Juan Evo Morales Ayma (Orinoca, 26 de outubro de 1959) é um político boliviano. Foi presidente da Bolívia por três mandatos consecutivos, de 2006 a 2019.
Líder sindical dos cocaleros — agricultores que cultivam a planta da Coca, cuja folha é utilizada em chás, mascada, segundo a tradição indígena do partido Movimento para o Socialismo-Instrumento Político pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP). Evo Morales destacou-se ao resistir os esforços do governo dos Estados Unidos para substituição do cultivo da planta da Coca, na província de Chapare, por bananas, originárias do Brasil.
De orientação socialista, o foco do seu governo foi a implementação da reforma agrária e a nacionalização de setores chaves da economia, contrapondo-se à influência dos Estados Unidos e das grandes corporações nas questões políticas internas da Bolívia. De etnia uru-aimará, Morales destacou-se a partir dos anos 1980, juntamente com Felipe Quispe e Sixto Jumpiri e alguns outros, na liderança do campesinato indígena do seu país.
Nas eleições presidenciais de 2002 ficou em segundo lugar, colocação surpreendente face ao panorama político do país, dominado pelos partidos tradicionais. Nas eleições de dezembro de 2005, porém, venceu com maioria absoluta, tornando-se o primeiro presidente de origem indígena. Assumiu o poder em 22 de janeiro de 2006 como o primeiro mandatário boliviano a ser eleito Presidente da República em primeiro turno em mais de trinta anos, e sendo reeleito em 6 de dezembro de 2009. Morales propõe que o problema da cocaína seja resolvido do lado do consumo, pois o cultivo da planta da Coca seria "um patrimônio cultural dos povos andinos e parte inseparável da cultura boliviana e sua proibição não poderia ser feita através de uma simples regulação estabelecida por uma convenção externa". Segundo Morales, "haverá zero cocaína, zero tráfico de drogas mas não zero coca".
Durante a sua presidência, a pobreza extrema na Bolívia foi reduzida de 36,7% a 16,8% entre 2005 e 2015. O Coeficiente de Gini desceu de 0,60 a 0,47. Aumentado imposto sobre a grande indústria boliviana de hidrocarbonetos, ele usou esses novos lucros para criar políticas sociais de combate ao analfabetismo, pobreza, racismo e sexismo. Um crítico do neoliberalismo, buscou reduzir a dependência monetária da Bolívia do FMI e do Banco Mundial, apostando numa economia mista. O PIB boliviano cresceu consideravelmente durante o governo Morales. Gozou de alta popularidade durante a primeira década que esteve no poder, sendo reeleito em 2009, em 2014 e, de forma controversa, em 2019. Ainda assim, seu governo foi marcado por acusações de corrupção e abuso de poder, com a Bolívia sendo ranqueada baixo nos índices de democracia global. Na política externa, Morales buscou boas relações com outros líderes de esquerda, como Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner. É membro fundador do Grupo de Puebla, organização considerada sucessora do Foro de São Paulo, criada em Puebla, México, em 12 de Julho de 2019.
No dia 10 de novembro de 2019 Morales renunciou o cargo que ocupava desde 2006, depois de três semanas de protestos no país, por suspeita de fraude nas eleições de outubro, que haviam dado a ele um novo mandato. A OEA apontou irregularidades na votação, e as Forças Armadas haviam 'sugerido' que ele abrisse mão do mandato. O governo e parte da comunidade internacional denunciaram o ocorrido como um golpe de Estado.
Início Nascido num pequeno povoado mineiro do departamento de Oruro, Evo Morales é de etnia uru-aimará, tendo como língua materna o aimará e, como segunda língua, o castelhano, à semelhança de muitos dos habitantes do planalto ocidental boliviano. É filho de Dionisio e de María, que chegaram a ter sete filhos, dos quais apenas três sobreviveram além dos dois anos de idade, em razão das precárias condições de vida da família.
