thumb|326px|Litografia holandesa de das ruíndas de Tjandi Sewoe (templo de Sewu), perto de Prambanan
O Reino de Matarão (ou Mataram em várias línguas europeias) ou de Medangue foi um estado do Sudeste Asiático hindu-budista que floresceu entre os séculos VIII e X na ilha de Java (atualmente na Indonésia). Inicialmente esteve centrado em Java Central e mais tarde em Java Oriental. Foi fundado pelo rei e foi governado pela dinastia Sailendra (ver também a secção "Família real").
Durante a maior parte da sua história, aparentemente o reino dependeu fortemente da agricultura, em especial da cultura extensiva de arroz, e no período mais tardio também beneficiou do comércio marítimo. De acordo com fontes estrangeiras e achados arqueológicos, o estado parece ter ter sido bastante populoso e próspero. Desenvolveu uma sociedade complexa e uma cultura avançada, tendo alcançado um elevado nível de sofisticação e uma civilização requintada.
No período entre o final do e meados do , o reino assistiu ao florescimento da arte e arquitetura clássicas javanesa, testemunhada pelo rápido crescimento da construção de templos espalhados pela paisagem do coração do seu território, nas regiões próximas da atual Joguejacarta, nomeadamente nas planícies de (ou Quevu) e de Kedu. Os templos mais notáveis construídos pelo Reino de Matarão são , Sewu, Borobudur e Prambanan. Em 850, o reino tinha-se tornado a potência dominante em Java e mais tarde foi um sério rival do Império Serivijaia.
Historiografia No início do , a descoberta de numerosas ruínas de grandes monumentos em Java Central, em particular na região de Joguejacarta e nas planícies de Kedu e de Quevu, como Borobudur, Sevu e Prambanan, chamou a atenção de alguns historiadores e estudiosos na colónia das Índias Orientais Holandesas, o que levou a que fossem empreendidos estudos arqueológicos para descobrir a história dessa antiga civilização.
Os únicos registos escritos originários de Java contemporâneos do reino que chegaram aos nossos dias são pouco abrangentes e resumem-se a alguns (inscrições) escritos em pedras ou placas de cobre. Estas inscrições geralmente registam os feitos políticos e religiosos dos governantes. O tema mais comum dos prasasti javaneses é o reconhecimento de sima (terras de cultivo de arroz de regadio que pagavam impostos e eram reconhecidas por édito real). Por vezes uma parte dos impostos cobrado dessas terras sima é reservado para o financiamento da construção e manutenção de edifícios religiosos. No entanto, algumas lendas locais e registos históricos escritos em lontar (folha de palmeira), a maior parte deles datados de períodos posteriores, também fornecem alguns dados para a história do reino.
Praticamente todas as fontes estrangeira que mencionam Mdaη (Medangue) não usam os nomes nativos. A única menção estrangeira com o nome de Mdaη a , descoberta nas Filipinas e datada de c. 900.
Obras sobre e crenças javanesas, escritas durante a vigência do Sultanato de Matarão, , mas provavelmente com origem mais antiga, mencionam um reino semilendário chamado , que significa "Reino de Medangue, a origem". Esse reino é mencionado nos mitos de e de . Isso provavelmente reflete os restos dum vaga memória coletiva da existência de um antigo reino chamado Medangue.
O conhecimento atual da civilização javanesa histórica é baseado sobretudo nas seguintes fontes: Escavações arqueológicas, estudo e reconstrução de estruturas antigas, especialmente candis (templos) e antigas relíquias descobertas, como o tesouro de Wonoboyo. Inscrições em pedra (prasasti), que geralmente mencionam a fundação e financiamento de templos, mas que também registam feitos políticos e religiosos dos reis ou a sua linhagem. As mais notáveis são as de (de 732), (778), (856) e (ou Balitung; 907). Baixos-relevos em paredes de templos com representações da vida na corte, aldeias e templos, de navios, mercados e do dia a dia da população. Os mais notáveis encontram-se nos templos de Borobudur e Prambanan. Manuscritos nativos em folha de palmeira (lontar), que falam da história de reis, dos seus feitos e explorações, que por vezes coincidem ou complementam os registos encontrados em prasasti. Um exemplo notável de lontar é o ("Conto de Parahyangan"). Relatos e crónicas de diplomatas estrangeiros, comerciantes e viajantes, encontrados principalmente em fontes chinesas, indianas e árabes.
