Em 6 de setembro de 2018, o então deputado federal Jair Bolsonaro sofreu um atentado durante um comício que promovia sua campanha eleitoral para a presidência do Brasil. Enquanto era carregado em meio a uma multidão de apoiadores, o deputado sofreu um golpe de faca na região do abdômen, desferido por Adélio Bispo de Oliveira.
Imediatamente após o ataque, Bolsonaro foi levado à Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, onde foi constatado que o esfaqueamento havia causado três lesões no intestino delgado e uma lesão em uma veia do abdômen que gerou uma forte hemorragia. Mesmo com a gravidade dos ferimentos e com uma grande perda de sangue, o presidenciável conseguiu sobreviver. Ao todo, Bolsonaro realizou quatro cirurgias relacionadas aos danos causados no atentado.
Adélio foi preso em flagrante pela Polícia Federal e conduzido para a delegacia central da cidade. Após investigação, a polícia concluiu que Adélio agiu sozinho no crime, sem ser orientado por um mandante. Em junho de 2019, a prisão preventiva de Adélio foi convertida em uma internação por tempo indeterminado na penitenciária federal de Campo Grande no Mato Grosso do Sul. A faca utilizada no atentado foi coletada pela Polícia Federal e atualmente está em exposição no museu da corporação em Brasília.
O atentado tem sido usado para a transmissão de teorias conspiratórias, tanto por apoiadores quanto críticos de Bolsonaro, e até pelo próprio político.
Contexto político
O país atravessa um período de polarização política. Em 2013, grandes manifestações populares, conhecidas como Jornadas de Junho, foram o cume da crise de representatividade política e despertaram a politização de grande parte da população. O povo estava mais politicamente alfabetizado para a eleição presidencial de 2014. Nesse período de eleição, acirravam-se os ânimos entre petistas e antipetistas, tendo a crise econômica no país como agravante. Novos grupos políticos, com ideologias diversas, entraram no debate, aumentando a polarização.
As redes sociais contribuíram para o aumento da polarização. No final de 2013, a direita se uniu em torno da questão da corrupção. Os que estavam na esquerda se atentaram aos programas sociais e serviços públicos. À medida que os partidos políticos começaram a colocar essas questões na frente e no centro de suas plataformas, a esquerda e a direita se separaram mais ainda. Em agosto de 2016, o impeachment de Dilma Rousseff dividiu as linhas partidárias, tornando a polarização maior ainda.
O professor de ciência política da USP Glauco Peres da Silva disse em entrevista que existe há tempo um clima de violência política no Brasil. Bolsonaro se utilizou de um discurso agressivo, mas não foi o promotor da grande indisposição para o diálogo que se constata. Segundo o especialista, tudo começou com a rivalidade entre o PT e o PSDB, a qual criou jargões como "coxinha" e "petralha", e também houve a inclinação da sociedade de linchar as pessoas mais do que fazer justiça.
Continuando, o cientista político lamentou a forma como se encaram as disputas políticas no Brasil, como se não fossem legítimas, como se não pudesse haver um grupo com um pensamento divergente, partindo-se então para a postura de deslegitimar os adversários. Contudo, o atentado poderia ser uma grande oportunidade de os candidatos pedirem calma e de toda a classe política declarar que a violência é inaceitável. Assim, mesmo os antagonistas de Bolsonaro deveriam ir às ruas para criticar duramente o comportamento vigente.
Apesar da facada e da abrupta mudança de rumos na campanha do candidato, que ficou impedido de ir às ruas e de comparecer a diversos eventos e debates, Jair Bolsonaro foi o candidato mais votado no primeiro turno, em 7 de outubro, com 46,03% dos votos válidos, à frente de Fernando Haddad (PT) com 29,28% dos votos. Os dois disputaram o segundo turno em 28 de outubro, no qual Bolsonaro foi eleito Presidente com 55,13% dos votos válidos, contra os 44,87% de Haddad.
