A Igreja de São João Baptista ou Igreja Paroquial do Lumiar situa-se em Lisboa, na freguesia de Lumiar e integra o núcleo do Paço do Lumiar, em conjunto com o Palácio do Monteiro-Mor, o Museu Nacional do Traje e o Museu Nacional do Teatro e da Dança. O amplo adro, integra um cruzeiro datado de 1619 conforme inscrição na sua base.Igreja de Paroquial do Lumiar na base de dados SIPA

História

Origens A génese do primitivo templo e da freguesia ocorreu no início de Duzentos, durante o reinado do monarca D. Afonso III. A instituição da igreja paroquial data de 2 de Abril de 1266, sendo efectuada sob a chancelaria do então prelado lisboeta D. Mateus. Esta primeira paróquia assentava em propriedades reais e assumia uma modesta tipologia de nave única e invocava São João Batista e o Apóstolo São Mateus. A sua jurisdição estendia-se à Charneca, à Ameixoeira e a Telheiras, para além do território afecto a Nossa Senhora do Carmo, constituindo um imenso espaço pastoral que recebia a comum denominação de Paróquia do Paço dos Liminares.

A igreja durante o reinado de D. Dinis No ano de 1307, o rei D. Dinis encarregou-se da apresentação do pároco, motivada pela existência, nas proximidades, de uma propriedade administrada pelo referido monarca e herdada pelo pai. Posteriormente, o monarca viria a outorgar o dito paço ao seu descendente ilegítimo, o infante D. Afonso Sanches, actualizando o nome da residência para Paços do Infante D. Afonso Sanches.

Em 1318, apesar da objecção do bispo de Lisboa D. Frei Estêvão, o rei determinou que os direitos de padroado da igreja transitassem para a tutela da Ordem de São Bernardo, estabelecida no novo Mosteiro de São Dinis de Odivelas. Isto concretizou-se em Agosto de 1334, quando a consorte viúva do referido bastardo, D. Teresa Martins (Senhora de Albuquerque), cedeu irrevogavelmente as primazias do templo às freiras odivelenses, como acto de expiação pelas almas de seu cônjuge e de seu sogro régio.

A posse nobiliárquica dos terrenos sofreu novo revés a meio da centúria, graças à acção punitiva de D. Afonso IV, que apreendeu as posses do irmão.

O culto de Santa Brígida A veneração a Santa Brígida elevou a importância da paróquia. A relíquia craniana desta personagem terá sido encomendada da distante Ibérnia (Irlanda) por instâncias de D. Dinis, trazida por cavaleiros e guardada ciosamente no santuário a partir do último quartel do século XIII. Atendendo ao padroado desta figura cristã sobre a fertilidade dos campos e a segurança da pastorícia, as romarias populares multiplicaram-se e ditaram a instituição formal de uma feira franca e de uma cerimónia de bênção de gado, actos que, a partir de 1283, ocupavam anualmente o terreiro contíguo à frontaria.

Existe uma inscrição, no templo, referente à lenda de Santa Brígida:AQVI NESTAS TRES SEPVLTVRAS IÁZẼ ENTERADOS OS TRES CAVALROS IBERNIOS Q TROVXERÃ A CABEÇA DA BẼ AVẼTVRADA S BRIZIDA VIRGEM NATVRAL D IBERNIA CVIA RELIQVIA ESTA NESTA CAPELLA PA MEMO RIA DO QVAL HOS OFICIAIS DA MESA DA BEAVENVRADA S MÃODA RÃO FAZER ESTE IANRO D 1283Leia-se: Aqui nestas três sepulturas jazem enterrados os três cavaleiros hibérnios [irlandeses] que trouxeram a cabeça da bem-aventurada Santa Brígida, virgem, natural da Hibérnia [Irlanda], cuja relíquia está nesta capela; para memória do qual os oficiais da mesa da bem-aventurada Santa mandaram fazer este [monumento/túmulo], [em] Janeiro de 1283miniatura||Legenda evocando a lenda de Santa Brígida na Igreja Paroquial do LumiarA dimensão do culto foi tal que as orações atraíram repetidamente a corte à periferia; prova disso consubstancia-se na prolongada estadia que o monarca D. João III realizou nos vales da vizinha Alvalade no Outono de mil quinhentos e cinquenta e um, com o singular fito de visitar e rogar preces ao orago irlandês.

