miniaturadaimagem|300x300px|A Espanha estava afastada dos principais campos de batalha, situados na fronteira franco-alemã, o norte de Itália, Rússia e o Império Otomano. miniaturadaimagem|Evolução das alianças na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) em todo o planeta: Entente Colónia, domínio e/ou territórios ocupados pela Potências centrais Território ocupado pelas ou suas colónias

A Espanha na Primeira Guerra Mundial manteve-se neutra durante todo o conflito, mas este teve importantes consequências econômicas, sociais e políticas para o país, tanto que se costuma situar nos anos da guerra o início da crise do sistema da Restauração, que em 1923 tentar-se-ia resolver mediante um golpe de Estado que deu passo à instauração da ditadura de Primo de Rivera.

Antecedentes Quando se iniciou o conflito europeu em 28 de julho de 1914, a Espanha era um país economicamente atrasado, apenas o País Basco e Catalunha possuíam um desenvolvimento industrial relevante.Além disso, o país ainda não se recuperara da Guerra Hispano-Americana e do posterior tratado com Alemanha de 1899, que a deixaram sem territórios de ultramar na América, Ásia e Oceania, estando moralmente destroçada, com o sistema político questionado, um exército que se encontrava antiquado, quase sem armada naval, e com os problemas no Marrocos que desembocavam em crises e greves, como a Semana Trágica em 1909.

Ademais, Espanha não pertencia nem à Entente Cordiale nem à Tripla Aliança. Em 1906, depois da Conferência de Algeciras, a Espanha recebeu um território do norte do Marrocos, que se converteu numa fonte de problemas militares contínuos e que depois do início da ocupação espanhola em 1909, somente foi pacificado quinze anos depois.

O Marrocos e a partilha da África foram palco de duas graves crises políticas e militares entre as principais potências (Reino Unido, Alemanha e França principalmente), que chegaram perto de desencadear a Primeira Guerra Mundial, com uns poucos anos de antecedência: a Primeira Crise Marroquina ocorreu em 1904 e solucionou-se com a Conferência de Algeciras de 1906. A Segunda Crise Marroquina, em 1911 foi resolvida depois de um acordo franco-alemão nesse mesmo ano.

Em 1912, depois da atribuição do Protetorado Espanhol no Marrocos, o exército espanhol começou a ocupar o território e viu-se envolvido na Guerra do Rife, que não finalizaria até 1927 com a pacificação total do território.

Neutralidade espanhola Em 7 de agosto de 1914, a Gaceta de Madrid publicava um real decreto no qual o governo do conservador Eduardo Dato afirmava o "dever de ordenar a mais estrita neutralidade aos súditos espanhóis com arranjo às leis vigentes e aos princípios do direito público internacional".

Durante os três primeiros anos do conflito (1914 - 1917) a Espanha só teve dois governos, algo normal tendo em conta que no sistema de alternancia bipartidária da Restauração, com duração média no poder desses dois partidos era entre um e três anos. No entanto, a partir de 1917, devido à grave crise que atravessava o país, se sucederam em cascata governos que mal duravam meses devido à grande instabilidade institucional.

Causas da neutralidade espanhola miniaturadaimagem|300x300px|Alfonso XIII de visita em Paris em 1913, um ano antes do início da Primeira Guerra Mundial. Sentado a seu lado está o presidente da Terceira República francesa Raymond Poincaré. O governo conservador de Eduardo Dato decidiu manter a Espanha neutra, porque em sua opinião, compartilhada pela maioria da classe dirigente, o país carecia de motivos e de recursos para entrar no conflito. O rei Alfonso XIII também esteva de acordo, ainda que, como confessou ao embaixador francês, teria gostado que Espanha entrasse na guerra do lado aliado em troca de "alguma satisfação tangível" —provavelmente Gibraltar, Tânger e também mãos livres em Portugal— mas que se encontrava rodeado de "cérebros de galinha" —isto é, acusava aos políticos de pensar como covardes— e que ele "estava numa posição muito difícil".

