Arracão é uma região histórica costeira do sudeste da Ásia, localizada entre a baía de Bengala a oeste, o subcontinente indiano a norte e a Birmânia a leste. As Montanhas do Arracão isolaram a região e a tornaram acessível apenas pelo mar. A região atualmente forma o estado de Arracão em Mianmar.Columbia Encyclopedia, s.v. "Rakhine State".

Os primeiros habitantes do Arracão provavelmente são o povo tibeto-birmanês, que atualmente compõem a maioria da região. Dada a sua proximidade com o subcontinente indiano, os povos de línguas indo-arianas estão presentes no Arracão desde a antiguidade. O Arracão tornou-se uma das primeiras regiões do sudeste da Ásia a abraçar as religiões dármicas, particularmente o budismo e o hinduísmo. O Islã chegou com os comerciantes árabes no . A partir do , a influência islâmica cresceu durante a vassalagem arracanesa ao Sultanato de Bengala. O Reino de Mrauk U surgiu como um reino arracanês independente por 300 anos. Durante a Era dos Descobrimentos, o Arracão despertou o interesse do Império Português a partir de 1514 e no da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais. O Arracão tornou-se um centro de pirataria e outras áreas de comércio.

Após a conquista da Companhia Britânica das Índias Orientais, o Arracão tornou-se uma das divisões da Índia Britânica e recebeu colonos oriundos da região vizinha, a Divisão de Chatigão da Presidência de Bengala. Em 1937, tornou-se uma divisão da Birmânia britânica. A Divisão do Arracão foi na ocasião uma das principais exportadoras de arroz. Durante a Segunda Guerra Mundial, a região foi ocupada pelo Japão Imperial. As Forças Aliadas libertaram o Arracão durante a Campanha da Birmânia. Continuou sendo uma divisão administrativa depois da independência birmanesa; e mais tarde tornou-se uma província. No início de 1960, a parte norte do Arracão foi governada a partir de Rangum como a .

Em 1982, a lei de nacionalidade birmanesa despojou muitos habitantes da região de sua cidadania. Em 1989, a junta militar birmanesa mudou o nome oficial da Birmânia para Mianmar. Na década de 1990, a junta mudou o nome do Estado do Arracão para Estado de Rakhine - um nome que reflete o domínio da maioria de Rakhine. Muitos na minoria ruainga (rohingya) se opuseram fortemente a alteração. A região tem visto conflitos entre o Estado birmanês, os nacionalistas arracaneses e os rebeldes ruaingas. Em tempos mais recentes, o Estado de Rakhine tem se destacado pelo êxodo de refugiados para países vizinhos devido às operações militares do Tatmadaw (Exército de Mianmar).

Etimologia Cláudio Ptolomeu identificou Arracão como Argiré. Registros portugueses grafavam o topônimo como Arracão. O topônimo foi escrito como Araccan em muitos mapas antigos e publicações europeias. A região foi nomeada como "Divisão de Arracão" (Arakan Division) durante o domínio britânico na Birmânia.

Outros nomes Os primeiros comerciantes árabes estavam familiarizados com o topônimo indiano de Rohang como o nome de Arracão. A tradição birmanesa mantém o nome da região como sendo Rakhaing.

História Primeiros habitantes Não está claro quem foram os primeiros habitantes; alguns historiadores acreditam que os primeiros colonizadores incluíram a tribo Mro birmanesa, mas há uma falta de evidência e nenhuma tradição clara de sua origem ou registros escritos de sua história. A história tradicional birmanesa sustenta que o Arracão foi habitado pelos arracaneses desde . Mas não há evidência arqueológica para apoiar essa reivindicação. De acordo com o historiador britânico Daniel George Edward Hall, que escreveu extensivamente sobre a história da Birmânia, "os birmaneses aparentemente não se estabeleceram no Arracão possivelmente até depois do Por isso, acredita-se que dinastias primitivas tenham sido indianas, dominando uma população similar à de Bengala. Todas as capitais conhecidas pela história foram no norte, perto da moderna Akyab".D. G. E Hall, A History of South East Asia, New York, 1968, P. 389.

