Quilombo urbano é uma designação contemporânea para comunidades negras situadas em áreas urbanas que se organizam com base na ancestralidade africana, resistência histórica e práticas coletivas1HENGLER, Claudia Irene de Oliveira; SALVADOR, Marlene Alves. Quilombos urbanos: a resistência cultural negra nas favelas de São Paulo. Educação em foco / UNISEPE – União das Instituições de Serviços, Ensino e Pesquisa. - - Amparo: UNISEPE, 2014. P. 74.. Embora o termo “quilombo” remeta originalmente aos espaços rurais de refúgio de negros escravizados, a noção de quilombo urbano reconhece a continuidade dessas formas de resistência nos centros urbanos brasileiros, especialmente após a abolição formal da escravidãoOliveira ,A. G. de & Lima, J. S. (s.d.). Região e regionalidade na educação escolar quilombola. UNEB..
Histórico Os quilombos urbanos começaram a proliferar no fim do século XIX, em cidades como São Paulo, Santos, Rio de Janeiro e Salvador, onde era grande o número de escravos fugitivos, muitos deles vindos das zonas rurais. A vegetação de mata atlântica na periferia dessas cidades ajudava a manter abrigos e esconderijos. Em geral eram pequenos povoados, formados por casas de pau-a-pique, rodeadas pelas roças de milho e mandioca e pelas criações de de cabras, galinhas e porcos. Muitos dos seus moradores, porém, trabalhavam nos mercados e portos da cidade.
A Constituição Federal de 1988 reconheceu o direito à terra das comunidades remanescentes de quilombos, ampliando a visibilidade também às formações urbanas.
Depois da Lei Áurea, os redutos de fugitivos se tornaram territórios de preservação da cultura negra. Ali eram mantidas tradições herdadas dos africanos, como a capoeira, o batuque e o culto aos orixás, proibidos ou mal vistos pela sociedadeQuilombos urbanos. Geledés, 25 de outubro de 2009.
Características Quilombos urbanos compartilham diversos traços comuns:
Organização comunitária autônoma, frequentemente com práticas de autogestão. Preservação de saberes e culturas afro-brasileiras, como a capoeira, a religiosidade de matriz africana, a oralidade e festas populares.Oliveira, A. G. de & Lima, J. S. (s.d.). Região e regionalidade na educação escolar quilombola. UNEB. Resistência sociopolítica frente a violações de direitos, ameaças de despejo e racismo estrutural. Busca pelo reconhecimento jurídico como comunidades quilombolas para garantir acesso a políticas públicas.
Reconhecimento O direito das populações quilombolas à propriedade da terra, reconhecido a partir da Constituição Brasileira de 1988, levou a uma luta pelo reconhecimento dos quilombos urbanosQuilombos urbanos no Brasil: desafios e expectativas . Ciranda, 15 de março de 2007. O primeiro a ser demarcado pelo Incra foi o Quilombo da Família Silva, em Porto Alegre, que recebeu a titulação em 2009O primeiro quilombo urbano reconhecido no Brasil. Um paradigma. Entrevista especial com Onir de Araújo. IHU, 9 de outubro de 2009. O segundo foi o Barranco de São Benedito, em Manaus, em 2014Luta e superação marcam história do Quilombo de São Benedito em Manaus. G1, 17 de outubro de 2017. Também foram reconhecidos pela Fundação Palmares quilombos urbanos no Rio de JaneiroQuilombos urbanos, focos de resistência no Rio de Janeiro. Carta Capital, 30 de janeiro de 2018 e em Aparecida de GoiâniaMUNIZ, Mário Braz Manzi. Reencontro de trajetórias: A constituição da territorialidade no Quilombo Urbano do Jardim Cascata. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Ciências Sociais (FCS), Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Goiânia, 2016, em São Luís, entre outras cidades
Exemplos de Quilombros pelo Brasil
Quilombo da Bananeira (Jacobina -BA) Segundo Edvânio Almeida (2021), essa comunidade preserva tradições como o Terno de Reis, práticas de terreiros e danças afro, sendo um exemplo de resistência cultural no semiárido baiano.
Quilombo do Quingoma (Lauro de Freitas -BA) Localizado em área de preservação ambiental, o Quingoma articula processos de formação tecnológica e pedagógica para fortalecer a identidade quilombola. A comunidade é um exemplo de enfrentamento aos desafios urbanos sem perder vínculos com tradições e ancestralidade.
Importante território negro urbano, cujas memórias e saberes tradicionais têm sido transmitidos inclusive por narrativas infantis, conforme pesquisa publicada na revista Encantar
Educação e Cultura Pode-se destacar a integração entre escola e comunidade quilombola, promovendo uma educação contextualizada que valorize os saberes locais e o protagonismo negro.
Outras pesquisas apontam para a importância de práticas educativas baseadas na história local, no território e na valorização da oralidade e da memória coletiva
Apesar dos avanços legais, muitas comunidades ainda enfrentam dificuldades no reconhecimento oficial e na titulação de suas terras. O processo é marcado por disputas fundiárias, violência urbana, gentrificação e invisibilidade institucional.
Ver também Lista de comunidades quilombolas Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Quilombos urbanos de Porto Alegre
Categoria:Quilombos urbanos Categoria:!Artigos do projeto Interfaces de saberes: Jacobina na Wiki Categoria:!Afropédia (artigos)