Dora Vivacqua (Cachoeiro de Itapemirim, – São Gonçalo, ), mais conhecida pelo nome artístico Luz del Fuego, foi uma dançarina, naturista, atriz, escritora e feminista brasileira. Destacou-se como pioneira na implementação do naturismo no Brasil entre os anos 1940 e 1950, tendo sido a fundadora do primeiro reduto naturista da América Latina e a primeira nudista brasileira. É também reconhecida por sua contribuição na luta pela emancipação das mulheres.
Nascida no Espírito Santo, Dora pertencia a uma família de intelectuais e políticos, que realizava em sua residência reuniões literárias com a presença de relevantes personalidades do modernismo brasileiro, em Belo Horizonte, onde se estabeleceu em 1920. Bacharelada em Ciências e Letras, optou por seguir a carreira artística em meados de 1942. Luz del Fuego foi a primeira artista brasileira a aparecer nua em um palco. Adestrou serpentes e, dois anos mais tarde, estreou nos teatros de revista do Rio de Janeiro sob o pseudônimo Luz del Fuego, com espetáculos de dança em que aparecia com um casal de ofídios enrolado em seu corpo quase sempre nu. As apresentações da moça logo provocaram furor por todo o país e transformaram-na em uma das principais atrações do teatro nacional. Embora repudiada pelos mais conservadores, que a consideravam "uma ameaça aos bons costumes", Luz del Fuego atraía enorme público para os seus espetáculos e tornou-se uma das vedetes mais conhecidas dos anos 1950 no Brasil, tendo sido contratada, inclusive, para excursionar pelo exterior.
Por suas apresentações enfrentou forte repressão das autoridades em algumas cidades, sendo, em várias delas, expulsa ou impedida de entrar. No final dos anos 1940, começou a expor os seus ideais existencialistas, naturistas, em defesa dos direitos da mulher e da liberdade de expressão, e em combate aos preconceitos sociais. Escreveu dois livros, em um dos quais lançava a teorização do movimento naturista brasileiro e, como resultado, viu-o ser banido das livrarias. Tentou candidatar-se a deputada federal com um partido político por ela fundado, mas impedido de ser registrado, e aventurou-se esporadicamente em algumas produções cinematográficas ao longo dos anos 1950. Por meio de uma autorização que recebeu da Marinha do Brasil, foi viver em uma ilha por ela rebatizada de Ilha do Sol, onde fundou o Clube Naturalista Brasileiro.
Apesar da popularidade de seus espetáculos, a artista sofreu dificuldades financeiras em seus últimos anos de vida. Luz del Fuego foi assassinada, juntamente com o seu caseiro, por dois pescadores na Ilha do Sol, em 19 de julho de 1967. Seus corpos foram lançados ao mar, mas recuperados em 2 de agosto. Sua história foi tema do documentário A Nativa Solitária, de 1954, recuperado pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), de cujo acervo faz parte, bem como de um filme que leva o seu nome lançado em 1982. Em 2010, Luz del Fuego foi incluída na lista "Musas que fizeram a história do Rio", elaborada pelo portal G1.
História Primeiros anos thumb|255px|Visão parcial da capital mineira por volta de 1930. Embora tenha nascido em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, Luz del Fuego viveu grande parte de sua infância e toda a sua adolescência em Belo Horizonte, Minas Gerais.