Antiga influência índica thumb|Um mapa mostrando o Arracão como vizinho dos reinos do delta do Ganges em 200 thumb|Um mapa mostrando o Arracão como vizinho do Império Gupta Indiano em 400

O Arracão ficou sob forte influência índica a partir do subcontinente indiano, particularmente os antigos reinos do delta do Ganges. O Arracão foi uma das primeiras regiões do sudeste da Ásia a adotar religiões dármicas e tornou-se um dos primeiros reinos indianizados do sudeste da Ásia. Missionários budistas do Império Máuria viajaram através do Arracão para outras partes do sudeste asiático.

Primeiros estados Devido à evidência de inscrições em sânscrito encontradas na região, os historiadores acreditam que os fundadores do primeiro estado arracanês foram indianos. O primeiro estado arracanês desenvolveu-se em entre os séculos IV e VI. A cidade era o centro de uma grande rede comercial ligada à Índia, China e Pérsia. O poder então deslocou-se para a cidade de , onde a dinastia Chandra governou. Uaitali tornou-se um porto comercial rico. O estado de , regido pelos Chandra, era conhecido como Reino de Rumi para os árabes.

Chegada do Islã Desde o , mercadores árabes começaram a conduzir atividades missionárias e muitos habitantes locais se converteram ao islamismo. Alguns pesquisadores especularam que os muçulmanos usavam rotas de comércio na região para viajar à Índia e à China. Um ramo do sul da Rota da Seda ligava a Índia, a Birmânia e a China desde o período neolítico. Muitos comerciantes árabes se casaram com mulheres locais e se estabeleceram no Arracão. Como resultado do casamento e conversão, a população muçulmana no Arracão cresceu.Andrew T. H. Tan (2009). A Handbook of Terrorism and Insurgency in Southeast Asia. Edward Elgar Publishing. p. 327.

Migração arracanesa Também não está claro que os arracaneses eram uma das tribos das Cidades-Estados Pyu porque os Pyus não estão relacionados com a etnia birmanesa. Eles começaram a migrar para o Arracão através das Montanhas do Arracão no . Os arracaneses se estabeleceram no vale do rio Lemro. Suas cidades incluíam Sambawak I, Pyinsa, Parein, Hkrit, Sambawak II, Myohaung, Toungoo e Launggret. As cidades floresceram entre os séculos XI e XV. Os birmaneses invadiram o Arracão em 1406.

Influência indo-islâmica thumb|Arracão sob o Sultanato de Bengala no Após a invasão birmanesa, fugiu para Gaurh no Sultanato de Bengala, onde permaneceu no exílio por 24 anos depois de receber asilo pelo Sultão . O Sultanato de Bengala foi um dos principais estados islâmicos estabelecidos após a conquista muçulmana do subcontinente indiano.

Em 1430, Mim Sau Mom recuperou o controle do Arracão com a ajuda do Sultanato de Bengala. Ele estabeleceu sua nova capital na cidade de Mrauk U. O Arracão tornou-se um Estado vassalo do Sultanato de Bengala e reconheceu a soberania bengalesa sobre algum território do norte do Arracão. Os reis arracaneses adotaram títulos islâmicos e utilizaram o taka bengali. Mim Sau Mom intitulou-se como Solimão Xá. Os bengalis se estabeleceram no Arracão e formaram seus assentamentos.

