Shirley Hardie Jackson (São Francisco, 14 de dezembro de 1916 – North Bennington, 8 de agosto de 1965) foi uma escritora norte-americana, conhecida principalmente por suas obras de horror e mistério. Durante suas duas décadas de carreira, ela escreveu seis romances, dois livros de memórias e vários contos.

Mesmo tendo nascido em São Francisco, na Califórnia, Jackson estudou na Universidade de Syracuse, em Nova Iorque, onde se envolveu com a revista literária da universidade e conheceu seu futuro marido, Stanley Edgar Hyman. Depois do casal ter fixado residência em North Bennington, no estado de Vermont, em 1940, Hyman estabeleceu uma carreira como crítico literário e Jackson começou a escrever.

Depois de publicar seu romance de estreia, The Road Through the Wall (1948), um relato semi-autobiográfico de sua infância na Califórnia, Jackson atrairia a atenção do público por seu conto "The Lottery," que detalha um submundo secreto e sinistro de um bucólico povoado americano. Ela continuaria a publicar vários contos em periódicos literários e revistas ao longo dos anos 1950, alguns dos quais foram reunidos e relançados em seu livro de memórias Life Among the Savages (1953). Em 1959, ela publicou The Haunting of Hill House, um romance de horror sobrenatural amplamente considerado uma das melhores histórias de fantasma já escritas.

Uma mulher reclusa, Jackson permaneceu em North Bennington durantes os últimos anos de sua vida, e era avessa a discutir sua obra com o público. Nos anos 1960, sua saúde começou a deteriorar significativamente como resultado de seu aumento de peso e consumo de cigarros, levando, eventualmente, a sua morte por insuficiência cardíaca em 1965 aos 48 anos. Jackson foi citada como uma influência por uma variedade de autores, incluindo Neil Gaiman, Stephen King, Sarah Waters, Nigel Kneale, Joanne Harris e Richard Matheson.

Vida e carreira Juventude Jackson nasceu em 14 de dezembro de 1916 em São Francisco, filha de Leslie e Geraldine Jackson. Ela tinha ancestrais ingleses, e Geraldine, sua mãe, era capaz de traçar a linhagem da família até Nathanael Greene, general herói da guerra de independência dos Estados Unidos. O avô materno de Jackson, John Stephenson, havia sido um eminente advogado em São Francisco — mais tarde, juiz da suprema corte do Alaska — enquanto que seu trisavô foi Samuel Bugbee, um arquiteto que projetou diversas casas para a elite de São Francisco.

Jackson foi criada em Burlingame, um subúrbio afluente de classé média de São Francisco, onde sua família residia numa casa de dois andares localizada na rua Forest View, 1609. Sua relação com a mãe era tensa: seus pais haviam se casado jovens e Geradline havia se desapontado quando, imediatamente, ficara grávida de Shirley, pois estava ansiosa por "passar um tempo com seu elegante marido". Jackson tinha, com frequência, dificuldade em se enturmar com outras crianças e passava a maior parte de seu tempo escrevendo, para a aflição de sua mãe. Quando adolescente, seu peso flutuava, resultando numa falta de confiança com a qual contenderia ao longo de sua vida.

Ela estudou na Burlingame High School, onde tocou violino na orquestra da escola. Durante seu último ano do ensino médio, a família de Jackson se mudou para Rochester. Depois da mudança, ela estudou na Brighton High School, recebendo seu diploma em 1934. Depois, ela estudou na Universidade de Rochester, onde seus pais sentiram que poderiam supervisionar seus estudos. Jackson estava insatisfeita com suas aulas lá, e deu uma pausa de um ano de seus estudos antes de se transferir para a Universidade de Syracuse, onde floresceu tanto creativa quanto socialmente. Durante seus estudos em Syracuse, Jackson se envolveu com a revista literária do campus, através da qual ela conheceu seu futuro marido, Stanley Edgar Hyman, que se tornaria um célebre critico literário. Neste mesmo período, a revista literária da universidade publicou o primeiro conto de Jackson, "Janice", sobre a tentativa de suicídio de uma adolescecente.

