O Castelo de Loulé é um monumento militar na cidade de Loulé, na região do Algarve, em Portugal. O castelo foi originalmente construído durante a ocupação islâmica, que se iniciou em 715, tendo provavelmente sucedido a uma fortaleza romana. Foi definitivamente tomado pelas forças cristãs nos finais do século XIII, durante o período da Reconquista, tendo depois sido alvo de grandes obras de reconstrução e ampliação, embora tenham permanecido alguns vestígios das estruturas defensivas islâmicas. Grande parte do castelo foi progressivamente desaparecendo devido à expansão urbana, restando apenas algumas torres e lanços das muralhas, que foram classificados como Monumento Nacional em 1924. Parte da antiga alcaidaria do castelo foi ocupada pelo Museu Municipal de Arqueologia.
left|thumb|Fachada do Museu Municipal Descrição Devido à sua importância a nível regional, a cidade islâmica de Loulé estava dividida em duas áreas distintas: a Alcáçova, onde estavam aquarteladas as tropas e as autoridades militares, e a medina, uma zona urbana no interior das muralhas, que tinha funções principalmente civis e ligadas à administração. Embora as estruturas defensivas tenham sido modificadas após a reconquista, a sua organização manteve-se essencialmente inalterada, com a parte da alcáçova a continuar a ter funções militares.
Alcaidaria e museu
Os principais vestígios das muralhas são um lanço em curva com três torres, todas de configuração diferente. A situada mais a Norte é albarrã, ou seja, foi construída muito próxima mas fora da muralha, à qual está ligada por uma ponte, sendo uma das duas torres deste tipo sobreviventes em Loulé. A torre central está adossada ao lado exterior da muralha, enquanto que a torre Sul, de planta rectangular, está parcialmente integrada na muralha. No topo da muralha situa-se um caminho de ronda, que se liga às torres. A parte do castelejo foi construído já após a reconquista, embora a torre albarrã em alvenaria, situada junto à Rua da Barbacã, apresente alguns indícios da influência muçulmana.
Este lanço das muralhas provavelmente serviria como limite à alcáçova. Embora não tenham sido encontrados indícios da alcáçova original, esta provavelmente estaria situada no mesmo ponto onde foi depois construída a alcaidaria, local que foi posteriormente ocupado pelo Museu Municipal de Arqueologia e outros serviços culturais. O museu ocupa o piso térreo da antiga alcaidaria do Castelo de Loulé, num espaço que também terá sido ocupado por antigas estruturas residenciais, durante o período islâmico. O acervo do museu é composto principalmente por várias peças arqueológicas recolhidas em várias partes do concelho, tanto em achados ocasionais ou em sondagens feitas tanto no interior como ao longo da costa, sendo igualmente o depositário do espólio do escritor Pedro de Freitas, do fotógrafo Guerreiro e da antiga Sociedade Filarmónica Marçal Pacheco. Em 2017, o espólio do museu era composto por cerca de sete mil peças, recolhidas desde a década de 1930.
A Sul do conjunto do castelejo, a muralha foi parcialmente aproveitada como apoio para um edifício de dois pisos, com a fachada voltada para a Rua das Bicas Velhas. O andar superior foi reconstruído num período relativamente recente, provavelmente já do século XX, mas o piso térreo é muito mais antigo, contando com vários grossos arcos, que certamente serviam para sustentar grandes construções. Este piso comunicava com um recinto a Norte, que por sua vez estava ligado à torre mais meridional do castelejo, tendo sido descobertos vestígios de uma antiga porta em arco na estrutura da torre. No piso térreo do edifício também existia uma antiga porta em arco que foi entaipada, e que está voltada para o conjunto conhecido como Casas do Castelo.
