A Virgem dos Rochedos () é uma pintura a óleo sobre madeira pintada no período de 1483 a 1486 pelo génio italiano Leonardo da Vinci e que se encontra no Museu do Louvre, em Paris.
Esta é a primeira versão do tema pois da Vinci pintou uma segunda versão (imagem a seguir) que se encontra na Galeria Nacional de Londres.
Descrição No centro, a Virgem Maria estende a mão direita para proteger o pequeno João Baptista que está em oração, ajoelhado e de frente para o Menino Jesus, que está mais abaixo, à direita, no ato de abençoá-lo e com o corpo em torção. Atrás dele está um anjo com um manto vermelho vaporoso que olha diretamente para o espectador com um leve sorriso, envolvendo-o na representação, e que com a mão direita aponta para João Batista, reenviando o olhar para o ponto de partida numa multitude de linhas de força. A mão esquerda de Maria se inclina para frente como se quisesse proteger o seu filho, com uma forte torção.
A cena enquadra-se numa paisagem rochosa húmida, desenhada em termos arquitectónicos, e em que se destacam flores e plantas aquáticas desenhadas com minúcia de botânico vendo-se ao longe um curso de água. Duas aberturas permitem a vista longínqua do horizonte, revelando vistas interessantes de esporões rochosos e grupos de rochas íngremes, que à esquerda se desvanecem na distância devido à neblina, de acordo com a técnica da perspectiva aérea da qual Leonardo é considerado o iniciador. No topo, em vez disso, o céu torna-se sombrio, quase noturno, com a ameaça da caverna, pontuada por inúmeras plantas.
Pedretti notou uma série de elementos perturbadores no painel, como a configuração ambígua do corpo do anjo (definindo uma "harpia"),Citado in Marani, Leonardo. Catalogo completo dei dipinti, op. cit., pag. 58. enquanto Bramly, referindo-se à posição invulgar da mão esquerda de Maria, descreve-a como "a garra de uma águia".Serge Bramly, Leonardo da Vinci, Mondadori, Milão, 1988, pag. 156.
Simbologia A caverna representa o útero materno, o lugar do renascimento e a passagem para a vida após a morte. A rocha está intimamente relacionada com a missão de Cristo na terra, a fonte e a bebida purificadora da alma. A Virgem Maria é representada na sua função protetora de mãe e de ama. O anjo indica João Batista em oração como o mensageiro da Redenção que se cumpre através do batismo e do sacrifício de Cristo. O dedo apontando para cima indica a dimensão superior e sobrenatural a que Jesus está predestinado.A Virgem Maria in Simboli e allegorie, Dizionari dell'arte, ed. Electa, 2003, pag. 118.
Além disso, como é evidente em várias passagens de seus escritos, Leonardo era fascinado pela imagem da "caverna", do ponto de vista científico ou geológico, mas acima de tudo como as "entranhas" da terra, natureza subterrânea ou subnatureza, "receptáculo da vida geológica, de movimentos enormes no espaço e no tempo que constituem o seu segredo" (André Chastel).Giulio Carlo Argan, Storia dell'arte italiana, vol. 2, pag. 376, ed. Sansoni, Florença, 1978.
Estilo As figuras emergem do fundo escuro com uma luz difusa típica do sfumato de Leonardo, que cria uma atmosfera envolvente de "Revelação pacífica". A obra parece ocultar o mistério da Imaculada Conceição com o árido cenário montanhoso, escuro e simbólico, que evoca, com a manifestação das entranhas da natureza em que a Virgem parece se encaixar na perfeição, o sentido de mistério ligado à maternidade.
As cores são mais escuras que as usadas por Leonardo na versão seguinte do tema, mas a luz é definitivamente mais quente que a de Londres, asséptica e afiada.
Fonte do tema
A pintura representa o encontro entre o Menino Jesus e João Batista, um episódio que não é narrado nos Evangelhos canónicos, mas deriva principalmente da Vida de João Batista atribuída a Serapião de Tmuis e, para certos detalhes como o cenário de uma paisagem rochosa, de episódios retirados de evangelhos apócrifos e outros textos devocionais, fontes amplamente utilizadas na época para a elaboração de temas de arte sacra.
