A erupção do Monte Tambora em 1815, entre 5 e 10 de abril daquele ano, foi uma das mais poderosas já registradas. Ela atingiu o nível 7 no Índice de Explosividade Vulcânica (IEV), realizando a maior erupção desde a erupção do lago Taupo no ano Oppenheimer, Clive (2003). "Climatic, environmental and human consequences of the largest known historic eruption: Tambora volcano (Indonesia) 1815". Progress in Physical Geography 27 (2): 230–259. doi:10.1191/0309133303pp379ra Esta erupção é considerada a maior registrada na Terra, detendo o recorde do volume de matéria expelida: ou 180 km³.Newhall, Christopher G.; Self, Steve (1982). "The volcanic explosivity index (VEI): An estimate of explosive magnitude for historical volcanism". Journal of Geophysical Research 87 (C2): 1231–1238. doi:10.1029/JC087iC02p01231Mason, Ben G.; Pyle, David M.; Oppenheimer, Clive (2004). "The size and frequency of the largest explosive eruptions on Earth". Bulletin of Volcanology 66 (8): 735–748. doi:10.1007/s00445-004-0355-9

Foi uma erupção explosiva da chaminé central com fluxos piroclásticos e um colapso da caldeira, causando tsunamis e danos extensos em terras e propriedades. Ela criou um efeito de longo prazo sobre o clima mundial. A erupção cessou em 15 de julho de 1815"Tambora - Eruptive History". Global Volcanism Program. Smithsonian Institution. e a atividade posterior foi registrada em agosto de 1819, consistindo de uma pequena erupção (IEV = 2) com jatos de lava e ruidosos sismos vulcânicos, sendo considerada por alguns com ainda fazendo parte da erupção de 1815. Aproximadamente em 1880 ± 30 anos, Tambora entrou em erupção novamente, mas somente no interior da caldeira. Isto criou pequenos fluxos de lava e a extrusão de um domo de lava. Esta erupção (IEV = 2) criou o cone parasítico Doro Api Toi dentro da caldeira."Tambora Historic Eruptions and Recent Activities" . Vulcanological Survey of Indonesia.

Contexto miniatura|direita|alt=Imagem a cores do vulcão rodeado pelo mar. No centro da imagem, a caldeira circular é nitidamente visível.|Vista de satélite do Tambora no centro da península de Sanggar. O Tambora é um vulcão ativo situado no arco vulcânico das Pequenas Ilhas da Sonda, hoje na Indonésia e à época fazendo parte das Índias Orientais Neerlandesas. O cone vulcânico do Tambora, que culminava a 4300 m de altitude antes da erupção, forma a península de Sanggar, com 60 km de largura, a norte da ilha de Sumbawa.Oppenheimer 2003.

A partir de 1812, o vulcão desperta, após 1000 anos de inatividade e quando os habitantes da região o julgavam extinto. Mostra regularmente sinais de atividade marcados por tremores, erupções menores e projeção de nuvens de cinzas em redor do cume.Stothers 1984.

Cronologia da sequência eruptiva

Primeira erupção: 5 de abril A 5 de abril de 1815 ocorre uma primeira erupção de grande importância, que gera uma pluma vulcânica de 33 km de altura. As explosões do vulcão são ouvidas até Java, nas Celebes e nas Molucas, ou seja, a até 1400 km de distância, onde são confundidas com tiros de canhão. Stamford Raffles, o governador de Java, ilha temporariamente sob domínio britânico, envia tropas terrestres e navios à procura da origem das detonações.Oppenheimer 2003. Durante os dias seguintes, o Tambora permanece num estado de fraca atividade. Os habitantes mantêm-se no local.Stothers 1984.

A 6 de abril de 1815, uma ligeira queda de cinzas faz com que os habitantes de Batávia (hoje Jacarta) compreendam que as detonações ouvidas na véspera, e que motivaram o envio de patrulhas militares, são na realidade de origem vulcânica.Stothers 1984.