Muito poucos opuseram-se à neutralidade. O caso mais notório foi o Diário Universal, órgão do liberal conde de Romanones, que publicou um artigo sem assinatura —ainda que as pessoas o atribuíram a Romanones, apesar de que este negou o ter escrito— titulado "Neutralidades que matam", que defendia a participação da Espanha na guerra do lado dos aliados, em coerência com a política exterior espanhola alinhada com França e Grã-Bretanha desde 1900. "É necessário que tenhamos o valor de fazer saber a Inglaterra e a França que com elas estamos, que consideramos seu triunfo como o nosso e seu vencimento como próprio", dizia no artigo. Contundo,"a mais estrita neutralidade" impôs-se, respaldada pelo rei. esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Densidades populacional na Espanha por províncias em 1900. Observa-se que era um país com pouca densidade em comparação com outros países europeus e que a maioria da população se encontrava em Madri e nas regiões costeras. A Espanha não era uma das potências europeias, carecendo de poder económica e militar suficiente como para se apresentar como um aliado desejável a qualquer das grandes potências em conflito (Alemanha e Áustria-Hungria, por um lado; Grã-Bretanha, França e Rússia, por outro). Por isso nenhum dos países beligerantes protestou pela neutralidade espanhola. "Não deixava de ser uma declaração de impotencia… já que se baseava no que todo mundo admitia com maior ou menor embaraço: que a Espanha carecia dos meios militares necessários para enfrentar uma guerra moderna", afirma Javier Moreno Luzón. Assim o reconheceu o premiê Dato numa nota dirigida ao rei, na que acrescentou outra consideração (as tensões sociais que provocaria): "Apenas com a tentativa [de uma atitude belicosa] arruinaríamos à nação, acenderíamos a guerra civil e poríamos em evidência nossa falta de recursos e de forças para toda a campanha. Se a do Marrocos está a representar um grande esforço e não consegue chegar ao alma do povo, como iríamos empreender outra de maiores riscos e de despesas iniciais para nós fabulosas?".

O estado precário do exército foi fundamental para decidir pela neutralidade. O país acabava de entrar no conflito do protetorado do norte do Marrocos. Tratava-se de um exército de terra antiquado, mal armado e que, devido ao número excessivo de oficiais, via grande parte de seu orçamento concentrado no pagamento salarial dos oficiais. Esses fatores haviam incapacitado os espanhóis de participar da corrida armamentista que ocorreu na Europa a princípios do século XX, como tinham feito as grandes potências da época. Por outro lado, a Armada era considerada uma das principais culpadas da derrota de 1898 contra os Estados Unidos, e tinha perdido duas esquadras inteiras nessa guerra. Foi deixada de lado até 1908, quando durante o governo de Antonio Maura se aprovou a construção dos encouraçados Classe Espanha e outros navios menores no denominado Plano Ferrándiz.

A eclosão de conflitos sociais, devido à crescente consciência de classe dos trabalhadores e ao desenvolvimento e crescimento de sindicatos e partidos de esquerda, especialmente republicanos, insatisfeitos com troca de partidos característica desta época política do país, ganhou maior importância devido a episódios como a Semana Trágica de Barcelona em 1909 ou o assalto de membros do exército aos jornais catalães em 1905. Se a Espanha interviesse na guerra e o desenvolvimento da guerra não fosse favorável, poderia produzir um conflito como o da Revolução Russa.

Aliadófilos e germanófilos miniaturadaimagem|O conde de Romanones foi presidente do Conselho de Ministros. Seu artigo "Neutralidades que matam" publicado no Diário Universal o 18 de agosto de 1914 marcou o começo do conflito entre aliadófilos e germanófilos; a controvérsia que criou este lhe obrigou a retractarse e a reposicionar numa postura de neutralidade "benévola" para a Entente. Do ponto de vista político, a Grande Guerra acentuou o confronto entre a direita ("germanófilos" que viam na Alemanha e na Áustria-Hungria os representantes de ordem e autoridade) e a esquerda ("aliadófilos", que viam na Grã-Bretanha e na França "o direito, a liberdade, a razão e o processo contra a barbárie", nas palavras do republicano Lerroux) Como assinalou Manuel Suárez Cortina, "as principais vozes germanofílicas do país eram as do clero, do exército, da aristocracia, das elites fundiárias, da alta burguesia, da corte, dos carlistas e dos mauristas". Do outro lado, os partidários dos aliados eram os regionalistas, os republicanos, os socialistas, os profissionais da classe média e os intelectuais, que viam na guerra um instrumento para forçar a Espanha a uma transição para uma verdadeira democracia."

