O carimbó ou curimbó é uma manifestação cultural brasileira de origem afro-indígena, formado por gênero musical e dança, criado no século XVII no então Império das Amazonas/Conquista do Pará (atual estado do Pará) na então América Portuguesa/Brasil Colônia. Evoluindo como uma celebração interiorana entre amigos e familiares após pescarias e plantios acompanhado pelo batuque do tambor artesanal curimbó; do qual se originou o nome da manifestação.FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 353.

A bibliografia mais antiga sobre o carimbó etá presente no livro de Vicente Chermont de Miranda, Glossário Paraense (1906), onde ele afirma que "a base do carimbó [musicalmente] são os tambores”.

Este ritmo e dança indígena, como diversas outras manifestações culturais brasileiras, miscigenou-se, recebendo influências, principalmente da cultura negra. Sofrendo assim repressão por séculos, chegando inclusive ser proibido na capital Belém criminalizado pelo poder governamental em 1880 (uma forma de evitar desordem em público).

Nas últimas décadas, o carimbó ressurgiu como música regional e como uma das principais fontes rítmicas (matriz tradicional) de gêneros contemporâneos, como lambada e tecnobrega. A expressão cultural espalhou-se também pela Região nordeste do Brasil, atualmente está muito associado as festividades religiosas.

Anualmente no dia 26 de agosto no município paraense de Belém, é celebrado o "Dia Municipal do Carimbó". E no dia 3 de novembro é celebrado o "Dia Estadual do Carimbó" no estado brasileiro do Pará.

Em 2014, foi registrado como forma de expressão e patrimônio Cultural do Brasil - aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) - ao lado de manifestações como o marabaixo (Amapá), o maracatu (Pernambuco), o tambor de crioula (Maranhão) e a arte kusiwa dos indígenas waiãpi (Amapá).Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Livro de Registro das Formas de Expressão - Bens Culturais Imateriais. Brasília: IPHAN, sem data. Disponível em http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/497. Acesso em 24/06/2021.

Etimologia

A palavra "carimbó" é proveniente do instrumento que possui a denominação em tupi "korimbó", originado do instrumento percussivo indígena tradicional, resultado da junção dos termos "kori" que significa “pau oco”, e "m’bó" que significa “furado”, significando em português “pau furado que produz som". Devido a forte presença do instrumento curimbó, tambor que marca o rítmo, feito artesanalmente com a escavação de um tronco de árvore, encoberto com couro de animal e afinado ao calor do fogo.

Na forma tradicional de execução, o carimbó é chamado do tipo "pau e corda", peculiar pela batida do tambor curimbó acompanhado por banjo e maraca, referido em algumas bibliografias como “samba de roda do Marajó”, ou “baião típico de Marajó”.

História

A presença de populações e culturas afrodescendentes é consequência direta do tráfico transatlântico de africanos escravizados, que, entre os séculos XVI e XIX, trouxe aproximadamente 4,8 milhões de pessoas do continente africano ao Brasil.SLAVE VOYAGES. Tráfico Transatântico de Escravos. Banco de dados: Estimativas. Viagens: O Banco de Dados do Tráfico de Escravos Transatlântico. Disponível em: https://www.slavevoyages.org/assessment/estimates Acesso em 02/07/2021. Por volta de 1700, a escravidão negra tomou bastante fôlego no Maranhão e na Guiana Francesa, enquanto caminhava a passos mais lentos no Grão-Pará.SALLES, Vicente. O Negro no Pará. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1971. Pg. 16, 17, 24, 32, 36. O Cabo Norte era região fronteiriça, fracamente ocupada pelas forças coloniais europeias, rota de fuga e localização perfeita para africanos escravizados no Pará, Maranhão e Guiana Francesa constituírem mocambos (quilombos), de tal forma que as coroas francesa e portuguesa assinaram tratados de devolução mútua de escravizados em 1732, 1752 e 1762.LUNA, Verônica Xavier. Entre o Porteau e o Volante: Africanos Redesenhando a Vila de São José de Macapá 1840-1856. Tese de mestrado. Teresina, 2009. Pg. 51, 60, 65, 88, 89.

A partir de 1750, a Coroa Portuguesa, na figura de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, iniciou uma série de medidas modernizadoras para assegurar a posse e as fronteiras portuguesas na região amazônica: a fundação de vilas com colonos portugueses e a construção de fortificações militares, a tentativa de introdução de monoculturas de exportação; a abolição da escravidão dos indígenas e a submissão dos nativos ao trabalho compulsório assalariado, regulamentado pelo Diretório dos Índios e a criação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão para estimular a entrada de pessoas negras trazidas da África.VIDAL, Laurent. Mazagão, a Cidade que Atravessou o Atlântico: do Marrocos à Amazônia. São Paulo: Martins, 2008. Pg. 88, 94, 113, 114, 144.

O saber tradicional é um produto histórico resultado do modo de vida de uma comunidade tradicional e o relacionamento com a biodiversidade que está inserida (intelecto coletivo ou intelecto cultural). Este saber se reconstrói na transmissão entre as gerações e, que geralmente é feita por via oral, possui uma vísivel e imediata aplicação prática na sociedade.