Segunda erupção: 10 a 15 de abril miniatura|esquerda|alt=Imagem descrevendo um vulcão de onde não escapa nenhum fluxo de lava, mas apenas gases e cinzas, os quais formam uma coluna elevando-se acima da cratera.|Esquema de uma Erupção pliniana. O paroxismo da erupção começa cinco dias mais tarde, a 10 de abril de 1815. Por volta das 10 horas da manhã, ocorrem explosões acompanhadas por importantes emissões de cinzas. Em apenas três horas, uma pluma de 44 km de altura forma-se sobre o vulcão, num ruído ensurdecedor para os habitantes de Sumbawa.Stothers 1984. Por volta das 19 horas, a atividade do vulcão aumenta ainda mais, seguida, uma hora mais tarde, por uma chuva de pedras-pomes sobre a aldeia de Sanggar, 30 km a leste da cratera. No mesmo momento, rajadas violentas de vento varrem a aldeia, destroem as casas e arrancam as árvores.de Jong Boers 1995. A queda de pedras-pomes dura até às 22 horas. Neste momento, o vulcão é encimado, segundo as testemunhas, por três "colunas de chamas", na realidade três plumas de cinzas vulcânicas ardentes. Pouco depois, as três colunas fundem-se e a montanha não é mais do que uma massa de "fogo líquido". Isto corresponde ao alargamento da chaminé vulcânica devido à importância do caudal eruptivo, e às primeiras fases de formação da caldeira.Stothers 1984.

A pluma acaba por colapsar sob o seu próprio peso, criando várias nuvens ardentes que irrompem por ambos os lados do vulcão e devastam a península de Sanggar, onde já não subsiste qualquer ser vivo. Estes fluxos ardentes espalham-se radialmente em redor do vulcão e propagam-se à superfície do mar até 40 km da cratera. Geram, em reação com a água do mar, explosões freáticas, aumentando o volume de cinzas dispersas na atmosfera, até representarem a principal fonte de cinzas vulcânicas da erupção. In fine, estas explosões provocam um tsunami que se propaga até às ilhas vizinhas, ao longo de várias centenas de quilómetros.Gertisser, R. e Self, S. "The great 1815 eruption of Tambora and future risks from large-scale volcanism". Geology Today, vol. 31, nº 4, 2015, pp. 132–136. O tsunami mede 4 m de altura no sopé do vulcão, 1 a 2 m na costa oriental de Java, e 2 m na costa sul das Molucas.Stothers 1984.

miniatura|direita|alt=Litografia a preto e branco mostrando uma cidade devastada, barcos encalhados e cadáveres. Em segundo plano, um vulcão em processo de explosão.|Ilustração retratando a "erupção do Tomboro em 1821" (sic). Leon Sonrel, 1872. A 11 de abril de 1815, as explosões continuam e são ouvidas até ao Bornéu e Sumatra, a 2000 km do Tambora. Testemunhas descrevem o vulcão como estando em chamas na sua base e coberto de fumo no cume. A umbela eruptiva (nuvem de cinzas formada na atmosfera) começa a estender-se para longe do vulcão, principalmente em direção ao oeste, levada pelos ventos dominantes. Um "odor nitroso" (de Ácido nítrico) é reportado até Java, a oeste, mas não nas Celebes, a norte.Stothers 1984.

A 12 de abril, enquanto a erupção continua, a umbela eruptiva estende-se ao ponto de, 900 km mais a oeste, em Java, enquanto as explosões ainda ecoam, as primeiras luzes do dia só aparecerem às 10 horas da manhã e os pássaros só começarem a cantar por volta das 11 horas. O capitão do Bénarès, navio da Companhia das Índias Orientais que navegava a norte do Estreito de Macáçar, ou seja, a mais de 1000 km a norte do vulcão, descreve uma chuva de cinzas e uma escuridão total ao meio-dia, com a luz do dia regressando apenas no dia seguinte.Corbin 2020, p. 145. Em redor da ilha de Sumbawa, o mar fica coberto de troncos de árvores calcinados e jangadas de pedra-pomes, algumas medindo vários quilómetros de comprimento.Stothers 1984.

A fase principal da erupção cessa a 15 de abril de 1815. A precipitação de cinzas continua até 17 de abril de 1815 após se ter estendido a 1300 km de distância, deixando uma paisagem devastada em toda a região. Explosões menores continuam a ocorrer durante várias semanas e observa-se fumo escapando do cume até ao mês de agosto.Stothers 1984.

