miniaturadaimagem|341x341px|Mapa de províncias geológicas do Brasil. A Província Borborema está localizada no extremo Nordeste do mapa A Província Borborema é uma importante entidade geológica e geográfica localizada no Nordeste do Brasil. Compreende quase em totalidade os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, totalizando uma área de 380.000 km². Está limitada a norte e leste pelo Oceano Atlântico; a oeste pela Bacia do Parnaíba, e a sul pelo Cráton São Francisco.Almeida, F. F. M., Hasui, Y., de Brito Neves, B. B., & Fuck, R. A. 1981. Brazilian structural provinces: An introduction. Earth-Science Reviews, 17(1-2), 1–29.

Seu terreno é parte de um sistema de orógenos resultantes da colisão do paleocontinente Gondwana, ocorrida há 650 e 500 milhões de anos, evento geológico conhecido como Orogênese Brasiliana.Basto, C. F. 2018. Evolução Geológica da Sequência Metavulcanossedimentar Ipueirinha, Província Borborema, Piauí: Petrografia, Geoquímica e Geocronologia. Dissertação de Mestrado. UFMG. 105 pp.

É dividida em três domínios: Setentrional, Central e Meridional. Esses domínios são separados por duas grandes zonas de cisalhamento de direção leste-oeste: o Lineamento Patos e o Lineamento Pernambuco. O relevo dessa região é caracterizada por cadeias de montanhas e mares de morros de direção nordeste-sudoeste lineares e sigmoides, Caxito F.A. 2013. Geotectônica e evolução crustal das faixas Rio Preto e Riacho do Pontal, estados da Bahia, Pernambuco e Piauí. Universidade Federal de Minas Gerais, Instituto de Geociências, Tese de Doutorado, Belo Horizonte, 288 p. típicos de movimentos das falhas transcorrentes. ALMEIDA, Fernando Flávio Marques de; HASUI, Yociteru; BRITO NEVES, Benjamim Bley de. The Upper Precambrian of South America. Boletim IG, São Paulo, v. 7, p. 45-80, 1976.

É composto por rochas metamórficas de baixa a média pressão, recobertas por importantes bacias sedimentares como as bacias do Araripe, Potiguar e Jatobá.

Trabalhos pioneiros e divergências sobre a gênese da Província Borborema Em comparação com outras porções do território brasileiro, como sudeste e sul, a região nordeste do Brasil teve sua geologia estudada em detalhe mais tardiamente, no último quarto do século XX. Trabalhos como o de Brito Neves (1975)BRITO NEVES, B. B. 1975. Regionalização Geotectônica do Pré-Cambriano Nordestino. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. 198p., Almeida et al. (1976), e Santos & Brito Neves (1984)SANTOS, E. J., BRITO NEVES, B. B. Província Borborema. In: ALMEIDA, F. F. M., HASUI, Y. (Coord). O Pré-Cambriano do Brasil. São Paulo, Edgard Blücher, 1984. pp 123-186. 378p. foram pioneiros na compartimentação da Província Borborema, individualizando faixas de dobramentos marginais (Sergipana e Médio Coreaú), e interiores (Riacho do Pontal, Piancó-Alto Brígida, Seridó, Pajeú-Paraíba, Jaguaribeana, Rio Curu-Independência), formadas no Ciclo BrasilianoGOMES, J. R. C. 2000. Programa Levantamentos Geológicos do Brasil. Jaguaribe-SW, Folha SB>24-Y. Estados do Ceará, de Pernambuco e do Piauí. Escala 1:500.000. Brasília: CPRM.. Os autores também identificaram, alternados às faixas dobradas, maciços gnáissico-migmatítico-graníticos expressivos, mostrando idades Rb/Sr paleoproterozoicas e arqueanas, com retrabalhamento no Neoproterozoico (Pernambuco-Alagoas, Caldas Brandão, Rio Piranhas, Tauá, Santa Quitéria e Marginal do Cráton São Francisco.

