Extra Texture (Read All About It) é o sexto álbum de estúdio do músico inglês George Harrison, lançado em setembro de 1975. Foi o último álbum de Harrison enquanto ainda estava sob seu contrato com a Apple Records e a EMI, e seu último ålbum de estúdio lançado pela Apple. O lançamento veio nove meses depois de sua problemática turnê norte-americana de 1974 com Ravi Shankar e ålbum Dark Horse (1974), que foi mal recebido pela crítica. O clima melancólico da gravação reflete o estado deprimido de Harrison causado pelas críticas a estes projetos.

Entre os lançamentos solo pós-Beatles de Harrison, Extra Texture é o único álbum cujas letras não possuem uma mensagem espiritual óbvia. Além disso, excepcionalmente, foi gravado, em sua maior parte, nos Estados Unidos ao invés da Inglaterra, enquanto Harrison estava trabalhando em Los Angeles como chefe da Dark Horse Records. Gary Wright, David Foster, Jim Keltner, Jesse Ed Davis, Leon Russell, Tom Scott, Billy Preston e Jim Horn estão entre os diversos músicos que contribuíram para o álbum. Os arranjos com intenso foco nos teclados incorporam elementos da música soul e a influência de Smokey Robinson, sinalizando um afastamento do som inspirado pelo rock e pelo folk rock dos trabalhos de Harrison do início dos anos 1970. Contrastando com seu conteúdo, a arte do álbum expressa uma atitude alegre e inclui uma capa inusitada com superfície texturizada.

Apesar da recepção negativa da maioria dos críticos musicais, Extra Texture foi certificado com disco de ouro pela Recording Industry Association of America (RIAA) dois meses após seu lançamento. O álbum produziu um single de sucesso: a música "You", que possui influências da Motown e foi originalmente gravada em Londres em 1971 com o co-produtor Phil Spector. O álbum também inclui "This Guitar (Can't Keep from Crying)", que foi tanto uma continuação de "While My Guitar Gently Weeps" quanto um contra-argumento a seus críticos. O álbum foi remasterizado e relançado em setembro de 2014 como parte do box set The Apple Years 1968–75.

Antecedentes

Em sua edição de 13 de fevereiro de 1975, a revista Rolling Stone ridicularizou tanto a turnê norte-americana que George Harrison realizara com Ravi Shankar entre os meses de novembro de dezembro de 1974, quanto o álbum Dark Horse, chamando a ambos de "desastrosos".J Visto anteriormente como o "ganhador surpresa da competição dos ex-Beatles", nas palavras de Nicholas Schaffner – o "azarão" – Harrison desapontou vários fãs de sua antiga banda ao não reconhecer o legado dos Beatles, tanto no conteúdo de seus shows em 1974, quanto na sua relação com a mídia. Além disso, seu compromisso em lançar a Dark Horse Records, sua gravadora, só deixou-lhe tempo suficiente para finalizar o álbum enquanto ensaiava para os shows; como resultado, ele contraiu laringite e cantou com a voz rouca em diversas das gravações e ao longo da turnê. Embora Dark Horse tenha vendido bem nos EUA, o álbum não conseguiu entrar na lista dos cinquenta álbuns mais vendidos do Reino Unido.

miniatura|direita|Harrison, o presidente dos EUA Gerald Ford e Ravi Shankar na Casa Branca em dezembro de 1974, perto do fim da turnê. Apesar das declarações de Harrison, durante a turnê, de que as opiniões negativas da mídia só o tornavam mais determinado, as críticas lhe atingiram severamente depois do fim de seu casamento com Pattie Boyd. Em abril de 1975, numa entrevista de rádio com David Herman à estação WNEW-FM, Harrison disse que aceitava a validez da crítica profissional, mas se opunha a ela quando vinha, constantemente, de "uma única fonte"; depois, ele acrescentou que havia se tornado "uma coisa pessoal". Simon Leng escreveu que o "rancor e decepção" que Harrison havia sentido se manifestou no álbum que seguiu Dark Horse, intitulado Extra Texture (Read All About It), o qual seria seu último álbum de estúdo lançado pela gravadora dos Beatles, a Apple Records.

