Tibério Cácio Ascônio Sílio Itálico (; –), conhecido apenas como Sílio Itálico, foi um senador, orador e poeta romano eleito cônsul em 68 com Públio Galério Trácalo. Sua única obra sobrevivente é o poema épico "Púnica" sobre a Segunda Guerra Púnica. Com 17 livros, é o mais longo poema em latim sobrevivente da Antiguidade, com mais de linhas.
Fontes e origem As fontes para a vida de Sílio Itálico são principalmente a carta 3.7 de Plínio, o Jovem, que é uma descrição da vida do poeta escrita depois que ele se suicidou, algumas inscriçõesvon Albrecht, p. 960 n.1 e diversos epigramas do poeta Marcial. Itálica, na região da Hispânia, era antigamente considerada a sua cidade-natal por causa de seu agnome "Itálico". Contudo, se este fosse o caso, a forma latina "Italicensis" seria a mais correta. Além disto, é altamente improvável que Marcial tivesse simplesmente esquecido de mencioná-lo entre as celebridades literárias da Hispânia da segunda metade do século I. A cidade de Patávio, no norte da Itália, foi sugerida pelo historiador J. D. Campbell com base num aparente viés favorável à região em "Púnica" e a prevalência do nome "Ascônio" em inscrições da região.Campbell (1936), pp. 55-58.
Carreira política No começo de sua carreira, Sílio foi um renomado orador forense e, mais tarde, um cauteloso político. Acredita-se que ele tenha se tornado um delator voluntária e entusiasticamente na época de Nero, processando nos tribunais pessoas que o imperador desejava condenar.Plínio, Epístolas 3.7.3 No ano da morte de Nero (68), Sílio foi cônsul e, depois, tornou-se amigo e aliado do imperador Vitélio, a quem passou a servir "sábia e amigavelmente" segundo Plínio. Ele é mencionado por Tácito como tendo sido uma das duas testemunhas presentes nas reuniões entre Vitélio e Tito Flávio Sabino, irmão mais velho de Vespasiano, quando as legiões do oriente estavam marchando rapidamente em direção à capital romana.Tácito, Histórias 3.65 Sílio se tornou procônsul da Ásia entre 77 e 78, como atestam inscrições encontradas em Afrodísias.Calder (1935), pp. 216-217. Segundo Plínio, ele realizou bem as suas funções e conquistou um importante espaço na administração do império.
Retiro na Campânia e suicídio Depois do proconsulado na Ásia, Sílio parece ter deixado a vida pública para gozar de sua fortuna. Apesar de sua riqueza e importância, passou a exercer pouco poder e evitou o quanto pôde entrar em conflitos.Plínio, Epístolas 3.7.4 Por conta disto, conseguiu passar por todo o período flaviano.
Plínio o descreve investindo seu tempo em conversas eruditas em suas villas, escrevendo, colecionando livros e esculturas apaixonadamente e recitando suas obras. Evidências indicam que ele já escrevia a partir de 88.Marcial, Epigramas 4.14. É consenso que "Púnica" foi escrito durante este período.von Albrecht p. 960 n.4 MarcialMarcial, Epigramas 7.63 indica que parte da obra foi publicada em 92 e que Sílio não mais discursava no Senado e nem na corte. O livro 14 tem sido datado, tentativamente, em uma data posterior a 96 com base na forma com que Sílio tratou o imperador Domiciano.MacDermott & Orentzel (1977), pp. 24-34 O poema contém também diversas passagem relativas aos flavianos; Domiciano é elogiado como guerreiro e músico cuja lira era mais doce que a do próprio Orfeu.Punica 3.607-29 e 14.686-88. Além de Domiciano, "Púnica" parece discutir também o imperador Nerva, mas é possível que a referência a ele seja também a Domiciano.MacDermott & Orentzel (1977), pp. 30-31.MacDermott & Orentzel (1977), pp. 29-34
Sílio era considerado uma pessoa muito erudita por seus contemporâneos. O filósofo Epiteto afirmou que ele era o espírito mais filosófico entre os romanos de sua épocaEpiteto, Diss. 3.8.7 e Cornuto, o estoico, retórico e gramático, dedicou a Sílio um comentário sobre a obra de Virgílio.Cornuto, Char. Gramm. 1.125.16-18.
