A insurreição islâmica em Moçambique é um conflito em curso na província de Cabo Delgado, em Moçambique, entre militantes wahhabitas, que pretendem estabelecer um Estado islâmico em Moçambique, e as forças de segurança moçambicanas. O conflito também inclui ataques a civis. Suspeita-se que grupos de bandidos armados tenham também aproveitado a confusão a seu favor.
O grupo wahhabi autodenomina-se Ansar al-Sunna (ou Ahlu Sunnah Wa-Jamo) - Defensores da Tradição - mesmo nome de um grupo insurgente sunita iraquiano que lutou contra as tropas norte-americanas, entre 2003 e 2007. Por vezes, o próprio grupo também se autodenomina Al-Shabaab, (que em árabe significa «a juventude», sendo que este nome também aparece grafado como Machababo em português moçambicano), apesar de não estar claro se possui ligações com o grupo somali com o mesmo nome e embora haja somalis no norte de Moçambique. Relatos mencionaram que este grupo fundamentalista islâmico é composto principalmente de moçambicanos dos distritos de Mocímboa da Praia, Palma e Macomia, mas também inclui estrangeiros da Tanzânia e da Somália.
Perto da localidade está a ser desenvolvido um projeto de aproveitamento de gás natural pela firma francesa Total. É o maior e mais rico projeto de gás natural liquefeito da África. Estima-se que tenha um valor de 60 mil milhões de dólares (USD), com investimentos de vários países europeus. A população local reclama que viu pouco dessa riqueza ou investimento passar para a comunidade, o que teria motivado o início da insurgência - mais tarde "internacionalizada", ao ganhar apoio do Estado Islâmico.Mozambique: Why IS is so hard to defeat in Mozambique. Por By Frank Gardner. BBC, 31 de março de 2021
Em junho de 2019, também o Estado Islâmico deu a conhecer a sua presença em Moçambique e o seu envolvimento nos combates que têm abalado o norte do país desde o final de 2017. Em 24 de Março de 2020, o Estado Islâmico reivindicou mais um ataque em Mocimboa da Praia, no Norte de Moçambique, localidade que ocuparam por um dia antes de serem expulsos. Os terroristas apoderaram-se de armamento e equipamento, deixando atrás de si um número indeterminado de vítimas.
Segundo um relatório de um grupo de peritos dos orgãos antiterroristas da ONU, desde fins de 2019 que o grupo Ansar al-Sunna pertence ao chamado EIPAC (Estado Islâmico na Província da África Central ,ou IS-CAP, Central Africa Wilayah ou Wilayat Wasat Ifriqiya, uma divisão do Daesh ). Segundo um estado membro da ONU, as operações jihadistas em Moçambique foram planeadas e comandadas pela República Democrática do Congo. Segundo as estatísticas da ONU e das ONG’s, os ataques provocaram até Abril de 2021, 2 689 mortes em, pelo menos, 838 incidentes violentos, o número de pessoas que perderam as suas casas e foram obrigados a fugir está prestes a atingir os 700 mil e mais 1,3 milhões precisa assistência humanitária urgente.
Antecedentes Cabo Delgado, a província mais a norte de Moçambique, é conhecida por alguns como "cabo esquecido". Está a 1 600 km da capital, Maputo.
É a província moçambicana onde a fé muçulmana ganhou mais peso e penetração social. Foi sempre, no entanto, um culto religioso pacífico e natural, que se adaptava à terra mais do que a obrigava a adaptar-se.
O grupo Ansar al-Sunna nasceu de uma seita que tinha atritos com os muçulmanos sufistas locais e ligações a fundamentalistas da África Oriental. Recrutava os jovens frustrados pela pobreza e falta de oportunidades de emprego. Poucos habitantes locais acreditam que a descoberta das enormes quantidades de gás natural ao largo da costa de Cabo Delgado os vá beneficiar, ao contrário das elites dentro e à volta do partido no poder, a Frelimo.