Ataque Em 19 de agosto de 2018, Adélio Bispo chegou a Juiz de Fora vindo de Florianópolis, Santa Catarina, para, segundo ele, encontrar um emprego. Ele se hospedou em uma pensão e trabalhou como garçom em um restaurante por quatro dias. Adélio começou a planejar o atentado após saber da ida de Bolsonaro à cidade por meio de um outdoor anunciando a presença do candidato. Antes de cometer o ataque, ele fotografou os locais onde Bolsonaro estaria, como a Câmara Municipal de Juiz de Fora e a Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage.
A programação da campanha presidencial de Jair Bolsonaro para o dia 6 de setembro previu sua chegada a Juiz de Fora às 11 horas. Bolsonaro visitaria o Hospital Ascomcer e participaria de um almoço com lideranças empresariais. Em seguida, faria um ato público em frente à Câmara Municipal, no Parque Halfeld, e depois iria para a Praça da Estação, onde realizaria seu comício. Bolsonaro tinha a maior das equipes de segurança entre os presidenciáveis, com 21 policiais federais, o máximo que um candidato a Presidente da República tinha direito. 13 agentes acompanhavam Bolsonaro no momento do ataque. Outros 50 policiais militares reforçavam a segurança do ato em Juiz de Fora.
Em 6 de setembro, Adélio Bispo acompanhou as movimentações de Bolsonaro durante seu ato de campanha, tendo acesso ao hotel onde seria realizado um almoço com empresários. Ele carregava uma faca adquirida em Florianópolis, que estava envolta em um jornal e escondida dentro de uma jaqueta. A pretexto de fotografá-lo, segundo duas testemunhas, Adélio conseguiu alcançar o presidenciável durante a tarde, enquanto era carregado por apoiadores na Rua Halfeld, e, por volta das 15h25min, o esfaqueou no abdômen. Bolsonaro se contorceu, gritou e inclinou o corpo sobre outras pessoas que o seguiam. Um homem tentou cobrir o ferimento com uma camiseta. Segundo Bolsonaro, inicialmente ele sentiu "apenas uma pancada na boca do estômago" e que "[a] dor era insuportável. Parecia que tinha algo mais grave acontecendo". Logo após isso, Adélio foi preso em flagrante por um policial à paisana e levado a um prédio na mesma rua, enquanto os apoiadores do candidato ameaçavam o autor, antes de ir à delegacia da Polícia Federal da cidade. Recuperação miniaturadaimagem|Jair Bolsonaro em maio de 2019 mostrando a cicatriz deixada pelo atentado Bolsonaro, carregado por seus seguranças, foi encaminhado ao serviço de emergência da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora por volta das 15h40. A facada na região do abdômen causou três lesões no intestino delgado e uma perfuração no intestino grosso, com contaminação fecal. Além disso, houve uma lesão na veia mesentérica superior. A perda de cerca de dois litros de sangue provocou um choque hipovolêmico. A diretora técnica da Santa Casa, Eunice Dantas, disse que, por questão de centímetros, Bolsonaro não foi golpeado em "uma região com muitos vasos mais calibrosos" e que, se o intestino grosso fosse atingido frontalmente, uma artéria seria afetada e a situação seria "muito pior".
Cerca de 15 minutos após chegar ao hospital, Bolsonaro foi submetido a uma laparotomia exploradora, que é uma abertura na barriga para verificar os órgãos afetados. Durante essa cirurgia, a equipe médica estancou o sangramento e suturou as lesões no intestino delgado. Também foi feita uma colostomia temporária para desviar o fluxo de fezes e evitar infecções nos ferimentos do intestino grosso. A cirurgia durou três horas e Bolsonaro recebeu quatro bolsas de sangue.