Balanço

Dimensão da erupção A erupção do Tambora, do tipo pliniana, teve uma potência que ultrapassou em dez mil vezes a das bombas atómicas de Hiroxima e Nagasaki juntas. Foi durante muito tempo considerada pelos vulcanólogos como a erupção mais violenta dos tempos históricos, à frente da do vulcão da antiga ilha de Santorini, na Grécia, em 1610 a.C., e a do vulcão Taupo, na Nova Zelândia, em 230 d.C.Sigurðsson 2015, p. 10. Estudos científicos na década de 2010 identificaram uma outra erupção histórica, a do Samalas em 1257, outro vulcão indonésio, que estimam ter sido ainda mais forte. Todas estas erupções estão classificadas com o nível 7 na escala VEI de explosividade vulcânica (cujo máximo é 8, mas que nunca foi registado).Oppenheimer 2003.

A melhor estimativa atual do volume de tefra emitido durante a erupção de 1815 é de 41 ± 4 km³ DRE (volume de rocha calculado compensando a porosidade), ou seja, cerca do triplo do volume real – sendo superada apenas pela erupção do Samalas em 1257. Após a expulsão de tanto magma e rocha, o que restava da montanha desmoronou-se sobre si própria para formar uma grande caldeira de 6 km de diâmetro e 1 km de profundidade, o que reduziu a altitude do vulcão em 1400 metros, equivalente a um terço da sua altura original.Corbin 2020, p. 145. A estimativa da quantidade de dióxido de enxofre (SO₂) emitido foi reavaliada para 147 Mt em 2023, um valor bastante superior ao de qualquer outra erupção em tempos históricos, incluindo a do Samalas.

Vítimas humanas A erupção vulcânica em si matou 11 000 pessoas em Sumbawa, principalmente devido às nuvens ardentes. A estas vítimas somam-se as dos tsunamis, da fome que se seguiu quase imediatamente, de envenenamento por águas poluídas e epidemias, que afetaram sobretudo as ilhas de Sumbawa, Bali e Lombok. As estimativas referem ainda 38 000 vítimas suplementares em Sumbawa, entre 44 000 e 100 000 em Lombok e 25 000 em Bali. O total de vítimas na região das Pequenas Ilhas da Sonda é, assim, de pelo menos 117 000 pessoas.Sigurðsson 2015, p. 10. Estes números fazem desta a erupção mais mortífera de todos os tempos.Oppenheimer 2003.

A erupção teve profundas consequências climáticas à escala global. Foi responsável pelo «ano sem verão» de 1816, que provocou fomes na China, na Europa e na América do Norte, causando entre 100 000 e 200 000 vítimas mortaisPostel-Vinay 2022, p. 222. em todo o mundo. A este número, juntam-se ainda as vítimas das epidemias de tifo na Europa (vários milhares), às quais alguns historiadores adicionam também as da primeira pandemia de cólera de 1817-1824, que se julga ter sido desencadeada pelas perturbações climáticas derivadas da erupção (dezenas de milhares de vítimas).Sigurðsson 2015, p. 11.

Consequências Consequências na biodiversidade As consequências na fauna, na flora e nas comunidades humanas são devastadoras. Na península de Sanggar, as nuvens ardentes queimam e soterram tudo, nenhum organismo vivo resiste. A espessura dos depósitos vulcânicos pode atingir 3 m. No resto da ilha de Sumbawa, a espessura dos depósitos de cinzas vulcânicas oscila entre 20 e 50 cm, sufocando a vegetação. Os cientistas estimam que foi necessário cerca de um século para que os ecossistemas se restabelecessem.Sigurðsson 2015, p. 10.

Ainda hoje, o estudo da avifauna presente na península de Sanggar evidencia uma lacuna de biodiversidade em relação ao resto de Sumbawa. Admite-se que as diferentes espécies de aves repovoaram a região por via terrestre a partir de Sumbawa ou atravessando o mar a partir de ilhas vizinhas.

Consequências climáticas: "o ano sem verão"

miniatura|alt=Gráfico mostrando as quantidades de sulfatos, ano a ano, do ano 400 a 2000.|Quantidade de sulfatos de origem vulcânica na atmosfera. O pico do Tambora em 1816 é precedido por uma erupção desconhecida em 1808, certamente no Pacífico sul. Segundo Gao et al., 2017. miniatura|alt=Mapa mostrando as médias de temperatura em vários países da Europa.|Anomalia das médias de temperatura para o verão de 1816 na Europa. Segundo Luterbacher et al., 2004.