thumb|Torre do Relógio, que poderá ter aproveitado a estrutura de uma antiga torre militar, que protegia a porta de acesso à Rua do Município, cujo túnel surge à esquerda Medina e traçado das muralhas A muralha islâmica, do período almóada, foi construída segundo o processo da taipa, tendo sobrevivido alguns segmentos dentro da malha urbana da cidade. Nas imediações da antiga parte Norte da muralha, junto à desaparecida cerca do Convento da Graça, foi recolhido um risco espólio islâmico, demonstrando que esta parte da antiga medina tinha sido ocupada de forma intensa a partir do século X. Quando estavam inteiras, as muralhas encerravam um perímetro de grandes dimensões, com cerca de cinco hectares, que também servia como prova da importância de Loulé a nível regional. Um dos principais vestígios da presença das antigas defesas é a organização dos arruamentos no interior da cidade, que foram criados quando as muralhas ainda existiam e permaneceram no mesmo local após a sua progressiva demolição, criando assim um registo físico do antigo percurso das muralhas.
Imediatamente a Sul da Rua das Bicas Velhas sobreviveu parte da muralha, nas traseiras das casas da Rua Garcia da Horta, e um torreão, cuja altura é inferior à dos telhados em redor. De acordo com Ataíde de Oliveira, a desaparecida Porta Nova estava situada aproximadamente no local das Escadinhas da Horta d'El Rei. A muralha seguia depois junto à Calçada dos Sapateiros, tendo sido encontrados alguns vestígios naquela rua e no interior dos edifícios. o lanço das muralhas ao longo da Rua Martim Moniz encontra-se em muito melhor estado de conservação, podendo ser dividido em duas partes distintas. O lanço Norte perdeu completamente a estrutura superior, servindo a metade inferior como suporte aos terrenos do Jardim dos Amuados, antigo cemitério municipal. A parte mais a Sul, até ao entroncamento com a Rua Engenheiro Duarte Pacheco, estava em melhores condições, com o muro completo e o caminho de ronda, mas já sem as ameias. Ao longo da Rua Duarte Pacheco também sobreviveram alguns lanços anexos aos edifícios, tendo perdido totalmente as ameias e a maior parte do caminho de ronda. Nesta rua destaca-se uma imponente torre albarrã em taipa, situada fora das muralhas, às quais estava ligada por uma pequena ponte, que também sobreviveu, apesar de estar rodeada de edifícios. Esta estrutura é conhecida como Torre da Vela. A Oeste situava-se uma das entradas da cidade, a chamada Porta de Faro, que apesar de ter sido profundamente modificada ainda apresenta alguns traços da construção almóada. Com efeito, num período relativamente recente, foi feita uma nova abertura na muralha ao lado da antiga entrada, para a passagem da Travessa de Nossa Senhora do Pilar, de acesso ao Largo Professor Cabrita da Silva. A antiga porta foi entulhada e tapada do lado Sul pela Capela de Nossa Senhora do Pilar, que foi possivelmente construída em parte com materiais retirados do conjunto da porta, que incluía uma torre. O sítio onde estava esta torre foi depois ocupado por uma moradia com duas janelas e açoteia, cujas paredes, feitas em alvenaria com um aparelho de blocos de pedra, são semelhantes às das muralhas. O lado Norte da antiga Porta de Faro foi descoberto em 1969, durante obras de restauro das muralhas por parte da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. O lanço das muralhas desde esta porta até à Rua Primeiro de Dezembro desapareceu em grande parte, restando apenas uma torre e parte de um muro, com caminho de ronda. Daqui até à Avenida Marçal Pacheco apenas sobreviveu um pequeno fragmento de muralha anexa a um quintal, onde foram igualmente recolhidos peças de cerâmica muçulmana, incluindo grandes talhas, uma das quais foi preservada no museu municipal.