No apócrifo Protoevangelho de Tiago refere-se que Isabel, a mãe de João Batista, soube que Herodes queria matar todas as crianças e então levou o seu filho e fugiu para a montanha. Olhando em volta e não encontrando abrigo, invocou Deus e naquele momento “a montanha abriu-se numa cavidade e os acolheu (...) e uma luz era visível para eles, porque havia um anjo do Senhor com eles que os guardava".Protovangelo di Giacomo, 22,3. in I Vangeli apocrifi, sob direcção de Marcello Craveri, Einaudi, 1990.
No Evangelho Latino da Infância, de acordo com o Código Arundel 404 (A102), encontra-se uma cena subsequente na montanha: "João estava com a sua mãe, Isabel no deserto, na brecha de montanha muito alta, e o anjo de Deus os alimentou. No deserto, João se fortaleceu. A sua comida era pois constituída de gafanhotos de campo e mel silvestre; o seu vestuário era feito de pêlo de camelo e usava à cintura um cinto de couro."
Na Vida de João Batista atribuída a Serapião, assiste-se ao encontro entre os dois meninos. Jesus vê João chorando perto de sua mãe Isabel que morreu depois de cinco anos vagueando pelas montanhas e desertos e diz-lhe para não se desesperar, porque "Eu sou Jesus Cristo, o teu mstre. Eu sou Jesus, teu parente. Vim até ti com minha amada mãe para preparar o enterro da abençoada Isabel tua feliz mãe. Ela é parente da minha mãe. Quando o abençoado e santo João ouviu isso, ele virou-se. O senhor Cristo e a sua virgem mãe o abraçaram." De acordo com esta história, Jesus e sua mãe ficam sete dias; em compartilhar, vendo que sua mãe chora pela solidão do pequeno João, Jesus diz-lhe que ela não deve preocupar-se, porque esta é a vontade de Deus, e acrescenta "Aqui está Gabriel, o chefe dos anjos: dei-lhe o encargo de protegê-lo e dar-lhe o poder do céu. Eu também lhe darei a água desta corrente doce e deliciosa como o leite que mamou da mãe".Vita di Giovanni secondo Serapione, in Gli Apocrifi, sob direcção de Erich Weidinger, Piemme, Casale Monferrato, 1992, pp. 575-577.
Uma outra versão do encontro encontra-se num texto do início do século XIV que retoma e elabora histórias extraídas dos apócrifos, as Meditaciones vite Christi, atribuídas durante muito tempo a S. Boaventura, mas que presentemente foram restituidas ao seu autor, o franciscano Giovanni de Cauli. Na passagem dedicada ao retorno da fuga para o Egito lemos que Jesus e Maria "encontraram João Batista, que já havia começado a fazer penitência, embora não tivesse qualquer pecado. Diz-se que o lugar do Jordão em que João batizou é aquele por onde os filhos de Israel passaram quando vieram do Egito por aquele deserto; e naquele lugar no mesmo deserto, João fez penitência. A partir do qual é possível que o menino Jesus passando dali no seu regresso o encontrou naquele mesmo lugar."Johannis de Caulibus, Meditaciones vite Christi, olim S. Bonaventuro attribuitae, direcção e estudo de M. Stallings-Taney, Turnhout, Bélgica, 1977, p. 59.
Pietro Marani argumentou em várias ocasiões que o tema da obra poderia ter sido inspirado pelo Apocalypsis Nova do beato Amadeu da Silva, um franciscano que entre 1454 e 1457 foi convidado da Confraria milanesa. Amadeo dava grande importância a Maria e João Batista como novos protagonistas da sua interpretação dos textos sagrados, e acima de tudo via Maria como repleta de perfeição e dotada do dom da "ciência total" assimilada à Sabedoria, imagem do conhecimento universal.Pietro C. Marani, Leonardo, la carriera di un pittore, pag. 138. Pinin Brambilla Barcilon, e Pietro C. Marani, Leonardo, l'Ultima cena, Electa, Milão, 1999, pag. 21.
De acordo com Marani, Leonardo pode ter acedido aquele escrito pois que em Ms Madrid 8936, fol. 3 verso, ele regista um Libro dell'Amadio. Mas isto refere-se quase certamente a um livro de arquitetura de Giovanni Antonio Amadeo, arquiteto lombardo que em várias ocasiões colaborou com Leonardo e que foi designado como "árbitro" na disputa legal que opôs o artista à Confraria da Imaculada.Carlo Pedretti, Leonardo architetto, Electa, Milão, 1989, pag. 232.
