thumb|right|302px|Interior da Igreja Matriz de São João de Areias A Igreja Matriz de São João de Areias, Igreja Paroquial de São João de Areias ou Igreja de São João Baptista é um templo localizado em São João de Areias, no município de Santa Comba Dão, em Portugal.Ficha na base de dados SIPA/DGPC
Tem como padroeiro, pelo menos desde o século X, São João Baptista. O templo antigo foi demolido no século XVIII e substituído pela actual Igreja Matriz.
Igreja primitiva A Igreja primitiva era mais pequena e possuía, nas primeiras décadas do século XVII, uma capela-mor e uma nave única; à frontaria ligavam-se uma torre, com acesso pelo interior da Igreja, e um alpendre, sobre a porta de entrada.
A 20 de Outubro de 1675 um documento diz-nos que a Igreja de S. João de Areias era de “...invocação de S. João Baptista, vigararia de apresentação ordinária, igreja unida ao arcediagado de São Pedro de France; tem sacrário, 2 altares colaterais de invocações do Nome de Jesus e da Sr.ª do Rosário; tem uma capela de invocação de S. Paulo, com administrador; tem coadjutor anual, sacerdotes 13, diácono 1, pessoas maiores 1022, menores 104, ermidas 9; fabrica o arcediago; estava muito falta de ornamentos e outras coisas que provemos em visitação...”.
A Igreja propriamente dita possuía o altar-mor, com o padroeiro S. João Baptista, e os altares colaterais de invocação do Nome de Jesus e de Nossa Senhora do Rosário; os retábulos e as mesas destes altares foram, mais tarde, substituídos e deles não ficou qualquer vestígio; ao corpo da Igreja (no lado do Evangelho, lado esquerdo, norte) ligava-se por esta altura a capela de S. Paulo.
A capela de S. Paulo foi instituída pelo padre Paulo de Araújo na primeira metade do século XVII e à data deste documento seria ele o seu administrador; o padre faleceu a 11 de Novembro de 1687 e foi sepultado "na sua capela". O altar desta época, maneirista, também foi substituído, chegou-nos, no entanto, a imagem de S. Paulo, em pedra, com que o instituidor quis homenagear o santo do seu nome.
À volta do ano da recolha de informações para a “Instrução e Relação...”, ou seja à volta de 1675, teriam sido instituídas duas novas capelas, as capelas do Espírito Santo e de Nossa Senhora da Conceição, que, tal como a capela de S. Paulo, se ligaram ao corpo da Igreja (provavelmente no lado da Epístola, lado sul); mais tarde estas três capelas deixaram de existir sendo os seus retábulos incorporados nos altares laterais onde ainda hoje se encontram.
O instituidor da capela do Espírito Santo não o conhecemos; é provável que fosse João Francisco Franco, de S. João de Areias, falecido a 28 de Janeiro de 1676, e em cujo assento de óbito se escreve que foi “...enterrado dentro da capela que mandou fazer nesta Igreja...”. O retábulo do Espírito Santo (hoje de Nossa Senhora de Fátima) é maneirista e pertence ao tipo de retábulos de dois andares. No andar inferior, ao centro encontra-se a imagem de Nossa Senhora de Fátima (século XX), enquadrada por uma moldura de motivos geométricos em arco ogival. Lateralmente existem dois nichos, emoldurados, com imagens em baixo-relevo de S. Pedro, no lado esquerdo, e de S. Paulo no lado direito, ambos em madeira muito bem encarnada, pintada e estofada.
A instituidora da capela de Nossa Senhora da Conceição terá sido Maria Almeida, de Vila Deanteira, que faleceu a 20 de Janeiro de 1711 sendo sepultada na "sua capela"; a administração desta capela teria passado para a sua filha Isabel Maria de Almeida, que casara a 7 de Outubro de 1678 com o que viria a ser capitão-mor de S. João de Areias, Valeriano Ribeiro Rozeuma e Brito; a capela passaria para o seu filho, o morgado e capitão-mor João de Brito Ribeiro de Almeida e deste para o seu filho capitão-mor Valério Inácio de Brito Ribeiro e Almeida Castelo Branco e à morte deste para o seu irmão, o capitão-mor João Homem de Brito Ribeiro Almeida Castelo Branco e aí repousaram os membros desta família até meados do século XIX.
