miniaturadaimagem|237x237px|Vista da fachada da Villa Aymoré, e obra da Iole de Freitas. Foto por Sérgio Araújo, 2016. { "type": "FeatureCollection", "features": [
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] } Villa Aymoré é um complexo histórico fundada no início do século XX, inicialmente com uma proposta residencial. Atualmente, funciona um condomínio de escritórios e espaço cultural dedicados à arte contemporânea. Nela, se encontra a Galeria Aymoré, espaço expositivo de encontros entre o Arte Clube Jacaranda e o Instituto PIPA.
História
Do Estabelecimento da Cidade aos Tempos do Império (1555 – 1857) O local da Villa Aymoré é um dos mais antigos da cidade do Rio de Janeiro, em um morro que foi ocupado pelos franceses desde 1555, com ajuda dos índios tupinambás. Nesse morro que inicialmente se chamou morro do Leripe, foi construído uma fortificação francesa, nomeada de Uruçumirim, com o intuito de criar a França Antártica. A retomada do morro pelos portugueses – com apoio dos índios temiminós, sob comando de Arariboia – desencadeou uma batalha sangrenta que resultou à morte do fundador da cidade, Estácio de Sá. miniaturadaimagem|236x236px|Detalhe da Villa Aymoré, após sua reforma. Foto por Pedro Sias, 2016. Hoje em dia essa localização é conhecida como o morro da Glória, e foi nele onde se estabeleceu a Igreja da Nossa Senhora da Glória do Outeiro, em 1714 (com inauguração em 1730). Após a edificação da Igreja, a irmandade da Glória comprou terrenos próximos, como consta na escritura de 27 de abril de 1752 (1o Ofício de Notas), que incluiu um sobrado dentro de chácara e casa na frente, onde atualmente se encontra a Villa Aymoré. Desde então, a chácara fez parte do conjunto da Irmandade de Nossa Senhora da Glória, possivelmente como parte dos aposentos das freiras. Contudo, a casa pertenceu à Viana Jacome Ribeiro da Costa e sua esposa, Helena da Conceição, cujo filho, Joaquim José Ribeiro da Costa, passou à viver no endereço após seu casamento, até seu falecimento em 1809.
Não se sabe ao certo, em que momento, a aquisição do sobrado de Ribeiro da Costa pelo militar lusitano Boaventura Delfim Pereira, que veio ao Rio de Janeiro em 1810. Casou-se em 1812 com Maria Benedita de Castro Canto e Melo – irmã de Domitila, famosa amante de D. Pedro I. Sua trajetória militar o levou à honrosas nomeações, até que em 1826 foi condecorado como Barão de Sorocaba, ao lado de sua esposa. O casal teve oito filhos, porém o sétimo, Rodrigo Delfim Pereira, nascido no Rio de Janeiro em 1823, era filho ilegítimo de Ribeiro da Costa. Foi-se provado que a criança teve paternidade biológica do próprio Imperador do Brasil, D. Pedro I.
A Família Real era devota da Nossa Senhora da Glória, e passou a frequentar a Igreja desde sua chegada ao Brasil. O encontro entre D. Pedro I e Maria Benedita de Castro Canto e Melo possivelmente aconteceu durante as festas dos futuros Barões ao palacete da Ladeira da Glória. Reza a lenda, que Imperador e a Baronesa transitavam por uma passagem privada que ligava a Igreja da N.S. da Glória do Outeiro ao sobrado que se encontrava no final da alameda de numeração 4 da Ladeira da Glória. Hoje, um pequeno trecho desse caminho pode ser encontrado na Villa Aymoré, e vestígios dele são vistos através dos túneis vedados localizados nos jardins do Outeiro. miniaturadaimagem|325x325px|Busto da Baronesa de Sorocaba por Marc Ferrez. Antiga proprietária do imóvel na Ladeira da Glória, onde atualmente fica a Villa Aymoré. miniaturadaimagem|306x306px|Vista da Casa X, Villa Aymoré. Sem data. Boaventura Delfim Pereira faleceu no ano de 1829, e sua esposa viveu no endereço até sua morte em 1857. miniaturadaimagem|237x237px|Foto de Augusto Malta, com vista do Outeiro e Villa Aymoré no canto direito. Investimentos na virada do século (1855-1910) Em 1855, Cândido José Rodrigues Torres começou a alugar a chácara que pertencia à Irmandade, onde o aluguel explicitava que o terreno que o palacete ocupava não entrava no acordo, dando liberdade à Baronesa de Sorocaba a ter a possibilidade de vender a casa. Durante os últimos anos de sua vida, a Baronesa estava disposta à vender o casarão, mas a compra só foi de fato efetivada em 1860 (após a sua morte) por Joaquim José Ferreira. A negociação foi feita com o filho mais velho da Baronesa, Boaventura Delfim Pereira. Foi a partir desta aquisição que o imóvel fica compreendido como um só, do começo ao fim da alameda. Essa aquisição iniciou o ciclo de investimentos no local.
Esse novo proprietário comprou novos terrenos a volta, abrindo novas possibilidades. Construiu cinco casas na alameda que levava ao sobrado, dando tal importância ao proprietário que foi inclusive mencionado no romance Lucíola de José de Alencar: “O rico comerciante português José Joaquim Ferreira devia ser pessoa discreta e não frequentadora das rodas sociais da época, pois é ausente das notícias sociais dos periódicos vigentes. Quando adquiriu a chácara dos herdeiros da baronesa de Sorocaba já possuía imóvel vizinho, localizado na atual Rua Barão de Guaratiba”.
