Esta é uma lista dos governadores da Gália na República Romana. O termo "governador" é utilizado nesta lista para abranger todos os cargos e funções cujo detentor tinha a responsabilidade de administrar uma determinada área geográfica, incluindo magistrados (cônsul, pretor, ditador) e promagistrados (procônsul, propretor), no caso deste artigo, a Gália Cisalpina (o norte da Itália) e a Gália Transalpina (o sul da França, também incorretamente chamada de Gália Narbonense, um termo posterior e reservado para uma província menor com capital em Narbo)Esta lista se baseia primordialmente em A.L.F. Rivet, Gallia Narbonensis: Southern France in Roman Times (London, 1988), pp. 39–53, e Charles Ebel, Transalpine Gaul: The Emergence of a Roman Province (Brill, 1976); entre outras fontes, E. Badian, “Notes on Provincia Gallia in the Late Republic,” in Mélanges d'archéologie et d'histoire offerts à André Piganiol (Paris, 1966), vol. 2; J.F. Drinkwater, Roman Gaul: The Three Provinces, 58 B.C.–A.D. 260 (Cornell University Press, 1983), pp. 1–34; e Christian Goudineau, César et la Gaule (Paris: Errance, 1990). Informações não citadas nas porções não-tabulares deste artigo representam um consenso entre estes autores.. O termo romano Gallia também era utilizado nesta época para fazer referência à Gália mais ampla, ainda independente do controle romano e que abrangia o resto da França, a Bélgica e partes da Holanda e da Suíça, geralmente chamado de Gália Comata e incluía regiões também conhecidas como Céltica ( em Estrabão e outras fontes gregas), Gália Aquitânia, Gália Bélgica e Armórica. Para os romanos, esta Gália ampla era uma entidade vasta e vagamente definida cuja característica principal eram os seus habitantes, os celtas, definidos, por sua vez, por sua cultura distinta e por suas línguas de origem comum.

O termo latino "provincia" originalmente se referia à tarefa a ser realizada por um oficial ou à região geográfica na qual este oficial tinha a responsabilidade de atuar e autoridade () para fazê-lo. O segundo caso era o padrão, mas entre os exemplos do primeiro estão a Guerra de Pompeu contra os piratas e a Cura annonae, a responsabilidade pelo suprimento de cereais de Roma, duas "provinciae" sem uma fronteira geográfica definida. Um outro ponto importante é que uma "provincia" definida geograficamente nem sempre implicava na anexação deste território ao território da República, como foi o caso do comando de Júlio César sobre a Gália na década de 50. Este tipo de administração provincial ocorria geralmente depois de uma guerra e só depois que a região era pacificada que uma província formal era criada, geralmente para ser governada por um promagistradoJohn Richardson, "The Administration of the Empire," in The Cambridge Ancient History (Cambridge University Press, 1994), vol. 9, pp. 564–565 online et passim, especially p. 580..

Primeiras guerras republicanas contra os gauleses As relações romano-celtas começaram durante um período de expansionismo gaulês para a península Itálica, especialmente com a captura de Roma pelos gauleses sênones em 387 a.C. (ou 390 a.C.) e o suspeito e afortunado resgate da cidade por Marco Fúrio Camilo depois que os romanos já tinham se rendidoOn the manipulation of the story, see J.H.C. Williams, "Myth e History II: The Sack of Rome," in Beyond the Rubicon: Romans e Gauls in Republican Italy (Oxford University Press, 2001), pp. 140–184, limited preview online, p. 141.. Nos duzentos anos seguintes, os gauleses aparecem nas fontes romanas como aliados dos etruscos e samnitas contra Roma e também como invasores. As batalhas ocorriam em território romano e no etrusco, geralmente com a participação das tribos itálicas que mais tarde seria aliadas de Roma ("sócios"), por vontade própria ou obrigadas a lutar. A captura pelos romanos da fortaleza sênone de Senigália, em 283 a.C., levou a um período de quase cinquenta anos de relações pacíficas entre romanos e celtas.

