A Wizard of Earthsea (Brasil: O Feiticeiro de Terramar / Portugal: O Feiticeiro e a Sombra) é um romance de fantasia escrito por Ursula K. Le Guin e publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1968 pela Parnassus Press. Considerado um clássico da literatura infantil e de fantasia, a história se passa no arquipélago ficcional de Terramar e acompanha o jovem feiticeiro Ged, nascido em um pequeno vilarejo na ilha de Gont. Ele demonstra deter grande poder ainda criança e por isso é enviado para uma escola de magia, mas sua natureza irritadiça o faz entrar em conflito com outro estudante. Um feitiço de Ged dá errado durante um duelo e ele libera uma criatura das sombras, com Ged partindo então em uma jornada para se libertar dessa criatura.

A Wizard of Earthsea costuma ser descrito academicamente como um bildungsroman, ou romance de formação, já que explora o processo de Ged para aprender a lidar com o seu poder e aceitar o conceito da morte. O romance também traz temas taoistas sobre um equilíbrio essencial no universo de Terramar, o qual feiticeiros supostamente devem manter, que está intimamente ligado à ideia de que linguagem e nomes possuem o poder de afetar o mundo material e alterar seu equilíbrio. A estrutura da história é similar a de um épico tradicional, embora críticos também descreveram diversas maneiras pelas quais A Wizard of Earthsea subverte este gênero, como trazendo um protagonista de pele escura em contraste com os heróis tipicamente de pele branca.

O romance foi muito bem avaliado pela crítica especializada, inicialmente como um trabalho de literatura infantil e posteriormente como obra destinada para um público geral. Tornou-se um título muito influente dentro do gênero de fantasia, sendo citado como inspiração por autores como Margaret Atwood e David Mitchell. Venceu no ano seguinte de sua publicação o Prêmio Boston Globe–Horn Book e foi um dos últimos recipientes do Prêmio Estante de Lewis Carroll em 1979. Le Guin posteriormente escreveu mais cinco livros se passando no mesmo universo que juntos são chamados de Ciclo Terramar: The Tombs of Atuan em 1971, The Farthest Shore em 1972, Tehanu em 1990, The Other Wind em 2001 e Tales from Earthsea também de 2001.

Antecedentes thumb|esquerda|upright|Le Guin em 1995 Os conceitos iniciais da ambientação de Terramar foram desenvolvidos por Ursula K. Le Guin nos contos "The Word of Unbinding" e "The Rule of Names", ambos publicados em 1964 na revista Fantastic. Estas histórias foram depois publicadas na antologia The Wind's Twelve Quarters em 1975. Terramar também foi usada de ambientação para um conto que a autora escreveu em 1965 ou 1966 e que nunca foi publicado. Herman Schein, editor da Parnassus Press e marido da ilustradora Ruth Robbins, pediu para Le Guin tentar escrever um livro "para crianças mais velhas", lhe concedendo liberdade total sobre o assunto e abordagem. Ela não tinha experiência alguma em literatura infantojuvenil, que tinha crescido em proeminência no final da década de 1960. Le Guin se inspirou em seus contos e começou a trabalhar em A Wizard of Earthsea. Ela afirmou que o livro era parcialmente uma resposta à imagem de feiticeiros como velhos e sábios, além de reflexões sobre de onde eles vem. A autora depois disse que escolheu o gênero de fantasia e o tema da transição à vida adulta tendo um público adolescente em mente.

Os dois contos publicados em 1964 apresentaram o mundo de Terramar e conceitos importantes presentes nele, como o tratamento da magia desenvolvido por Le Guin. "The Rule of Names" também apresentou o personagem Yevaud, um dragão que aparece brevemente em um capítulo de A Wizard of Earthsea. A representação de Terramar foi influenciada pela familiaridade de Le Guin com lendas ameríndias e também com mitologia nórdica. A acadêmica Donna White descreveu que o conhecimento de Le Guin sobre mitos e lendas, além do interesse de sua família em antropologia, lhe permitiu criar "culturas inteiras" para as várias ilhas de Terramar. A influencia da mitologia nórdica pode ser vista particularmente nos personagens kargineses, que são loiros, de olhos azuis e veneram dois deuses que são irmãos. A influência do pensamento taoísta é visível na ideia de um "equilíbrio" cósmico.

