Original Fila Brasileiro (OFB) é uma raça de cães de fazenda, nativa do Brasil. A raça é composta pelos últimos exemplares de antigos cães de fila ainda preservados em fazendas do interior do Brasil e esquecidos durante décadas pela cinofilia oficial.
O nome designa o projeto de resgate do cão fila de tipo antigo, reunindo cães rústicos de fazendas isoladas com cães fila de linhagem antiga ainda preservada, agregando diversidade genética e recuperação de traços antigos e funcionais.
O Original Fila Brasileiro é reconhecido e registrado pela SOBRACI, e, apesar do nome similar, trata-se de uma raça à parte do moderno Fila Brasileiro. O termo “cão fila” é usado desde os primórdios como um adjetivo, no qual o verbo Filar significa “agarrar fortemente com os dentes”.
História Em carta citada em O Grande Livro do Fila Brasileiro, Antônio Roberto Nascimento chama atenção para o antigo Alão português, que era utilizado na Idade Média em Portugal para caçar ursos e javalis. Presente na literatura portuguesa, o Alão era descrito como um tipo ou qualidade de cão de presa, grande e poderoso. O livro aponta também que o cão de fila brasileiro, ou o seu ancestral, teria sido chamado de alão e molosso, pelos antigos. Desta forma, o alão português (ou alão ibérico) é apontado como um provável ancestral dos cães fila do Brasil. miniaturadaimagem|alt=|esquerda|Foto em preto e branco de filas antigos. A foto destes animais mostra que a estrutura destes cães antigos se mantém nos exemplares resgatados e é transmissível geneticamente. miniaturadaimagem|Cães grandes com orelhas cortadas caçando onça-pintada. Brasil, 1817. Obra de Maximilian zu Wied-Neuwied Após estudar profundamente a raça Fila brasileiro por 40 anos, por meio de trabalhos como o de Antônio Roberto Nascimento, Paulo Santos Cruz, Procópio do Vale, dentre outros, além de suas próprias experiências pessoais com a raça, o criador e pesquisador mineiro Antônio Carlos Linhares Borges chegou a conclusão de que havia a necessidade de preservar o antigo cão que deu origem ao Fila brasileiro moderno. Segundo ele, o fila antigo, ou original, vem chegando próximo à extinção devido à práticas de cruzamentos que anexaram genética e características de raças estrangeiras não aparentadas com o cão endêmico brasileiro.
A morfologia dos cães antigos revela contradições quanto a teoria mais antiga e difundida sobre a base genética do cão fila brasileiro, a qual especulava a participação de raças inglesas (mastim inglês, bloodhound e antigo bulldog), o que se mostra improvável. Antônio Borges acredita que esta crença de que raças inglesas foram a base do cão brasileiro acabou por inadvertidamente incentivar intercruzamentos do fila com tais raças estrangeiras, culminando no cão moderno, que está perdendo as características físicas e psicológicas que eram a essência do cão fila original. Com base em seus estudos, Antônio Carlos Linhares Borges defende que o cão de fila brasileiro é de origem puramente ibérica, em especial de origem portuguesa (cão alão português, ou alão ibérico).
Deste modo, Borges lançou em 2018 o livro Cão Fila Brasileiro - Preservação do Original, fruto de muitos anos de pesquisas e estudos, mostrando na obra os estudos comparativos, migratórios e históricos que dão fortes evidências da provável origem da raça ser no Alão português. O livro de Borges disseca cada uma das teorias de formação da raça mostrando as incoerências delas com base no contexto histórico de diferentes épocas, nas gravuras ou fotos (se existentes) de cães dos respectivos períodos e nos documentos históricos disponíveis.miniaturadaimagem|alt=|Filas como este com boa parte do corpo branco com marcações de cores na cabeça provavelmente têm algum ancestral com o Cão de gado transmontano, cuja coloração e marcação na pele são muito similares.Nesta obra, a origem do Alão ibérico e, consequentemente, dos cães do tipo molosso de Portugal e da Espanha está explicada na emigração dos alanos que foram forçados a se moverem da Ásia Central para outras regiões pela perseguição implacável dos hunos, entre elas a península ibérica por volta do ano 400, levando seus próprios cães conhecidos por sua ferocidade e tamanho, que acabaram cruzando com cães nativos locais. Isto explicaria a similaridade genética e física em diversos aspectos (como o crânio braquicéfalo, ossatura forte e pesada, grande porte e as barbelas no pescoço) entre cães como o Alão português, Cão de gado transmontano, Mastim espanhol, Dogue Canário, Dogo espanhol, etc, com os do oriente médio e do cáucaso como Bully Kutta, Kangal, Pastor do Cáucaso, Pastor da Geórgia, etc, pois parte dos alanos se dispersaram para estas regiões e seus arredores.