Reino de Mrauk U

Os sucessores de Mim Sau Mom no Reino de Mrauk U procuraram acabar com a hegemonia do Sultanato de Bengala. (Ali Cã) foi o primeiro a desafiar a hegemonia bengali. (Calima Xá) derrotou o sultão de Bengala em 1459. (Zabuque Xá) conquistou Chatigão. Tirando vantagem da campanha de invasão do Império Mogol em Bengala, a marinha e os piratas do Arracão dominaram uma linha costeira de 1000 milhas, abrangendo desde os Sundarbans até Moulmein. O litoral do reino era frequentado por árabes por portugueses ( a partir de 1514) e um século depois por holandeses, dinamarqueses . O controle dos vales do rio Kaladan e do rio Lemro levariam ao aumento do comércio internacional, tornando Mrauk U próspero. Os reinados de Mim Palaungue (Siquender Xá), Mim Rajagiri (Salim Xá I) e do neto Mim Camaungue (Huceine Xá) fortaleceram a riqueza e o poder de Mrauk U. O Arracão foi conivente no comércio de escravos com o assentamento português em Chatigão. Depois de conquistar a cidade portuária de Sirião em 1599, o Arracão nomeou o mercenário português Filipe de Brito e Nicote como o governador de Sirião. Mas Nicote depois transferiu Sirião para a autoridade da Índia portuguesa.

Mesmo após a independência dos sultões de Bengala, os reis arracaneses continuaram o costume de manter títulos muçulmanos. Eles compararam-se aos sultões e moldaram-se conforme os governantes mogóis. Também continuaram a empregar indianos e muçulmanos em posições de prestígio dentro da administração real. A corte adotou os hábitos indianos e islâmicos da vizinha Bengala. Mrauk U hospedou mesquitas, templos, santuários, seminários e bibliotecas. Syed Alaol foi um renomado poeta do Arracão. A influência indiana e muçulmana continuaria nos assuntos arracaneses por 350 anos.

Em 1660, , irmão do Imperador Aurangzeb e pretendente ao Trono do Pavão, recebeu asilo em Mrauk U. Membros da comitiva de Xuja foram recrutados no exército e na corte arracanesa, sendo dignitários em Arracão até à conquista birmanesa. O Arracão sofreu uma grande derrota para as forças de Suba de Bengala durante a Batalha de Chatigão em 1666, quando Mrauk U e os seus aliados Portugueses perdeu o controle do sudeste de Bengala. O reinado da dinastia Mrauk U continuou até o .

Conquista birmanesa A dinastia Konbaung conquistou o Arracão em 1784. Mrauk U foi devastada durante a invasão. O Império Birmanês executou milhares de homens e deportou uma porção considerável de pessoas da população arracanesa para a Birmânia central.

Império Britânico thumb|Divisão Britânica do Arracão em 1931

O Império birmanês cedeu o Arracão à Companhia Britânica das Índias Orientais pelo Tratado de Yandabo de 1826. O Arracão tornou-se uma das divisões da Índia britânica. Inicialmente governada como parte da Presidência de Bengala, recebeu muitos colonos da Divisão de Chatigão. Os colonos se tornaram influentes no comércio, na agricultura e na navegação. Em 1937, o Arracão tornou-se parte da província de Burma, que foi separada da Índia em uma colônia da coroa distinta. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Arracão padeceu a ocupação japonesa da Birmânia. O Exército Independente Birmanês e a V Force pró-britânica foram ativas na região. As tensões sectárias se intensificaram durante os massacres no Arracão em 1942. O domínio japonês terminou com a bem-sucedida Campanha da Birmânia pelas forças aliadas.

Durante o domínio britânico, a Divisão do Arracão foi uma das maiores exportadoras de arroz do mundo. A divisão portuária e capital Akyab foram dominados pelos arracaneses ruaingas, o que causou tensão com os arracaneses birmaneses. Ambos os grupos foram representados como nativos no Conselho Legislativo da Birmânia e na Legislatura da Birmânia. Nos anos 1940, os arracaneses muçulmanos apelaram a Muhammad Ali Jinnah para incorporar os distritos do vale do rio Maiu no Domínio do Paquistão.

Independência birmanesa O Arracão tornou-se uma das divisões da União da Birmânia após a independência do domínio britânico. A Birmânia foi uma democracia parlamentar até o golpe de Estado de 1962. A parte norte do Arracão seria governada pelo governo central em Rangum no início dos anos 1960. Conhecido como Distrito da Fronteira de Maiu, abrangia municípios perto da fronteira com o Paquistão Oriental.Background Paper on Rakhine State by Myanmar-Institute of Strategic and International Studies (M-ISIS), 28 de Maio de 2018