Evo sempre desejou estudar e queria ter sido jornalista porque "eles sempre estão bem informados de tudo e estão no centro dos problemas". Desde muito pequeno escutava o rádio porque em seu povoado não havia televisão e nem chegavam os jornais.
Com o encerramento das minas nos anos 1960, os Morales mudaram-se para o Chapare, assim como milhares de outras famílias, para cultivar frutas e verduras no monte ao leste do país. Em 1985, as barreiras alfandegárias foram levantadas, e os produtos estrangeiros inundaram o mercado local. Aos camponeses de Chapare sobrou somente a folha de coca como alternativa de geração de renda.
Morales terminou sua educação secundária e atribui a sua educação posterior ao que tem chamado de a "Universidade da vida", incluindo o seu serviço militar aos 17 anos de idade. Trabalhou também como pastor de lhamas, pedreiro e músico.
Em 1981 foi nomeado secretário de esportes do sindicato dos cocaleros de San Francisco, em Chapare. A partir daqui, iniciou a sua ascensão no movimento sindical.
Durante os anos 1990, os cocaleros enfrentaram-se em repetidas ocasiões com o governo do presidente Hugo Banzer Suárez, que havia prometido ao mundo a erradicação total do cultivo de coca do país, para que a Bolívia não fosse mais tachada como país produtor de drogas. Morales assume a presidência da Federación del Trópico de Cochabamba, uma federação de camponeses plantadores de coca que resiste aos planos governamentais para a erradicação desses cultivos, considerando que são parte da cultura ancestral dos indígenas.
Como líder dos cocaleros da região, Evo Morales foi eleito membro do Congresso em 1997 representando as províncias de Chapare e de Carrasco de Cochabamba, com 70% dos votos do distrito — mais que qualquer outro dos parlamentares eleitos naquela ocasião.
Eleições de 2002 thumb|direita|400px|Evo Morales junto com o francês José Bové, na culturAmérica (2002) Em Janeiro de 2002, Evo Morales foi destituído da sua posição no Congresso devido a uma acusação de terrorismo relacionada com uma onda antierradicação ocorrida naquele mês em Sacaba (na qual morreram quatro cocaleros, três militares e um policial), além da pressão da embaixada dos EUA: "Muitos acreditam que os Estados Unidos estejam por trás de sua expulsão".
Apesar disso, Morales apresentou a sua candidatura para as eleições presidenciais e legislativas que se realizariam em 27 de junho. Em março, a sua expulsão do Congresso foi declarada inconstitucional, ainda que Morales não tenha reclamado a sua cadeira até a tomada dos legisladores sucessores, em Agosto de 2002.
Apesar de que, segundo as pesquisas de opinião, o partido registrava 4% de intenção de voto, o MAS utilizou os seus recursos numa campanha imaginativa, que incluiu a distribuição em massa de camisetas, bonés, bolas de beisebol e todo tipo de quinquilharia política. Um controverso anúncio televisivo do partido mostrava uma boliviana que exortava a "votar segundo a consciência de cada um, e não segundo o que mandava o chefe de cada um", além de incluir camponeses, mestiços e indígenas que afirmavam "Vamos votar por nós mesmos. Votaremos no MAS", capitalizando a condição de ser o primeiro candidato presidencial indígena a favor de Morales.
Nas eleições presidenciais, o MAS obteve um surpreendente segundo lugar, deixando Morales muito próximo de converter-se em presidente da Bolívia.
Presidência
Eleições de 2005
Nas eleições presidenciais de dezembro de 2005, Morales conseguiu ser vencedor, ao obter 53,74% dos votos, frente a 28,59% de seu principal opositor, Jorge Quiroga. Pela primeira vez na Bolívia, um indígena subia ao poder pelo voto popular, com uma margem considerável sobre o segundo postulante.
