miniaturadaimagem|Angelo Bandoni Foi um anarquista de origem (1868-1947) franco-italiana, que viveu no Brasil no período compreendido entre 1900 e 1947. Responsável por editar alguns periódicos que atingiram notoriedade entre o operariado, sobretudo nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, Bandoni também organizou uma das primeiras experiências de escola no país atravessada por concepções libertárias e destinada aos filhos dos trabalhadores. Por este feito, passou a ser reconhecido, segundo alguns memorialistas que vivenciaram o seu mesmo espaço social e temporal, como “o professor”.
Período no Estrangeiro Angelo Bandoni nasceu em 2 de julho de 1868 em Bastia, uma cidade localizada ao norte da ilha da Córsega na região do mar Mediterrâneo. A ilha da Córsega, até o ano de 1768-9, sofreu grande influência política de diversos reinos, principalmente os italianos ainda não unificados, quando a partir desta data passou a pertencer ao domínio da França. Essa informação possui grande relevância, na medida em que demonstra ser Bandoni francês de nascimento, mas de cultura italiana.
Apesar da nacionalidade francesa, Bandoni tinha origem italiana por parte materna e paterna, pois ambos eram de Livorno. Pelo tempo que viveu em Bastia, é bem provável que fosse bilíngue, sendo conhecedor tanto do francês (talvez o corso) quanto do italiano. Após o nascimento de Angelo, a família Bandoni viveu na ilha francesa por mais 18 anos, quando ele, seu pai (Giovanni Bandoni) e seu irmão migraram em direção à Itália.
O motivo da imigração da família também é incerto, o mais provável seja o momento tenso nas relações diplomáticas vividas entre a Itália (nesse momento já unificada) e a França. Essa situação internacional fez com que aumentasse o conflito interno na ilha entre franceses e estrangeiros (a maioria italiana) produzindo um xenofobismo arraigado.
Outro ponto nebuloso é a origem social e econômica de Angelo Bandoni. Seu pai, durante os anos em que viveu em Bastia, era marbrier, uma espécie de artesão que trabalha com mármore cuja habilidade possivelmente tenha sido adquirida na região da Toscana, possuidora do maior polo marmoreiro da época em Carrara. Já Assunta Casanova, sua mãe, não deixou pistas sobre a sua trajetória.
De Bastia, a família Bandoni chega à cidade de La Spezia e se estabelece na região no ano de 1886. A trajetória de Angelo na Itália é um conjunto de “idas e vindas”. No momento em que aporta na península itálica, o anarquismo estava fervilhando e sofria intensa repressão por parte das autoridades italianas. No final do século XIX, o país era possuidor de uma massa trabalhadora ainda predominantemente agrária e artesã, que passava por grandes dificuldades e uma miséria crescente. O processo de industrialização na região norte do país e as periódicas crises econômicas geraram um expurgo de proletariados desempregados provocando uma profunda desigualdade social e entre regiões.
Tais condições favoreceram o desenvolvimento do movimento anarquista, sobretudo nas regiões da Toscana (seu berço), Firenze, Prato, Livorno, Massa, Carrara e dali foram ampliando o seu raio de propagação por toda a península até 1898, quando experimentou o seu processo de enfraquecimento em razão de uma intensa repressão. Fator preponderante no desenvolvimento dos ideais libertários foi a passagem de Bakunin na Itália entre os anos de 1864 a 1867, cujos ensinamentos colaboravam na formação de dois dos maiores expoentes do anarquismo italiano – Errico Malatesta e Carlo Cafieiro.
Uma das características essenciais do proletário italiano do final século XIX foi o estabelecimento de um nexo entre o pensamento e a ação, onde a camada mais baixa do proletariado, os braccianti (trabalhadores, jornaleiros ou boia-fria), em contato com um discurso teórico do socialismo, apropriou-se gradativamente das premissas teóricas anarquistas rejeitando, porém, as práticas de luta da pequena burguesia. O modelo de reação adotado por esse novo contingente anarquista contra a exploração de quem os dominava passou a ser sistemática: a realização de furtos campestres e o incremento dos bandos armados. Essa perspectiva justifica os incêndios e os atos de sabotagem como fazendo parte de uma ação coletiva coordenada e não mais somente de práticas individuais movidas pela fome e desespero. É dessa união entre as práticas isoladas adotadas pelos braccianti, com a teoria que sustenta o discurso libertário de ação direta, que surge um embrião socialista não legalitário entre estas camadas despossuídas da população.
Por consequência, duas vertentes do anarquismo na Itália se desenvolveram. O individualismo, aqui incluídos os insurrecionalistas, já desde a década de 1870 quando da perseguição aos trabalhadores internacionalistas após o fim da Comuna de Paris, e o chamado anarco-comunismo, a partir da concepção originária de Kropotkin e muito defendido por Malatesta desde seu regresso da Argentina ao final da década de 1880 (que serão tratadas posteriormente). Como a corrente individualista foi mais forte até quase o final do dezenove, percebe-se certa proximidade de Angelo Bandoni com esta vertente, tendo em vista algumas de ações à época de sua estadia na Itália. E que ações foram essas?
O jovem Bandoni não tinha endereço e nem destino certo, transitando por distintos lugares da costa tirrênica norte italiana. Todos esses sítios inclusive sob grande influência do anarquismo. Depois de registrar a sua primeira aparição em La Spezia (1886), os registros policiais apontam que havia sido preso na comuna de Lucca (1887), na região da Toscana, por contrabando de moeda falsa permanecendo privado de sua liberdade até final de 1890. Tendo cumprido a sua pena, Bandoni retorna pela segunda vez à La Spezia.