A muralha faria aqui um ângulo com cerca de 90 graus, partindo sensivelmente para Norte até perto do Mercado Municipal, de onde curvava para Noroeste. Não sobraram quaisquer vestígios evidentes da muralha neste lanço, embora provavelmente seguisse a meio das casas no quarteirão entre a Rua Primeiro de Dezembro e a Avenida Marçal Pacheco, uma vez que em 1971 alguns dos edifícios ainda apresentavam paredes de grande espessura, além que alguns imóveis junto ao Mercado não seguiam a orientação da rua, pelo que poderiam estar alinhados com a antiga muralha. Neste lanço de muralha existia originalmente uma torre, que foi identificada por Ataíde de Oliveira como a Torre do Relógio, e que supostamente terá sido demolida em 1970 para a construção de uma casa na Rua Marçal Pacheco. o local da Rua Pedro de Freitas, antigo Largo do Carmo, existia outra das entradas da cidade, a Porta da Vila, que foi destruída em 1873, em conjunto com grande parte das muralhas e a Ermida de Nossa Senhora do Carmo. Segundo Ataíde de Oliveira, em 1907 outro lanço das muralhas foi demolido para a construção do Mercado Municipal e a urbanização daquela área. Com efeito, durante as obras do mercado foram feitos aterros com cerca de dois metros de profundidade, para os alicerces do edifício, tendo sido nessa altura encontrados silos com vestígios do período islâmico.
De acordo com Ataíde de Oliveira, sensivelmente no intervalo entre o Mercado e a Câmara Municipal situava-se a desaparecida Porta da Rua do Postigo, posteriormente renomeada para Rua Nove de Abril. O nome original fazia referência ao chamado postigo ou porta da traição, que era normalmente instalado nas povoações amuralhadas. A muralha passava depois a meio do edifício da Câmara Municipal, tendo sobrado apenas um fragmento, nas traseiras da nova Torre do Relógio. Ataíde de Oliveira considerou que esta torre era de construção totalmente moderna, embora a sua estrutura revele duas fases muito distintas, uma vez que a parte inferior apresenta uma alvenaria muito semelhante à utilizada nas antigas muralhas, enquanto que a parte superior é definitivamente moderna. Caso tenha existido aqui realmente uma torre militar, esta provavelmente protegeria a porta de acesso para a Rua do Município, que desemboca imediatamente ao lado da torre. Outra parte da antiga muralha era visível ao longo do limite Nordeste do antigo Convento do Espírito Santo, terminando ao longo da parede Sudoeste da Ermida de Nossa Senhora da Conceição. Com efeito, a ermida terá aproveitado a antiga estrutura da muralha para servir como parede, podendo ter sido construída no local de uma torre, situada no lado de fora das muralhas, e que protegia uma entrada da povoação, a Porta de Portugal. Com efeito, durante obras de remodelação no interior da ermida, foram encontrados indícios das antigas defesas islâmicas, nomeadamente dois lanços de muralha e uma torre, Foram igualmente descobertos os alicerces desta porta, tendo-se apurado que apresentava uma configuração em cotovelo, típica do período islâmico. Segundo documentos consultados por Ataíde de Oliveira, nem a Ermida de Nossa Senhora da Conceição nem as Capelas da Senhora do Carmo e da Senhora do Pilar, ambas situadas junto a portas da vila, existiam antes de 1565. Ataíde de Oliveira registou igualmente que em frente da ermida estava situado um moinho de vento, que poderá ter assentado sobre os alicerces da segunda torre que protegia a porta, de forma a ficar a uma maior altitude.
Entre o conjunto do castelejo e a rua em frente da Ermida de Nossa Senhora da Conceição, foram encontrados vestígios das muralhas encostados aos edifícios, no interior ao pátio conhecido como Casas do Castelo. Segundo Estácio da Veiga, estes edifícios foram utilizados como aquartelamento por um regimento de dragões durante o século XVIII.
Outros indícios das antigas muralhas islâmicas, com o correspondente adarve, foram encontrados em 2000, durante trabalhos arqueológicos numa pequena casa na Travessa de Martim Farto, no centro histórico. Também foram encontrados vestígios de uma muralha por debaixo da fachada posterior da Casa das Bicas, junto ao Largo D. Pedro I, que tinha cerca de 3 m de espessura, e era formada por blocos de pedra calcária da região, com uma argamassa em cal.