Após a operação, Bolsonaro foi encaminhado para a unidade de terapia intensiva (UTI), já respirando sem o auxílio de aparelhos, e, em 7 de setembro, foi transferido para o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. No dia 11, houve melhora em seu quadro intestinal e fez a primeira refeição sem a sonda nasogástrica. Na ocasião, seu filho Flávio Bolsonaro publicou no Twitter que o deputado havia sido transferido para a unidade semi-intensiva. Contudo, no dia seguinte, Jair Bolsonaro teve a alimentação oral suspensa e passou por uma nova cirurgia para desobstruir o intestino delgado devido a uma aderência das paredes intestinais, retornando à UTI. Em 16 de setembro, foi novamente transferido para a unidade semi-intensiva. No dia 20, um dia depois de voltar a se alimentar oralmente, exames de tomografia detectaram a presença de líquido próximo ao intestino, o que motivou a realização de uma drenagem. O dreno foi retirado em 23 de setembro. No dia 21, iniciou dieta pastosa e, no dia 25, passou à dieta branda. Bolsonaro recebeu alta hospitalar em 29 de setembro.
A bolsa de colostomia foi retirada em janeiro de 2019. Entretanto, Bolsonaro foi internado múltiplas vezes por obstrução intestinal atribuídas a aderências decorrentes das cirurgias anteriores, como em julho de 2021, janeiro de 2022, janeiro de 2023 e abril de 2025—cuja cirurgia durou 12 horas. Também foram necessárias cirurgias para correção de hérnias incisionais em setembro de 2019 e setembro de 2023. Até abril de 2025, Bolsonaro acumulava 11 hospitalizações, 10 das quais relacionadas ao ataque.
Autor
O responsável pelo atentado foi preso em flagrante pela Polícia Federal e identificado como Adélio Bispo de Oliveira, nascido em Montes Claros e com então 40 anos. O agressor agiu sozinho e afirmou ter cometido o crime "a mando de Deus". Ele possui transtorno delirante persistente e apresenta "alucinações de cunho religioso, persecutório e político que se manifestam frequentemente".
Ao longo de sua vida, Adélio trabalhou em diversas cidades, incluindo Montes Claros, Uberaba, Santa Catarina e Curitiba, acumulando 39 empregos em 18 anos. Ele atuou em uma fábrica de cosméticos, onde participou de manifestações após a falência da empresa, além de ter trabalhado em outros empregos como em farmácias, em um restaurante japonês e como servente de pedreiro. No final da década de 1990, ingressou na Igreja da Fé de Uberaba, tornando-se obreiro em 1998, e, nos anos seguintes, pastor em uma igreja missionária de Montes Claros.
Politicamente, Adélio se identificava com a esquerda e foi filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) de Uberaba entre 2007 e 2014. Segundo o pastor Romildo Cândido—que recebera Adélio na Igreja da Fé—, ele desejava ser candidato a deputado e chegou a cogitar uma candidatura pelo PSOL, mas frustrou-se ao saber que a legenda decidiu lançar outro nome em 2014. Cândido já lhe recomendou que pleiteasse uma candidatura em um partido de direita, mas Adélio recusou a sugestão. Em seu perfil no Facebook, constam críticas à classe política em geral, ao presidente Michel Temer, a Jair Bolsonaro e diversas teorias da conspiração contra a maçonaria, ligando a organização a políticos e problemas sociais.
Investigações Logo após o incidente, a Polícia Federal abriu um inquérito contra Adélio Bispo, acusando-o de "atentado pessoal por inconformismo político" conforme a Lei de Segurança Nacional. Após uma audiência de custódia, a prisão em flagrante foi convertida em preventiva e, em 8 de setembro, ele foi transferido para a Penitenciária Federal de Campo Grande. O ministro extraordinário da Segurança Pública Raul Jungmann disse que três pessoas foram investigadas, mas que a PF estava trabalhando com a hipótese de que Adélio agiu sozinho.
A faca usada no crime foi adquirida pela PF de um vendedor de frutas que a obteve de uma testemunha que pegou a faca ensanguentada do chão. O Instituto Nacional de Criminalística apontou traços do DNA de Bolsonaro na arma, confirmando que foi a utilizada no ataque.