José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita ( – meados de abril de 1805), também conhecido como Emerico Lobo de Mesquita ou Lobo de Mesquita, foi um compositor, organista, diretor musical e professor brasileiro. Escreveu música sacra para igrejas, irmandades e cerimônias públicas de Minas Gerais colonial, onde trabalhou em Serro, no Arraial do Tejuco, atual Diamantina, e em Vila Rica, atual Ouro Preto. Passou seus últimos anos como organista no Rio de Janeiro.
Mesquita sustentava-se dentro da rede de associações religiosas leigas que financiavam a atividade musical nas cidades mineradoras. Tocava órgão, dirigia cantores e instrumentistas, fornecia música para festas religiosas e cerimônias cívicas e ocupava cargos administrativos em irmandades locais. Entre suas funções estiveram longos períodos de trabalho para ordens terceiras carmelitas no Tejuco, em Vila Rica e no Rio de Janeiro. Os detalhes de seu nascimento, de sua família e de sua formação musical permanecem incertos, mas sua carreira pode ser acompanhada por contratos, pagamentos e manuscritos produzidos desde a década de 1770 até sua morte.
Todas as obras de autoria aceita são sacras e vocais, geralmente escritas para um pequeno coro ou quarteto vocal, com cordas, baixo contínuo e, ocasionalmente, instrumentos de sopro. Incluem missas, música para a Semana Santa, antífonas marianas, ladainhas, salmos, ofícios fúnebres e versões do Te Deum. O cantochão, as vozes solistas e as passagens para o conjunto completo frequentemente se alternam dentro da mesma cerimônia. Entre suas composições mais conhecidas estão a Missa para Quarta-Feira de Cinzas, a Dominica in Palmis, o Tercio, a Salve Regina e o Te Deum em lá menor.
Sua música continuou sendo utilizada após sua morte. Músicos de Minas Gerais seguiram copiando-a e executando-a durante o século XIX, e conjuntos de manuscritos foram incorporados aos arquivos de grupos como a Orquestra Lira Sanjoanense. Francisco Curt Lange levou esse repertório a um público mais amplo de concertos e gravações no século XX, enquanto editores posteriores voltaram aos manuscritos do próprio Mesquita e a outras cópias antigas para preparar edições críticas destinadas a conjuntos menores e historicamente informados. Mesquita é o patrono da cadeira 4 da Academia Brasileira de Música.
Biografia
Origens e incertezas documentais
Os detalhes do nascimento de Lobo de Mesquita permanecem incertos. A data de 12 de outubro de 1746 e Serro como local de nascimento foram publicados pela primeira vez por Geraldo Dutra de Moraes, que também o identificou como filho natural do português José Lobo de Mesquita e de uma mulher escravizada chamada Joaquina Emerenciana. Nenhum registro de batismo ou outro documento contemporâneo foi encontrado para confirmar esse relato. Francisco Curt Lange procurou posteriormente o registro correspondente, sem sucesso, e recomendou cautela, embora a versão de Moraes tenha se difundido amplamente em obras de referência, programas de concerto e gravações.
Um nascimento em algum momento entre 1740 e 1750 é considerado plausível porque Mesquita já dirigia a música de uma cerimônia pública em Serro em 1774. Maria Inês Junqueira Guimarães estimou que um músico a quem se confiava tamanha responsabilidade provavelmente estivesse na casa dos vinte ou trinta anos. Seu trabalho em Serro durante a década de 1770 está solidamente documentado, mas não há provas de que tenha nascido ali.
Sua origem familiar é igualmente difícil de estabelecer. Guimarães considera possível que ele fosse de ascendência mista e que fosse filho de José Lobo de Mesquita e Joaquina Emerenciana. Sérgio Pires considera as evidências insuficientes para determinar sua filiação ou sua condição racial e jurídica. Documentos de sua carreira o chamam de organista, diretor de música e, em um acordo carmelita de 1789, de alferes. Esses títulos fornecem informações sobre seu trabalho e sua posição social, mas não confirmam afirmações de que fosse um pardo forro, nem estabelecem a identidade de seus pais.