No início, o Estado moçambicano encarou o grupo como bandidos vulgares. O Presidente Filipe Nyusi admitiu entretanto que existe um problema, mas o seu governo está sobrecarregado. Os melhores soldados do país estão a guardar as instalações de gás. Os restantes estão mal treinados, mal pagos e ainda, por vezes, são acusados de abusos dos direitos humanos. A maioria dos soldados não é de Cabo Delgado e não fala as línguas locais.
Principais confrontos
Ataques em Cabo Delgado
Tomada de Mocimboa da Praia
miniatura|250px|esquerda|Cabo Delgado.
No dia 12 de Agosto de 2020, durante a madrugada, os jihadistas capturaram, pela terceira vez, Mocímboa da Praia e o respectivo porto, assim como, segundo algumas fontes, duas instalações militares. Mercenários do grupo de segurança sul-africano Dyck Advisor Group (DAG), que têm apoiado o Governo moçambicano no combate aos jihadistas, não chegaram a tempo de intervir.
As tropas do governo acabaram por retirar após terem ficado sem munições. Uma embarcação militar foi afundada pelos jihadistas. A partir dum pequeno e mal armado bando, os jihadistas revelaram desde este momento um nível superior de organização, estratégia e armamento.
A 20 de Agosto os confrontos em Mocímboa da Praia continuavam e havia um número indeterminado de mortos. A população tem fugido quase toda para Pemba, Palma e a ilha de Ibo.
A 8 de Setembro, os jihadistas capturaram as duas pequenas ilhas de Mecungo e Vamisse. Segundo o site de notícias moçambicano Moz24Horas, alguns dias depois tomaram também o controlo duma importante via de ligação entre Sul e Norte de Cabo Delgado através do distrito de Montepuez.
Nanjaba e Muatide
Em 6 de novembro de 2020, um grupo terrorista ligado ao Estado Islâmico atacou de surpresa a aldeia de Nanjaba na província de Cabo Delgado. Durante o ataque foram feitos disparos contra vários habitantes e incendiadas várias habitações. Duas pessoas foram decapitadas e várias mulheres violadas. Em seguida o mesmo grupo atacou a aldeia de Muatide. Os fugitivos foram reunidos num campo de futebol próximo, tendo aí sido decapitadas mais de 50 pessoas.
A 7 de Janeiro de 2021 o ministro moçambicano da Defesa Nacional, Jaime Neto, afirmou que o apoio que tem sido dado às forças de defesa e segurança por parceiros internacionais (a União Europeia por exemplo) já permitiu a recuperação de várias zonas que tinham sido ocupadas pelos insurgentes em Cabo Delgado, incluindo o porto de Mocímboa da Praia.
Tomada de Palma
Cerca de 24 de Março de 2021, o grupo Ansar al-Sunna se reorganizou e atacou Palma, no norte do país, decapitando várias pessoas e atacando na estrada uma coluna de refugiados. A firma Total evacuou cerca de mil trabalhadores e anunciou a suspensão das suas atividades.https://www.dw.com/en/mozambique-militants-seize-town-total-halts-lng-operations/a-57028784 Milhares de refugiados tomaram o rumo de Pemba. Em 5 de Abril, o governo moçambicano afirmou que havia recuperado Palma, infligindo um "significativo" número de baixas nos rebeldes islamitas. Contudo, combates nos arredores continuaram a serem reportados nos dias seguintes.
Limites à informação Existe uma falta de acesso a informação fiável na região devido à intimidação e perseguição de jornalistas pelo governo e militares.https://www.voaportugues.com/a/liberdade-de-imprensa-passa-por-momentos-tenebrosos-em-mo%C3%A7ambique-dizem-jornalistas/5401370.html?utm_source=perplexity https://www.voaportugues.com/a/mo%C3%A7ambique-ex%C3%A9rcito-mais-perigoso-para-jornalistas-que-insurgentes/5403394.html?utm_source=perplexity A 5 de Janeiro de 2019, as autoridades moçambicanas detiveram ilegalmente o jornalista Amade Abubacar, que tinha relatado a insurreição. Foi alegadamente sujeito a tortura, e só foi libertado sob fiança após 107 dias de detenção.