Depois de se formarem, Jackson e Hyman casaram-se em 1940, e residiram por pouco tempo nas cidades de Nova Iorque e de Westport, eventualmente se estabelecendo em North Bennington, onde Hyman havia sido contratado como instrutor da Bennington College. Jackson começou a escrever, enquanto Hyman se estabeleceu como crítico literário. Ambos eram conhecidos por serem anfitriões interessantes e generosos, que se rodeavam de talentos literários, incluindo Ralph Ellison. Também eram leitores ávidos, cuja biblioteca pessoal foi estimada em mais de 100 mil livros. Eles tiveram quatro filhos: Laurence (Laurie), Joanne (Jannie), Sarah (Sally) e Barry, os quais alcançariam seu tipo particular de fama literária: como versões ficcionalizadas de si mesmos nos contos de sua mãe.

De acordo com os biógrafos de Jackson, seu casamento foi contaminado pelas infidelidades de Hyman, notadamente com suas estudantes, e ela assentiu, relutantemente, a sua proposição de manter uma relação aberta. Hyman também controlava as finanças do casal (distribuindo à autora porções do salário da própria da maneira que bem entendia), apesar do fato de que, após o sucesso de "The Lottery" e de suas obras posteriores, Jackson ganhava muito mais do que ele.

"The Lottery" e primeiras publicações Em 1948, Jackson publicou seu romance de estreia: The Road Through the Wall, que traz um relato semi-autobiográfico de sua infância em Burlingame, na Califórnia nos anos 1920. O conto mais famoso de Jackson, "The Lottery", publicado pela primeira vez no New Yorker em 26 de junho de 1948, firmou sua reputação como mestre de histórias de horror."Shirley Jackson." Contemporary Authors Online. Detroit: Gale, 2016. Acessado via o banco de dados Biography in Context, 24 de outubro de 2016. "The Haunting of Hill House se tornou uma das mais respeitadas histórias de casa mal-assombrada." O conto suscitou mais de 300 cartas de leitores, muitos deles indignados com a evocação de um aspecto sombrio da natureza humana, caracterizada, como colocou a autora, por "confusão, especulação e abuso antiquado." Na edição de 22 de julho de 1948 do San Francisco Chronicle, Jackson oferece a seguinte resposta às persistentes questões de seus leitores sobre suas intenções: "explicar o que eu esperava que a história dissesse é muito difícil. Acredito que, ao ambientar um ritual antigo e especialmente brutal no presente e em meu próprio povoado, esperava chocar os leitores com uma dramatização explícita de uma violência sem sentido e uma desumanidade em suas próprias vidas."

A recepção crítica ao conto foi incontestavelmente positiva; a história rapidamente se tornou um clássico em antologias e foi adaptada para a televisão em 1952."Shirley Hardie Jackson." Dictionary of American Biography. New York: Charles Scribner's Sons, 1981. Acessoda via banco de dados Biography in Context, 24 de outubro de 2016. Em 1949, "The Lottery" foi publicado numa coletânea de contos de Jackson intitulada The Lottery and Other Stories.

O segundo romance de Jackson, Hangsaman (1951), continha elementos similares ao misterioso e verdadeiro desaparecimento da segundanista Paula Jean Welden, de 18 anos, em 1.º de dezembro de 1946. Este evento, que continua não solucionado até hoje, aconteceu nas matas florestadas da Montanha Glastenbury perto de Bennington, no sul de Vermont, onde Jackson e sua família viviam na época. A faculdade ficcional retratada em Hangsaman é baseado, em parte, nas experiências de Jackson na Bennington College, como indicado pelos papéis da autora na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. O evento também serviu de inspiração para seu conto "The Missing Girl" (publicado pela primeira vez na revista The Magazine of Fantasy & Science Fiction, em 1957, e postumamente em Just an Ordinary Day (1995)).

