O incêndio no Museu Nacional foi um incêndio de grandes proporções que atingiu a sede do Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, na noite de 2 de setembro de 2018, destruindo quase a totalidade do acervo histórico e científico construído ao longo de duzentos anos, e que abrangia cerca de vinte milhões de itens catalogados. Além do seu rico acervo, também o edifício histórico que abrigava o Museu, antiga residência oficial dos Imperadores do Brasil, foi extremamente danificado com rachaduras, desabamento de sua cobertura, além da queda de lajes internas.
Antecedentes thumb|O edifício do Museu Nacional, em 2010. O Museu Nacional apresentava deficiências na segurança contra incêndios. Em uma fiscalização feita em 15 de setembro de 2014, o Ministério da Transparência e a Controladoria-Geral da União (CGU) constataram que a instituição não tinha laudo atualizado de vistoria do Corpo de Bombeiros. A CGU concluiu que a visita dos bombeiros e a emissão do laudo seria medida importante para garantir a segurança das instalações. No mês seguinte à fiscalização, o museu informou à CGU que uma parceria havia sido firmada entre o Ibram (Instituto Brasileiro de Museus) e o Corpo de Bombeiros do Rio para a realização de uma visita técnica. Em 2004, já havia ocorrido um alerta por parte do governo estadual do Rio de Janeiro de que o Museu Nacional corria risco de incêndio, associado à má qualidade das instalações elétricas do edifício.
Os repasses do governo federal ao museu também haviam caído praticamente à metade em cinco anos: de 1,3 milhão de reais, em 2013, para 643 mil reais, em 2017. Os dados foram levantados pela Comissão de Orçamento da Câmara dos Deputados, com base no Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira) do governo federal pela Folha de S.Paulo, que corrigiu os valores pela inflação do período. Com os cortes, o museu apresentava sinais de má conservação, como paredes descascadas e fios elétricos expostos. Em 2018, até julho, somente 71 mil reais foram transferidos para o museu. O museu havia completado duzentos anos em junho de 2018, em meio a uma situação de abandono. O vice-diretor do museu, Luiz Fernando Dias Duarte, referiu o descaso sofrido pela instituição ao longo de sucessivos governos.
A UFRJ, que administra a instituição, reduziu de 709 mil reais, em 2013, para 166 mil reais, em 2017, o desembolso com o funcionamento do museu, segundo o levantamento da Câmara. O pró-reitor de Planejamento e Finanças da UFRJ, Roberto Gambine, disse que a universidade não tem recursos suficientes para fazer a manutenção de seus 15 prédios tombados no Rio e disse temer que o destino dos demais edifícios seja o mesmo do Museu Nacional. O reitor da UFRJ, Roberto Leher, afirmou que já tinha assinado com o BNDES um contrato para receber recursos para uma reforma, que incluía um sistema para prevenção de incêndios, mas não houve tempo para a liberação da verba. O reitor também afirmou que a UFRJ não tinha condições financeiras de manter a brigada de incêndio durante 24 horas no museu.
Incêndio miniaturadaimagem|alt=|Vista mais próxima, onde se nota grandes labaredas à esquerda. Em 2 de setembro de 2018, logo após o encerramento do horário de visitação, um incêndio de grandes proporções atingiu todos os três andares do prédio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, cidade do Rio de Janeiro. Os bombeiros foram acionados às 19h30, chegando rapidamente ao local.
Às 21 horas, o fogo encontrava-se fora de controle, com grandes labaredas e estrondos ocasionais, sendo combatido inicialmente por bombeiros de quatro quartéis, número depois ampliado para doze quartéis. Por volta das 21h15, uma equipe especializada dos bombeiros entrou no prédio para tentar bloquear áreas ainda não atingidas pelas chamas, e avaliar a extensão dos estragos.
Oitenta bombeiros de doze quartéis combateram as chamas, que começaram por volta das 19h30. O incêndio foi controlado mais de seis horas depois, devido à dificuldade pela falta de água nos hidrantes próximos, tendo sido necessário captar em um lago próximo e transportar por caminhões-pipa até o ponto de combate. Duas viaturas auto-escada estavam sendo usadas, com dois caminhões-pipa se revezando no fornecimento de água para o trabalho dos bombeiros.
Dezenas de funcionários do museu acompanhavam o combate às chamas. Dois andares do edifício estavam já bastante destruídos e o teto havia desabado. Segundo Edson Vargas da Silva, bibliotecário e funcionário há 43 anos no museu que acompanhava o incêndio no local, “Tem muito papel, o assoalho de madeira, muita coisa que queima muito rápido”.
Consequências
Destruição do acervo thumb|esquerda|A reconstituição facial e o crânio de Luzia, "a primeira brasileira", estavam expostos no Museu e possivelmente foram destruídos
Os três andares do edifício foram bastante destruídos e o teto desabou. Segundo o vice-diretor do museu, Luiz Fernando Dias Duarte, toda a coleção da Imperatriz Teresa Cristina, os afrescos de Pompeia, o Trono do Rei do Daomé, assim como os acervos linguísticos foram perdidos. Entre os itens que se estimam destruídos pelo fogo está o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, achado em 1974 e batizado de Luzia. As coleções de paleontologia que ali se encontravam incluíam o Maxakalisaurus topai, um dinossauro encontrado em Minas Gerais e o primeiro de grande porte montado no Brasil. O acervo de etnologia contava com artefatos da cultura afro-brasileira, africana e indígena, como objetos raros do Tribo tikuna, além de itens polinésios, assim como o trono do rei africano Adandozan (1718-1818), doado pelos seus embaixadores ao príncipe regente, futuro D. João VI, em 1811.
