thumb|Heinrich Kiepert, geógrafo descrito por Hans F. K. Günther como alpino exemplar A raça alpina (ou tipo alpino), também conhecida como alpinídea, celta, celto-lígure, lígure, ocidental, cevenol, oriental escura, pamiro-alpina, auvernesa, récia, alpo-cárpata, celto-eslava, eslava ou europeia central, foi um conceito racial da antropologia física, utilizado historicamente para descrever um dos principais subgrupos da chamada raça caucasiana.
O termo teve suas origens em Carlos Lineu, que o incluiu como um tipo desviado ao expor a taxonomia do Homo sapiens. Nos últimos anos do século XIX, os antropólogos Vacher de Lapouge, Joseph Deniker e William Z. Ripley, ao categorizarem as diferentes populações europeias, incluíram o tipo alpino em seu catálogo, mas não sem discordâncias quanto à sua natureza tipológica. A ideia lineana da inferioridade do tipo alpino foi mantida pelo nordicista Madison Grant, mas ignorada por seu sucessor Hans F. K. Günther. Posteriormente, estudiosos como Carleton S. Coon, Ilse Schwidetzky, Bertil Lundman, Georgi Debets e John Baker se valeram de novas descobertas na arqueologia, serologia e genética para um estudo mais preciso dos alpinos.
Consistentemente entre os autores tradicionais, o tipo alpino foi caracterizado por crânio braquicéfalo (largo e curto), traços arredondados, baixa estatura, ombros largos e pernas curtas. A maioria dos autores estabeleceu que teria uma pigmentação intermediária entre o branco nórdico e o moreno mediterrâneo, com cabelos consistentemente castanhos, mas com discordâncias quanto às possíveis variações.
O habitat alpino nativo foi especialmente associado à Europa Central, sul dos Bálcãs, Levante e Montanhas Pamir, mas populações foram identificadas em boa parte do restante da Europa, além do Norte da África, havendo mesmo a percepção de herança alpina entre algumas etnias do Sul da Ásia e Oceania. Os tipos lapão e de Borreby foram considerados por alguns autores como uma forma ancestral, enquanto Carleton Coon comparava os crânios mesolíticos das cavernas de Ofnet com alpinos arcaicos e Renato Biasutti identificava os ancestrais dos alpinos com os crânios encontrados em Hastière. Alguns autores fizeram associações entre os dináricos e os alpinos em sua formação. Devido às mais recentes emigrações para o Novo Mundo e o globalismo, contudo, populações ditas alpinas se haveriam estendido para muito além de seus territórios autóctones.
História Primeiras observações thumb|Frontispício do Systema Naturae (1758), de Lineu O termo "alpino" enquanto categoria racial foi primeiramente utilizado por Carlos Lineu em 1758 sua classificação do Homo sapiens na décima edição de seu Systema Naturae, identificando-o como um tipo degenerado, parte do Homo sapiens monstrosus, caracterizando-o como ágil, tímido e pequeno, sendo assim distinto do Homo europaeus, termo representante na terminologia lineana da assim chamada raça branca em geral.
Ainda que a identidade do alpino de Lineu não fosse ulteriormente discorrida pelo próprio, em 1897 Durand de Gros e Vacher de Lapouge, estudando os habitantes de Aveyron, na França, utilizaram o termo Homo alpinus para caracterizar os habitantes baixos, braquicéfalos e relativamente escuros nativos da região, descendentes de uma tradição craniana que nomeou Acrogonus, distinguindo-os do Homo europaeus (nórdicos) e do Homo contractus (mediterrâneos). Antes deste uso da terminologia alpina por Vacher de Lapouge, contudo, ainda em 1868, o cientista francês Paul Broca já percebera a distinção da população baixa, braquicéfala, de rosto arredondado e compleição relativamente escura de seu país, chamando-a "celta", associando-a aos antigos gauleses.