A teoria defendida neste livro é que para a formação do Cão de Fila brasileiro a grande imigração de portugueses ao Brasil no ciclo do ouro e do diamante foi essencial. Nesta época milhares de portugueses desembarcaram no país sendo que a grande maioria fixou moradia em Minas Gerais atraídos pela possibilidade de ficarem ricos, pois as principais e a maioria das minas de ouro e diamante foram encontradas neste estado. É estimado que num período de 100 anos, entre os séculos XVIII e XIX, chegaram ao Brasil por volta de 800 mil imigrantes lusitanos. Assim esta imigração em massa de Portugal trouxe grandes quantidades de cães que eram muito utilizados naquele país, principalmente cães rústicos e multifuncionais como é o caso do Alão português explicando o motivo do fila ter se formado e ter sido descoberto em Minas Gerais e não em outros estados brasileiros, pois a raça se desenvolveu justamente nas rotas das áreas de exploração destes minérios - nas cidades, fazendas e áreas comerciais que existiam em função da mineração interligado diferentes regiões - e eram locais que constantemente existiam fluxos de pessoas, consequentemente de cães também, negociando mercadorias e serviços entre elas. esquerda|miniaturadaimagem|alt=|Note-se a estrutura extremamente funcional e não atarracada dos filas antigos, além do focinho proporcional de acordo com o padrão OFB. O autor estudou sobre as prováveis origens do Cão de Fila brasileiro sob a orientação de André Oliveira e Antônio Ferreira - portugueses, cinófilos e pesquisadores da Universidade de Coimbra de Portugal - que forneceram ricos materiais de estudos, muitos documentos históricos e fotos de antigos cães portugueses, entre eles o Alão português do final do século XIX e início do século XX. O Alão português atualmente está extinto, mas as antigas fotos mostram que ele e o Fila brasileiro antigo são praticamente iguais. Provavelmente o Alão português em grande parte e o Cão de gado transmontano em menor parte são a base do Fila brasileiro, com alguns possíveis cruzamentos pontuais com outros tipos de cães portugueses de acordo com o livro. Para Borges, entender a verdadeira origem do Fila Brasileiro e preservar as características originais que fizeram do fila um cão de excelência por séculos é manter viva, no Brasil, a genética do extinto Alão português. Esta teoria apresentada no livro Cão Fila Brasileiro - Preservação do Original — devido aos embasamentos históricos, científicos e ao rico material encontrado em Portugal — tem ganhado cada vez mais aceitação.
Trabalho de resgate miniaturadaimagem|alt=|Fêmea de OFB em fazenda. A procura e resgate dos últimos exemplares que ainda correspondem à morfologia dos cães de fazenda dos anos 70 e 60 ainda está em andamento. Fora da cinofilia oficial, muitos exemplares extremamente típicos e rústicos ainda são encontrados no anonimato sendo úteis em fazendas do interior, afastados de contatos com raças estrangeiras, sendo selecionados por aptidões na lida das fazendas por gerações. Os exemplares encontrados são avaliados através da anatomia e temperamento, e se aprovados então são catalogados, recebendo o registro inicial da SOBRACI. Foi formado o Núcleo de Preservação do Original Fila Brasileiro (Núcleo OFB) presidido pelo próprio Antônio Carlos Linhares Borges, onde há a distribuição de cães registrados para unidades regionais de todo o Brasil com fins de reprodução e preservação controlada da raça. O modelo de cão procurado se espelha no padrão idealizado por Paulo Santos Cruz, Erwin Waldemar Rathsam e João Ebner em 1946.
Este trabalho vem despertando interesse e trazendo novos entusiastas para a raça, pretendendo resgatar e preservar o Fila brasileiro considerando o tipo original de fazenda, que é um tipo considerado mais antigo, primitivo ou aborígene utilizado para diversas tarefas no interior de Minas Gerais sendo - muitas vezes - um cão multitarefa, entre elas a lida diária com o gado e outros animais (filas eram bastante usados para buscar animais de fazenda vivos - como porcos, galinhas, etc. - sob comando), a guarda do rebanho e da propriedade e, em alguns casos, usado para farejar, perseguir e filar (imobilizar ou presar) a caça. É um cão que deve possuir saúde superior, estrutura excelente e funcional, bem constituído e sem excessos para o trabalho diário - sendo muitas vezes um cão que percorria vários quilômetros todos os dias na companhia de um cavaleiro para buscar o gado afastado em grandes propriedades ou acompanhava os funcionários em grandes rondas de manutenção pela fazenda - onde percorrer grandes distâncias eram uma das funções originais dos seus prováveis ancestrais de origem ibérica, principalmente o Alão português, sendo por isto um tipo de cão que normalmente se sobressaía no meio rural onde a vida no campo, o fazendeiro e o peão sempre selecionavam os mais aptos para o trabalho.
O motivo deste resgate é que o fenótipo do cão fila típico extremamente funcional ainda encontrado nas fazendas atualmente e que foi descoberto e resgatado das décadas de 40, 50 e 60 está se perdendo ao ser ignorado pelas entidades que foram feitas, supostamente, para preservar a raça, permitindo alterações corporais injustificadas na estrutura física do animal por vaidade humana. O cão fila brasileiro padrão CBKC atual sofreu modificações com o tempo e hoje são cães mais pesados, mais lentos, com problemas de saúde como displasia coxo-femural e torção gástrica e com claros traços de mestiçagem devidamente comprovados. Já os filas padrão CAFIB apesar desta entidade conservar um tipo de fila funcional e muito mais saudável e útil que o fila CBKC, também estão se afastando aos poucos dos antigos filas encontrados no meio rural. Antônio esclarece que na década de 70 já se notava algumas modificações corporais do fila de maneira sutil ou de modo explícito e isto influenciou em como ambas as entidades idealizaram o tipo de fila desejado.