Benedito Pinho Leme (Amparo, 4 de setembro de 1942 – São Paulo, 4 de agosto de 2024) mais conhecido como Bené, foi um futebolista brasileiro que atuava como atacante. É o maior artilheiro da história do Paysandu, com fontes variando entre 249 gols,DA COSTA, Ferreira (2013). Bené - O Furacão da Curuzu. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 55-61 252 gols (considerando-se também jogos amistosos) e 254 gols.DA COSTA, Ferreira (2018). BENEDITO PINHO LEME. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, p. 335 Também é o quarto maior artilheiro do clássico Re-Pa, no qual marcou 26 vezes, abaixo dos 28 de Quarenta e Cacetão, dos 30 de Itaguary e dos 47 do recordista Hélio,DA COSTA, Ferreira (2015). Fatos e Personagens do Re-Pa. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 216-220 a quem superou como maior goleador do clube alviceleste.

Bené não possuía técnica refinada, sendo daqueles atacantes impetuosos de estilo rompedor, com chutes potentes e bastante gana, sendo apelidado de "Tanque da Curuzu".DA COSTA, Ferreira (2024). Bené agora forma no ataque de goleadores, com Moreira e Robilota no plano celestial. QUARENTINHA, craque eterno!. Belém: Valmik Câmara, pp. 155-157 Ele é o 23º maior artilheiro por um único clube no Brasil, com seu mínimo de 249 gols pelo Paysandu colocando-o seis gols abaixo dos 255 de Reinaldo pelo Atlético Mineiro, dois abaixo dos 251 de Romário pelo Vasco da Gama e estando à frente dos 245 de Garrincha pelo Botafogo e dos 242 de Tostão pelo Cruzeiro. Foi cinco vezes campeão do campeonato paraense.

Sua dupla com Robilotta foi considerada a melhor da história do "Papão" e do futebol paraense, com ambos somando 319 gols pelo clube e escalados no trio ofensivo do time alviazul dos sonhos eleito por cem votantes em 2010.DA COSTA, Ferreira (2013). Robilota - Arrancou aplausos das duas grandes torcidas. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 255-256 Dez anos depois, em 2020, Bené foi outra vez escalado para o ataque ideal da história do Paysandu, dessa vez em trio com Vandick e Robgol, em eleição promovida pelo canal Fox Sports.

Carreira Início

Bené começou no futebol em jogos de várzea no interior de São Paulo. Ali, foi descoberto pela equipe paranaense do Operário. Ainda como juvenil, chegou ao Vasco da Gama, onde estreou no time principal em 1965. Como vascaíno, realizou algumas partidas que incluíram uma excursão ao México naquele ano. Embora Bené fosse mais assíduo na equipe cruzmaltina de aspirantes, um dos jogos que pôde realizar no estádio do Maracanã foi testemunhado por Abílio Couceiro, então diretor de futebol do Paysandu, que indicou o jovem ao presidente bicolor Giorgio Falangola. O clube paraense já tinha consigo outro futebolista egresso do Vasco, o atacante Robilotta, que aprovou a sugestão de contratação; em outra versão, a própria observação de Abílio teria sido indicada por Robilotta.

Inicialmente, Bené chegou à equipe paraense sob empréstimo, no início da temporada de 1966, por dez mil cruzeiros. O clube vinha de um ano histórico em 1965, marcado pela vitória por 3–0 sobre um Peñarol que se colocava entre os mais fortes times do mundo, façanha que ecoou inclusive no Rio de Janeiro, onde rendeu crônica de Nelson Rodrigues no jornal O Globo, na época.DA COSTA, Ferreira (2002). 1965 - Paysandu 3 x 0 Peñarol. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 70-71 O time também havia sido, de modo fácil, campeão paraense de 1965, com dez vitórias em doze jogos.DA COSTA, Ferreira (2013). 1965 - Paysandu traz Castilho e dá um passeio no certame: É Campeão. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 142-145

No início de 1966, porém, o Paysandu não vinha em boa fase, atravessando uma série de resultados ruins no Re-Pa (derrotas de 3–0 e 3–2) e também no clássico com a Tuna Luso (3–2 e 3–1) em torneio internacional que envolvia também a equipe do Transvaal, da Guiana Neerlandesa. A estreia de Bené veio precisamente na rodada final desse torneio, um novo duelo contra o Remo, que vinha invicto havia 27 partidas. O reforço foi titular. Não chegou a fazer uma grande exibição, sendo inclusive substituído por Luís Zago, mas teve uma estreia auspiciosa: em 25 de março, o Papão venceu a partida por 3–0 - um dos gols, por sinal, foi de Robilotta.DA COSTA, Ferreira (2002). 1966 - Estréias de Bené e Oberdan. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 75-76 Em 31 de março, veio o primeiro gol de Bené como alviceleste, no 3–0 sobre o Transvaal no estádio do Remo.