O retábulo do altar da Nossa Senhora da Conceição é de estrutura idêntica à do retábulo do Espírito Santo e deverá ser seu contemporâneo. As colunas são semelhantes à do retábulo do Espírito Santo, e enquadram uma moldura rectangular, lavrada com motivos geométricos, em frente da qual se encontra a bela imagem de Nossa Senhora da Conceição (século XX, 8 de Dezembro de 1916), sobre uma mísula de folhas de acanto; a imagem de Nossa Senhora da Conceição original do retábulo encontra-se na capela de S. Silvestre, em Vila Deanteira. Lateralmente às colunas, em duas outras molduras, estão representados em relevo S. João Baptista, no lado esquerdo, e no lado direito S. José, em madeira encarnada, pintada e estofada.
A capela de S. Paulo, em princípios do século XVIII, teria sido enriquecida com um novo retábulo; a sua administradora Águeda de Araújo, sobrinha do instituidor, terá mandado substituir o retábulo antigo por um outro em estilo barroco nacional e que ainda hoje perdura. O retábulo do altar de S. Paulo é mais movimentado que os anteriores, graças fundamentalmente ao seu tipo de colunas e à dinâmica que lhe empresta os altos relevos da sua folhagem. No centro apresenta um camarim, típico deste estilo, cuja boca é decorada com uma renda; nele se encontra a imagem de S. Paulo. Lateralmente encontram-se duas pinturas sobre tábuas, no lado esquerdo Stª. Luzia e no lado direito Stº. António com o Menino, ambas num claro-escuro de seiscentos. É provável que tivessem sido aproveitadas do antigo retábulo maneirista. Infelizmente desconhecem-se os autores destes três retábulos.
A primitiva Igreja Matriz possuía, assim, nas primeiras décadas do século XVIII, a capela-mor com o velho altar-mor dedicado a S. João Baptista, e a nave com os dois também velhos altares colaterais dedicados ao Nome de Jesus e a Nossa Senhora do Rosário e os mais novos altares de S. Paulo, do Espírito Santo e de Nossa Senhora da Conceição nas capelas anexas.
Igreja do século XVIII - construção thumb|right||Altar colateral da Igreja Matriz de São João de Areias (pormenor) A década de 60 do século XVIII traria o desejado consenso para a redízima e iniciou-se a Igreja Nova, que é a actual. A responsabilidade das obras da Igreja dividia-se por duas ”entidades”: a fachada e a nave eram da responsabilidade dos fregueses e a capela-mor ficava a cargo do Colégio Patriarcal de Lisboa que tinha direitos nos dízimos da Igreja.
A redízima (oferta de uma percentagem de alguns bens colhidos anualmente para custear uma obra religiosa) fez-se a 15 de Agosto de 1765, obrigando-se, por escritura, os fregueses da Igreja Matriz a cederem anualmente, e durante os quatro (?) anos seguintes, uma vigésima (?) parte de quatro frutos, milho graúdo e miúdo, centeio, vinho e azeite, a fim de custear a “obra que se faz“ na Igreja.
Os eleitos para dirigirem as obras foram o Dr. Feliciano Ribeiro de Campos, de Castelejo, o Dr. Manuel Caetano Soares de Albergaria, da Guarita, o Dr. Caetano de Carvalho, de Vila Deanteira, e José António de Lemos e Brito, de S. João de Areias.