No ano seguinte, ela publicou Life Among the Savages, uma coletânea de contos semi-autobiográficos baseada em sua própria vida com seus quatro filhos. Muitos dos contos haviam sido anteriormente publicados em revistas como Good Housekeeping, Woman's Day e Collier's. Estas histórias são versões semi-ficcionalizadas de seu casamento e de sua experiência criando quatro filhos: são "histórias realistas de donas de casa engraçadas" do tipo popularizado posteriormente por escritoras como Jean Kerr e Erma Bombeck durantes os anos 1950 e 1960.

Relutante em discutir sua obra com o público, Jackson escreveu no livro Twentieth Century Authors (1955):

The Haunting of Hill House e outros trabalhos Em 1954, Jackson publicou The Bird's Nest, que conta a história de uma mulher com múltiplas personalidades e a relação desta com seu psiquiatra. Um dos editores de Jackson, Roger Strauss, considerou The Bird's Nest como "um romance perfeito", mas a editora comercializou-o como uma história de horror psicológico, o que desagradou a autora. Seu romance seguinte, The Sundial, foi publicado quatro anos depois, e dizia respeito a uma jovem que se torna vítima de sua sogra tirânica. Jackson publicou, em seguida, dois livros de memórias.

O quinto romance de Jackson, The Haunting of Hill House (1959), segue um grupo de indivíduos que participam de um estudo paranormal de uma mansão supostamente mal-assombrada. O romance, que intercala fenômenos sobrenaturais com psicologia, tornou-se um exemplo respeitado pela crítica de história de casa mal-assombrada, e foi descrito por Stephen King como um dos mais importantes romances de horror do século XX. Também em 1959, Jackson publicou o musical infantil The Bad Children, baseado no conto de fadas Hänsel und Gretel.

Deterioração da saúde e morte Na época que foi publicado, Jackson estava sofrendo de com diversos problemas de saúde: estava com sobrepeso e fumando compulsivamente, o que resultou em dores, exaustão e episódios de desmaio, atribuídos a um problema no coração. Perto do fim de sua vida, Jackson também estava se consultando com um psiquiatra para tratar sua ansiedade grave, que a havia mantido presa em casa durante longos períodos de tempo. Para atenuar sua agorafobia, o médico receitou barbitúricos, na época considerada uma droga segura e inofensiva.

Anteriormente, por muitos anos, ela também tinha receitas médicas periódicas para anfetaminas para perda de peso, que podem ter, inadvertidamente agravado sua ansiedade, levando-a a um ciclo de abuso de medicamentos controlados, usando uma medicação para neutralizar o efeito da outra. Qualquer destes fatores ou uma combinação de todos eles podem ter contribuído para a deterioração da saúde da autora. Jackson confidenciou a seus amigos que se sentia tratada de maneira condescendente no seu papel de "faculty wife" (esposa dona de casa com marido professor de universidade) e condenada ao ostracismo pela população de North Bennignton. Sua aversão a esta situação levou a um crescente abuso de álcool, tranquilizantes e anfetaminas.

Apesar de sua saúde debilitada, Jackson continuou a escrever e publicar várias obras nos anos 1960, incluindo seu último romance, We Have Always Lived in the Castle (1962), um mistério gótico. O romance foi citado pela revista Time como um dos "Dez Melhores Romances" de 1962. No ano seguinte, ela publicou Nine Magic Wishes, um romance infantil ilustrado sobre uma criança que encontra um mágico que lhe concede inúmeros desejos encantados.

Em 1965, Jackson morreu de insuficiência cardíaca durante o sono, em sua casa em North Bennington aos 48 anos. Conforme sua vontade, seu corpo foi creamado.

Publicações póstumas Em 1968, o marido de Jackson lançou um volume póstumo de sua obra, Come Along with Me, contendo seu último romance inacabado, assim como 14 contos até então não publicados em coletâneas (entre estes, "Louisa, Please Come Home") e três palestras que a autora deu em faculdades ou conferências de escritores em seus últimos anos.