Como os únicos inimigos estrangeiros a terem tomado a cidade de Roma, os gauleses representavam a "ameaça celta" que assombrou a imaginação romana por mais de trezentos anos, especialmente no século IIIBriggs L. Twyman, “Metus gallicus: The Celts e Roman Human Sacrifice,” Ancient History Bulletin 11 (1997) 1–11.. Cícero conseguiu difamar Catilina em 63 a.C. acusando-o de conspirar para derrubar o governo romano em aliança com os gaulesesCícero, In Catilinam 3.4 e 9Williams, Beyond the Rubicon, pp. 92 e 177–179; E.G. Hardy, "The Catilinarian Conspiracy in Its Context: A Re-Study of the Evidence," Journal of Roman Studies 7 (1917), pp. 199–221: (p. 220).. O medo e o temor de uma inferioridade militar engendrada pelos gauleses depois do saque de Roma marcou para sempre a "política externa"The Hellenistic World e the Coming of Rome (University of California Press, 1984), p. 203 online. e na mitologia romana como uma missão sem fim para assegurar uma crescente periferia para proteger a capital. Em sua guerra contra os gauleses e na invasão da Britânia, César, como procônsul, se apresentava como resolvendo uma antiga rixa que os romanos estavam dispostos a levar, literalmente, até o fim do mundoWilliams, Beyond the Rubicon, see P.C.N. Stewart, “Inventing Britain: The Roman Creation e Adaptation of an Image,” Britannia 26 (1995) 1–10 Ralf Urban, Gallia rebellis: Erhebungen in Gallien im Spiegel antiker Zeugnisse (Franz Steiner Verlag, 1999), Historia 129..

Ditadores e a Itália celta A tabela seguinte mostra os primeiros comandantes militares republicanos na guerra contra os gauleses na península Itálica. Estes homens recebiam o imperium como cônsul e pretores, os mais altos cargos eletivos da magistratura romana, e também por ditadores.

{| class="wikitable" !Ano!!Nome!!Cargo!!Nota |- | 390 (ou 387) a.C. | Marco Fúrio Camilo | ditador | Versões contraditórias existem sobre o saque de Roma pelos gauleses; em uma delas, Camilo consegue a vitória no último instante e celebra um triunfo; em outra, o triunfo é bloqueado pelos tribunos da plebeMRR1 p. 95.. |- | 367 a.C. | Marco Fúrio Camilo | ditador | Novamente triunfou sobre os gauleses que haviam chegaram até o rio Ânio, no LácioMRR1 p. 113.. |- | 361 a.C. | Tito Quíncio Peno Capitolino Crispino | ditador | Celebrou um triunfo sobre os gauleses por uma batalha perto do rio Ânio, famosaMRR1 pp. 119–120, nota 3. pelo episódio no qual Tito Mânlio Torquato recebeu seu cognome em combate singularMRR1 p. 119; MRR2 p. 611.. |- | 360 a.C. | Quinto Servílio Aala | ditador | Derrotou as forças gaulesas perto da Porta Colina<ref>Lívio, Ab Urbe Condita 7.11.5–7, 9</ref>MRR1 p. 120..