Na Catalunha formou-se um contingente de voluntários que lutaram nas fileiras do exército francês. Os dois lados implantaram durante a guerra uma intensa campanha diplomática e de propaganda, que incluiu o financiamento de jornais para garantir o apoio espanhol à sua causa. Além disso, os Impérios Centrais enviaram agentes ao Protetorado Espanhol do Marrocos para encorajar revoltas anti-francesas das cabilas e boicotar o fornecimento de matérias-primas e manufaturas aos aliados. A neutralidade só esteve em perigo quando submarinos alemães começaram a afundar barcos mercantes espanhóis.

Entre os espanhóis que apoiaram os aliados, destacaram-se intelectuais como Álvaro Alcalá-Galiano e Osma, Rafael Altamira, Vicente Blasco Ibáñez, José Ortega e Gasset, Ramón Pérez de Ayala, Ramón do Vale Inclán, Dionisio Pérez Gutiérrez, Luis Araquistain, Ramiro de Maeztu, Emilia Pardo Bazán, Benito Pérez Galdós, Felipe Trigo, Hermógenes Cenamor e Miguel de Unamuno. Uma nova geração de intelectuais ligados ao internacionalismo como Manuel Azaña, Corpus Barga, Salvador de Madariaga ou Luis de Zulueta também se declarou aliadófila.

Pío Baroja e Jacinto Benavente, germanófilos, foram notáveis excepções à aliadofilia predominante no âmbito intelectual.

No campo anarquista tendeu-se a manter a posição ortodoxa de neutralidade, contrária a louvar a França e a Grã-Bretanha, defendida por anarquistas europeus como Sébastien Faure ou Errico Malatesta, embora o conflito de posições não tenha tanto impacto quanto em outras áreas; houve, no entanto, casos de pensadores publicamente aliadófilos, como Federico Urales e Ricardo Mella.

A imprensa espanhola miniaturadaimagem|"Respingos da guerra - Com isto de não chegarem modas de Paris, uma mulher não sabe o que pôr», de Manuel Tovar Siles, no El Imparcial. Posteriormente, o interesse pela guerra diminuiu, registando-se um maior interesse por ele exclusivamente nos grandes acontecimentos. A diminuição de interesse também se deveu a que a população estava mais centrada na crise social que estava ocorrendo no país, e que resultou no período de mobilizações de trabalhadores conhecido como Triênio Bolchevique.

Até então era frequente o modelo de imprensa partidária e, durante a guerra, atualizou-se para um jornalismo empresarial, que tinha sido já adotado pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha. No jornalismo empresarial o jornal entende-se como um negócio, dando mais destaque à publicidade, o que lhes permitiu independência da política em troca de se manterem atraentes para os clientes. Os jornais, sustentados por empresas jornalísticas, favoreciam a informação ante à opinião,melhoraram a tipografía das manchetes e acrescentaram mais fotografias, o que os levou a comprar novas rotativas para as imprentas.Criaram-se novas empresas jornalísticas, entre elas o El Sol em Madri. A figura do correspondente recebeu mais importância. Grandes figuras jornalísticas, literárias e políticas trabalharam como correspondentes na Primeira Guerra Mundial, como Salvador de Madariaga, Ramiro de Maeztu e Julio Camba. miniaturadaimagem|"Um paroquiano neutro - Me traga um terço alemão e um sanduíche de pão francês ... Ah! Se houver uma salada russa, sirva-me uma porção", de Manuel Tovar Siles, no El Imparcial.