No Brasil, os sambaquis são distribuídos por toda a costa, tendo chamado a atenção do europeu logo no início da colonização europeia do país, no século XVI. A diferença de hábitos culturais e alimentares levou à conclusão de que eram obra de uma sociedade distinta daquela dos Tupi-guaranis, que então povoavam toda a região costeira do país. Estudos recentes sugerem que os sambaquis tenham sido produzidos por povos que viveram na costa brasileira entre 8 mil e 2 mil anos antes do presente.Revista História Viva, Ano V nº 60 Geralmente, os sambaquis distribuídos pela costa brasileira estão em regiões lagunares e áreas recortadas por baías e ilhas.
Alguns destes sambaquis chegavam a atingir trinta metros de altura por quarenta de comprimento. No século XVI, conchas de um só monte foram moídas e utilizadas como cal na construção do Palácio do Governador, de parte do Colégio da Bahia, de engenhos de açúcar e de vários outros edifícios.Cavalcante, Messias Soares. Comidas os Nativos do Novo Mundo. Barueri, SP. Sá Editora. 2014, 403p.ISBN 9788582020364
No século XIX, esses monumentos pré-históricos foram visitados pelo Imperador dom Pedro II, que por eles se encantou. No século XX, foram alvos de estudos por parte da Universidade de São Paulo e atraíram a atenção de Paul Rivet, o lendário diretor do Museu do Homem, e "pai" da moderna antropologia americana. No litoral sul do Brasil, foram estudados pelo arqueólogo João Alfredo Rohr.
Na região Sudeste, além dos sambaquis do Rio de Janeiro, destaca-se ainda o Sambaqui de Cananéia, localizado na Ilha do Cardoso, em Cananéia, litoral de São Paulo. Estudos colocam este sambaqui como um dos antigos do Brasil, com cerca de 8 mil anos.QUINTO, Antonio Carlos. Arqueólogos encontram sambaqui mais antigo do Brasil. Agência USP de Notícias. Disponível em: http://www.usp.br/agen/?p=5853
No sul do país, os sítios mais importantes ainda existentes estão localizados no litoral sul do estado de Santa Catarina. As cidades de Laguna e Jaguaruna abrigam 42 sambaquis dos mais diversos tamanhos e alturas, destacando-se entre eles o Garopaba do Sul - o maior depósito de conchas do mundo em extensão, tendo atualmente 26 metros de altura e mais de 3,7 mil anos - e os Figueirinha I e II, na praia de Nova Camboriú, os três em Jaguaruna. Segundo análise de camadas intermediárias enviadas a um laboratório dos Estados Unidos em maio de 2010, o Figueirinha I, por volta de 2510 a.C., já teria dois terços de seu tamanho atual - tornando a formação deste sambaqui contemporânea a construção da Pirâmide de Quéops.
Sambaquieiros As populações que construiriam os sambaquis no Brasil são também conhecidos como sambaquieiros. Maria Mercedes Martinez Okumura pesquisou sobre a cultura e a biologia das populações dos sambaquis, com o título “Diversidade morfológica craniana, micro-evolução e ocupação pré-histórica da costa brasileira”, para compreender a ocupação do litoral com análise morfológica craniana no formato métrico e não-métrico dos sítios pré-cerâmicos e cerâmicos, guardados em instituições brasileiras. Assim atestou duas hipóteses: os povos pré-cerâmicos dos sambaquis representariam em termos regionais pelo menos dois grupos com morfologias cranianas diferentes, cuja dispersão coincidiria com dois bolsões regionais, um ao norte e outro ao sul de São Paulo; no litoral de Santa Catarina teriam existido duas populações pré-cerâmicas com morfologia diferentes e, com o aparecimento da cerâmica, ao norte de Santa Catarina teria surgido uma nova morfologia craniana. Assim a pesquisa apontam para dois grupos pré-cerâmicos principais, cuja clivagem se daria na região do Paraná. Em relação aos grupos ceramistas em Santa Catarina, pareceria haver uma relativa diferenciação entre estes e as séries sem cerâmica da região.
