A música da Bahia diz respeito à produção musical do estado brasileiro da Bahia, em suas diversas manifestações. Inclui portanto as músicas típicas e ali originadas, as realizadas por artistas baianos que se destacaram em outras terras e as de artistas naturais de outros estados mas que vieram a basear sua carreira na Bahia.

Com marcada influência africana, alguns gêneros musicais foram originados na Bahia, a exemplo do samba e do axé. Há também criações locais como o trio elétrico e a guitarra baiana, bem como forte associação com criações africanas como o berimbau. A produção musical é marcada pelo pioneirismo com nomes como Xisto Bahia (primeiro disco gravado no país), Assis Valente (primeiro a compor uma música junina), Luiz Caldas (precursor do axé), passando por João Gilberto (a inaugurar a bossa nova), Gilberto Gil e Caetano Veloso (com o Tropicalismo) e Bob Joe no country/sertanejo, às introduções rítmicas da batucada do Olodum.

Há expoentes em vários outros gêneros: como Waldick Soriano e Anísio Silva no brega, na MPB com Dorival Caymmi (compositor da canção O Que É que a Baiana Tem?), Quarteto em Cy e Simone, Raul Seixas ou Pitty (no rock) e grupos musicais de grande sucesso como É o Tchan!, Timbalada, Novos Baianos, entre muitos outros. Do século XVI ao XXI, a música na Bahia possui uma rica história em todos os ritmos e vertentes, mesclando influências e influenciando a produção artística e cultural brasileira. Mesmo a principal iniciativa de preservação memorial da música brasileira é fruto do trabalho do baiano Ricardo Cravo Albin. A vanguarda musical, com a criação dos Seminários Internacionais de Música da UFBA em 1954 por Hans Joachim Koellreutter, teve reconhecimento nacional e internacional e gerou vários expoentes.

O rico cadinho musical da capital baiana fez com que em 2016 Salvador fosse a primeira cidade brasileira a integrar a Rede de Cidades Criativas na categoria "música" da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco); na solenidade de entrega do título a cantora Margareth Menezes ressaltou: "Salvador merece muito esse título. Toda a história da música brasileira tem nascimento em Salvador, onde funcionou a primeira escola de música do país. Portanto, a gente merece muito isso e muitas outras coroações". Em 2020 o título foi confirmado pela Unesco, após quatro anos de acompanhamento das ações implementadas na cidade.

Histórico: dos primórdios ao século XX miniaturadaimagem|Desembarque de Cabral em 1500, na Bahia: Caminha fez o primeiro registo da música nativa Já quando aportou na Bahia a frota de Pedro Álvares Cabral ficou registrada, na Carta de Pero Vaz de Caminha, que a música fazia parte dos povos indígenas do lugar, que "dançaram e bailaram, com os nossos” e que “além do rio andavam muitos deles dançando e folgando”, bem como “depois da missa quando nós sentados atendíamos à pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço”.

O projeto "Impressão Musical na Bahia" da Universidade Federal da Bahia vem realizando o inventário das obras musicais produzidas na Bahia no período a partir do ano de 1850 até onde o prazo de manutenção dos direitos autorais vigorem (inicialmente até 1933); com a mudança do precursor da historiografia musical brasileira Guilherme de Melo para o Rio de Janeiro, este levou consigo sua coleção para integrar o acervo do Instituto Nacional de Música e fez com que a formação de um acervo da "musicologia histórica baiana" somente viesse a ser retomada no final do século XX. A despeito das pesquisas empreendidas, e de as metas iniciais haverem sido superadas, o projeto constatou que houve perdas irremediáveis de grande parte da memória musical do estado; o acervo recuperado está sendo disponibilizado pela internet.

Da formação dos primeiros núcleos de povoamento da colonização portuguesa no Recôncavo baiano e Salvador, primeira capital da colônia, até a metade do século XX quando os principais artistas precisavam sair do estado para obterem reconhecimento, a Bahia apresenta um rico histórico de contribuição para a música brasileira.

Século XVI Desde o século XVI que a música erudita desempenhou um importante papel na vida sociocultural da Bahia, a partir do Recôncavo, onde se instalaram os primeiros povoadores da colonização; isto se deu em razão das festas e eventos religiosos, bem como da profusão de irmandades.

Com a vinda do primeiro governador-geral das terras "descobertas", Tomé de Sousa, com ele também vieram os primeiros jesuítas, sob direção do padre Manuel da Nóbrega e com estes João de Azpilcueta Navarro que, além de haver sido o primeiro a usar o idioma nativo em suas pregações, adaptou para o "canto de órgão" os cantos religiosos dos índios; com ele teve início o uso da música como instrumento de "domesticação" dos nativos, aproveitando-se do interesse que estes tinham pela arte e assim facilitar o trabalho das missões.

Em 1549 foi criado o bispado de Salvador, primeiro do Brasil, pelo Papa Júlio III e em 1552 toma posse D. Pero Fernandes Sardinha, de cuja comitiva integrou o Antônio Rodrigues que foi o primeiro músico de formação, ocupando a função de "mestre de capela" e professor de musica no colégio jesuíta.

Em Carta d'El Rey de 4 de dezembro de 1551 foram criados os cargos de chantre e dois "moços do coro"; o primeiro chantre foi o capelão da Sé, o clérigo Francisco de Vaccas, que faleceu dois anos depois; seguiu-se-lhe a 18 de maio de 1554, João Lopes que ocupou o chantrado até 1560, quando renunciou e assumiu Ruy Pimenta. Nova Carta Régia de 15 de junho de 1559 criava a função de Mestre de Capela, sendo esta ocupada pelo músico Bartolomeu Pires; foram criados mais dois cargos de "moços do coro" e o de organista, sendo o primeiro destes o padre Pedro da Fonseca; atendia-se, assim, à necessidade de se executar um repertório polifônico; estas funções persistiram pelo século seguinte.