A Virgem dos Rochedos no contexto do "Apocalypsis nova"
Recentemente, uma nova pesquisa surge para encerrar o intenso debate entre os historiadores da arte sobre a Virgem dos Rochedos, especialmente em relação à data de criação da primeira versão e ao motivo representado nas versões do Louvre e da National Gallery. Essa pesquisa, apresentada no livro A VISITAÇÃO por Leonardo da Vinci segundo o "Apocalypsis nova" (A verdadeira origem de "A Virgem dos Rochedos")MORENO LÓPEZ DE AYALA, Ramón. LA VISITACIÓN por Leonardo da Vinci según el «Apocalypsis nova» (El verdadero origen de «La Virgen de las rocas»). Colección «Misterios ocultos en el arte». RMLA Books, 2023. ISBN-13: 979-8865249313.
MORENO LÓPEZ DE AYALA, Ramón. THE VISITATION by Leonardo da Vinci according to the "Apocalypsis Nova" (The true origin of "The Virgin of the Rocks"). Collection "Hidden Mysteries in Art". RMLA Books, 2023. ISBN-13: 979-8868249570. por Ramón Moreno López de Ayala, propõe uma interpretação revolucionária que lança luz sobre a datação da obra e seu significado espiritual.
A teoria tradicional sustenta que a versão do Louvre foi pintada por Leonardo para atender a um pedido em 1483 pela Scuola della Concezione, seguida pela venda da pintura a outro cliente e pela criação da versão da National Gallery como substituição. Por outro lado, a pesquisa recente argumenta que a obra foi realizada após 1482, descartando as teorias que a situavam antes dessa data.
Segundo a nova abordagem, o contexto espiritual da época de Leonardo é essencial para compreender a pintura. Esse contexto está diretamente relacionado ao eremita franciscano Amadeu da Silva, falecido em Milão em 10 de agosto de 1482; pouco depois, Leonardo chegaria de Florença para trabalhar na Corte Sforza. O religioso foi enterrado em Santa Maria della Pace, em Milão, com um manuscrito abraçado ao peito, onde se lia a nota "Aperietur in tempore" ('Será aberto a tempo').ELLI, Massimo. Leonardo da Vinci - Oreno e Il Libro Dell'Amadio, Kindle Amazon, 2015: “A tradição, registrada nos arquivos históricos, nos conta que junto com o corpo do Beato Amedeo também foi enterrado o livro do 'Apocalypsis nova'". Este manuscrito, proibido de ser lido até que o escolhido por Deus o revelasse ao mundo“Ex parte Dei praecipe sub poena mortis”., intitulado "Apocalypsis nova", narrava os oito "raptus" ou arrebatamentos ao céu que o Beato Amadeo sofreu da caverna penitencial de San Pietro in Montorio, em Roma, lembrada hoje pelo monumento erigido por Donato Bramante, conhecido como Tempietto"Em homenagem ao B. Pedro Apóstolo, neste lugar ergui uma cruz" (inscrição epigráfica do jubileu de Alexandre VI na consagração da igreja de San Pietro in Montorio e seu altar).
Moreno López de Ayala demonstra que a quinta visão de Amadeo, que descreve um encontro celestial entre os meninos João Batista e Jesus, serviu de inspiração para a Virgem dos Rochedos. O detalhe chave para associar ambos os relatos é o escorço incomum do Menino Jesus, que está sentado e abençoa o menino João ajoelhado, enquanto o arcanjo Gabriel dirige seu olhar cúmplice para o espectador, apontando para o servo escolhido por Jesus. A prova chave do "Apocalypsis nova" extraída na pesquisa é o seguinte texto em latim:Iesus vero quasi sedebat et, manu dextra erecta, versus ipsum Ioannem extensa, illum his verbis et eadem lingua benedicebat per modum cantici: ... ('Jesus, no entanto, enquanto estava sentado e, com sua mão direita erguida e estendida em direção a João, com estas palavras e, na mesma língua, o abençoava à maneira de um cântico': ...)Este texto do "Apocalypsis nova" é preservado, entre outras bibliotecas, na Biblioteca Apostólica Vaticana, com referência "Vat.lat.3825" e corresponde à página 72r.