Etimologia e capitais Inicialmente o reino era identificado apenas pela sua localização, por exemplo Jauadevipa (ou Jauaduipa, nome de Java em sânscrito). A inscrição de Canggal menciona Rakai Mataram Sang Ratu Sanjaya ("Rei Sanjaia, o Senhor de Matarão"). Os primeiros historiadores que estudaram o reino, como , usaram o nome Matarão, uma designação geográfica histórica da planície a sul do monte Merapi, em Java Central. Essa região corresponde aproximadamente ao que são hoje os territórios de Muntilan, na regência de Magelang (onde se situa o templo de Canggal da colina de Gunung Wukir), Joguejacarta e as regências de e de , todas na região especial de Joguejacarta. Essa hipótese de localização é baseada no facto de aí se encontrar um elevado número de candis. A etimologia do nome Matarão deriva do termo sânscrito para "mãe".
thumb|esquerda|upright| (732), exposta no Museu Nacional da Indonésia, Jacarta
O nome Medangue aparece em inscrições de Java Oriental posteriores, como as de (937), (ou Minto, 928), Paradah e outras descobertas em Surabaia. Em resultado disso, os historiadores tendem a identificar o período de Java Oriental do reino pelo nome Medangue, para o diferenciar do período anterior de Java Central . Contudo, uma frase presente na inscrição de Anjukladang — «Kita prasiddha mangrakpa kadatwan rahyang ta i Mdaŋ i Bhûmi Matarâm» — sugere que o nome Mdaŋ (Mdang ou Medang) já era usado durante o período de Java Central. «Mdaŋ i Bhûmi Matarâm» pode traduzir-se literamente como "Medangue na terra de Matarão", o que significa que o nome do reino era Medangue e a sua capital era Matarão.
A etimologia de "Medangue" pode ter origem no nome local de uma árvore de madeira dura, do género botânico Phoebe. Outra hipótese etimológica sugere que pode ter derivado do termo medang do javanês antigo, que significa "aparência graciosa". Também pode estar relacionado com o termo javanês medal, que signfica "sair", e com o termo sundanês midang, que se refere a vestir-se e ter uma aparência graciosa em público.
A corte mudou várias vezes de sítio. Durante o reinado de foi Matarão, durante o reinado de Rakai Pikatan foi Mamrati ou Amrati e durante o reinado de Balitung foi Poh Pitu. Com o rei voltou a ser Bhumi Matarão, no reinado de Mpu Sindok foi Tamwlang e/ou Watugaluh e no reinado de , último monarca do reino, foi Wwatan.
O nome Matarão reapareceu novamente no final do como designação duma província do Império de Majapait. No foi fundado o Sultanato de Matarão, situado na área onde surgiu o antigo reino, isto é, na região de Joguejacarta. Para distinguir o sultanato do reino medieval, os primeiros historiadores chamavam a este reino "Matarão Hindu" ou "Matarão Antigo".