No mesmo ano que foi posto em liberdade, Bandoni foi condenado a cinco anos de reclusão por furto, roubo e uso de documento falso. Só que desta vez cumpriu pena na Argélia, colônia administrada pelo Estado da França, já que era francês nato. Em 1895, após ter saído da prisão, retorna pela terceira vez a La Spezia, ocasião em que foi novamente preso (por nove meses) e foi definitivamente expulso da Itália. Entre os anos de 1895 à 1900 há divergências nos registro policiais. Uma versão menciona que durante este período migrou clandestinamente para a Argentina, retornando à Itália anos depois. A segunda versão diz que veio para o Brasil e posteriormente retorna à comuna de La Spezia.
Em que pese tal divergência, cabe chamar a atenção para o grande número de delitos praticados por Bandoni. Na história do anarquismo, tanto na Itália quanto em determinadas ocasiões no Brasil, era comum ao militante anarquista se valer da prática do furto justificado como ação em prol de uma sociedade “na qual será abolido o privilégio da propriedade privada”.
Em maio de 1898, uma forte onda de repressão assolou os anarquistas. Com a deflagração da revolta contra o aumento do pão, as forças do rei Umberto I acertaram o cerne do movimento libertário na tentativa de reprimir os “subversivos”. Desta forma, iniciou-se uma sequência de expulsões e prisões por todo o país. Além disso, foi necessário empurrar essa massa proletária para um lugar distante e amenizar as tensões internas, o que foi providenciado pelo governo italiano através da imigração em massa para a América. Foi exatamente nesse contexto conflitante e de grande repressão, que Bandoni teve a sua expulsão decretada.
Período no Brasil No dia 05 de maio de 1900, Angelo Bandoni, a bordo do vapor Città di Genova, aportou no porto de Santos, no Estado de São Paulo. Veio sozinho em busca de novos rumos no novo mundo. Tinha apenas 30 anos e do Brasil jamais se mudou. Permaneceu no país e nele vivou por mais de 45 anos.
Diferente de inúmeros outros imigrantes de origem italiana que penetravam no solo brasileiro, Bandoni não veio “fazer a América” em busca de novas oportunidades de trabalho e prosperidade. Teria vindo, então, ajudar na disseminação da anarquia nos trópicos, já que o movimento estava em franca expansão? Bem, talvez. O mais certo é que o Brasil serviu de refúgio, pois já havia sido condenado à pena de prisão pela justiça francesa e italiana, sendo inclusive expulso da Itália. Sem rumo e sem direção, o jeito foi apostar no continente americano.
Quando chegou ao país, residiu em uma área rural na zona oeste do Estado de São Paulo, Água Virtuosa. Possivelmente nesse momento deve ter trabalhado no campo como colono agrícola, fenômeno muito comum junto aos italianos recém-chegados ao país no final do oitocentos. Em um segundo momento, muda o local de sua residência para o centro urbano paulistano, mais especificamente no bairro do Bom Retiro (região onde abrigou grande quantidade de imigrantes italianos).
A escravidão havia sido recentemente abolida (1888) e a República acabara de ser proclamada (1889) quando adentrou ao país. O parque industrial nacional ainda era muito incipiente e se restringia ao Estado de São Paulo e Rio de Janeiro. Quer dizer, o movimento de trabalhadores operários ainda estava germinando. Portador de certo capital libertário adquirido no exterior, assim como diversos militantes, Bandoni contribuirá ativamente na formação da massa trabalhadora organizada, sobretudo propagando as ideias anarquistas.
As suas ações libertárias tiveram maior ênfase na propaganda e na informação dos trabalhadores. As práticas mais subversivas e diretas, aquelas cometidas no estrangeiro, haviam sido deixadas para trás. Entrava em cena agora um novo Bandoni, mais intelectualizado e maduro. Tanto é assim, que durante o período em que esteve no Brasil, escreveu em diversos periódicos e também foi responsável pelas edições de alguns outros que ganharam notabilidade. Além disso, realizou conferências, organizou escolas e ainda teve tempo para escrever poesias.
A título de conhecimento, cabe realizar um breve panorama cronológico dos seus escritos. Sua ação anarquista como articulista é intensa desde os meses em que pôs os pés em solo brasileiro. Em novembro de 1900 assina alguns artigos no periódico Palestra Social, cuja direção pertencia ao anarquista Tobia Boni. No ano seguinte, em maio de 1901, realizou a sua primeira conferência no Brasil, Ragio e Amore. Naquele mesmo ano, atua na formação de Circolo Educativo Libertario Germinal, o qual realiza no dia 21 de julho a conferência La Protesta Umana, que inclusive veio a ser publicado como o seu primeiro opúsculo. Produto do círculo libertário Germinal, em fevereiro de 1902, Bandoni funda um periódico com o mesmo título, exercendo a sua direção até a edição de n.11, quando Duilio Bernardoni o substitui nessa função. Bandoni volta a dirigir o periódico (a partir da edição n. 1 do ano III) até março de 1904, quando finalmente o jornal deixa de circular.
Em outubro de 1902, Bandoni reaparece como redator do suplemento do periódico Germinal – La Gogna, que possuiu apenas um único número. Em novembro do mesmo realiza uma terceira conferência em homenagem aos Mártires de Chicago, o que segundo consta, contou com participação de cerca de oitenta expectadores. Dessa conferência, resultou a publicação de um segundo opúsculo, I Martiri di Chicago. Depois dessa segunda conferência, Bandoni ainda realizou mais três outras: Quatro fasi dela Protesta Umana, Pro e Contra L’esistenza di Dio e, por fim, Egoismo e Altruismo. Algumas delas são propagandeadas nas páginas do famoso jornal O Amigo do Povo do anarquista Neno Vasco.