Dora Vivacqua nasceu em 23 de janeiro de 1917, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo.Jória Motta Scolforo. "Arquivo Público remasteriza o raro documentário 'A Nativa Solitária' com Luz del Fuego". Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Consultado em 14 de abril de 2016. Décima-quinta filha de Etelvina Souza Monteiro Vivacqua e José Antônio Vivacqua,"Município de Atílio Vivacqua - História ". Prefeitura Municipal de Atílio Vivacqua. Consultado em 18 de fevereiro de 2017. mudou-se com a sua família para Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1920, quando tinha três anos de idade. Oriunda de uma tradicional família de políticos e intelectuais descendente da imigração italiana no Espírito Santo, residiu no chamado Salão Vivacqua nos anos seguintes, onde saraus mensais frequentados por Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava eram realizados.Mariana Peixoto (1.º/5/2015). "Nos 14 anos em que Drummond viveu em BH, a capital assistiu a uma inflexão na literatura". Divirta-se Uai. Grupo Diários Associados. Consultado em 16 de abril de 2016. Em Minas, descobriu o serpentário da Fundação Ezequiel Dias, que logo se tornou o seu lugar preferido, e começou a participar, aos quatro anos, dos saraus promovidos pela turma modernista de Belo Horizonte.Luís Antônio Giro (10/5/1994). "Luz del Fuego fez sucesso sem talento". Folha de S.Paulo. Empresa Folha da Manhã S/A. Consultado em 16 de abril de 2016. Concluiu o ensino superior e bacharelou-se em Ciências e Letras.A. Buono Junior (15/8/1950). "Luz del Fuego vestida!". A Noite Ilustrada. Empresa A Noite. N.º: 1 120. Págs.: 10-11. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira/Biblioteca Nacional do Brasil. Consultado em 17 de abril de 2016.
Desde muito cedo, Dora exibiu comportamento rebelde, recusando-se a acatar ordens ou opiniões sobre o que fazia. Costumava caminhar pela praia de Marataízes somente de roupa íntima e bustiê improvisado com lenços. Nos carnavais, sempre aparecia com curtas fantasias confeccionadas por si, e tinha verdadeira aversão às convenções sociais e às ideologias conservadoras que lhe eram impostas. Certa vez, aos vinte anos, fugiu para o Rio de Janeiro, e, após ser encontrada pela família, foi enviada ao Colégio da Imaculada Conceição, em Botafogo, do qual se retirou após atingir a maioridade, à época, 21 anos.
Em 1929, a família retornou para Cachoeiro, onde, em 19 de agosto de 1932, o pai de Dora foi assassinado por um grupo de pessoas que, dias antes, ele expulsara de um dos seus terrenos. Com o falecimento do marido, Etelvina resolveu retornar para Belo Horizonte com as filhas que não se tinham casado ainda, mas Dora, pouco tempo depois, foi morar no Rio de Janeiro sob a tutela de Attilio, um de seus irmãos. No Rio, foi introduzida ao meio artístico e cultural pelo radialista César Ladeira, da Rádio Mayrink Veiga, e, mais tarde, conheceu José Mariano Carneiro da Cunha Neto, no Cassino da Urca, que a levou aos locais frequentados pela elite brasileira. Embora inicialmente tranquilizada, a família Vivacqua logo enfrentou problemas com o comportamento da garota, especialmente o seu irmão. Contrariando-o, ela ingressou na equipe de um circo aos quinze anos e Atillio, então eleito deputado constituinte, decidiu mandá-la de volta para Belo Horizonte a fim de evitar o envolvimento de seu nome em escândalos.Luís Carlos Issa (19/8/1967). "Última entrevista: Luz del Fuego". O Cruzeiro. N.º: 47 de 1967. Págs.: 6-10. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira/Biblioteca Nacional do Brasil. Consultado em 24 de abril de 2016.
Após retornar para Minas, foi morar com a irmã Angélia e o marido da mesma, Carlos, que começou a assediá-la. Quando flagrado pela esposa, ele convenceu-a de que foi Dora a responsável pelo acontecido e fez a família considerá-la esquizofrênica, o que resultou no internamento da moça no Instituto Raul Soares por um período de dois meses em 1936."Luz del Fuego". Acervo Estadão. O Estado de S. Paulo. Consultado em 14 de abril de 2016. Quando deixou o manicômio, a jovem havia perdido dez quilos e, por sugestão de seu irmão Achilles, que com ela estava preocupado, foi morar na fazenda de Archilau, um outro irmão seu. Lá, desfrutava de imensa liberdade apesar de sempre estar acompanhada do filho do administrador da fazenda, para quem resolveu aparecer um dia como "Eva", usando apenas três folhas de parreira amarrados aos seios e à região do púbis, e duas cobras-cipós envoltas em seus braços. Ao ser repreendida pelo irmão, Dora agrediu-o e, consequentemente, foi uma vez mais internada em uma clínica psiquiátrica, desta vez na Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio de Janeiro. Achiles novamente interveio a seu favor e, após deixar o local, ela foi viver com outra irmã, Mariquinhas, em Cachoeiro.