Os índios Tupinambás vinham de suas aldeias para receber o treinamento musical (e também aprendiam a ler, contar e cantar) no Colégio de Salvador, recebendo uma formação renascentista europeia, "sendo capazes de ler música e de tocar instrumentos diversos, além de cantar em solo ou em conjunto, misturando música vocal com instrumental" e, como registrou Afrânio Peixoto, "participavam de procissões, folias, vésperas e missas solenes em canto de órgão (música polifônica), constituindo-se assim a primeira formação musical de que se tem notícia, orientada pelos dogmas, tradição e estrutura da música européia, realizada em Salvador e estendendo-se, posteriormente, a todo o território brasileiro".

Registros há que, na parte popular, afora esta origem voltada ao ensino religioso, era comum manter-se um negro ou mulato a servir nas bandas ou nas serenatas pela aristocracia colonial; em 1728 um viajante francês relatou que no Convento de Santa Clara do Desterro as monjas "...tocavam até mais não poder diversos instrumentos; desde a harpa até o pandeiro e se exercitavam na narração, tanto satírica quanto sentimental, das intrigas galantes dos oficiais da guarnição, dos quais alguns as cortejavam..."

O padre Fernão Cardim descreveu os festejos natalinos da capital baiana de 1583: "Tivemos pelo Natal um devoto presépio na povoação, aonde algumas vezes nos ajuntávamos com boa e devota música, e o irmão Barnabé nos alegrava com seu berimbau".

Século XVII: o samba nasce na Bahia miniaturadaimagem|Casa do Samba, em Santo AmaroRita Barreto - Bahiatursa Diz a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO): "O Samba de Roda, que envolve música, dança e poesia, é um evento festivo popular que se desenvolveu no Estado da Bahia, na região do Recôncavo, durante o século XVII. Baseava-se fortemente nas danças e tradições culturais dos escravos africanos da região", aos quais se mesclaram a influência portuguesa na língua e na poesia, bem como com alguns dos instrumentos utilizados e que, levado para o Rio de Janeiro, veio a se tornar o samba urbano que se tornou um dos símbolos de identidade brasileira no século XX.

Era uma dança que se praticava em festas religiosas populares, tanto afro-brasileiras quanto católicas e também em lugares comuns, e todos os presentes eram convidados a tomar parte, sendo sua principal característica a formação de um círculo onde principalmente as mulheres dançavam no seu interior enquanto outras formavam uma roda, também dançando e marcando a cadência com palmas, com bastante improviso na coreografia, sendo marcante a "umbigada" - de clara influência bantu - no qual a dançarina do centro convida outra para lhe tomar o lugar. Embora seu primeiro registro com o nome de "samba de roda" tenha ocorrido por volta de 1860, suas origens remontam ao século XVII.

Em 2008 a Unesco realizou o tombamento do samba de roda como patrimônio imaterial cultural da humanidade. O pesquisador Jorge Portugal ressaltava, em 2016: “O samba tem mais de 400 anos. Ele nasceu do batuque dos escravos, que virou samba de roda, ainda hoje com representantes autenticíssimos"; a despeito do reconhecimento da Unesco e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), ainda faltava naquele ano o reconhecimento estadual.

Século XVIII Nos registros históricos que traz no seu romance Sinhazinha, Afrânio Peixoto narra a viagem empreendida do alto sertão no começo do século XVIII por Timóteo Spínola que, indo visitar Portugal onde nascera, desfilou por Salvador, então a maior cidade das Américas, com uma banda de música composta por escravos e toda fardada – algo que nem a cidade colonial possuía na época, segundo ele.

Em Salvador se produziu em 1759 a mais antiga obra musical erudita conhecida do Brasil, um "Recitativo e ária", de autor desconhecido e oferecida a José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Melo; nela se destacam o caráter laico e não religioso e, ainda, o fato de ser escrita em português, e não no latim então usado. Em 1760 a cidade assistiu a uma duradoura comemoração pelo casamento da princesa Maria Francisca com seu tio, o príncipe D. Pedro, que durou por dois meses de comemorações públicas. Já no seu terceiro dia um relato registrou, com a grafia da época: "ao som de armoniosos instrumentos dançarão se alguas danças communs com toadas e modas da terra que bastantemente satisfizerão aos que contentes se achavão, neste universal espetaculo de gozo e prazer". Houve apresentação de óperas, serenatas, canto coral e muitas outras manifestações musicais durante esses dias, inclusive um carro alegórico sobre o qual havia "um coro de música... ao som de temperados instrumentos".

Século XIX: guerras, música e abolição 300px|miniaturadaimagem|Praça da Piedade, Salvador, começo do século XIX (Rugendas) Relatos de viajantes como Maria Graham dão conta da participação dos negros na musicalidade baiana, no começo do século XIX; assim é que esta inglesa, testemunha das lutas pela Independência da Bahia (1821-1823), registrou: “os negros e mulatos são os melhores artífices e artistas. A orquestra da ópera é composta no mínimo de um terço de mulatos”. Dança e música foram ainda presença na vida dos escravos; além dos batuques e lundus, muitos dos senhores os designavam para aprenderem a arte; também o canto era uma presença durante os trabalhos forçados, o que também foi registrado pelos visitantes estrangeiros.