thumb|Exemplar da chamada Bíblia Maldita, mostrando em destaque o erro em Êxodo 20:14.

A Bíblia Maldita (em inglês: Wicked Bible), também conhecida em inglês como Adulterous Bible ("Bíblia Adúltera") ou Sinners' Bible ("Bíblia dos Pecadores"), é a denominação dada a uma impressão de 1631 da Bíblia do Rei Jaime, produzida em Londres pelos impressores reais Robert Barker e Martin Lucas. Tornou-se célebre por um erro tipográfico nos Dez Mandamentos, no qual a palavra inglesa not ("não") foi omitida em Êxodo 20:14.

Com a omissão, a frase que deveria dizer Thou shalt not commit adultery ("Não cometerás adultério") foi impressa como Thou shalt commit adultery ("Cometerás adultério").

Embora relatos populares tenham frequentemente afirmado que foram impressos mil exemplares, pesquisas recentes observam que o tamanho da impressão que continha o erro de Êxodo é desconhecido.

Impressão e erros

Robert Barker e Martin Lucas ocupavam a função de King's Printers, ou impressores do rei, e detinham direitos sobre a impressão e comercialização de Bíblias em inglês na Inglaterra.

A edição de 1631 foi criticada não apenas pelo erro nos Dez Mandamentos, mas também pela qualidade geral da impressão. Registros do período mencionam numerosos erros, papel de baixa qualidade, problemas com a tinta e deficiências na revisão dos textos.

Documentos judiciais da época registram ainda outra leitura considerada particularmente grave em Deuteronômio 5:24. No lugar de greatnesse ("grandeza"), algumas impressões teriam apresentado great-asse, expressão que poderia ser interpretada como "grande asno".

Pesquisas bibliográficas mais recentes indicam, contudo, que os dois erros não aparecem necessariamente nos mesmos exemplares. A impressão catalogada como STC 2296 contém o erro Thou shalt commit adultery, enquanto evidências do segundo erro aparecem em exemplares de outra impressão de 1631, identificada como STC 2297.3.

Processo contra os impressores

Após a descoberta dos problemas da edição, Barker e Lucas foram responsabilizados perante a Court of High Commission, tribunal eclesiástico que também supervisionava questões relacionadas à impressão religiosa. O processo ocorreu em 1632.

Relatos posteriores afirmaram por vezes que o caso teria sido julgado pela Star Chamber, mas os registros judiciais indicam que essa identificação é incorreta.

Os impressores receberam multas que, juntas, somavam 300 libras esterlinas. A punição esteve relacionada não apenas ao famoso erro sobre o adultério, mas também à quantidade de falhas e à baixa qualidade da produção.

Nos anos seguintes, a cobrança da multa foi utilizada como forma de pressionar os impressores a estabelecer uma prensa destinada à publicação de textos em grego. Carlos I posteriormente concordou em perdoar a multa em troca da realização desse projeto.

Ao contrário de uma narrativa difundida posteriormente, não há evidência de que Barker e Lucas tenham perdido a patente para imprimir Bíblias como punição pelo episódio. Os dois continuaram envolvidos na atividade de impressão após o processo.

Destino dos exemplares

Também se tornou comum a afirmação de que as autoridades ordenaram a destruição ou queima de todos os exemplares defeituosos. A documentação da Court of High Commission, contudo, registra outro destino para os livros apreendidos.

Em junho de 1635, o tribunal autorizou a devolução dos exemplares aos próprios impressores, sob a condição de que os erros mais graves fossem corrigidos antes que os livros voltassem a ser comercializados.

Algumas das cópias sobreviventes apresentam correções feitas nos locais onde ocorreram os erros, o que pode estar relacionado a essa determinação judicial.

Redescoberta e denominação

A denominação Wicked Bible surgiu mais de dois séculos depois da publicação. Em 1855, o livreiro norte-americano Henry Stevens apresentou à Society of Antiquaries of London um exemplar da edição com o erro em Êxodo 20:14 e passou a chamá-lo de Wicked Bible.

O exemplar apresentado por Stevens havia sido localizado nos Países Baixos e anteriormente pertencera a John Canne, ministro não conformista inglês que trabalhou como impressor em Amsterdã. Posteriormente, esse exemplar entrou para a coleção da Biblioteca Pública de Nova Iorque.

A identificação dessa cópia permitiu que bibliotecários, pesquisadores e negociantes de livros raros começassem a reconhecer outros exemplares da mesma impressão.

Exemplares sobreviventes

Durante muitos anos, estimou-se que menos de dez exemplares da Bíblia Maldita tivessem sobrevivido. Pesquisas realizadas no âmbito do Wicked Bible Project, da Universidade de Canterbury, ampliaram consideravelmente esse número.

Em 2024, o projeto registrava pelo menos 25 exemplares sobreviventes, dos quais 18 pertenciam a instituições públicas ou acadêmicas. Há cópias preservadas em coleções como a Biblioteca Britânica, a Biblioteca Pública de Nova Iorque, a Universidade de Leicester e outras bibliotecas e museus do Reino Unido, dos Estados Unidos, Canadá, Irlanda, Itália e Nova Zelândia.

Uma das cópias identificadas mais recentemente encontra-se na Nova Zelândia. O exemplar pertencente ao Phil and Louise Donnithorne Family Trust está em empréstimo de longa duração à Universidade de Canterbury e tornou-se objeto de um projeto específico de conservação e pesquisa.

Ver também Bíblia do Rei Jaime Erro tipográfico Dez Mandamentos História da Bíblia

Categoria:Versões e traduções da Bíblia