No final da vida, Sílio se mudou permanentemente para suas villas na Campânia e não saiu da cidade nem para a cerimônia de posse de Trajano.Plínio, Epístolas 3.7.5 Ele idolatrava dois grandes romanos do passado, Cícero e Virgílio, e comprou as terras do primeiro em TúsculoMarcial, Epigramas 11.48. e o túmulo do segundo em Neápolis, que ele restaurou.Marcial, Epigramas 11.49. Plínio recorda que Sílio reverenciava especialmente Virgílio, celebrando o aniversário dele de forma mais efusiva do que o seu próximo e tratando o túmulo do poeta como um santuário.Plínio, Epístolas 3.7.8-9.
Sílio foi um dos muitos romanos dos primeiros anos do Império que tiveram a coragem de externalizar suas opiniões e que aperfeiçoaram na prática a teoria do suicídio desenvolvida no estoicismo. Em "Púnica" (11.186-88), Sílio fez um elogio ao suicídio. Atormentado por um tumor incurável e já com mais de 75 anos, Sílio se matou de inanição por volta de 103, mantendo um semblante alegre até o fim segundo Plínio. Ainda segundo ele, Sílio foi a última pessoa a ter sido cônsul na época de Nero a morrer.Plínio, Epístolas 3.7.10.
Família Sílio Itálico teve dois filhos, dos quais um, Severo, morreu jovem. O outro, Lúcio Sílio Deciano, tornou-se cônsul sufecto em 94.Marcial, Epigramas 8.66 A partir de elementos de seu nome, Olli Salomies defende que Tibério Cácio Césio Frontão, cônsul sufecto em 96, provavelmente foi adotado Sílio Itálico. Outra hipótese, menos provável, é que ele era sobrinho de Itálico.Salomies, Adoptive and polyonymous nomenclature in the Roman Empire, (Helsinski: Societas Scientiarum Fenica, 1992), pp. 95f
Púnica Obra É impossível saber se Sílio colocou no papel seus diálogos e discursos. Sua única obra sobrevivente é o poema épico Púnica () sobre a Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), em dezessete volumes e mais de linhas. Trata-se do mais longo poema da literatura latina antiga a chegar aos nossos dias. thumb|direita|upright=1|"Visão de um cavaleiro", de Rafael, uma referência à "Escolha de Cipião" retratada no livro quinze de "Púnica". A data de "Púnica" é um tema complexo para os estudiosos clássicos, mas duas passagens, 3.594 e 14.680ss, juntamente com diversos poemas de Marcial já citados indicam que ela teria sido composta entre 83 e 103, com o livro 3 datado em 84 e o livro 14, por volta de 96.Wistrand (1956), p. ? Os demais livros são impossíveis de serem datados com precisão. O poema todo está dividido em dezessete volumes e foi composto em hexâmetro dactílico. Já foi proposto que o objetivo era que o poema todo fosse dividido em sextetos num total de dezoito livros.von Albrecht, p. 964
Sílio se baseou em Virgílio como inspiração estilística e dramática primária; a partir da abertura, "Púnica" está configurado como uma continuação do rancor de Juno contra Roma desenvolvido na Eneida.von Albrecht, pp. 962ss. Lívio e ÊnioPun. 12.342-419 são importantes fontes para informações históricas e poéticas e Homero especificamente está declarado como um modelo importante por Sílio, que o cita em 12.788-9, "sua [de Homero] poesia abarcava terra, mar, estrelas e sombras e ele rivalizou as Musas em canto e Febo em glória".von Albrecht, p. 962. Lucano foi também um importante modelo para a escrita do épico histórico, os excursos geográficos e o tom estoico, embora a abordagem de Sílio em relação aos deuses seja muito mais tradicional.von Albrecht, p. 984.