A igreja quinhentista Foi, contudo, no dealbar do século XVI que o conjunto arquitectónico assistiu a uma profunda metamorfose. Durante a vigência manuelina e no seguimento da vontade de D. João III, o primitivo e acanhado traçado da ermida estendeu-se em três naves repartidas por arcarias contínuas. Da campanha renascentista subsistem vários elementos, como o pórtico colateral de feição flamejante e a notável pia baptismal (de 1542). O mestre canteiro João Mateus executou em 1546 o púlpito de pedra adossado ao fuste de uma das colunas do perfil direito.

Documentos da época detalham as campanhas de edificação da capela originariamente afecta a São Valentim e referem a utilização de acessos através de portas travessas viradas a Norte e a Sul, para além da menção precoce a um campanário distinto da torre actual.

A igreja barroca No início do século XVII procedeu-se à fundação de um pórtico principal de inspiração estritamente clássica e ao metódico revestimento dos paramentos laterais com painéis azulejos axadrezados. O coroamento destas obras prolongou-se pela edificação do coro-alto, apetrechado com dois órgãos em 1619, e pelo levantamento do cruzeiro no exterior ajardinado — aqui convergiam as hordas de ovelhas e bestas na data das festividades agrícolas.

É curioso notar que inspecções eclesiásticas à época criticavam as instâncias e o clero por sucessivos desleixos, urgindo a construção imediata de vedações em redor do adro de modo a acabar com a passagem de carroças sobre o cemitério improvisado na terra nua.

Entretanto, até ao século XVIII, as empreitadas focaram-se na retabulística. Em meados de Agosto de 1699 firmaram-se ajustes com o ensamblador Matias Rodrigues de Carvalho para a construção do altar-mor barroco; coube ao pintor José Ferreira de Araújo a ornamentação brutesca da abóbada capelar. Regista-se ainda de 1707 a cobrança dos dividendos devidos pelo douramento da capela basilar por António de Oliveira Bernardes — esta obra arrastar-se-ia perto de cinco décadas.

Aquando do terramoto de 1755, os esteios principais evidenciaram inusitada resistência, sendo os danos limitados: "apenas padeceram de algum estrago a frontaria e a torre". A torre sineira foi edificada passado uns anos em 1761.

Regista-se que por esta altura, existem na freguesia seis irmandades: do Santíssimo Sacramento, do Espírito Santo, de Nossa Senhora da Conceição, de Nossa Senhora do Rosário, de Santa Brígida e das Almas do Purgatório.

A confraria de Santa Brígida contratou em 1780 o mestre ourives Bernardino António de Bastos para cinzelar um cofre-relicário, folheado em prata sobre douramento e embutidos de cristais límpidos, com a finalidade exclusiva de encastoar a relíquia na sua capela lateral, expondo-se à comunidade apenas em dias cerimoniosos. Por volta da mesma altura, o mestre André Gonçalves estampou-se as padieiras interiores com figurações alusivas à biografia do padroeiro.

Data ainda do século XVIII a execução da pintura decorativa do tecto da Capela de Santa Brígida, da autoria de Jerónimo de Barros Ferreira.

O saque do século XIX Como consequência da instabilidade político-social do país durante o primeiro quartel do século XIX, deu-se um assalto à igreja a 10 de Novembro de 1822. No lado voltado a sul, foi gravado na pedra um epigrama, lendo-se:POR AQVI SAHIO / O ROBO / DO DEZACATO / Q. SE FEZ EM Q P 10 / DE NOVEMBRO DE / 1822 / PA PERPETVA MEMORIA / P I D C

A igreja actual: incêndio e reconstrução A 7 de Fevereiro de 1932, um incêndio voraz soterrou para sempre grande parcela do acervo cerâmico da época manuelina e destruiu inúmeras obras-primas da pintura e da talha maneirista. Leu-se n'O Século:[O templo] ficou completamente destruído, salvando-se apenas o tesouro e alguns paramentos… do exterior ninguém faz ideia das proporções do sinistro... as colunas e mármore rebentaram com o calor, o mesmo acontecendo com os azulejos; as telas e os painéis desapareceram, a obra de talha ficou reduzida a cinzas.O perímetro interno da antiga capela e altar de Santa Brígida conseguiu resistir ao fogo perfeitamente, no que foi apontado pelos fiéis da época como uma espécie de milagre.

