Ércio Ramos dos Santos, mais conhecido como Ércio (São Luís, 8 de junho de 1939 — Belém, 26 de setembro de 2021), foi um advogado e ex-futebolista brasileiro que jogava como ponta-esquerda. É o oitavo maior artilheiro do Paysandu Sport Club, com 104 gols. Foi revelado pelas categorias de base do clube no fim da década de 1950 e o defendeu ativamente ao longo da década seguinte.DA COSTA, Ferreira (2013). Ércio - Ponta-esquerda gravou o seu nome na história. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 131-133 Um de seus gols foi marcado na célebre vitória alviazul por 3-0 sobre o Peñarol, em 1965. Ao fim da carreira, foi campeão paraense também pela Tuna Luso. Era apelidado de "O Motorzinho da Curuzu".
Aposentou-se do futebol aos 31 anos, para dedicar-se à universidade. Foi aprovado no vestibular para o curso de Direito, em 1972, e em concurso público para o cargo de procurador autárquico da Universidade Federal do Pará em 1981,Diário Oficial da União de 07-12-1981, Seção 2, p. 61. tendo exercido a advocacia até 1995.
Nos últimos anos, era um dos "beneméritos atletas" do Conselho Deliberativo do Paysandu. Em 2010, foi escolhido para o trio ofensivo do time dos sonhos do "Papão", em votação promovida por colégio eleitoral de cem pessoas.DA COSTA, Ferreira (2013). Robilota - Arrancou aplausos das duas grandes torcidas. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 255-256
Carreira Início
Começou a jogar futebol pela equipe do Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré, onde estudava. Outro integrante do time era seu irmão Osvaldino, que também praticava o esporte nas categorias de base do Paysandu, levando Ércio consigo para lá em 1954. Ércio começou a destacar-se na base a partir de 1956, sendo campeão estadual juvenil e artilheiro da competição, com 20 gols. Era centroavante e repetiu o título juvenil nos dois anos seguintes, em meio a um heptacampeonato acumulado na categoria pelo clube em 1961.
Na base, Ércio era apelidado de Quarentinha, em referência a Quarenta, ídolo que defendera o clube entre as décadas de 1920 e 1940, sendo o terceiro maior artilheiro da história alviazul - e pai do Quarentinha mais famoso nacionalmente, a iniciar a carreira na mesma equipe no início da década de 1950 antes de converter-se no maior artilheiro do Botafogo. Em 1956, o clube promoveu a estreia de outro Quarentinha no time principal, o meia de nome Paulo Benedito dos Santos Braga, que viria a se tornar o maior ídolo e campeão pelo Paysandu. Paulo Braga já estava consolidado em 1959,LEAL, Expedito (2013). Quarentas e Quarentinhas. Re-Pa - Rivalidade Gloriosa. Belém: Meta Editorial & Propaganda, pp. 46-51 ano em que Ércio subiu ao time principal, diretamente dos juvenis, sem passar pela equipe intermediária dos aspirantes. Assim, Ércio passou a ser referido pelo próprio nome.
