João Maria Paulo Varela Gomes (Lisboa, 24 de Maio de 1924 — Lisboa, 26 de Fevereiro de 2018), foi um militar português e um revolucionário português contra o Estado Novo.

Vida Pessoal Filho do segundo casamento de Romano Vital Gomes com Beatriz Varela Gomes.

Casou com Maria Eugénia Varela Gomes, que também se destacou pelos seus esforços contra o governo ditatorial português. O casal teve dois filhos, e duas filhas, Maria Eugénia, conhecida por "Geninha", e Maria da Luz. Em 1998 o casal perdeu um dos filhos, João António, e em abril de 2016 faleceu o outro filho, o escritor Paulo Varela Gomes. No mesmo ano falecerá a mulher de Varela Gomes.

Carreira Militar em Ditadura Entrou para a Escola do Exército em 1943, cursando em Artilharia, arma na qual viria a ser Capitão. Teve uma comissão em Goa (1948) e foi selecionado para o curso de Estado Maior (1956), mas recusou essa carreira. Em 1958, era capitão em Santa Margarida, Constância.

Oposição ao Estado Novo Depois de se ter envolvido ativamente na candidatura de Humberto Delgado (1958), foi castigado ao ser enviado para os Açores durante seis meses.

João Varela Gomes esteve ligado à Conspiração da Sé (1959). Em 1961, juntou-se a outros prestigiados democratas na apresentação de uma candidatura à Assembleia Nacional. Inédito para a um oficial no ativo, pela "forma hábil" como fez o pedido aos seus superiores da hierarquia militar, Varela Gomes foi autorizado a integrar as listas e concorreu por Lisboa.

Nos comícios da campanha eleitoral realizados no distrito de Lisboa, ficou célebre o empolgante discurso de Varela Gomes no Teatro da Trindade: com a coragem e a frontalidade que sempre o caracterizaram, Varela Gomes incentivou os presentes à revolta contra o regime, criando um clima de grande emoção na sala. Segundo o relatório de uma agenda da PIDE, "[Varela Gomes] foi muito ovacionado, com a assistência em pé. Foi de todos os oradores, aquele que mais atacou Sua Excelência o presidente do Conselho e todo o Governo."Louçã, António (2016) Varela Gomes "Que outros triunfem onde nós fomos vencidos" Biografia. Parsifal.

O ano de 1961 tinha sido o de todas as calamidades para a ditadura e de muita esperança para a democracia. Em janeiro o capitão Henrique Galvão sequestrara o navio Santa Maria. O Governo estava isolado; caíram Goa, Damão e Diu; foram lançados panfletos sobre Lisboa, de um avião desviado por Palma Inácio; Daomé ocupou o Forte de S. João Baptista de Ajudá, enclave representativo da presença histórica portuguesa na região. Havia, pois, razões para crer no fim da ditadura Salazarista e numa eventual "insurreição geral".

A Revolta de Beja

Preparativos Varela Gomes não era favorável à decisão de atacar um quartel, mas não seria consultado por Manuel Serra, talvez por isso mesmo. No princípio de Dezembro membros do "comando de ação" dirigem-se a Beja. Vários oposicionistas dirigem-se a Varela Gomes como se ele estando no centro das decisões, mas não estava. Lopes Cardoso propõe-lhe um encontro com José Hipólito dos Santos, ambos do Seara Nova. O irmão deste era tenente no quartel de Beja e assegurava a presença de vários oficiais anti-fascistas, incluindo o capitão mais antigo, Francisco Vasconcelos Pestana, colega de Varela Gomes na Escola do Exército. Essa informação muda o posicionamento de Varela Gomes e entra no planeamento da ação. A componente encontra-se com a componente civil. Varela Gomes, Manuel Serra, Edmundo Pedro, e outros encontram-se numa casa de um familiar de Varela Gomes em Cascais.

A ação Na noite de passagem de ano de 1961 para 1962, o capitão João Varela Gomes avança para Beja para, juntamente com outros companheiros, tomar de assalto o quartel. O assalto que Varela Gomes e Manuel Serra dirigiram tinha na preparação Humberto Delgado, que entrou em Portugal clandestinamente para o comandar, mas ficando em Beja afastado da acção.