Classificações antropológicas Em seu curso de maior abrangência que seus anteriores estudos na França L'Aryen: son rôle social (1899), Vacher de Lapouge identificou os alpinos com os europeus braquicéfalos de baixa estatura, occipital arredondada, pele morena e rosto curto, habitando, por exemplo, os Alpes e os Países Bálticos. Tanto neste curso quanto no anterior Les sélections sociales, o autor, já consagrado como um eugenista, descreveu os alpinos como uma "raça" de natureza passiva, historicamente dominada pelo Homo europaeus (arianos superiores), que, tendo maior capacidade cerebral, mas sendo menos dados a trabalhos braçais, teriam estabelecido castas superiores e subjugado alpinos por toda a Europa. Vacher de Lapouge ainda expôs em ambos os textos suas notórias "onze leis do papel social dos arianos", basicamente tratando das relações destes com os alpinos. Embora algumas descrevessem observações não derrogatórias (como a tendência de alpinos a viver em maiores altitudes), a lei da distribuição de riqueza, por exemplo, indicava que em regiões com ambos nórdicos e alpinos o índice cefálico seria inversamente proporcional à riqueza, e outras leis apontariam para uma menor proporção de alpinos entre ricos e intelectuais.
Ainda, em 1889, em breve dissertação buscando classificação física de todos os povos do mundo na revista da Sociedade de Antropologia de Paris, Joseph Deniker descreveu a "raça rética" ou "celto-lígure" como uma das duas espécies de melanocroides (isto é, caucasoides pigmentados) braquicéfalos, contrastando-a com os assiroides. Enquanto os assiroides teriam narizes aquilinos e de ponta grossa, o alpino teria nariz reto, fino e às vezes retraído, além de ser mais baixo e menos peludo que o assiroide. Segundo o autor, seriam parcialmente mediterrâneos.
Em 1899, a mesma espécie de fenótipo foi extensivamente descrita por Deniker, que, também em obra mais abrangente, chamou-a de raça "ocidental" ou "cevenol", uma das seis de sua classificação de fenótipos europeus, citando Lapouge como fonte e posteriormente afirmando a sinonímia entre sua denominação e o Homo alpinus, e identificando-a com celtas, lígures, sármatas, réticos e eslavos, além de com a "raça rética" ou "celto-lígure" que identificara em sua dissertação de 1889.
Ainda em 1899, William Z. Ripley, principal rival de Deniker, identificou a partir de pesquisa independente a "raça alpina" (ou "celta") como uma de suas três "raças" nativamente europeias, própria das latitudes centrais do continente e egressa da Ásia Central durante a revolução neolítica. Em apêndice de seu livro, Ripley afirmou a sinonímia de seu termo com o "ocidental" de seu rival, embora criticando o grande número de "sub-raças" mistas e derivadas que o mesmo concluíra, defendendo, pois, uma definição mais ampla do tipo alpino, incluindo, por exemplo, os habitantes dos Países Bálticos que Deniker identificara como uma "raça oriental".
Em 1906, a Real Sociedade Geográfica publicou um debate incluindo os antropólogos Arthur Keith e Alfred Cort Haddon sobre as origens dos alpinos, em torno de estudos do arqueólogo John Myres. Conforme a evidência arqueológica, há certo consenso entre os autores de uma origem estrangeira da braquicefalia europeia, devido à crença de que não haveria, pelo intervalo entre os encontros de crânios desta categoria na Era do Gelo, tempo suficiente para o desenvolvimento nativo com esta característica. Em sua formação, os cevenóis são caracterizados como um tipo local e reduzido da Europa Ocidental.
Em sua obra eugenista e nordicista The Passing of the Great Race (1916), Madison Grant, adotando a divisão racial tripartida de Ripley e Vacher de Lapouge, caracterizou os alpinos como a raça europeia de menor qualidade, supostamente carecendo das virtudes que identificava nos nórdicos e mediterrâneos. Postulou que os alpinos teriam origem na Ásia Ocidental, preservando apenas algumas poucas características asiáticas (como a braquicefalia) em decorrência da mistura com outros tipos europeus, e associou seu surgimento na Europa à cultura aziliana.