Sua formação musical constitui outra questão em aberto. Moraes indicou o padre Manuel da Costa Dantas como seu professor e afirmou que Dantas era mestre de capela da igreja matriz de Serro. Lange não conseguiu confirmar essa função e encontrou Dantas atuando como sacerdote no Tejuco. Manuel de Almeida Silva e Miguel Bernardo Moreira também foram propostos como possíveis professores, embora nenhuma relação entre mestre e aluno tenha sido documentada. Mesquita provavelmente recebeu sua formação em Serro ou no Tejuco, mas os detalhes dessa educação permanecem desconhecidos.
Início da carreira em Serro
Lobo de Mesquita pode ter começado a trabalhar como músico em Serro já em 1765. Maria Eremita de Souza informou a Francisco Curt Lange que seu nome constava de um livro municipal de pagamentos entre os músicos contratados para celebrações reais. Como a anotação em si não foi localizada, 1774 continua sendo a primeira data comprovada de sua carreira.
Em 26 de dezembro de 1774, a câmara de Serro pagou-lhe 37 oitavas de ouro pela direção da música nas celebrações de Corpus Christi. Recebeu outro pagamento por festividades cívicas em outubro de 1776. Tratava-se de trabalhos de direção, o que implicava reunir os cantores e instrumentistas e assumir a responsabilidade pela apresentação.
Suas responsabilidades aumentaram em 1777. Em 25 de agosto, comprometeu-se a fornecer a música para as cerimônias realizadas após a morte de José I de Portugal e para as festividades em comemoração ao casamento de José, Príncipe do Brasil. O contrato oferece o quadro mais claro do início da atuação de Mesquita como diretor musical em Serro.
Outro pagamento da Irmandade do Santíssimo Sacramento identifica um músico apenas como “Joze Joaqm”. Ele recebeu catorze oitavas pela música dos domingos e da Semana Santa. É possível que se tratasse de Lobo de Mesquita, embora o nome abreviado deixe margem para dúvida.
Tejuco e Diamantina, antes de 1783–1798
Lobo de Mesquita mudou-se de Serro para o Arraial do Tejuco, atual Diamantina, em algum momento anterior a 1783. O ano exato é desconhecido. Suas primeiras composições datadas pertencem ao período em torno dessa mudança: a Missa para Quarta-Feira de Cinzas, de 1778, o Regina caeli laetare, de 1779, e a música para o Domingo de Ramos, de 1782.
Em 1783, trabalhava com o padre Manuel de Almeida Silva no órgão encomendado pela Irmandade do Santíssimo Sacramento para a igreja de Santo Antônio. Almeida Silva construiu o instrumento, enquanto Mesquita auxiliou nos trabalhos e tornou-se seu organista regular. Ocupou essa função de 1784 a 1798 e também tocou nas festas da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.
Posteriormente, assumiu outro posto de organista na Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. Os pagamentos começaram em 1787, e um contrato assinado em 1789 confirmou sua nomeação. Permaneceu com os carmelitas até 1795.
Mesquita também participou ativamente das irmandades do Tejuco. Ingressou na Irmandade de Nossa Senhora das Mercês dos Homens Crioulos em 25 de janeiro de 1788. Sua esposa, Tomásia Onofre do Lírio, ingressou em agosto, confirmando que já estavam casados nessa época. Teresa Ferreira, mulher escravizada que fazia parte da casa de Mesquita, entrou na mesma irmandade em 1793 e prestou serviços à confraria.
Em 1789, exerceu a função de juiz de devoção na Irmandade de Nossa Senhora da Saúde. A partir de 1792, ocupou os cargos de escrivão, tesoureiro e juiz na Irmandade de Nossa Senhora do Amparo. Essas funções o inseriam na administração das associações religiosas responsáveis por grande parte do culto e da atividade musical da localidade.
O contrato carmelita de 1789 o chama de alferes, uma patente subalterna da milícia. O título foi por vezes relacionado ao Terço da Infantaria dos Pardos, mas não foi identificada a unidade na qual teria servido.