O museu era administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, possuía caráter acadêmico e científico e era um reconhecido centro de pesquisa em história natural e antropológica na América Latina. Todo o trabalho de cerca de 90 pesquisadores que ali conduziam suas pesquisas foi perdido. Todo o Arquivo Histórico, que se encontrava armazenado num ponto intermediário do edifício, foi destruído, assim como duas exposições em duas áreas da frente do prédio principal. O levantamento completo dos danos ainda não pôde ser realizado dada a intensidade do fogo no local e o risco de explosões. Uma parte do acervo não se encontrava no prédio em chamas e não foi afetada. No entanto, o fogo terá consumido tudo o que se encontrava em exposição. O Zoológico do Rio de Janeiro, localizado muito próximo do local tampouco foi atingido. Os quatro seguranças que se encontravam trabalhando no local conseguiram escapar e não houve registro de vítimas.
Dano estrutural A Defesa Civil do município divulgou que, além da área interna do Museu Nacional, a parte próxima à fachada também estava interditada, pois existia o perigo de que duas estátuas no topo do edifício desmoronassem. Eram 23, e uma delas já havia caído. Existia o risco de colapso interno das paredes divisórias, que estavam sem amarração. Todas as paredes e lajes corriam o risco de cair, tendo sido isolada cada área de projeção da fachada devido ao risco de desprendimento de adornos, revestimentos e armações. A segurança das estátuas seria verificada e havia um isolamento interno, que só seria removido após a conclusão dos serviços de inspeção, demolição e mento emergencial em áreas com risco, e só depois disso, poder-se-ia permitir a remoção de detritos. Com o resfriamento, aumentava o risco de quedas internas porque a água facilitaria os deslizamentos, motivo pelo qual os bombeiros operavam do lado de fora. A Defesa Civil também salientou que esses detritos não poderiam ser removidos e descartados de maneira simples. Seria um segundo trabalho de arqueologia, realizado no próprio local. Seriam levados para um lugar seguro, após a eliminação dos riscos internos, para que os funcionários do museu pudessem encontrar algum material aproveitável do acervo.
Investigação O laudo final da Polícia Federal (PF) indicou que o incêndio foi causado por um sobreaquecimento causado por um curto circuito de um ar condicionado, decorrentes de instalação elétrica inadequada. A PF coordenou a investigação sobre as causas do incêndio. Peritos fizeram um escaneamento em três dimensões do prédio com um scanner a laser instalado na parte dianteira do Palácio São Cristóvão. Imagens feitas por drones e máquinas digitais também foram usadas para criar uma espécie de maquete tridimensional do prédio. Eventuais imagens gravadas por câmeras de segurança no prédio também foram buscadas para fornecer indícios sobre as causas do fogo. Por fim, a perícia analisou as condições das instalações elétricas do museu e seu estado de conservação.
Reações
Autoridades Governo federal thumb|O governo federal anunciou medidas para recuperação do Museu Nacional e melhorias nos demais museus O presidente da República, Michel Temer, disse que é "incalculável para o Brasil a perda do acervo do Museu Nacional. Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos brasileiros".
Em 10 de setembro de 2018, Temer anunciou a transformação do Instituto Brasileiro de Museus na Agência Brasileira de Museus (Abram) através de uma medida provisória. Outra MP criou fundos patrimoniais para financiar projetos de interesse público. As duas MPs terão força de lei, mas o Congresso Nacional terá 120 dias para analisar as duas medidas. Se a votação não acontecer no prazo, elas perderão validade. O governo federal também estuda a possibilidade de retirar da Universidade Federal do Rio de Janeiro a responsabilidade pela administração do museu. Segundo interlocutores do governo, a proposta ganhou força após pressão das empresas que se prontificaram a financiar a restauração do prédio e recuperação do acervo.
O ministro da Educação, Rossieli Soares, afirmou logo após o incêndio que o Ministério da Educação iria repassar imediatamente 10 milhões de reais para a Universidade Federal do Rio de Janeiro recuperar o museu. "Deveremos transferir com a maior rapidez possível. São os 10 milhões de reais, mais 5 milhões de reais que fazem parte do projeto executivo que ainda será definido. Temos prazo e urgência para iniciar esses passos de recuperação", avaliou Rossieli. Ele também afirmou que vai pedir ajuda internacional para montar um novo acervo para o museu.
Ao ser questionado sobre porque não foi feito nada antes, já que havia denúncias de que o prédio precisava de manutenções, Soares afirmou: "Não existia lei do teto de gastos entre 2014 e 2015 e foi nesse período que aconteceram os maiores cortes na educação. Então, o que determina mais se há cortes e contenção ou não é a crise financeira que nós vivemos. O que a gente lamenta é que, no momento de maior abundância financeira do Brasil, não houve a decisão à época de colocar os recursos financeiros para o museu. Um artigo específico da Lei de Diretrizes Orçamentárias que os recursos da Educação não podem ser menores e têm que ser reajustados pela inflação".
O ministro da cultura, Sérgio Sá Leitão, afirmou que o plano de recuperação tem quatro etapas já definidas: contenção das paredes, de segurança, de inventário, de tratamento e recuperação do acervo que ainda está no prédio; elaboração do projeto básico e do projeto executivo para a reconstrução do museu e para a aquisição do novos equipamentos; obra de recuperação e aquisição do acervo.