Apesar de ter obtido pouco sucesso em seu tempo, a obra de Grant exerceu grande influência sobre figuras nazistas como Heinrich Himmler, Hans F. K. Günther e mesmo Adolf Hitler. Günther em particular, enquanto antropólogo, categorizou os alpinos em 1930 como uma das cinco "raças" nativas da Alemanha, chamando-a de "oriental" (ou "oriental escura", distinguindo-a dos bálticos orientais) por sua prevalência no leste do país e, apesar do nordicismo inerente em sua obra, omitindo desqualificações dos indivíduos com este fenótipo, classificando com ele figuras históricas nacionais como Carlos Felipe de Schwarzenberg, Andreas Gryphius e Heinrich Kiepert. Em entrevista de 1931, no qual expressava sua admiração por Benito Mussolini, Hitler o descreveu como "representante típico de nossa raça alpina".
Satirizando a classificação racial tríplice de Ripley e seus seguidores, e em especial as hierarquizações e psicologismos tomados por nordicistas como Grant, o satirista inglês Hilaire Belloc publicou no New Statesman um poema em que ironicamente recomendava que o interlocutor imitasse os nórdicos tanto quanto pudesse, em contraste com os "desagradáveis" alpinos de "rosto largo e tolo" e "pele amarelada suja", que apenas não seriam piores que os "mais degradados" mediterrâneos, "desrespeitosos com as moças".
thumb|Esquema de Czekanowski (1967) de classificação das raças europeias; ω representa os alpinos, entre os laponoides (λ) e os armenoides (χ) Jan Czekanowski, usando seu até hoje influente método de clustering multidimensional, classificou em 1928 os europeus em quatro "raças" primárias: três caucasoides (nórdica, mediterrânea e armenoide) e uma mongoloide (laponoide). Os alpinos típicos, pois, seriam uma "raça" mista, supostamente resultada de uma mistura equilibrada e estável entre nórdicos e armenoides. Carleton S. Coon criticou esta esquematização, apontando que Czekanowski e Eickstedt errariam em identificar os alpinos mais típicos como laponoides e que a apropriação do termo para supostas misturas de nórdicos com armenoides era absurda, seguindo uma tradição de descaracterização terminológica da qual Günther partilharia. Parcialmente acolhendo a crítica na terceira edição de seu manual Człowiek w czasie i przestrzeni, Czekanowski passou a compreender os alpinos como uma mistura entre laponoides e armenoides.
Na sistemática racial de seu extenso Rassenkunde der Menschheit (1934), Egon von Eickstedt caracterizou os alpinídeos como Homo sapiens alpinus, uma divisão do "cinturão das raças montanhesas" (), transição braquicéfala entre "raças" claras e escuras a quem o nome latino Homines sapientes albi brachimorphi é atribuído. Em sua classificação, os lapões são considerados uma forma arcaica de uma raça alpinídea lato sensu, e logo um subtipo (Homo sapiens lappo), enquanto o alpinídeo típico seria chamado "alpinídeo ocidental" (Homo sapiens cevenolicus, remetendo à terminologia de Deniker).
Em 1939, Carleton S. Coon, ao reescrever o magnum opus de Ripley, distinguiu os alpinos de tipos como os bálticos, e buscou, com a cultura material então registrada, explicar sua origem. Coon tendeu a favorecer a hipótese de que seriam uma forma neotênica dos primeiros habitantes da Europa, nela assentada no Paleolítico Superior e bastante numerosa ao longo da Eurásia durante o Pleistoceno Superior enquanto caçadores coletores. Coon deu, contudo, alguma relevância às hipóteses de que os alpinos seriam o resultado de uma braquicefalização de mediterrâneos, aurignacianos (apontando uma tendência aurignaciana de braquicefalização em crânios encontrados em Solutré-Pouilly) ou magrebinos mesolíticos associados aos Mechta-Afalou. Apontou que tanto os alpinos quanto a semelhante "raça de Borreby" eram semelhantes a distintas tradições de crânios braquicéfalos do Paleolítico Superior, e que particularmente os crânios mesolíticos encontrados nas cavernas de Ofnet eram semelhantes tanto aos Borreby quanto aos alpinos.