A maioria dos grupos que habitaram as Américas a partir da segunda metade do período Holoceno tinham a priori a aparência física mongolóide. os grupos antigos que habitaram a costa brasileira eram próximos e também associados a morfologia mongolóide; ou seja, traços faciais mais assemelhados à populações asiáticas, como ocorre com os demais grupos indígenas brasileiros.
thumb|250px|Reconstrução facial 3D de um sambaquieiro Em 2018 foi publicada uma reconstrução facial digital realizada a partir de um crânio de sambaquieiro proveniente do Museu do Homem do Sambaqui. Tal projeto de reconstrução digital, apelidado "Sambaqui de 5000 anos" foi fruto de uma parceria envolvendo o IPHAN DF e o 3D designer Cícero Moraes. Inicialmente foram efetuadas 32 fotografias do crânio em um círculo completo. Estas fotos foram enviadas a um algoritmo computacional que digitalizou a peça em 3 dimensões pela técnica de fotogrametria. Uma vez que o crânio estava virtualizado, o artista pode posicionar uma série de pinos, conhecidos como marcadores de espessura de tecido mole. Estes marcadores informa qual a espessura da pele em determinados pontos do crânio. Junto a estes dados foram modelados os músculos principal e a pele moldou-se sobre os pinos e músculos com o auxílio da escultura digital. Ao final pigmentou-se a pele e os cabelos foram inseridos.
Sambaquis em Niterói
Sambaqui de Camboinhas O Sambaqui de Camboinhas é um importante sítio arqueológico localizado na região oceânica do município de Niterói, inserido próximo à lagoa de Itaipu. Ainda que esteja situado em Camboinhas, é por vezes referido como Sambaqui de Itaipu, em razão de sua proximidade com o local e com a sua associação ao Museu Arqueológico de Itaipu.INSTITUTO BRASILEIRO DE MUSEUS (IBRAM). Livreto do Museu de Arqueologia de Itaipu. Rio de Janeiro: IBRAM, 2014.
Trata-se de um bem de grande relevância cultural, histórica e arqueológica, associado às populações sambaquieiras que habitaram o litoral brasileiro há milhares de anos. A datação mais antiga já obtida para o sítio remete a aproximadamente 7000 anos antes do presente, o que indica uma ocupação muito antiga da região da Baía de Guanabara e reforça a importância da área dentro dos estudos sobre a presença humana no litoral brasileiro.GASPAR, Maria Dulce; BIANCHINI, Gina Faraco; LOPES, Mariana Samor; BERREDO, Ana Luiza. A ocupação sambaquieira no entorno da Baía de Guanabara. Revista de Arqueologia, v. 32, n. 2, ed. esp. Museu Nacional (v. 1), p. 36-60, 2019. Esses grupos construíram os sambaquis a partir do acúmulo de conchas, restos orgânicos e materiais diversos, formando estruturas que ainda hoje levantam debates sobre suas funções, que podem estar ligadas tanto a práticas funerárias quanto a formas de organização simbólica da paisagem.VIEIRA, Luiza Rodrigues; LAMOUNIER, Alex Assunção. Paisagem em fluxo: Uma análise para a orla de Itaipu. In: Encontro Latino-americano e Europeu sobre Edificações e Comunidades Sustentáveis (euro ELECS), 6., 2025. 2025. p. 1–10. Disponível em: https://eventos.antac.org.br/index.php/euroelecs/article/view/7942. Acesso em: 29 abr. 2026.
O primeiro registro do local, elaborado por Ondemar Dias, resultou na identificação do sítio de Duna Grande no início da década de 1960. A descoberta está descrita em alguns documentos indicando o ano de 1962 e outros o ano de 1963. Esse sítio foi designado como Sítio Arqueológico de Itaipu, como consta na ficha de registro de pesquisa arqueológica de 11 de novembro de 1968, assinada por Lina Kneip e Maria da Conceição de Moraes Coutinho.DIAS JUNIOR, Ondemar Ferreira. Notas sobre pesquisas arqueológicas no Estado da Guanabara e do Rio de Janeiro. Publicações avulsas. Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, 6: 89-101, 1967.DIAS JUNIOR, Ondemar Ferreira. Resultados preliminares do segundo ano de pesquisas no estado do Rio de Janeiro. In: Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas 2. Resultados preliminares do segundo ano 1966-1967. Publicações avulsas, Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, 10, 1969.