Em Agosto de 2020, Mocímboa da Praia encontrava-se sem telefones e sem internet. A informação sobre o conflito esteve praticamente ausente dos noticiários televisivos ou jornais portugueses, até que o agravamento da situação a fez entrar em destaque nas notícias.
Ataques a cristãos e papel da Igreja Católica
A Igreja tem visto com preocupação o crescimento do islamismo, o qual vem ganhando um crescente número de pregadores radicais, e sugere que a intolerância religiosa pode tornar-se num problema no país, como já acontece em outras partes da África Oriental. A Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre, que tem obras assistenciais no território de Moçambique, considera que "as perspectivas para a liberdade religiosa são terríveis". Em entrevista ao jornal O São Paulo, da Arquidiocese de São Paulo, o bispo de Pemba, Dom Luís Fernando Lisboa, afirmou: "A nossa Província tem sofrido muito com os ataques de homens armados. Isso começou em outubro de 2017. São ataques a postos policiais e aldeias, que matam pessoas, queimando casas. Temos milhares de pessoas deslocadas dentro da Província que fugiram ou que tiveram suas casas queimadas por causa da violência dentro de suas aldeias. Nosso povo tem sofrido muito com essa violência, que não é generalizada em toda a Província, mas em cinco distritos, onde os missionários também estão presentes, passando por dificuldades, vivendo essa insegurança, o medo junto com o povo. A presença dos missionários é importante para ser esse alívio e ponto de apoio para o nosso povo". Até mesmo a Conferência Episcopal Portuguesa afirmou estar acompanhando de perto a situação do terrorismo na província de Cabo Delgado, e que a Igreja Católica portuguesa apoia "vivamente os esforços do Governo português, da União Europeia e de organizações internacionais, para que, em colaboração com o Governo moçambicano, se possam encontrar meios de auxílio às populações e assegurar condições de paz e segurança na região". O eurodeputado português Paulo Rangel fez um alerta para a "grande invisibilidade e opacidade" do drama que se vive em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, e disse hoje que a Igreja Católica "é a única entidade a aliviar o sofrimento das populações". Ele ainda afirmou: "A Igreja Católica, nomeadamente o bispo de Pemba, será com certeza, um dos grandes interlocutores para canalizar o apoio porque é, na verdade, a única entidade no terreno que tem estado ativamente a tentar, já não digo resolver, mas ao menos aliviar o sofrimento por que estas populações estão a passar e que é realmente atroz".
No norte do país os muçulmanos são maioria, tem havido crescimento do fundamentalismo, principalmente na província de Cabo Delgado. Os fatores atribuídos para o crescimento do radicalismo são a violência, consequência da pobreza, da corrupção e da frustração entre os jovens desfavorecidos, e é alimentada pelos fundamentalistas que entram pelos países vizinhos e por pregadores islâmicos que regressam a Moçambique após estudos de interpretações rígidas do islã em países como o Catar, Egito, Kuwait, Arábia Saudita e África do Sul. Especula-se que o financiamento saudita e catariano do islã radical vise inclusive impedir os avanços de um projeto de exploração de gás natural em Moçambique, já que os dois países estão entre os maiores produtores mundiais, e a exploração representaria uma grande concorrência. Lá os convertidos enfrentam extrema pressão para renunciar à fé. Os que se recusam a retornar ao islã, geralmente enfrentam isolamento da comunidade, e os cristãos em geral enfrentam extrema violência destes grupos islâmicos, são forçados a fugir de suas casas e têm suas igrejas, escolas e empresas saqueadas e destruídas. Em abril de 2020, um grupo jihadista com laços com o Estado Islâmico matou 52 pessoas, incendiou igrejas e instituições e atacou aldeias. Muitos outros cristãos já foram assassinados ao longo dos anos unicamente por conta de sua fé. Dezenas de milhares de pessoas já fugiram do norte do país. O exército moçambicano se retirou de locais estratégicos, o que contribuiu para a expansão dos ataques no último ano. Além disso, os cartéis de drogas em algumas áreas dificulta a vida dos cristãos – especialmente de jovens.