| 360 a.C. | Caio Petélio Libo Visolo | cônsul | Deu seguimento à vitória de Aala com uma outra em Tibur, que havia se aliado aos gauleses, e celebrou um triunfoLívio, Ab Urbe Condita 7.11.4, 7–9; Acta Triumphalia, Degrassi 68f., 540</ref>Brennan, Praetorship, pp. 39–40 online.. |- | 359 a.C. | Caio Sulpício Pético | ditador | Triunfou sobre os gauleses, que haviam chegado até Preneste e Pedum<ref>Lívio, Ab Urbe Condita 7.12.9–15.8; Acta Triumphalia Degrassi 68f., 540; Frontino, Estratagemas 2.4.5; Apiano, Guerras Celtas 1; Eutrópio 2.5.2; Auctor, De viris illustribus 28; Paulo Orósio 3.6.2MRR1 p. 121.. |- | 349 a.C. | Lúcio Fúrio Camilo | cônsul | Vencedor contra os gauleses no Lácio; nesta ocasião, Marco Valério Corvo recebeu seu cognome ao derrotar um gaulês em combate com a ajuda de um corvoMRR1 p. 129–130.. |- | 332 a.C. | Marco Papírio Crasso | ditador | Nomeado ditador pelo temor de uma invasão gaulesa que não ocorreuLívio, Ab Urbe Condita 8.17.6–7</ref>MRR1 p. 141.. |- | 295 a.C. | Quinto Fábio Máximo Ruliano | cônsul | Co-comandante na Batalha de Sentino contra uma força de samnitas, gauleses e etruscos; com a morte de seu colega cônsul, triunfou com esta vitória<ref>Lívio, Ab Urbe Condita 10.24–30MRR1 p. 177.. |- | 295 a.C. | Públio Décio Mus | cônsul | Co-comandante na Batalha de Sentino contra uma força de samnitas, gauleses e etruscos; realizou o ritual de devotio e sacrificou-se em combateLívio, Ab Urbe Condita 10.26–30</ref>. |- | 283 a.C. | Públio Cornélio Dolabela | cônsul | Lutou contra os sênones e arrasou seu território; destruiu completamente um exército combinado de gauleses e etruscos na Batalha do Lago VadimoDionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas 19.12.2; Floro 1.8.21; Apiano, Guerras Samnitas 6 e Guerras Celtas 11; Dião Cássio, História Romana frg. 38; Eutrópio 2.10; Paulo Orósio 3.22.12–13MRR1 p. 188. |- | 283 a.C. | Cneu Domício Calvino Máximo | cônsul | Derrotou os sênones na Etrúria enquanto Dolabela destruía o território deles; possivelmente celebrou um triunfoApiano, Guerras Celtas 11 |- | 283 a.C. | Lúcio Cecílio Metelo Denter | pretor | Derrotado e morto na Batalha de Arrécio pelos sênonesPolíbio, Histórias 2.19.8; Lívio, Ab Urbe Condita, Periochae 12; Paulo Orósio 3.22.13–14 |- | 283 a.C. | Mânio Cúrio Dentato | pretor sufecto | Sucedeu Cecílio Metelo e expulsou os gauleses; uma colônia foi criada na cidade sênone de Senigália no território recém-ocupado, Campo GálicoPolíbio, Histórias 2.19.9–12 |- | 282 a.C. | Quinto Emílio Papo | cônsul | Derrotou uma força aliada de etruscos e boios no norte da ItáliaPolíbio, Histórias 2.20; Frontino, Estratagemas 1.2.7MRR1 p. 189.

Anexação da Gália Cisalpina

Gália Transalpina O termo latino "Gallia Transalpina" à princípio podia se referir de forma ampla à "Gália do outro lado dos Alpes", mas, depois da conquista costa mediterrânea da Gália na década de 120 a.C., ele passou a especificar a província romana formada a partir do território conquistado ("Provincia nostra", que significa "nossa província"; daí o nome moderno da região, Provence). Como o termo "Transalpina" já tinha um histórico de uso neste sentido mais amplo, a nova província com frequência era chamada de "Narbonense", uma referência à sua capital, Narbo. A criação da província transalpina é geralmente datada na época das vitórias militares de Cneu Domício Enobarbo e Quinto Fábio Máximo Alobrógico sobre os arvernos e alóbroges na década de 120 e da refundação de Narbo como uma colônia romana em 118 a.C.. Evidências são raras, porém, de que a Transalpina tenha sido designada como província nos quinze anos seguintes, quando a Guerra Címbria praticamente obrigou os romanos a tomarem uma ação. É possível que não tenha havido nenhuma administração antes das vitórias de Caio Mário em 101 a.C.. O registro dos promagistrados responsáveis pela Transalpina também é fragmentário até a década de 60, com poucas exceções, como o mandato de Caio Valério Flaco entre 85 e 81 a.C., um dos mais longos conhecidos na região.

Durante o período republicano, a Cisalpina e a Transalpina frequentemente foram governadas em conjunto. Júlio César, por exemplo, recebeu o comando de ambas e, nos seus cinco anos de mandato, ele dividiu seu tempo entre campanhas militares na Transalpina e tarefas administrativas na Cisalpina durante os invernos. Um fator importante na obsessão romana para controlar o sul da Gália inicialmente foi o desejo de assegurar uma rota terrestre segura até a península Ibérica ("Hispânia")Dáithí Ó hÓgáin, "Celtiberia e Cisalpine Gaul," in The Celts: A History (Boydell Press, 2003), pp. 72ff.. A Hispânia Citerior e a Hispânia Ulterior já vinham sendo administradas como províncias desde 197 a.C. como resultado da Segunda Guerra PúnicaAndrew Lintott, Imperium Romanum, p. 6..