Por volta das 2h15m da madrugada o grupo comandado por Varela Gomes entrou no Quartel de Beja, contando com a conivência de três oficiais no interior do quartel, que lhes abriram as portas, anulou primeiro os sentinelas e trancou todos os militares nas casernas após o que se dirigiu ao quarto onde se encontrava o Segundo Comandante Henrique Calapez da Silva Martins. Assim que Henrique Calapez Martins abriu a porta do quarto foi alvejado no tórax, um disparo acidental, na versão dos revoltosos. Ferido, Henrique Calapez ripostou quase em simultâneo, usando uma pistola ‘Savage’, atingindo Varela Gomes no baço. Segue-se uma troca de tiros entre os revoltosos e o Major Henrique Calapez em que Calapez, sozinho, conseguiu dominar a revolta e colocar os golpistas em fuga.

Prisão e julgamento Varela Gomes resistiu a várias cirurgias, sob prisão. A PIDE prendeu o capitão Eugénio de Oliveira e os outros implicados, civis e militares, enquanto era vexada pela fuga bem sucedida do general Humberto Delgado.https://www.rtp.pt/noticias/politica/morreu-varela-gomes-figura-historica-da-resistencia-a-ditadura_n880941

A 2 de janeiro de 1962, o New York Times vai-se referir a Varela Gomes como "Um líder político emergente na esquerda, [...] tinha sido considerado uma das futuras esperanças políticas daqueles que se opunham ao governo do Dr. Salazar."

Expulso do exército e encarcerado, será julgado num tribunal plenário a 29 de Julho de 1964, que davam cobertura ao Estado Novo,. Varela Gomes profere “Levei até à última fronteira da legalidade o meu protesto, pouco me tendo surpreendido ver confirmada a inutilidade de uma oposição leal, a peito descoberto. Nunca um governo desta espécie policial e predatória abandonou o poder a não ser expulso pela força”. Apela desafiadoramente “Que outros triunfem onde nós fomos vencidos”.

Varela Gomes será condenado a 6 anos e Manuel Serra a 10 anos. Esteve encarcerado no Aljube, Caxias e Peniche. Sairia em liberdade condicional em 1968, mas ele e a sua família continuariam sob vigilância da PIDE. Retomaria o seu ativismo político em colaborações com a Comissão Democrática Eleitoral (CDE) em 1973.

Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975

Funções pós-25 de Abril Depois do castigo pelo Estado Novo de expulsão do exército durante pelo menos 10 anos, é reintegrado como Coronel no pós Revolução dos Cravos. Ficou responsável pela Comissão para o Desmantelamento da PIDE e da Legião Portuguesa, mas o seu comportamento demasiado "enérgico" contra os agentes e informadores da violenta instituição, que o havia prendido outrora, levou o general Silvério Marques da Junta de Salvação Nacional a detê-lo em maio de 74. A reação de alguns capitães de Abril (por exemplo, Diniz Almeida) levariam à ordem de sua libertação por Spínola, mas seria saneado do cargo, reflexo das diferentes visões sobre o futuro (o próprio general Silvério tendo sido temporariamente detido pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) no 25 de Abril), e prenunciador das ondas de prisões, a mando do Serviço de Coordenação da Extinção da PIDE/DGS e LP, cujas faltas de corpo de provas e contextualização legal, a par de outros abusos, viriam mais tarde a ser alvo de escrutínio.

Passando a dirigir não oficialmente o Centro de Sociologia Militar da 5ª Divisão, tida como "motor da propaganda revolucionária" e nominalmente chefiada por Vasco Lourenço. Varela Gomes é tido como o "adjunto do chefe”, constrói “uma rede de contactos com comissões de trabalhadores ou com unidades colectivas de produção na zona de intervenção da reforma agrária (…) actividade orientada para os sectores mais dinâmicos da revolução”. A 5ª Divisão, entre outras funções publicaria o autopromocional Boletim Informativo do Movimento das Forças Armadas, contencioso até entre membros da "esquerda moderada" do MFA e do próprio Conselho da Revolução, mais tarde Varela Gomes vindo a acusar a Comissão do MFA de "censura" da publicação. A 5ª Divisão tinha também como funções, coordenando-se com o comando de Otelo de Carvalho (o COPCON), "controlo das linhas hierárquicas" de empresas-chave, apelos diretos ao voto, entre outras.