O álbum aconteceu na época em que Harrison estava em Los Angeles, supervisionando projetos de alguns grupos contratados pela Dark Horse, um dos quais, a banda Splinter, ficou indisponível para comparecer às sessões reservadas nos Estúdios A&M. Apesar de Harrison não ter se impressionado com as instalações do estúdio, optou por utilizar ele mesmo o tempo vago. Os autores Chip Madinger e Mark Easter sugerem que esta decisão foi influenciada pelo seu relacionamento de negócios com os Estúdios A&M, que eram os distribuidores mundais da Dark Horse e a companhia com a qual se esperava que Harrison fosse assinar como artista solo, após a expiração de seu contrato com a EMI/Capitol, que eram afiliadas à Apple, em janeiro de 1976. Apesar de mal ter escrito uma canção nos seis meses após completar Dark Horse, no final de outubro de 1974, ele rapidamente completou algumas composições semi-terminadas e escreveu "algumas novas". Leng cita estas circunstâncias, junto com o anseio de Harrison para "terminar um álbum o mais rápido possível, para se livrar do contrato com a EMI/Capitol", como parte de uma certa qualidade conveniente que define Extra Texture.

Músicas Mikal Gilmore, escrevendo para a Rolling Stone em 2002, comentou que "a crise [que Harrison] enfrentou no meio dos anos 1970 transformou-o", e que a depressão foi um fator chave. A depressão permeou muitas das músicas que Harrison escreveu durante este período, questão esta que não foi melhorada pelo seu contínuo alcoolismo e uso de cocaína. Vendo esta mentalidade como uma extensão dos "profanos mecanismos de defesa" do artista entre 1973–74, o autor Robert Rodriguez escreve: "O interessante é como ele escolheu lidar musicalmente com aquilo que estava enfrentando. Em última análise, Extra Texture é único no catálogo de Harrison por ser, essencialmente, um passeio pela música soul".

No que diz respeito às letras, "The Answer's at the End", "This Guitar (Can't Keep from Crying)", "World of Stone" e "Grey Cloudy Lies" evitam seu tema habitual – espiritualidade hindu – e, ao invés disso, parecem pedir compaixão do ouvinte. De acordo com o autor e teólogo Dale Allison, Exra Texture é "o único álbum de Harrison que não faz nenhuma declaração teológica positiva". Allison acrescenta que a "melancolia confusa" do álbum proporciona um forte contraste à "confiante militância religiosa" dos sucessos anteriores do artista: All Things Must Pass (1970) and Living in the Material World (1973). A vacilação de Harrison de sua linha de conduta orientada por Krishna ficou mais evidente em "World of Stone", escreve Gary Tillery: "'Tão distante de casa', ele diz, mas em sua autobiografia ele escreve, 'Tão distante de Om' – revelando a agitação interior por ter se desviado de sua fé." A mesma desesperança estava evidente em "Grey Cloudy Lies", uma faixa que Harrison descreveu a Paul Gambaccini em setembro de 1975 como "uma daquelas músicas depressivas, das quatro horas da manhã".

Harrison começou a escrever "World of Stone", "Grey Cloudy Lies" e a soul-pop romântica "Can't Stop Thinking About You" em 1973. Ele começou "This Guitar (Can't Keep from Crying)" no Havaí no natal de 1974, enquanto estava de férias com sua nova namorada (que se tornaria sua esposa), Olivia Arias, uma secretária do escritório da Dark Horse em Los Angeles. A canção é uma continuação da famosa "While My Guitar Gently Weeps", e a letra serve como um contra-argumento aos seus críticos, em especial a Rolling Stone, cujos ataques à sua turnê ele nunca perdoaria.

Harrison compôs "Tired of Midnight Blue" em Los Angeles, onde continuou a morar durante boa parte de 1975 por conta de seus negócios com a Dark Horse Records. Em sua autobiografia, I, Me, Mine, Harrison diz que a letra da canção se focava em seu estado "deprimido" depois de uma noite num clube de Los Angeles com "um bocado de pessoas travessas de cabelos grisalhos". Na avaliação de Tillery, com o refrão "Me deu calafrios até os ossos" ("Made me chill right to the bone"), "Tired of Midnight Blue" era Harrison atingindo o "fundo do poço". O exemplo mais óbvio da adoção da música soul no álbum foi a composição "Ooh Baby (You Know That I Love You)", o primeiro de dois tributos a Smokey Robinson, um cantor cujo trabalho com a banda The Miracles Harrison admirava desde o início dos anos 1960.