A obra de pedraria da fachada, das torres e do corpo principal da Igreja, talvez verdadeiramente só se iniciasse depois de recolhido o último fruto do ano (o azeite) e de os eleitos terem amealhado o primeiro dinheiro. A 16 de Março de 1766 faleceu a última pessoa que foi enterrada na velha Igreja, sendo os enterramentos posteriores, enquanto a obra durou, sido efectuados na capela de S. Sebastião e nas capelas das aldeias da freguesia. A nova Igreja Matriz deve pois ter sido começada nos primeiros meses de 1766. A fachada apresenta uma linha mediana pontuada por cruz, nicho, janelão e porta. A cruz em pedra assenta sobre uma base também em pedra, onde se desenham duas volutas simétricas. O nicho é ladeado de duas pilastras, onde assenta um arco de volta inteira que se aprofunda em forma de concha, é encimado por um frontão interrompido e na base possui um avental; no nicho encontra-se a imagem de S. João Baptista, do século XVI, em pedra, que deveria ter pertencido ao retábulo da Igreja antiga e que, quando da construção da actual Igreja, foi colocada neste nicho construído especificamente para esse fim. O janelão do coro é alto. A porta apresenta o lintel e o frontão curvos, terminados por uma cornija saliente. Em 1768 a fachada, as torres e o corpo da Igreja estavam concluídos; no interior da cúpula da torre esquerda (norte) regista-se esta data como sendo a da sua conclusão. Demorou assim a sua construção à volta de três anos. Desconhece-se o mestre pedreiro responsável pela obra.
O interior da Igreja fica em 1768 constituído pela antiga capela-mor com o seu retábulo, aguardando as obras da responsabilidade do Colégio Patriarcal de Lisboa, e pela ampla nave, feita de novo, a que se ligariam as três capelas, provavelmente também feitas de novo, mas mantendo os seus retábulos.
Os antigos altares colaterais, por estarem muito velhos e destoarem dos das capelas pelo seu arcaísmo, foram demolidos e os eleitos chamaram um mestre entalhador e escultor competente acordando com ele a feitura de uns novos, com risco condizente com o estilo da época; aproveitaram para mandarem fazer, também, “urnas” (mesas de altar) para os altares das capelas, a cartela para colocar acima do arco cruzeiro, o púlpito e as sanefas para as janelas, procurando assim criar um equilíbrio que ainda hoje se mantém.
Estes altares colaterais de invocação do Menino Jesus e de Nossa Senhora do Rosário colocados nos flancos do arco cruzeiro, são dois portentosos altares em estilo rococó, iguais, e, talvez não erremos se os considerarmos entre os mais majestosos altares colaterais, deste estilo, da diocese de Viseu. Os altares são concebidos na vertical, alongando-se até ao nível do topo do arco cruzeiro e neles se plasma a exuberância das formas decorativas do rococó. Infelizmente, tal como para os altares referidos anteriormente, não conhecemos o seu entalhador nem o seu dourador. Não nos surpreenderíamos se o risco e execução dos dois altares colaterais e da restante talha se devessem a José da Fonseca Ribeiro, mestre entalhador e imaginário, tal é a semelhança com o trabalho deste mestre na Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco em Viseu.
Não temos memória sobre a imagem do Menino Jesus que figurava no altar colateral do lado esquerdo (norte), sendo este altar actualmente de invocação do Sagrado Coração de Jesus, cuja imagem lá se encontra desde as primeiras décadas do século XX; a Senhora do Rosário do altar colateral direito (sul) era uma imagem provavelmente de inícios do século XVII, com altura superior a um metro, em pedra e com a sua coroa e a do menino em prata; as coroas foram roubadas na primeira metade do nosso século, tendo-se posteriormente a imagem partido, pelo que foi substituída pela imagem de Nossa Senhora das Neves (assim é denominada).
A Nossa Senhora das Neves é uma imagem em pedra, do século XVI, e não se encontra referenciada nos documentos que conhecemos. Nossa Senhora apresenta os olhos cavados fundo, o nariz fino e comprido, boca pequena e queixo bem marcado - características comuns, por esta época, em obras das oficinas de Coimbra. Nossa Senhora segura o menino no lado esquerdo e com a mão direita acaricia-lhe os pés; veste um vestido vermelho coberto em parte por um manto azul que vem prender-se por debaixo do menino. O menino segura na mão o orbe que abençoa. A imagem está bem conservada.
A enorme cartela cordiforme, que se encontra acima do arco cruzeiro, apresenta, no meio, a pintura do Cordeiro de Deus anunciado por S. João Baptista, e a rodeá-la uma exuberante decoração de volutas e concheados.