Joaquim José Ferreira faleceu em 1871, deixando a propriedade da Ladeira da Glória, 4, para seu genro, José Nunes Teixeira. Nunes Teixeira era um empresário com várias empresas, em uma das quais tinha dois sócios, Joaquim José Bernardes e Manoel Vicente Lisboa. Vicente Lisboa foi quem comprou a propriedade de Nunes Teixeira através de seu filho, Carlos Nunes Teixeira, no dia 1o de junho de 1896. Manoel Vicente Lisboa passou o título em 1900 – ano de sua morte – por doação para seu sócio e marido de sua sobrinha (em outros negócios), Antônio Mendes Campos.
A sociedade entre Manoel Vicente Lisboa e Antônio Mendes Campos se estendeu no mercado têxtil. Juntos, tinham três sociedades e uma delas tinha como ramo importar tecidos como “chita, brins e morins”. Essa empresa foi registrada como “O Aymoré”, nome que originou o da alameda onde ficava o palacete da Baronesa de Sorocaba e complexo de casas construído posteriormente.
Antônio Mendes Campos começou a ver possibilidades na indústria imobiliária, e se aventurou a locar os imóveis da Ladeira da Glória, no 4. As cinco casinhas construídas por José Joaquim Ferreira e o sobrado que morou o Barão e Baronesa foram comercializados, mas houve pouca demanda. Tão pouca foi a procura, que segmentou as salas do sobrado para alugueis individuais. Em 1906, o mesmo comprou o imóvel vizinho, de número 6, de Carlos Nunes Teixeira, e construiu uma casa para tornar sua residência.
Segundo Paulo Berger, o autor do dicionário de ruas, “Glória ao Cosme Velho”, o empresário Mendes Campos doou o terreno do palacete que dava na Rua do Catete ao então prefeito do Distrito Federal, Francisco Pereira Passos, para construir uma vila proletária. Esta ficou no local até a década de 1970, quando as construções do metrô começaram.
Já em 1910, Mendes Campos percebeu que o sobrado já não o rendia mais, e muito menos as cinco casas na Alameda Aymorés, e foi ai que se propôs a construir o complexo que denominou então como Villa Aymoré.
A Construção da Villa Aymoré (1910-1917) No dia 23 de junho de 1916, foi arquivado um pedido de licenciamento de obra que listava a propriedade de número 6. Contudo, essa documentação está incompleta. Se estima que o início das obras de construção da Villa Aymoré se deu em 1910, tendo seu término aproximadamente sete anos depois – quando os primeiros anúncios de locação foram encontrados por pesquisadores sobre os imóveis da Villa.
“Não conseguimos identificar o autor do projeto da Villa Aymoré, mas devemos reconhecer que era um hábil projetista da linha estética do ecletismo, com traços Art Nouveau. Profissional que fugiu da prática vigente de conceber-se uma casa e repeti-la várias vezes, tão comum nas vilas de nossa cidade. Agrupou duas casas em prédio sobrado de dois pavimentos e variou detalhes de ornamentação das fachadas e nas janelas tornando o conjunto gracioso, permitindo que o observador descubra esses pequenos detalhes que personaliza cada bloco”. – Victor Burton, “Villa Aymoré”, página 57
Além do prédio de número 6, na alameda instituída número 4, foram construídas nove casas numeradas de II à X. Cada uma foi dada uma nomenclatura indígena, mas sem expor os números de cada casa nas fachadas (como se é de hábito). Guarany, Tamoyo, Tupy, Juruna, Goytacazes, Kiriri, Carijó, Moema e Iracema foram os nomes selecionados pelo proprietário para cada casa individual. Em seu livro, “Villa Aymoré: Cidade, patrimônio e desenvolvimento”, a pesquisadora Renata Santos propõe que além da hereditariedade nativa Brasileira, alguns desses nomes permeavam literaturas da época, que provavelmente impactaram a emotividade do proprietário. A autora também propõe – pela falta da planta de construção – o mistério de nenhuma casa se chamar Aymoré: seria a casa I o prédio de número 6? E seria esse intencionado o nome Aymoré? Ou será que houve anteriormente uma outra edificação que era a casa I, e ao expandir o prédio do número 6, essa foi demolida?
Algumas perguntas permaneceram sem resposta, mas o fato é que Antônio Mendes Campos construiu a Villa muito próxima da forma que vemos ela hoje em dia, e que seu intuito com esse complexo foi de investimento.
Villa Aymoré no século XX (1917-2010) Desde a aquisição de Antônio Mendes Campos, a Villa Aymoré continuou na família até 2010. A construção do número 6 permaneceu como residência da família, em particular à sua filha, Maria José Campos Seabra, casada com Democrito Lartigau Seabra, que comprou o complexo inteiro da herança compartilhada pelos irmãos em 1926.
A vila foi composta de casas de alto luxo, alugadas ao longo do tempo, com a finalidade de residências, para famílias distintas. O sobrado, no final da alameda continuou da forma que estava até meados de 1960, quando desmoronou, e até 2010, o terreno ficou vazio, como parte da propriedade da família. Foi ao redor dos anos de 1980 que foram encontrados os últimos classificados para as casas da Villa Aymoré. A este ponto, as casas amarelas começaram a degradar, e por fim, tiveram que ser evacuadas. Já a casa da frente, acabou sendo ocupada pelo Hotel Turístico da Glória, que abriu suas portas até 2010, quando o complexo inteiro foi comprado pela Landmark Properties da família Seabra.
Ao passar do tempo, os números da Ladeira da Glória foram alterados. A casa de número 6 passou a ser o número 18, e em 1950, foram revisadas para o número 36 da Ladeira da Glória. Já o complexo de número 4 adquiriram o número 14, e na década de 50 passou a ser o número 26. Hoje, a Villa Aymoré continua com a mesma numeração: Ladeira da Glória, 26.
Uma nova vida: A aquisição e restauro da Villa Aymoré (2010-hoje)