Além destas composições, Harrison revisitou duas gravações até então ainda não utilizadas: "You", faixa que abre o álbum, inspirada pelo estilo da Motown, e "His Name Is Legs (Ladies and Gentlemen)", última faixa do álbum. Co-produzida com Phil Spector em Londres, "You" estava entre as faixas básicas gravadas em fevereiro de 1971 para um álbum que seria lançado pela esposa de Phil Spector, Ronnie Spector, anteriormente conhecida como Veronica Bennett do grupo The Ronettes. Uma reprise da canção completa, na forma de um breve instrumental intitulado "A Bit More of You", aparece em Extra Texture, abrindo o lado B do vinil. "His Name Is Legs" foi gravada no estúdio de Harrison em Friar Park, o FPSHOT, logo antes da turnê de 1974, com Billy Preston, Tom Scott, Willie Weeks e Andy Newmark. Numa piada interna que poucos ouvintes foram capazes de perceber, a canção traz um monólogo difícil de decifrar, executado por "Legs" Larry Smith, antigo membro da Bonzo Dog Doo Dah Band. A inclusão destas duas faixas mais antigas forneceu um material mais alegre a um álbum predominantemente recheado de baladas.

Produção

Gravação thumb|left|240px|Sede da A&M Records (incluindo os estúdios de gravação da empresa), fotografado em 1922 em seu estado anterior como Charlie Chaplin Studios Único entre os álbuns de estúdio de Harrison lançados entre a separação dos Beatles e sua morte em 2001, a maior parte das gravações de Extra Texture aconteceu nos Estados Unidos.Notas de encarte de Kevin Howlett, Extra Texture (Read All About It) brochura de CD (Apple Records, 2014; produzido por George Harrison) As sessões ocorreram, em parte, no quarteirão do A&M perto da avenida La Brea, em Holywood, onde ficavam as sedes do estúdio e da gravadora.Olivia Harrison, "The History of Dark Horse Records", The Dark Horse Years 1976–1992 brochura de DVD (EMI, 2004), pp. 2, 5. Durante a primavera e o verão de 1975, Harrison frequentou regularmente o escritório da Dark Horse, situado num chalé compartilhado com a Ode Records, e se envolveu completamente na cena musical de Los Angeles. Pouco antes de começar a trabalhar no álbum, ele estava entre os convidados da festa do Wings no transatlântico RMS Queen Mary na cidade de Long Beach, onde Harrison, de aparência fadigada, foi visto se socializando com Paul McCartney pela primeira vez desde a separação dos Beatles há cinco anos. Em geral acompanhado de Olivia, Harrison assistiu a shows de Bob Marley & The Wailers, Smokey Robinson e Santana, conversou com Ringo Starr, e se encontrou com Preston e Ronnie Wood nos bastidores de um dos shows dos Rolling Stones no LA Forum. Novos amigos como Eric Idle entraram em seu círculo social naquele verão. A influência do Python influenciou a arte e embalagem excêntricas do álbum, mas não seu conteúdo musical.

Com Norman Kinney como engenheiro de som, Harrison gravou as faixas principais para as novas canções entre 21 de abril e 7 de maio de 1975, começando com "Tired of Midnight Blue" e "The Answer's at the End". Entre os músicos do álbum, estavam vários dos colaboradores anteriores de Harrison, incluindo Jim Keltner (bateria), Gary Wright (teclado), Jesse Ed Davis (guitarra), Klaus Voormann (baixo), e Tom Scott, Jim Horn e Chuck Findley (todos os instrumentos de sopro). Junto com Keltner, o participante mais constante do grupo foi o jovem David Foster, na época o tecladista da banda de Keltner, Attitudes, cujo baixista e cantor, Paul Stallworth, também contribuiu para o álbum.George Harrison interview, Rockweek, "George Harrison introduces Extra Texture and explains 'You'" (retrieved 1 July 2012). No que acabaria se tornando um som dominado por teclados, também fizeram aparições Leon Russell e Nicky Hopkins.