Ao instalar-se no edifício do Instituto de Altos Estudos da Defesa Nacional (IAEDN), entra rapidamente em conflicto com o Contra-Almirante Laurindo dos Santos, que acusa os novos "colegas de escritório" de "falta de educação". O idoso almirante viria a falecer, e o IAEDN formalmente suspenso.

Pouco após a demissão de Spínola no decorrer do 28 de Setembro, em outubro de 74, é incumbido das celebrações de dia 5. Com operários da Sorefame, toma a iniciativa de substituir o "o insulto que era" o letreiro da Ponte de Salazar (nome oficial durante o Estado Novo de "Ponte sobre o Tejo"), renomeando-a Ponte 25 de Abril, algo pelo que o novo presidente Costa Gomes e até mesmo o primeiro-ministro Vasco Gonçalves (correligionário desde a "Conspiração da Sé"), com a difícil lida sobre uma sociedade altamente polarizada, o iriam admoestar, entendendo que o processo de renomeação deveria ter corrido por canais institucionais.

É pelo Boletim do MFA, à mão de Varela Gomes, que são a 20 de outubro de 1974 tornadas públicas clivagens entre os chamados "gonçalvistas"e a "esquerda moderada" "dos nove", quando nesta publicação se critica abertamente o Ministro de Economia, Emílio Rui Vilar. Primeira de várias oposições políticas feitas pela 5ª Divisão aos mais moderados do MFA.

Cuba, Guerra Fria e o 25 de Novembro de 1975 O 25 de Abril de 1975 apanha-o na ditadura de Cuba, onde lidera uma missão de intercâmbio, durante mais de duas semanas convivendo com Fidel e Raul Castro. Numa cerimónia na embaixada, celebram com o ditador o 25 de Abril. Tal simpatia motiva Carlucci a escrever a Kissinger, alertando para as políticas cubanas agora defendidas por Varela Gomes e outros "militares vermelhos", crendo ter decorrido na missão diplomática "a formação ideológica nas Forças Armadas cubanas e a organização da população para tarefas de defesa da revolução", algo que iria resultar em pressão de averiguação pela embaixada estado-unidense. Desta pressão, e da rejeição do ideário socialista-revolucionário por membros moderados do MFA, resultaria a sua exclusão da Assembleia dos 200.

No contexto securitário e de entrega de poder nas ex-colónias sem garantias democráticas para a minoria étnica portuguesa, as diferenças entre os mais conservadores, ostracizados da política, e a "esquerda militar" no poder tornam-se inconciliáveis. A crença de que, à semelhança de Cuba e de tantos outros países do Bloco Soviético, e com o apoio militar destes, estaria para suceder uma violenta purga política, despoleta a 11 de março de 1975 uma frustrada intentona spinolista. Segue-se-lhe a chamada "Assembleia Selvagem", na qual figura Varela Gomes, um dos impulsionadores das medidas de nacionalizações e ocupações generalizadas que seriam então decididas, e de mais abrangente "saneamento" de indíviduos considerados contra-revolucionários das estruturas milito-governamentais e da indústria. Declara "Não há aqui ninguém que tenha autoridade moral como eu para estar aqui a fazer afirmações deste género e para exigir o castigo dos traidores hoje [...] e, desculpe sr. Presidente da República, incluindo vossa excelência", culpando os golpistas de “alta traição”, numa Assembleia que chegaria a discutir, e por fim rejeitar, fuzilamentos. Ao ser lembrado pelo major Costa Neves que nem o Estado Novo o fuzilara em 62, Varela Gomes concorda com a rejeição dos apelos ao fuzilamento dos golpistas. A intentona e consequente assembleia, cujo cognome muitos chamariam de injusto, marca ainda assim uma nova etapa de polarização que irá levar ao Verão Quente e culminar no 25 de Novembro de 1975.