A partir de sua chegada, o Paysandu engatou doze jogos de invencibilidade. E Bené acumulou gols, marcando em cinco partidas do mês de abril, dentre eles um amistoso interestadual contra o Bahia (3–2), seu primeiro gol no Re-Pa (2–0, em amistoso) e em outro amistoso interestadual, onde marcou dois na vitória por 3–0 sobre o São Cristóvão. Em maio, começou o campeonato paraense daquele ano, que teria um sabor especial de ocorrer no ano em que se celebravam os 350 anos da cidade de Belém,DA COSTA, Ferreira (2002). 1966 - Bicampeão dos 350 Anos de Belém. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 76-77 o que motivou também em paralelo um torneio municipal, vencido de forma invicta pelo clube no mesmo mês.DA COSTA, Ferreira (2002). 1966 - Campeão do Torneio Cidade de Belém. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 77

O Estadual também veio de forma invicta, no embalo do bom funcionamento da dupla Bené, um atacante rompedor, e Robilotta, de estilo mais clássico. Robilotta marcou treze vezes, sendo o artilheiro dos campeões, enquanto Bené fez doze, incluindo o do empate em 1–1 no Re-Pa que assegurou o título do primeiro turno, um de bicicleta no 1–0 no clássico com a Tuna e o segundo em vitória por 3–1 sobre o Remo, em pleno estádio rival, na rodada final do terceiro turno - o Papão já havia ganho também o segundo turno e assim confirmou o título.DA COSTA, Ferreira (2013). 1966 - Paysandu forma a dupla Bené-Robilotta e conquista o título invicto. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 146-148

Em paralelo ao campeonato, Bené também marcou o único gol de amistoso em junho contra o America; acumulou quatro nos duelos contra o Rio Negro pela Taça Brasil de 1966 (dois em 6–0, na Curuzu, e outros dois em 3–0 em Manaus), em julho; e marcou os dois gols do 2–0 em Re-Pa amistoso em agosto, "estragando" uma homenagem promovida pelo rival ao astro Nilton Santos, que na ocasião vestiu a camisa azulina. Essa atuação fez o jornal A Província do Pará relatar que "Bené é realmente um perigo. Um descuido do grande Nilton Santos e o colored marcou espetacularmente". Ao fim da temporada, o Paysandu havia marcado 146 vezes, 37 delas diretamente por Bené. No fim do ano, curiosamente, atuou por um combinado Remo-Paysandu, pelo qual marcou o gol paraense em empate em 1–1 com um combinado Ceará-Fortaleza, clubes que visitavam Belém - e ambos previamente derrotados cada um por 2–1 pelo "Papão", com Bené marcando também nessas partidas.

Gols internacionais thumb|right|400px|Segundo agachado no Paysandu campeão de 1966. Em pé, técnico Juan Álvarez, Valtinho, Edmar, Abel, Oberdan, João Tavares, Paulinho e médico Rodolfo Tourinho; agachados, Quarentinha, Bené, Robilotta, Tito, Garcia e massagista Carnaval.

Em 1967, o clube realizou em fevereiro um amistoso contra o Bangu, que havia acabado de ser, em dezembro, o campeão carioca de 1966, após vitória de 3–0 sobre o Flamengo. O amistoso ficou no empate em 1–1 e o gol paraense foi de Bené. Depois, excursionou de forma invicta pelas Guianas e pelo Caribe, chegando a ganhar duas vezes da seleção de Trinidad e Tobago (2–1, com dois gols de Bené e 1–0). Bené foi o artilheiro da turnê, com oito gols em meio às oito partidas da gira.DA COSTA, Ferreira (2002). 1967 - Excursão invicta ao Exterior. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 78 E conquistou novo título estadual de forma das mais lembradas, após seis Re-Pas seguidos em um espaço de 26 dias: o segundo turno terminou empatado entre os dois rivais, forçando jogo-extras. O primeiro terminou empatado e o segundo foi vencido pelo Remo. Como os alvicelestes haviam vencido o primeiro turno, fez-se necessário mais jogos. Os dois primeiros terminaram empatados, com a vitória bicolor por 2–0 no terceiro enfim finalizando o campeonato.DA COSTA, Ferreira (2002). 1967 - Tricampeão de Futebol Profissional. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 78-79