Enredo O poema abre com uma discussão sobre a ira de Juno contra Roma por causa do tratamento dispensado por Eneias a Dido e sobre Aníbal e sua criação. Ele ataca Sagunto e recebe uma embaixada romana. No livro dois, os emissários romanos são ouvidos em Cartago, mas Aníbal mesmo assim toma a cidade depois que os defensores heroicamente se suicidam. Aníbal atravessa os Alpes e Júpiter revela que a Guerra Púnica é um teste da masculinidade romana no livro três. Nos dois livros seguintes, os romanos são derrotados em Ticino, Trébia e Lago Trasimeno. O livro seis relembra os feitos de Marco Atílio Régulo na Primeira Guerra Púnica enquanto que o livro sete descreve a estratégia protelatória de Quinto Fábio Máximo Verrugoso. Os próximos três livros descrevem em detalhes vívidos a Batalha de Canas; é Juno quem impede que Aníbal siga direto para Roma depois dela. No livro onze, o exército de Aníbal inverna em Cápua, onde Vênus o enfraquece com luxúria. Aníbal é derrotado em Nola no livro doze, o que encoraja os romanos. Ele tenta tomar a cidade, mas Juno o impede, revelando que os deuses estão contra ele. O livro treze relata a invasão romana em Cápua e a morte de dois Cipiões, o que leva à viagem de Cipião Africano ao mundo subterrâneo ("nekyia"), onde encontra com famosos heróis mortos, e à profecia da Sibila sobre a derrota de Aníbal. No livro seguinte, a vitoriosa campanha siciliana de Marcelo e as armas de cerco de Arquimedes são descritas. No livro quinze, Cipião, escolhendo a Virtude e não o Vício, realiza uma vitoriosa campanha na Hispânia enquanto que na Batalha de Metauro, o irmão de Aníbal é morto. O livro dezesseis descreve a aliança entre Roma e Massinissa e travessia de Cipião até a África. Finalmente, o último livro descreve a viagem da estátua de Cibele até Roma, a tempestuosa travessia de Aníbal de volta para a África, o apelo de Juno a Júpiter pela vida de Aníbal e a Batalha de Zama. O poema termina com o retorno triunfal de Cipião a Roma.
Estilo O estilo de Sílio é diferente de Virgílio, pois ele não foca nuns poucos personagens centrais e divide a ação entre muitos heróis importantes.von Albrecht, p. 965. Isto o encoraja a apresentar eventos importantes do passado romano como uma reflexão sobre os personagens e suas ações no tempo presente do poema, ecoando a tradição romana de utilizar "exemplos" ("exempla"). Enquanto muitos componentes importantes da poesia épica estão presentes, como símiles elaborados, écfrases de objetos (como o escudo de Aníbal em 2.391-456), um "mundo subterrâneo", a participação divina e a profetização de eventos futuros, há também importantes elementos da historiografia, como o contraste pareado de discursos e descrição geográfica detalhada. Alegorias são particularmente importantes em "Púnica" e ele inclui figuras como Fé, no livro dois, "Itália" no quinze, e "Virtude" e "Vício", também no quinze, continuando uma tendência em direção ao alegorismo importante também em Estácio, um contemporâneo de Sílio.Feeney (1991), p. ? A métrica e a linguagem de Sílio podem ser comparadas com as de Virgílio, especialmente o seu uso de espondeus.von Albrecht, p. 967. O estoicismo e o pensamento ético estoico são temas importantes em "Púnica". A guerra é configurada como um julgamento da virtude romana que precisa ser superada através do trabalho duro, uma imagem similar ao ideal estoico de superar uma adversidade inexpugnável com coragem interior e bom juízo.von Albrecht, pp. 967ff. A "escolha de Hércules", uma parábola favorita dos estoicos, aparece na boca de Cipião no livro quinze e, por toda a obra, a guerra apresenta lições morais e discussões sobre conceitos estoicos como emoção, razão e destino.
Influência