A Escola de Semiótica Tartu-Moscou (ESTM) é uma corrente filosófica dentro do campo da Semiótica, constituída por acadêmicos como Juri Lotman, Boris Uspenskii, Vyacheslav Ivanov, Vladimir Toporov, Alexander Piatigorsky, Isaak I. Revzin, Mikhail Gasparov, Juri Levin, dentre outros. Este grupo de acadêmicos se reuniu, a partir da década de 1960, na Universidade de Tartu, Estônia, com o intuito inicial de desenvolver um espaço de discussão e produção acadêmica voltada para a compreensão do papel da linguagem nos Estudos Culturais, sob um viés semiótico.
Escola de Semiótica Tartu-Moscou Um dos primeiros acontecimentos que levaram à formação da ESTM foi o Simpósio em Estudos Estruturais de Sistemas Sígnicos, em Moscou, no ano de 1962, unindo vários dos nomes acima citados. Apesar de não estar presente neste Simpósio, Juri Lotman teve contato com os trabalhos de Ivanov, Piatigorskii, e Revzin, convidando-os para a Universidade de Tartu um ano depois. O evento principal que marca o início da ESTM, em 1964, é a primeira edição da Escola de Verão de Semiótica , em Kääriku, Estônia, na qual o primeiro volume do periódico acadêmico Sign Systems Studies, o mais antigo periódico de semiótica do mundo, ainda publicado em inglês e russo até os dias atuais. Apesar de ter sido descontinuada na década de 1980, as Escolas de Verão de Semiótica retornaram a acontecer, bianualmente, a partir de 2011.
A Escola Tartu-Moscou, dado sua história e a multiplicidade de ideias convergentes entre seus membros pode ser considerada sob diferentes perspectivas
A ESTM como corrente científica Se estruturou como uma combinação das tradições de crítica literária de São Petersburgo (Leningrado) e de linguística de Moscou. A primeira contribuiu para a ESTM no que diz respeito ao estudo semiótico de objetos culturais complexos - enquanto, por sua vez, a segunda se encontra ligada à investigação de metodologias mais precisas para o estudo da cultura através de um viés semiótico. Em relação à sua produção científica, a ESTM como corrente científica se consolidou graças à sua contribuição relacionada à transposição, em termos semióticos, dos métodos literários e linguísticos de análise, para a análise de produtos culturais como pintura, música e cinema - assim como o estudo da cultura como um sistema modelizante: a linguagens da cultura são interpretadas como modelos secundários, em relação à linguagem verbal.
A ESTM como teoria Apesar de não se prender a uma teoria metodológica única, é possível dizer que havia uma direção comum no tratamento dos problemas semióticos relacionados ao estudo da cultura, orientando-se pelo empiricismo e respeitando a individualidade disciplinar de cada membro. A teoria semiótica da ESTM, tendo-se em vista seu caráter interdisciplinar, fora construída, em ad hoc, direcionada ao estudo de objetos culturais concretos e heterogêneos:“A atmosfera da comunidade de Tartu criava condições ideais para relacionamento e colaboração interdisciplinares. (...) a autoconsicência do semiólogo era definida menos pela filiação profissional inicial e mais pela orientação intelectual comum”. Por não possuir uma homogeneidade doutrinária, metodológica ou metalinguística, a teoria da ESTM pode apresentar uma dificuldade inicial de compreensão. Porém, em termos semióticos gerais, é característico uma preocupação comum por questões relativas sinergia, equilíbrio e a perturbação do mesmo em sistemas semióticos complexos. Uma das principais características do tratamento semiótico teórico da Escola Tartu-Moscou para o estudo da interação entre linguagem e cultura consiste em uma abordagem sistémica dos processos de significação: cultura, aqui, é vista como uma combinação de vários sistemas de signos – cada um com uma codificação própria, porém em constante interação entre si.
A ESTM como Academia Inicialmente, questões referentes ao espaço sociogeográfico da ESTM (tanto em termos concretos, quanto em termos de background científico) ocupam uma posição relevante não apenas no desenvolvimento da ESTM como academia científica de pensamento, mas como também no entendimento de tal desenvolvimento por parte de teóricos que buscam abordá-la e estudá-la. Com foco em um distanciamento tanto espacial quanto conceitual de formalidades e oficialidades acadêmicas e pessoais, o relacionamento entre professores e estudantes buscava, acima de tudo, incentivar, manter e estabelecer o diálogo e uma atmosfera de compreensão mútua.
A ESTM como Faculdade Com o crescente aumento do prestígio científico e do interesse internacional na ESTM, resultando em traduções de trabalhos para diversas línguas estrangeiras, a Escola passou a sofrer uma grande resistência ideológica e administrativa, refletindo a situação política da Guerra Fria, e culminando com a transferência de Lotman da cátedra de Literatura Russa para a de Literatura Estrangeira - uma tentativa de minar a unidade científica do grupo. Além disto, a Escola também sofreu consideravelmente com a redução tanto da tiragem quanto do tamanho dos volumes de seu periódico Sign System Studies. Apesar desta ausência de apoio institucional e material, a Escola conseguiu conservar seu status, apoiando-se em recursos mínimos, conservando a perspectiva de sua abordagem semiótica e centralizando o seu desenvolvimento na figura de Lotman.