Posse thumb|300px|direita|Porta do Sol em Tiwanaku. A posse de Evo Morales representou um momento histórico na política boliviana. Por ter sido o primeiro presidente eleito de origem indígena, Evo fez questão que a sua posse tivesse um forte simbolismo religioso representando o valor de sua origem. Em 21 de janeiro de 2006, um dia antes da posse constitucional no Parlamento, vestiu trajes típicos e compareceu ao cerimonial religioso nas ruínas de Tiwanaku, a localidade mais importante da civilização pré-incaica do Altiplano Bolivano. Cerca de quarenta mil pessoas estiveram no sítio arqueológico, muitas delas segurando tanto bandeiras da Bolívia, quanto wiphalas, a multicolorida bandeira que representa os povos originários do Altiplano.
Morales recebeu o mando originário na pirâmide de Akapana (ainda em escavações). Ali foi designado Apu Mallku, pelo líder espiritual aimará Valentin Mejillones, vestindo o gorro de quatro pontas que lhe confere poder sobre os quatro pontos cardeais e segurando o báculo da autoridade conferida pelo deus Sol. Mejillones foi posteriormente preso pela polícia boliviana, por porte, tráfico e produção de drogas. "Não importa quem seja, a pessoa que comete uma irregularidade deve se submeter à lei", disse na ocasião o vice-presidente Álvaro García.
Em 22 de janeiro, foi empossado presidente em uma cerimônia em La Paz, onde recebeu inúmeros chefes de estado, incluindo o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente argentino Néstor Kirchner e o presidente venezuelano Hugo Chávez. O presidente chileno Ricardo Lagos, cujo país tem um histórico de conflito diplomático com a Bolívia (ver Guerra do Pacífico), também estava presente e se encontrou com o dignitário em particular. Morales descreveu sua presidência como o marco de uma nova era e que 500 anos de colonialismo agora tinham chegado ao fim.
Já empossado presidente, Morales foi recepcionado na praça San Francisco por cerca de cem mil pessoas e jornalistas de todo o mundo.
Primeiras medidas miniaturadaimagem|esquerda|Com a faixa presidencial.|277x277pxUm de seus primeiros gestos como presidente foi de reduzir seu salário em 57% para US$ por mês. Morales anunciou também sua intenção de levar aos tribunais seu predecessor, o ex-presidente interino, Eduardo Rodríguez, e o então ministro da Defesa, Gonzalo Méndez Gutiérres, acusando-os de traição à Pátria ao terem transferido 28 mísseis terra-ar MHN-5 de fabricação chinesa que se encontravam nos arsenais bolivianos e foram entregues aos Estados Unidos para serem "desativados".
Em seus primeiros discursos declarou a necessidade da nacionalização dos hidrocarbonetos, cuja exploração fora concedida a petrolíferas transnacionais, principalmente à brasileira Petrobras, através de concessões que catalogou como nulas de pleno direito. Metade do gás natural consumido em todo o Brasil é de origem boliviana.
Morales declarou o seu apoio às políticas dos presidentes da América Latina: Fidel Castro, Luiz Inácio Lula da Silva, Néstor Kirchner e em especial o então presidente venezuelano Hugo Chávez.
Referendo de 2008
Em dezembro de 2007, em meio a uma tensa situação política relacionada com o processo constituinte, Morales lançou a proposta de submeter-se, juntamente com todos os governadores, ao referendo revogatório, um referendo previsto pela constituição da Bolívia que submete os ocupantes dos cargos a uma nova votação. Assim, em 10 de agosto de 2008, o povo boliviano votou para decidir se queriam ou não que o presidente, Evo Morales, seu vice-presidente, Álvaro García Linera, e oito dos nove governadores do país continuassem em seus cargos.
Dia 16 de agosto de 2008 a Corte Nacional Eleitoral da Bolívia confirmou os resultados, que deram a vitória do presidente Evo Morales, que acabava de cumprir a metade de seu mandato de cinco anos. Foi ratificado no cargo com 67,41% dos votos válidos. Além de Morales, também foram ratificados os governadores de quatro departamentos que formam a chamada "meia lua" opositora e são liderados por Rubén Costas, de Santa Cruz. Outros quatro governadores opositores às políticas de Morales não obtiveram o número necessário de votos e perderam seus mandatos.