A disputa acirradíssima do torneio de 1967 também se deu em contratações de treinadores: o ex-goleiro Castilho agora treinava o Paysandu enquanto o Remo era treinado por outro ex-craque, Zizinho. Na campanha, Bené marcou quatro vezes em vitória por 10–1, no Avante. Ao todo, marcou treze vezes, incluindo em vitória por 2–0 em clássico com a Tuna e em empate em 1–1 em um dos Re-Pas.DA COSTA, Ferreira (2013). 1967 - Paysandu levanta o tricampeonato, após 5 clássicos Re-Pa emocionantes. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 149-152 Aquele foi precisamente o ano que mais teve Re-Pas, dezessete, em média um a cada vinte dias. Em paralelo, Bené destacou-se em especial por três gols em vitória por 4–3 sobre o Moto Club dentro de São Luís do Maranhão pela Taça Brasil de 1967. Em 17 de dezembro daquele ano, Bené foi considerado o segundo jogador mais querido no Pará, em eleição promovida pela Rádio Clube: recebeu 142.611 votos, abaixo somente dos 165.380 do colega Quarentinha.DA COSTA, Ferreira (2024). Em 1967, Quarentinha foi eleito o jogador mais querido do Pará, com 165.380 votos - Bené ficou em segundo lugar. QUARENTINHA, craque eterno!. Belém: Valmik Câmara, p. 81

Em 1968, Bené e o Paysandu destacaram-se sobretudo pela vitória de 1–0, no estádio da Curuzu, sobre a seleção romena, uma das mais fortes da Europa na época e que se classificaria à Copa do Mundo FIFA de 1970.DA COSTA, Ferreira (2002). 1968 - Seleção da Romênia provou do veneno: 1 x 0. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 80 Os romenos vinham colhendo bons resultados em excursão pelo Brasil, empatando em 1–1 com o Grêmio em Porto Alegre, empatando com dez homens contra o então hexacampeão gaúcho; também em 1–1, com um elenco do Athletico Paranaense reforçado para a ocasião com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Garrincha e Pepe; ganharam de 1–0 do América-SP, de 6–2 do XV de Piracicaba, de 3-2 do Bahia, de 2–1 do Treze, de 3–0 do Santa Cruz e de 4–1 do ABC, com poucas derrotas até então: 3–2 para o Sport Recife, 2-1 para o Grêmio Maringá e 6–2 para o Botafogo-SP,Romenos chegam com saldo (bom) de vitórias (10 fev 1968). A Província do Pará, p. 16 que inaugurava seu estádio.Romenos inauguram campo (20 jan 1968). Jornal dos Sports, p. 6

O jornal A Província noticiou que os romenos foram escalados ainda no avião, com a seguinte formação: Stere Adamache, Mihai Ivăncescu, Ion Barbu, Mihai Mocanu, Vasile Gergely, Dan Coe, Ion Pârcălab, Gheorghe Grozea, Ion Ionescu, Octavian Dincuță e Ion Oblemenco, treinados por Angelo Niculescu e Ștefan Onisie.Chegou a seleção romena sem saber ainda seu adversário em Pernambuco (2 fev 1968). Diario de Pernambuco, p. 10 O Paysandu jogou com Arlindo, Waltinho, Abel, João Tavares, Paulo Tavares, Tamilton e Quarentinha; Vila (Garcia), Bené, Hélio Cruz e Ércio (Baíbe), treinados por Gentil Cardoso.DA COSTA, Ferreira (2018). 1968 - VITÓRIA MAIÚSCULA: PSC 1 X ROMÊNIA 0. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, p. 335 Foi de Bené o único gol da partida, em cabeceio, aos 17 minutos do primeiro tempo. Por ocasião dos cinquenta anos do feito, em 2018, o Paysandu lançou camisa retrô em homenagem ao atacante, reproduzindo o mesmo desenho do uniforme utilizado naquela partida - uma camisa branca com duas finas listras horizontais azuis no tórax. Foi o primeiro modelo retrô lançado pela Lobo, marca de material esportivo criada em 2016 pelo próprio clube.