História Formação e expansão thumb|Um dos três templos perwara (complementares) do complexo xivaíta de Gunung Wukir, o mais antigo monumento conhecido do Reino de Matarão, datado de 732
O registo mais antigo do Reino de Medangue Matarão encontra-se na inscrição de Canggal, datada de 732 e descoberta no complexo religioso de Gunung Wukir, junto à aldeia de Canggal, a sudoeste da cidade de Magelang. Esta inscrição, escrita em usando o , fala da construção de um lingga (um símbolo do deus hindu Xiva) num monte da área de Kunjarakunja, situada na ilha nobre chamada Jauaduipa (Java), que era abençoada com abundância de arroz e ouro. A construção do lingga foi ordenada por Racai Matarão Sangue Ratu Sanjaia (Rei Sanjaia Senhor de Matarão). A inscrição refere também que Jauaduipa foi governada pelo rei Sana, cujo longo reinado foi marcado pela sabedoria e virtude. Depois da morte de Sana, o reino caiu na desunião. Seri Sanjaia, o filho de Sannaha (irmã de Sana), ascendeu ao trono e conquistou as área vizinhas do seu reino. O seu reinado sábio trouxe paz e prosperidade para todos os seus súbditos.
Aparentemente Sanjaia chegou ao poder c. 717, o ano inicial da crónica de Sanjaia que se encontra na inscrição do rei Daksa, do início do . Segundo a inscrição de Canggal, Sanjaia fundou um novo reino no sul de Java Central. No entanto, parece que esse reino deu continuidade ao do rei Sana, tio de Sanjaia. Esse reino anterior está ligado aos templos de Dieng, situados no planalto homónimo situado na parte norte de Java Central, que são as edificações mais antigas de Java Central que chegaram aos nossos dias. Esse reino predecessor do de Matarão foi Kalingga, que se situava algures na costa norte de Java Central.
A história de Sana e de Sanjaia também é contada no Carita Parahyangan, um livro dum período mais tardio, composto cerca do final do , que descreve principalmente a história de Pasundan (Reino de Sonda). Nele é relatado que Sana foi derrotado por Purbasora, rei de Galuh, e retirou para o monte Merapi. Mais tarde, Sanjaia reclamou o reino de Sana e governou toda a ilha de Java e o Bali. Também combateu contra o de Sumatra, governado pelo rei Sang Serivijaia. Apesar do manuscrito parecer romanceado, vago e não dar certos detalhes sobre o período, a quase completa coincidência de nomes e do tema da história com a inscrição de Canggal parece confirmar que o manuscrito foi baseado ou inspirado no evento histórico.
Apogeu O período entre os reinados de Panangkaran e de Balitung, que vai de 760 a 910, marca a o apogeu da civilização clássica javanesa. Durante este período, a arte e a arquitetura javanesas floresceram, tendo sido construídos numerosos templos e monumentos majestosos, que dominam as planícies de Kedu e de , onde se destacam os de Sewu, Borobudur e Prambanan. Os Sailendra ficaram conhecidos como grandes construtores de templos.
O rei Sanjaia, era hindu xivaíta, mas o seu sucessor foi budista maaiana. Esta mudança de religião levantou questões problemáticas entre os historiadores, pensando-se que podem ter pertencido a duas famílias reais rivais que dominavam o panorama político de Java Central. Mais recentemente surgiu a teoria de que só existiu uma dinastia — a Sailendra — e que apenas houve uma mudança ou divisão do patrocínio real do hinduísmo ou do budismo.
Panangkaran, o grande construtor thumb|esquerda|Templo budista de , construído durante o reinado de Panangkaran
Panangkaran foi um empreendedor entusiástico, ao qual é atribuída a construção de pelo menos cinco templos, que foram erigidos durante o seu reinado. De acordo com a inscrição de Kalasan, datada de 778 e escrita sânscrito com alfabeto , o foi construído por iniciativa de Guru Sang Raja Sailendravamçatilaka, o mestre dos ornamentos da família Sailendra, que persuadiu Panangkaran (sucessor de Sanjaia) a erigir um edifício sagrado dedicado à deusa (boddhisattvadevi) Tara e fundar uma viara (mosteiro) para monges budistas do reino de Sailendra. Panangkaran também ofereceu a aldeia de Kalaça a uma sanga (comunidade monástica budista). O templo ligado à inscrição é o templo de Kalasan, que tinha uma imagem de Tara. O templo vizinho de também data do mesmo período e provavelmente funcionava como mosteiro.