacular. Um dos principais edifícios era o grande palácio da administração, que após o fim da exploração mineira foi convertido numa unidade hoteleira. O grau de conforto no complexo britânico era muito superior ao da parte destinada aos portugueses, constituindo um reflexo da grande diferença entre as duas comunidades, uma vez que a maior parte das posições de chefia eram ocupadas por estrangeiros, enquanto que a esmagadora maioria dos nacionais eram trabalhadores manuais. Outro elemento de interesse é o antigo cemitério dos ingleses, instalado em 1860.

História Antecedentes Durante a época romana existiu nesta área uma povoação, associada muito provavelmente aos recursos mineiros, que já então eram explorados. Foram encontrados vestígios deste assentamento em diversos pontos, incluindo junto ao cemitério britânico. Na saída ocidental das minas, no sentido de Mértola, foi identificada uma via romana, e no Bairro do Cerro do Hospital mineiro foram encontrados indícios romanos e islâmicos.

Formação e expansão A povoação foi criada de raiz no século XIX, para alojar os trabalhadores e as suas famílias, que formavam uma comunidade já de dimensões consideráveis. Com efeito, além das operações mineiras em si, o funcionamento da mina envolvia igualmente uma grande diversidade de profissões, como serralheiros, fundidores, caldeireiros, torneiros, fresadores, electricistas e carpinteiros. No seu auge a empresa teve cerca de 3500 operários, enquanto que a aldeia chegou a ter 8700 habitantes.

Originalmente a aldeia situava-se noutro local, mas este aglomerado primitivo foi demolido por ter sido encontrado ali um filão de minério, tendo sido fundada uma nova povoação nas proximidades. O único vestígio da povoação primitiva é o cemitério da comunidade britânica, que foi instalado em 1860. Foi construído para servir a comunidade estrangeira em São Domingos, que devido à sua religião anglicana não podiam ser enterrados nos cemitérios locais, que então estavam integrados na Igreja Católica.

Em 1907, o jornalista Adelino Mendes descreveu a aldeia como sendo de «casaria uniforme e toda branca que se accumula em arruamentos symetricos n'uma encosta suave que vem morrer no volle [sic] cortado pelas linhas ferreas e povoado d'officinas, com o seu mercado amplo e espaçoso, onde se vende tudo o que é mais necessario á vida, com os seus massiços de verdura, com as grandes florestas de eucalyptos altos e esguios, com o seu aspecto ridente e feliz, é uma das mais encantadoras aldeias alemtejanas, e talvez a única onde n'este verão que morreu conseguiram resistir ao calor ardente de um sol de fogo alguns canteiros floridos que os ingleses cultivam com esmero em torno dos seus homes recatados e simples». Refere igualmente que a empresa «construiu lagos immensos onde se accumulam dezenas de milhões de metros cubicos d'agua», que também abasteciam a povoação. Na década de 1900 verificou-se um grande incremento na produção, levando ao aumento do número de trabalhadores, pelo que em 1907 existiam mais de três mil mineiros, enquanto que a população da aldeia era de cerca de seis mil habitantes. Em 31 de Março de 1913 foi inaugurado o novo teatro na aldeia de São Domingos, numa cerimónia que contou com a presença do director-gerente da mina, Edward O. Barry.

Durante o funcionamento das minas, a aldeia contou com um avançado leque de equipamentos sociais e serviços para a época, incluindo um posto da polícia, uma igreja, um cine-teatro, um cemitérioPORTUGAL. Portaria n.º 414/2013, de 18 de Junho de 2013. Presidência do Conselho de Ministros - Gabinete do Secretário de Estado da Cultura. Publicado no Diário da República, 2.ª série, N.º 120, de 25 de junho de 2013. um hospital, uma farmácia, uma escola, e uma cooperativa onde os habitantes se podiam abastecer de alimentos. Era igualmente abastecida de energia eléctrica pela central da mina, tendo sido uma das primeiras aldeias em território nacional a ser iluminada desta forma. A povoação também alcançou algum desenvolvimento em termos culturais e desportivos, tendo sido formada uma banda de música e uma equipa de futebol própria, o São Domingos Futebol Clube. No seu artigo Minas do Distrito de Beja, publicado na obra Album Alentejano, na década de 1930, o professor Aboim Inglês descreveu desta forma a povoação: «a aldeia de S. Domingos foi construída pela Empreza alem do palacete da Direcção e Escritórios, tem casas para o pessoal superior, 1600 quarteis para operarios, Hospital, Farmacia, Egreja, Teatro, Escola, Cooperativa, clubs, jogos, jardim, etc., etc. Os serviços medicos e de farmacia são gratis. Os serviços de higiene publica são tambem por conta da Empreza: poços dágua [sic] potável, lavatorios, retretes, ruas e fiscalização dos quarteis [residências dos trabalhadores] são objecto de constantes cuidados. Estes cuidados e a guerra ao mosquito reduziu a malaria que existia em S. Domingos a quási nada.».