Livro

Ambientação

Terramar é um arquipélago cujas ilhas foram levantadas do oceano por um ser chamado Segoy. O mundo é habitado tanto por humanos quanto por dragões, com a maioria dos humanos tendo algum dom mágico inato, com alguns sendo magos ou feiticeiros mais habilidosos. O mundo é mostrado como sendo baseado em um delicado equilíbrio que a maioria dos habitantes desconhece, mas que é abalado por alguém nos três primeiros livros da série. Terramar é uma sociedade pré-industrial e possui culturas diferentes dentro do amplo arquipélago. A maioria dos personagens são de povos hárdicos de pele escura e que povoam a maioria das ilhas. Quatro grandes ilhas orientais são habitadas pelo povo karginês de pele branca, que desprezam a magia e enxergam os hárdicos como feiticeiros malignos. Os kargineses, por sua vez, são considerados um povo bárbaro pelos hárdicos. As terras no Extremo Oeste do arquipélago são consideradas domínio de dragões.

Sumário do enredo thumb|upright|esquerda|alt=Um homem de pele escura de pé com um cajado na popa de um barco à vela, que tem olhos em cada um de seus lados; ele veste um manto. Ondas e céu redemoinham ao redor e acima. Debaixo da ilustração estão as palavras "10 The Open Sea" ("10 O Mar Aberto")|Ilustração de Ruth Robbins para o capítulo10 O romance segue um jovem rapaz chamado Duny, apelidado de Gavião (Sparrowhawk, no original), nascido na ilha de Gont. Ao descobrir que o rapaz possui um grande poder inato, sua tia o ensina o pouco de mágica que conhece. Quando sua vila é atacada por invasores de Karg, Duny conjura uma neblina para esconder a vila e seus habitantes, permitindo-lhes expulsar os Kargs. Ao ter conhecimento disto, o poderoso mago Ogion assume Duny como seu aprendiz, dando a este seu nome verdadeiro: Ged. Ogion tenta instruir Ged acerca do "equilíbrio", a ideia de que a magia pode causar distúrbios na ordem natural do mundo se usada incorretamente. Contudo, numa tentativa de impressionar uma garota, Ged procura o grimório de Ogion e, por descuido, invoca uma sombra estranha, que tem de ser banida por Ogion. Sentindo a impulsividade de Ged e a impaciência deste com seus métodos vagarosos de ensino, Ogion o envia para a renomada escola de magos na ilha de Roke.

Na escola, as habilidades de Ged trazem-lhe a admiração até mesmo dos professores. Ele faz amizade com um estudante mais velho chamado Vetch, mas, via de regra, permanece distante de seus colegas. Outro estudante, Jasper, age desdenhosamente em relação a Ged e provoca a natureza orgulhosa deste. Depois que Jasper provoca Ged durante um festival, Ged o desafia para um duelo de magia. Ged lança um poderoso feitiço para invocar o espírito de uma lendário mulher já falecida, mas o feitiço dá errado e, ao invés disso, ele liberta uma criatura das sombras, que lhe ataca e fere seu rosto. O arquimago Nemmerle expulsa a sombra, mas isto custa-lhe a própria vida.

Ged passa vários meses convalescendo antes de continuar seus estudos. O novo arquimago, Gensher, descreve a sombra como um mal ancião que deseja possuir Ged, e avisa-lhe de que a criatura não possui nome. Eventualmente, Ged recebe seu bastão de mago, e passa a residir nas Noventa Ilhas, fornecendo aos aldeões proteção contra os dragões que apoderaram-se da ilha vizinha de Pendor e lá passaram a morar, mas Ged descobre que ele ainda está sendo perseguido pela sombra. Sabendo que não pode se proteger de ambas ameaças ao mesmo tempo, Ged navega até Pendor e aposta sua vida num palpite acerca do nome verdadeiro do dragão adulto. Quando este palpite se confirma, o dragão lhe oferece o nome da sombra, mas, em lugar disto, Ged faz o dragão prometer que nem ele, nem suas crias, jamais irão ameaçar o arquipélago.