A maioria das composições datadas de Mesquita pertence aos anos em que viveu no Tejuco. Em 1783, escreveu música para o Sábado Santo e concluiu a obra devocional intitulada Tercio. A Salve Regina veio em 1787. Paralelamente a suas funções nas igrejas, compunha, dirigia conjuntos, ensinava música e tocava em cerimônias realizadas por toda a localidade.
Vila Rica, 1798–1800
Mesquita já vivia em Vila Rica, atual Ouro Preto, em setembro de 1798. Em 1.º de setembro, assinou um contrato com a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. Comprometeu-se a fornecer a música e a contratar os cantores e instrumentistas necessários para suas festas. Pouco mais de duas semanas depois, ele e Tomásia ingressaram na Confraria do Sagrado Coração de Jesus, Maria e José, Senhor dos Matosinhos e São Miguel das Almas.
Seu trabalho em Vila Rica logo se estendeu para além dos carmelitas. Dirigiu a música de um tríduo promovido pela Irmandade do Santíssimo Sacramento em 1798–1799 e das Quarenta Horas realizadas pela instituição no ano seguinte. Em 1799, também aceitou um contrato municipal que abrangia quatro celebrações públicas. Seu Ofício e Missa de Defuntos, datado de 1798, foi escrito próximo ao início de sua permanência na cidade.
Vila Rica possuía uma comunidade movimentada de compositores e diretores musicais. Marcos Coelho Neto, Francisco Gomes da Rocha, Florêncio José Ferreira Coutinho e Jerônimo de Souza Lobo trabalhavam para igrejas, irmandades e cerimônias públicas durante a mesma época. Mesquita ingressou nesse competitivo ambiente musical como organista, compositor e diretor experiente.
Sua função junto aos carmelitas terminou em 1800. Em 15 de outubro, Francisco Gomes da Rocha assumiu o contrato. Mesquita pode ter deixado Vila Rica pouco antes ou pouco depois dessa data, mas nada se sabe sobre o ano seguinte.
Rio de Janeiro e morte, 1801–1805
miniatura|A igreja da Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro, onde Lobo de Mesquita ocupou seu último posto como organista.
Em 16 de dezembro de 1801, Mesquita tornou-se organista da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo no Rio de Janeiro. Suas obrigações eram mais limitadas do que haviam sido em Vila Rica. Em vez de organizar toda a música e os músicos para as celebrações da ordem, foi contratado especificamente para tocar o órgão. A nomeação foi renovada durante os últimos anos de sua vida.
O responsório pascal Cum transisset, escrito por volta de 1803, é a última composição que pode ser datada com segurança. Destinava-se às matinas do Domingo de Páscoa. Nenhuma outra obra sobrevivente pode ser atribuída claramente aos anos que passou no Rio de Janeiro.
Mesquita recebeu seu último pagamento pelos seis meses compreendidos entre novembro de 1804 e abril de 1805. Em 3 de maio, os carmelitas nomearam Vicente Meireles Cordeiro como seu novo organista e registraram que José Joaquim Emerico havia falecido. É provável que tenha morrido no Rio de Janeiro por volta de meados de abril de 1805, embora o dia exato seja desconhecido.
Contexto profissional e social
Patrocínio musical em Minas Gerais colonial
A Coroa portuguesa proibiu que ordens religiosas regulares estabelecessem conventos em Minas Gerais, deixando grande parte do culto organizado da capitania nas mãos de irmandades, confrarias e ordens terceiras leigas. Essas associações recolhiam taxas de ingresso, contribuições anuais e doações; construíam e mantinham capelas; ornamentavam altares; pagavam capelães; e organizavam missas, funerais, procissões e festas de seus padroeiros. Também ofereciam aos membros sepulturas, orações após a morte e, quando os recursos permitiam, auxílio durante doenças ou dificuldades financeiras. As ordens terceiras seguiam regras carmelitas ou franciscanas, mas eram compostas por leigos, e seus requisitos de admissão geralmente eram mais rigorosos que os das irmandades comuns.