O espírito rebelde da jovem, porém, ainda era muito vívido e, em novembro de 1937, Dora fugiu de volta para o Rio, onde reatou o romance com Mariano, mas nunca quis oficializar a relação, que durou cinco anos. Novamente na, à época, capital do país, conseguiu, com o auxílio de Fernando de Sousa Costa, então Ministro da Agricultura, ingressar em um aeroclube para adquirir um brevê e, pouco depois, começou a praticar paraquedismo, mas parou de fazê-lo por exigência de Mariano. As desavenças entre o casal intensificaram-se quando Dora matriculou-se em um curso de dança de Eros Volúsia: Mariano exigia-lhe o abandono das aulas, mas ela o ignorou; deixou-o após descobrir que ele mantinha uma relação amorosa com outra mulher.
O sucesso de Luz del Fuego e as teorias naturistas thumb|200px|esquerda|Luz del Fuego e uma de suas serpentes em fotografia publicada na revista Carioca, em 1944. Já àquele ano, a artista era conhecida por Luz del Fuego, o que contradiz a informação de que ela apenas adotara tal pseudônimo em 1947. Depois de pôr um fim ao seu romance com Mariano, Dora decidiu seguir a carreira artística, por volta de 1942. Dizem algumas fontes sem, no entanto, base documental, que Dora estreara em um circo chamado Pavilhão Azul, em 1944, sob o pseudônimo Luz Divina, de modo que somente adotou o nome artístico com o qual se tornou famosa em 1947, por sugestão de um palhaço chamado Cascudo. Essas informações, amplamente difundidas em biografias on-line e impressas da artista, contradizem os jornais dos anos 1940, que trazem informações sobre a estreia de Luz del Fuego, já com este pseudônimo, no teatro de revista em agosto de 1944."Teatro". A Noite. 31/8/1944. N.º: 11 603. Pág.: 6. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira/Biblioteca Nacional do Brasil. Consultado em 25 de abril de 2016. Corrobora esta informação uma entrevista que a artista concedera à revista Carioca, publicada em janeiro de 1944, uma vez mais a utilizar o nome artístico Luz del Fuego, bem como informações divulgadas sobre as suas excursões pelo exterior já com aquele pseudônimo e antes de 1947.Gustavo Forte (8/1/1944). "A bailarina que dança com as serpentes!". Carioca. Ano: IX. N.º: 431. Pág.: 19. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira/Biblioteca Nacional do Brasil. Consultado em 12 de fevereiro de 2017. Porém, na edição de 19 de janeiro de 1945, um repórter d'O Jornal relatou o seguinte: "Luz del Fuego, dizem, já se chamou Luz Divina. Quase esteve em cassinos e a jiboia era sua companheira", o que pode indicar certa veracidade quanto à sua estreia no circo, apesar de o ano ainda ser conflitante.Freddy (19/1/1945). "A mulher e a cobra". O Jornal. Ano: XXVII. N.º: 7 586. Pág.: 10. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira/Biblioteca Nacional do Brasil. Consultado em 12 de fevereiro de 2017. É provável, pois, que isto tenha ocorrido entre 1942 e 1943, tendo em vista que del Fuego, em entrevista concedida ao A Noite, em 1950, afirmou ter-se lançado à carreira artística em 1942.Eva Ban (12/5/1951). "Luz del Fuego entregou os pontos!... E assim?... Pode?!...". A Noite. N.º: 1 163. Pág.: 8. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira/Biblioteca Nacional do Brasil. Consultado em 12 de fevereiro de 2017.