O sítio está inserido em uma área que reúne outros elementos de valor histórico e ambiental, como remanescentes de Mata Atlântica e vestígios de ocupações mais recentes, o que contribui para que a região de Itaipu seja compreendida como um território de camadas sobrepostas em uma rugosidade temporal. Nesse contexto, o sambaqui se destaca como patrimônio arqueológico fundamental para a compreensão das formas de vida anteriores à colonização. A área também passou a ser ocupada pela comunidade indígena Guarani-Mbyá, que chegou em 2008 e inicialmente estabeleceu a aldeia Tekoá Itarypu. Após um incêndio criminoso que destruiu as primeiras estruturas, a comunidade se reorganizou e reconstruiu o espaço, passando a denominá-lo Tekoá Mboy-ty, ou “Aldeia Semente”. É importante ressaltar que a presença indígena trouxe novos significados ao território, incluindo a valorização dos sambaquis como locais de memória ancestral e a reivindicação de proteção da área frente às pressões externas.PISSOLATO, Elizabeth; DIAS, Lucília da Glória; MACHADO, Rafael Siqueira. Camboinhas: debates em torno de um “lugar indígena” e da “cultura”. Principia, Juiz de Fora, v. 16, p. 101-110, jan./dez. 2012. Esse processo também evidenciou os conflitos envolvendo a ocupação do solo, a preservação ambiental e a especulação imobiliária na região. Mais recentemente, com a Lei nº 3905/2024, o debate sobre o uso do território voltou a ganhar força em Niterói, incluindo áreas sensíveis como o Sambaqui de Camboinhas e outros sítios arqueológicos próximos. Nesse cenário, o local se mantém como um espaço de importância não apenas arqueológica, mas também cultural e política, atravessado por disputas contemporâneas sobre preservação, memória e uso do território.PISSOLATO, Elizabeth; DIAS, Lucília da Glória; MACHADO, Rafael Siqueira. Camboinhas: debates em torno de um “lugar indígena” e da “cultura”. Principia, Juiz de Fora, v. 16, p. 101-110, jan./dez. 2012.
Sambaquis em Cabo Frio
Sambaqui do Forte (Sítio Arqueológico Morro do Índio) O Sambaqui do Forte, também conhecido como Sítio Arqueológico Morro do Índio, é um sítio arqueológico localizado na Praia do Forte, no bairro da Passagem, no município de Cabo Frio, Rio de Janeiro. Trata-se de um patrimônio de relevância histórica e arqueológica constituído pelo acúmulo de conchas de moluscos, ossadas e utensílios descartados por populações pré-históricas que habitavam o litoral fluminense. O local foi descoberto em 1965 pela professora Maria da Conceição de Moraes Coutinho Beltrão, do Museu Nacional. As investigações sistemáticas e escavações no terreno começaram em 1970, com campanhas de destaque entre 1971 e 1974 sob a chefia da arqueóloga Lina Maria Kneip, também do Museu Nacional.
O acervo obtido nas pesquisas de Lina Kneip reuniu cerca de 5 mil peças do período pré-histórico e do grupo Tupinambá, incluindo ossadas, rochas e artefatos que auxiliavam na compreensão do modo de vida das populações sambaquieiras e da formação geológica da Região dos Lagos. Grande parte desses documentos e objetos recolhidos na década de 1970 foi destruída no incêndio de grandes proporções que atingiu o Palácio de São Cristóvão, sede do Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, em setembro de 2018.
Ao longo de sua história, o sítio sofreu contínua degradação decorrente do avanço da urbanização e da especulação imobiliária na orla de Cabo Frio. No início dos trabalhos de campo na década de 1970, a estrutura já se encontrava reduzida a um quarto de seu volume original por causa da abertura de uma rua a leste, da construção de moradias ao sul e de obras do antigo Palace Hotel ao norte. Em 2006, o local sofreu novos danos durante a demolição promovida pela prefeitura para remover a estrutura abandonada do hotel, evento que levou o Ministério Público Federal (MPF/RJ) a mover uma ação civil pública exigindo a recomposição ambiental, o cercamento adequado da área e o fim do uso indevido do espaço como estacionamento.