Declíno Em 1966 a Mina de São Domingos encerrou, provocando graves problemas económicos no concelho, levando a uma forte redução no número de habitantes. Na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974, o cemitério inglês entrou num profundo processo de degradação, tendo sido por diversas vezes vandalizado, e chegou a ser usado como curral para ovelhas. Nos finais da década de 1990 passou a estar protegido pela Junta de Freguesia, embora tenha continuado ao abandono.

Século XXI Em 2004 entrou ao serviço a Estação de Tratamento de Águas Residuais de São Domingos.

Em 2007, a aldeia de São Domingos constituía a segunda maior aglomeração urbana no concelho de Mértola, apenas inferior à sede do concelho. Em 2010 foi inaugurado o núcleo museológico da Casa do Mineiro. Em 16 de Setembro de 2015 foi reinaugurado o edifício escolar da aldeia, após ter sido alvo de obras de remodelação.

Em 2017, a Praia da Albufeira da Tapada Grande, situada junto à povoação, foi eleita como o melhor destino europeu nos World Travel Awards, na tipologia de Praias Interiores. Em 2019, a autarquia de Mértola lançou o concurso público para a empreitada de reabilitação do Cine-Teatro da Mina de São Domingos, num investimento superior a 250 mil Euros.

Em 30 de Julho de 2021, os habitantes da aldeia organizaram um protesto devido às condições de operação da extensão local de saúde, uma vez que operava apenas um dia por semana e estava limitada a oito consultas, o que era insuficiente para as necessidades das populações.

Em 2022 foi organizado um conjunto de iniciativas culturais na aldeia, incluindo exposições de arte e espectáculos de dança e de teatro, no âmbito do programa Malacate. Os responsáveis pelo evento afirmaram que tinha sido concebido «especificamente» para aquela aldeia, devido ao seu «marcante passado de exploração mineira», testemunhado pelo «edificado industrial de impressivo valor estético que ainda subsiste». Também nesse ano, o Centro de Estudos de São Domingos já tinha iniciado a realização de um programa para investigar quais eram as pessoas que estavam enterradas naquele espaço e os seus laços familiares. Em 2024, a Comunidade Intermunicipal do Baixo do Alentejo organizou a exposição O lince na península no Cineteatro de São Domingos, e nesse ano a autarquia inaugurou um conjunto de infraestruturas para apoiar o turismo e o desporto na aldeia, consistindo numa área de serviço para autocaravanas e no novo relvado sintético do Campo de Jogos Cross Brown, usado como estádio pelo São Domingos Futebol Clube.

Em Fevereiro de 2026, a autarquia de Mértola colocou em discussão pública um regulamento para apoiar a reabilitação de habitações na aldeia de São Domingos, medida que foi apoiada pela delegação local da Coligação Democrática Unitária, que afirmou que «proteger a Mina de S. Domingos e o Pomarão é garantir que continuam territórios vivos e habitados».

Património miniaturadaimagem|Complexo Mineiro de S. Domingos Antiga Casa de Habitação do Proprietário da Mina e Escritórios (Palácio e atual hotel); Antigo Teatro (Cine -Teatro); Antigo Quartel da G.N.R.; Bairro dos Ingleses; Campo de Futebol Cross Brown; "Casa da Ilha"; Casa do Mineiro – Centro de Documentação; Cemitério dos Ingleses; Complexo mineiro das Minas de S. Domingos; Igreja; Praia Fluvial da Tapada Grande;

Curiosidades Mercedes Blasco ilustre actriz, escritora e jornalista nasceu em 1873 na Mina de São Domingos.

A urze Erica andevalensis, raro endemismo da flora ibérica tem a sua distribuição em Portugal limitada à zona mineira da Mina de S. Domingos.

Os sinos presentes na Igreja de Mina de São Domingos, fundidos em 1863, foram encomendados pela Maison  &  Barry à fundição de sinos Inglesa John  Warner  &  Sons  Crescent  Foundry.  A John  Warner  &  Sons  Crescent  Foundry foi a  responsável por fundir em 1856 o primeiro Big Ben, o grande sino para a torre do relógio do Palácio de Westminster, onde está instalado o Parlamento do Reino Unido.

Ver também Mina de São Domingos

Leitura complementar

Ligações externas

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