Em seu primeiro ano entre os adultos, Ércio marcou nove gols pelo estadual daquele ano, o primeiro deles já na primeira rodada, em vitória de 6-3 sobre o Belenenses. Na quarta, marcou duas em vitória de 4-0 sobre o Pinheirense. Destacou-se sobretudo na vitória de 5-1 sobre o Júlio César, na primeira rodada do terceiro turno, quando marcou três vezes.DA COSTA, Ferreira (2013). 1959 - Jogo emocionante, Toni empata e dá ao Paysandu mais um título. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 118-121 A conquista teve ainda outro sabor adicional de igualar Paysandu e o rival Remo como maiores campeões estaduais, com ambos tendo 19 taças.DA COSTA, Ferreira (2015). Campeonato Paraense de Futebol 1908-2015. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 227-233 Naquele ano, Ércio destacou-se também pelo gol do empate em 1-1 em amistoso contra o celebrado Botafogo de Garrincha. Também marcou pela primeira vez no clássico Re-Pa, em amistoso pelo festival azulino. Foi o primeiro em vitória por 2-1 dentro do estádio rival. DA COSTA, Ferreira (2015). 1959. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 84-85
Primeiro tricampeonato
O Remo, inicialmente, retomou a vantagem de maior campeão estadual isolado, ganhando o estadual de 1960. E o Paysandu imediatamente voltou a se igualar, em 1961. A campanha, porém, começou acidentada, em empate em 1-1 com o modesto Belenenses e derrotas para o União Esportiva (4-3) e Júlio César (1-0), tudo no estádio da Curuzu. Também perdeu em casa o Re-Pa por 2-0, resultado que deu ao Remo o título do turno inicial. A reação da diretoria aos protestos da torcida foi criar um departamento autônomo ao futebol, gerido pelo industrial Nelson Souza Rosa, que, investindo alto, contratou Gentil Cardoso como treinador. A mudança funcionou e Ércio terminou personificando a conquista, ao marcar o único gol do Re-Pa decisivo, no estádio da Tuna Luso, realizado já em 8 de abril de 1962. O lance ficou famoso: o goleiro azulino Edgar agachou-se para agarrar um chute que Ércio desferiu de longa distância. Mas a bola desviou no chamado "montinho artilheiro" e enganou o adversário.DA COSTA, Ferreira (2013). 1961 - "Montinho artilheiro" colaborou e Papão ficou com o Campeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 129-131
Gentil Cardoso foi mantido para o ano seguinte, assim como a equipe-base, com o novo título em 1962 vindo sem maiores dificuldades.DA COSTA, Ferreira (2013). 1962 - Paysandu mantém Gentil Cardoso e chega fácil ao bicampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 132-135 O clube, ali, também superou o Remo em número de títulos. Também em 1962, em dezembro, Ércio estreou pela seleção paraense, em polêmica: foi em excursão à Guiana Neerlandesa. Os surinameses notaram que estavam enfrentando uma seleção B, embora houvessem contratado jogos contra a seleção principal, deixando então de promover por longos anos intercâmbios com o futebol paraense. Ércio marcou um gol, em derrota de 4-1 para o Transvaal.DA COSTA, Ferreira (2013). A seleção do Pará através dos tempos. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 306-331
No mesmo mês, Ércio apareceu no time principal da seleção, marcando de pênalti o gol do empate em 1-1 com o Maranhão pelo Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, resultado que deu o simbólico título de Campeão do Norte ao adversário. Foi o último jogo da seleção do Pará até o ano de 1971. Apesar do insucesso, ele em 2018 demonstrou orgulho pela passagem pela seleção, declarando que o ano de 1962 foi o mais inesquecível da carreira, entrelaçado a fatores pessoais:
Em paralelo, um tricampeonato estadual com o Paysandu veio em 1963 com a única turbulência ocorrendo em uma goleada sofrida de 7-1 para a Tuna, já na rodada inicial do terceiro turno. Já no Re-Pa, Ércio marcou, de pênalti, o gol da vitória.DA COSTA, Ferreira (2013). 1963 - Sob a direção de Caim, Paysandu alcança o tricampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 136-138
Vencendo o Peñarol thumb|right|500px|O Paysandu posando juntamente com o Peñarol. Ércio é o sétimo agachado.
O Remo voltou a ganhar o título em 1964, embora tenha perdido um dos Re-Pas por 2-1, com Ércio marcando um dos gols - o resultado deu o título do primeiro turno à Tuna Luso.DA COSTA, Ferreira (2013). 1964 - Remo perde para o Liberato, se recupera, e conquista o título. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 139-141 Antes naquele ano, ele já havia marcado em outros clássicos, em vitórias amistosas por 5-3 e 4-1 na Curuzu, com a torcida alviazul gritando "olé" na segunda.DA COSTA, Ferreira (2015). 1964. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 94-96 Mas o Paysandu reagiu com um novo tricampeonato entre 1965 e 1967.