Perseguido pela sombra, Ged foge para Osskill, tendo ouvido falar da pedra de Terrenon. Ele é atacado pela sombra, e quase não consegue escapar, conseguindo chegar à Corte de Terrenon. Serret, a dama do castelo, lhe mostra a pedra, e urge a Ged que fale a ela, afirmando que a pedra pode lhe dar conhecimento e poder infinitos. Percebendo que a pedra guarda um dos Poderes Antigos — seres anciões, poderosos e malévolos — Ged rejeita a proposta. Ele foge e é perseguido pelos lacaios da pedra, mas transforma-se num falcão e escapa.

Ged voa até Ogion em Gont. Diferente de Gensher, Ogion insiste que todas as criaturas possuem um nome e aconselha Ged a confrontar a sombra. Ogion mostra-se correto: quando Ged procura a sombra, ela foge dele. Ged a segue até um pequeno barco à vela; neste momento, ela o atrai até um nevoeiro onde o barco naufraga num arrecife. Ged recupera-se com a ajuda de um casal idoso isolado numa pequena ilha desde quando eram crianças; a mulher dá a Ged parte de um bracelete quebrado como presente. Ged conserta seu barco e continua sua perseguição da criatura até a Estrema Leste. Na ilha de Iffish, ele encontra seu amigo Vetch, que insiste em se juntar a ele. Eles viajam rumo ao leste, muito além das últimas terras conhecidas, antes de, finalmente, encontrarem a sombra. Nomeando-a com seu próprio nome, Ged se funde a ela e diz a Vetch, em júbilo, que está curado e inteiro.

Publicação A Wizard of Earthsea foi publicado pela primeira vez em 1968 pela Parnassus Press em Berkeley, um ano antes de The Left Hand of Darkness, romance de ficção científica de Le Guin que é considerado um divisor de águas. Foi uma conquista pessoal para Le Guin, já que representou sua primeira tentativa de escrever para crianças; anterior a isto, ela havia escrito apenas alguns poucos romances e contos. O livro também foi sua primeira tentativa de escrever fantasia ao invés de ficção científica. A Wizard of Earthsea foi o primeiro dos livros de Le Guin a receber vasta atenção da crítica, e tem sido descrito como seu trabalho mais conhecido, como parte da série Earthsea. O livro teve diversas edições, incluindo uma edição ilustrada da Folio Society lançada em 2015. Também foi traduzido para diversas línguas. Uma edição omnibus com todas as obras da série está planejada para ser lançada em 2018 no 50.° aniversário da publicação de A Wizard of Earthsea.

A princípio, Le Guin planejou que A Wizard of Earthsea seria um romance autônomo, mas decidiu escrever uma continuação depois de considerar os pontos não resolvidos no primeiro livro, e The Tombs of Atuan foi lançado em 1971. The Farthest Shore foi escrito como o terceiro volume depois de posteriores considerações e publicado em 1972. The Tombs of Atuan conta a história da tentativa de Ged de unificar o anel de Erreth Akbe, cuja metade está enterrada nas tumbas de Atuan nas terras de Karg, de onde ele deve roubá-la. Lá, ele conhece a sacerdotisa criança Tenar, na qual se foca o livro. Em The Farthest Shore, Ged, que já se tornou arquimago, tenta combater uma diminuição da magia por toda Terramar, acompanhado por Arren, um jovem príncipe. Os três primeiros livros são vistos como a "trilogia original"; em cada um, Ged é mostrado tentando curar algum desequilíbrio no mundo. Depois destes, vieram Tehanu (1990), Tales from Earthsea (2001) e The Other Wind (2001), os quais são, algumas vezes, referidos como a "segunda trilogia".

Recepção Como literatura infantil