A angariação de fundos para reconstruir o edifício foi rápida. Obteve muitas subscrições e o apoio de notáveis coordenados pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, que controlou rigorosamente a contabilidade dos salários dos operários e da compra de matérias-primas. O projecto foi dirigido pelo arquitecto Tertuliano Marques, priorizando o aproveitamento da arcatura restante e o respeito pela estética original. Como a decoração antiga ardeu, recolheram-se materiais de outras igrejas. Destacam-se o guarda-vento, resgatado provisoriamente da Sé de Lisboa; os douramentos do arruinado convento lisboeta de Nossa Senhora da Estrela, colocados nas capelas do transepto; e o altar monumental proveniente das ruínas do convento do Quelhas, instalado na boca da tribuna principal.

A nave ficou equipada para o Natal de 1934. A consagração e a inauguração ocorreram no Verão de 1935, numa cerimónia sumptuosa presidida e abençoada pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira. Após a reconstrução, reorganizou-se o arquivo paroquial, cujos documentos históricos — incluindo cantares de Eucaristia, alvarás de missa e compêndios notariais — foram inventariados por Cordeiro de Sousa em 1958. Nas últimas décadas, o edifício sofreu alterações pontuais para cumprir as directivas do Concílio Vaticano II.

Descrição

Exterior A igreja apresenta-se como uma estrutura isolada e de grande destaque no tecido urbano, implantada num terreiro ligeiramente inclinado para Nordeste. O edifício, de massa predominantemente horizontalista apenas interrompida pela verticalidade da torre sineira, possui uma planta longitudinal composta por um corpo de três naves escalonadas, divididas em cinco tramos, ao qual se adossa uma capela-mor mais estreita. O conjunto é envolto por um amplo adro, parcialmente murado com plintos de cantaria e protegido por grades metálicas defronte da fachada principal.

A volumetria é articulada por diversos corpos anexos que se distribuem pelas faces laterais. A Norte, situam-se o baptistério e a emblemática Capela de Santa Brígida, enquanto a Sul se encontram a sacristia, de formato rectangular, e várias dependências paroquiais de volumes escalonados. As coberturas do templo são diferenciadas, variando entre telhados de uma, duas e três águas, culminando no coruchéu bolboso que encima a torre. As fachadas externas encontram-se rebocadas e pintadas de branco, com cunhais apilastrados e cornijas realçadas a amarelo, assentando sobre um embasamento cinzento que se adapta às irregularidades do solo.

Fachada principal Voltada a Oeste, a fachada principal reflecte a organização interna das naves através de três panos escalonados, separados por pilastras coroadas por pináculos piramidais. O pano central é rematado por uma empena contracurvada de influência borromínica, em cujo vértice se ergue uma cruz latina metálica sobre um plinto galbado. Neste eixo central rasga-se o portal de verga recta, emoldurado por cantaria e ladeado por pilastras jónicas que sustentam um entablamento. Sobre este, destaca-se um nicho em arco de volta perfeita, enquadrado por pilastras toscanas e aletas, que alberga a imagem do orago São João Baptista; o conjunto é sobrepujado por um janelão rectilíneo protegido por grades e um frontão triangular interrompido por outra cruz latina. Os panos laterais da fachada são cegos, encerrando o perfil em meia-empena.

Torre sineira A torre sineira, construída em cantaria de calcário, eleva-se à esquerda em três registos distintos. O primeiro é rasgado por uma fresta, o intermédio permanece cego e o superior, separado por uma cornija, apresenta ângulos facetados ornados com fogaréus. Em cada uma das faces deste último piso, abrem-se arcos de volta perfeita para os bronzes, sendo o conjunto coroado pela referida cobertura bolbosa.

Fachada lateral norte