A ESTM como Universidade Graças aos esforços de Juri Lotman em manter a autonomia acadêmica da ESTM apesar dos dificuldades administrativas, a escola se manteve com relativa autonomia até seu falecimento, na década de 90. A partir dos anos 90, a ESTM foi substituída pela Escola de Semiótica de Tartu, localizada no Departamento de Semiótica da Universidade de Tartu, mantendo foco em Semiótica da Cultura, mas também em Biosemiótica e Sociosemiótica. Seu principais expoentes atuais são Kalevi Kull, Peeter Torop and Mikhail Lotman. Atualmente, cursos de mestrado e doutorado em Semiótica são ministrados regularmente, com novas turmas de estudantes estonianos e internacionais ingressando a cada ano (além da manutenção de um grupo consistente de pós-doutorandos), preservando o espírito lotmaniano da ESTM.
Principais conceitos
Cultura Entendida como a totalidade não-hereditária de informações que são adquiridas, preservadas e transmitidas por vários grupos sociais, podendo ser vista sob duas perspectivas diferentes: como informação pertinente em si, e como um sistema de códigos sociais que permitem a expressão destas informações através de signos .Lotman propôs 11 traços definidores do que “cultura” significa em um contexto de estudos semióticos:
Cada cultura possui seus próprios signos. Nenhuma cultura é abrangente em si mesma - pelo contrário, trata-se de um espaço delimitador que está em constante contato com os espaços não-culturais. Culturas são sempre sistemas sígnicos (em contraste a não-culturas, que não são sistemas signícos). Dadas culturas substituem outras culturas com o passar do tempo. Culturas e linguagens nacionais são indivisíveis. Cultura é memória coletiva não hereditária. Cultura é apenas reconhecida post factum. Cultura é, acima de tudo, um fenômeno sociais e, enquanto culturas individuais são reais são, não obstante, um fenômeno secundário quando visto através do contexto histórico de culturas de sociedades. Cada cultura cria seu próprio modelo de sua existência e continuidade. Culturas geram estruturas com a finalidade de construir suas bases sociais. Cada cultura é baseada em presunções estruturais por parte de seus participantes
Sistema sígnico Dentro da abordagem sistémica proposta pelos acadêmicos da ESTM, um sistema signíco é um conjunto de um ou mais tipos diferentes de signos dentro de um sistema de regras, responsáveis por regular e combinar tais signos com a finalidade de criar um texto semiótico. Tais sistemas podem ser divididos em “informacionais” ou “não-informacionais” - o último compreendendo fenômenos como jogos de xadrez ou sistemas monetários, por exemplo - enquanto, por sua vez sistemas de caráter informativo se referem a línguas naturais e artificiais e formas diversas de arte. O caráter sistémico de signos, e a necessidade de serem abordados como sistemas é o principal pressuposto para o estudo da Semiótica da Cultura:“No estudo da cultura a premissa inicial é a de que toda atividade humana interessada com o processamento, troca e armazenamento de informação possui uma certa unidade. Sistemas sígnicos individuals, apesar de pressupor estruturas organizadas imanamente, apenas funcionam como unidades quando apoiados por outros sistemas. Nenhum sistema sígnico possui um mecanismo que permite que funcionem culturamente de forma isolada.”As características gerais essenciais a tais sistemas signícos incluem os seguintes aspectos:
Semântica: se refere ao sistema em relação a qualquer fator discursivo que possa aludir aos elementos e textos de outro sistema, ou a qualquer fenômeno que se encontra fora do sistema inicial - mas possui a capacidade de ser descrito e processado por ele. Sintática: determinada pela estrutura relacional interna entre unidades no sistema e em seus textos correspondentes. Pragmática: fundamenta-se na relação entre unidades do sistema e seus textos, assim como nos consumidores destes textos.
Portanto, ao se referir a unidades semióticas como “sistemas signícos”, o foco não permanece apenas as entidades que se encontram nesse sistema, e sim nas relações entre tais entidades - assim como nas regras que estabelecem tais relações. Ademais, a noção de “sistema” também sugere descrições e análises que levem em consideração os diferentes níveis descritivos entre as entidades que se encontram em tais relações, e entre os sistemas em si.
Texto No contexto de Semiótica da Cultura, a noção de “texto” inclui uma variedade de sistemas simbólicos, tais como linguagem verbal (oral ou escrita), artes visuais, rituais, mitos, leis, entre outros. Textos culturais são aqueles cuja estrutura provém informação a uma determinada cultura - tanto sobre si mesmo, quanto sobre o seu contexto circunjacente:“Um texto multifacetado e semioticamente heterogêneo, pode ser capaz de entrar em relações complexas tanto com o contexto cultural que o circunda, quanto com seus leitores; ele deixa de ser uma mensagem elementar transmitida de um emissor a um destinatário. Revelando sua capacidade de condensar informação, ele adquire memória. (...) Neste estágio de crescente complexidade estrutural, um texto apresenta as propriedades de um dispositivo intelectual: ele não apenas transmite informação, mas também transforma mensagens e desenvolve novas mensagens”.De acordo com Ivanov, textos culturais são definidos com base no seguinte conjunto de princípios:
Texto é uma unidade semiótica funcional. Texto é o veículo de todas e qualquer mensagem integrada (incluindo linguagem humana, visual, verbal e representacional). Nem todos os usos de linguagem humana são automaticamente definidos como texto.
De forma geral, textos são compreendidos como mecanismos geradores de significados e, como resultado, o que pode ser entendido como texto em uma determinada cultura, pode não ser um texto (ou seja, não gerar significado) em um espaço cultural diferente.
Sistema modelizador