Possíveis origens

Segundo a tradição oral, é difícil afirmar com exatidão onde surgiu o ritmo, estando na disputa os municípios paraense de Marapanim e Curuçá, além da Ilha de Marajó. Sabe-se que originalmente é um ritmo criado no século XVII por tupinambás, influenciado por negros africanos (ex-escravizados) da região nordeste do estado do Pará. No século XIX era apenas a música preferida pelos pescadores/ribeirinhos e agricultores paraenses, embora não conhecida como carimbó, sendo apenas uma celebração entre amigos e familiares após pescarias e plantios, uma representação rimada dos aspectos da vida simples local, acompanhado pelo curimbó. Uma necessidade cabocla de contrabalançar o trabalho diário com momentos de descontração (periódica evasão de espírito).

O ritmo atravessou a baía de Guajará com os pescadores, desembarcando nas praias da região do Salgado paraense, ou região atlântica. Em algumas regiões próximas às cidades paraenses de Marapanim e Curuçá, o gênero se solidificou, ganhando o nome que tem hoje. A vila de Maranhãozinho (Marapanim) e na vila de Araquaim (Curuçá), são os sítios que reivindicam a paternidade do gênero. Em Marapanim, onde o gênero é amplamente cultivado, realiza-se anualmente, em dezembro, o Festival de Carimbó de Marapanim — O Canto Mágico da Amazônia".

Assim a história do carimbó ficou definida, em dois momentos: a fase na qual o gênero era produzido por setores populares (interioranos e suburbanos) e conhecido apenas por folcloristas e intelectuais como uma manifestação cultural local; e a fase de urbanização e consumo na indústria fonográfica de massa (rádios) e no cenário cultural em nível de estado, consolidando as duas tendências do gênero: “pau e corda” e “moderno”.

Mas, por ter sido influenciado por negros africanos, o carimbó foi classificado como “festa de preto”, em uma sociedade escravocrata, sua manifestação não deixaria de ter medidas de controle e repressão, sendo coagido por forças policiais e criminalizado legalmente pelo governo no município de Belém na década de 1880 (lei nº 1 028, denominada Código de Posturas de Belém). Até mesmo no interior do estado, os terreiros onde o gênero era muito apreciado foram perseguidos pela polícia e mal vistos pela “boa sociedade” local.

O jornalista José Coutinho de Oliveira na Folha do Norte Vespertina, no artigo intitulado "Macumba", em dezembro de 1937 esclareceu que: macumba era apenas um instrumento musical africano, usado nas festas e danças dos escravos negros, e que devido muito o uso do instrumento, a macumba passou também a ser denominado carimbó, termo que também representava batuque.

Na década de 1950, a Comissão Paraense de Folclore (atual Centro Paraense de Estudos do Folclore) com direção da folclorista Maria Graziela dos Santos e do professor de canto Adelermo Mattos, intermediou a primeira interação cultural entre as cidades paraenses de Belém e Marapanim, localidade onde o ritmo preserva os seus traços originais. Enquanto o professor realizava coletas musicológicas nessa localidade, a folclorista levara os conjuntos musicais à se apresentarem em Belém, em uma perspectiva de modernidade da capital com uso de instrumental elétrico e mescla de ritmos.

O quadro de repressão mudou em um intenso processo a partir da década de 1960, o fazer carimbó se modificou; no contexto da Ditadura Militar brasileira, o carimbó encontrou em Belém um bom terreno, com o forte regionalismo que as músicas continham e sem abordar temas polêmicos, manteve-se longe da censura governamental/militar. Dando início a grupos carimbozeiros e bandas, tornando-se popular e comum nas rádios e nos bailes, quando artistas gravaram os primeiros discos LP, a exemplo de Lucindo, Pinduca, Cupijó e Verequete.

Em setembro de 1975, o ritmo ganhou as páginas do carioca Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) através do artigo do jornalista Ribamar Fonseca, intitulado "Quando toca o carimbó ninguém fica parado", que reportava a "descoberta" do ritmo em Belém, apresentado "pela primeira vez na cidade em 1958":

Devido o regionalismo, obteve apoio das novas gerações de intelectuais, de artistas militantes politicamente e, de universitários, oriunda das classes médias paraense ligados a organizações, como: União Nacional de Estudantes (UNE) e, da União Acadêmica Paraense (UAP). Também artistas independentes, não engajados politicamente, mas envolvidos no processo de experimentação estética e artística das décadas de 1960 e 1970, o processo da “moderna música popular brasileira” inaugurado com o surgimento da Bossa Nova no Brasil e movimentos anti golpe de 1964, Assim neste contexto foram realizados em Belém vários eventos musicais, como o "I Festival de Música Popular Paraense" em 1967; o evento da Casa de Juventude Católica (CAJU) e, uma série no ambito universitário, com destaque local para João de Jesus Paes Loureiro e Ruy Barata.

Neste contexto de contra-cultura, oposição política e, experimentação artística, uma boa parte dos músicos paraenses buscaram no carimbó, um gênero que representasse a autêntica música do povo nortista brasileiro (amazônida), resultado de uma cultura tipicamente cabocla. Paralelo a este processo, começaram a perceber um produto comercializável, como por exemplo: no início de 1970, o cantor Pinduca tenta introduzir o gênero nos bailes populares (após algumas tentativas sem sucesso foi aos poucos sendo aceito). Enquanto, Verequete cria o grupo “O Uirapuru do Amazonas”, com apresentações principalmente no distrito belenense de Icoaraci. O carimbó ainda não era popular na capital paraense, mas mesmo assim o músico Verequete foi um dos primeiros a gravar um disco no formato vinil (LP) neste mesmo ano.