Em 1965, além de um título estadual fácil, com dez vitórias em doze jogos garantido em uma data festiva em 22 de novembro no qual o Paysandu conseguiu também títulos estaduais nas categorias juvenil e aspirante, outros momentos destacados ocorreram. O clube contratou o renomado goleiro Castilho,DA COSTA, Ferreira (2013). 1965 - Paysandu traz Castilho e dá um passeio no certame: É Campeão. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 142-145 participante de quatro Copas do Mundo e vencedor de duas.DA COSTA, Ferreira (2002). 1965 - Campeão de Futebol Profissional. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 74-75 E, com Ércio presente, ganhou o título invicto em torneio internacional que reuniu Fast, Fortaleza e Transvaal.DA COSTA, Ferreira (2002). 1965 - Campeão Invicto do Torneio Internacional. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 69
Mas mais marcante ainda foi a vitória por 3-0 sobre o Peñarol, equipe das mais poderosas mundialmente na época e que mantinha uma invencibilidade de treze partidas, com recentes vitórias contra brasileiros naquele ano sobre Santos (3-2, após derrota de 5-4, e 2-1, todos pela Taça Libertadores da América de 1965) e Fluminense (3-1 em amistoso no Maracanã).1965 - Copa Uruguaya, Vice Campeón Copa Libertadores (2011). Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 122-123 E foi Ércio quem abriu o placar. Foi aos 18 minutos do primeiro tempo: após receber de Carlinhos, driblou Pablo Forlán e, na entrada da área, arriscou um chute no ângulo ao notar ligeiramente aditando o goleiro Ladislao Mazurkiewicz, que não viu onde a bola entrou. A vitória sobre os uruguaios rendeu crônica de Nelson Rodrigues no jornal O Globo, na época.DA COSTA, Ferreira (2002). 1965 - Paysandu 3 x 0 Peñarol. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 70-71 Três dias mais tarde, Ércio figurou em novo bom resultado contra os uruguaios, que só aos 42 minutos do segundo tempo conseguiram empatar em 1-1 contra um combinado entre Paysandu e Tuna.
O título estadual de 1966 teve o sabor extra de ocorrer no ano em que se celebravam os 350 anos da cidade de Belém,DA COSTA, Ferreira (2002). 1966 - Bicampeão dos 350 Anos de Belém. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 76-77 o que motivou também um torneio municipal, igualmente vencido por Ércio e o Paysandu, de forma invicta.DA COSTA, Ferreira (2002). 1966 - Campeão do Torneio Cidade de Belém. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 77 O Estadual também veio de forma invicta, embora Ércio já não estivesse na titularidade, revezada sobretudo entre Vadeco e Garcia.DA COSTA, Ferreira (2013). 1966 - Paysandu forma a dupla Bené-Robilota e conquista o título invicto. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 146-148
O segundo tricampeonato
Ércio também esteve em outra vitória no Re-Pa, um 2-0 em amistoso na casa adversária assegurado a despeito disso e do rival, que celebrava 60º aniversário, contar especialmente para a ocasião com o celebrado Nilton Santos.DA COSTA, Ferreira (2015). 1966. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 100-102 Em 1967, o clube excursionou de forma invicta pelas Guianas e pelo Caribe, chegando a ganhar duas vezes da seleção de Trinidad e Tobago (2-1 e 1-0).DA COSTA, Ferreira (2002). 1967 - Excursão invicta ao Exterior. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 78 E conquistou novo título estadual de forma das mais lembradas, após seis Re-Pas seguidos em um espaço de 26 dias: o segundo turno terminou empatado entre os dois rivais, forçando jogo-extras. O primeiro terminou empatado e o segundo foi vencido pelo Remo. Como os alvicelestes haviam vencido o primeiro turno, fez-se necessário mais jogos. Os dois primeiros terminaram empatados, com a vitória bicolor por 2-0 no terceiro enfim finalizando o campeonato. Ércio voltou à titularidade e marcou o segundo gol na vitória por 2-0 no último desses clássicos, garantindo o título histórico.DA COSTA, Ferreira (2002). 1967 - Tricampeão de Futebol Profissional. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 78-79