A consolidação das informações geológicas estabelecidas pelos referidos autores abriu caminho para divergências em relação à gênese da Província Borborema. Até o fim do século XX estava em voga uma hipótese que entende a Província Borborema como produto da amalgamação de terrenos tectono-estratigráficos alóctones, sendo a aglutinação final ocorrida na Orogênese Brasiliana, com ápice em torno de 580 Ma. Autores como Jardim de Sá (1994)JARDIM DE SÁ, E. F. A. 1994. A Faixa Seridó (Província Borborema, NE do Brasil) na Cadeia Brasiliana/Pan-Africana. Tese de Doutorado. Universidade de Brasília. 803p., Van Schmus et al. (1994)VAN SCHMUS, W. R., BRITO NEVES, B. B., HACK-SPACHER, P. 1994. Identification of lithospheric domains in NE Brazil and their relevance to the ancestry and assembly of western Gondwana. Intern. Symp. Phys. Chem. Upper Mantle. Ext. Abst. pp.79-81. e Brito Neves et al. (2000)BRITO NEVES, B. B., SANTOS, E. J., VAN SCHMUS, W. R. 2000. Tectonic History of the Borborema Province. In: Cordani U. G., Milani E.J. Thomas Filho A., Almeida D.A. (Eds), Tectonic Evolution of South America, Rio de Janeiro, 31th International Geological Congress, pp. 151-182. e Gomes (2000) advogaram a favor dessa tese à época. Já autores como Neves (2003)Neves, S.P. 2003. Proterozoic history of the Borborema province (NE Brazil): Correlations with neighboring cratons and Pan-African belts and implications for the evolution of western Gondwana. Tectonics, 22: 1031-1045. e Neves et al. (2006Neves, S.P., Bruguier, O., Vauchez, A., Bosch, D., Silva, J.M.R., Mariano, G. 2006. Timing of crust formation, deposition of supracrustal sequences, and Transamazonian and Brasiliano metamorphism in the East Pernambuco belt (Borborema Province, NE Brazil): implications for western Gondwana assembly. Precambrian Research, 149: 197–216. e 2009Neves S.P., Bruguier O., Silva J.M.R., Bosch D., Alcantara V.C., Lima C.M. 2009. The age distributions of detrital zircons in metasedimentary sequences in eastern Borborema Province (NE Brazil): evidence for intracontinental sedimentation and orogenesis? Precambrian Research, 175: 187-205.) concebem a evolução geodinâmica da Província Borborema como retrabalhamento de uma crosta paleoproterozoica, consolidada em 2 Ga, durante a Orogênese Brasiliana, havendo formação e posterior inversão de bacias ensiálicas. Outra teoria, embasada no que ocorre com orógenos fanerozoicos, defendida por exemplo por Caxito et al. (2016)Caxito, F.A., Uhlein, A., Dantas, E.L., Stevenson, R., Salgado, S.S., Dussin, I.A., Sial, A.N. 2016. A complete Wilson Cycle recorded within the Riacho do Pontal Orogen, NE Brazil: Implications for the Neoproterozoic evolution of the Borborema Province at the heart of West Gondwana. Precambrian Research, 282: 97-120., entende que o que se vê na região hoje é produto de um Ciclo de Wilson completo, com rifteamento, deriva, subducção e colisão. <div align="justify"><div align="justify"><div align="justify"><div align="justify"><div align="justify">

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Compartimentação e Evolução Tectônica Domínio Setentrional

O Domínio Setentrional da Província Borborema é delimitado a sul pela Zona de Cisalhamento Patos, a oeste pela Bacia do Parnaíba e a leste e norte pelas bacias litorâneas do nordeste brasileiro. Compreende o estado do Ceará, a totalidade do estado do Rio Grande do Norte e parte do estado da Paraíba. Existem variadas propostas de subdivisão dentro do Domínio Setentrional, sendo que aqui será exposta a divisão de Jardim de Sá (1994) e Santos (1996)SANTOS, E.J., 1996. Ensaio Preliminar sobre terrenos e tectônica Acrescionária na Província Borborema. XXXIX Congresso Brasileiro de Geologia. Salvador 6, 47–50., composta pelos seguintes compartimentos tectono-estratigráficos: Faixa Noroeste do Ceará, Domínio Ceará Central, Faixa Orós-Jaguaribe e Faixa Seridó (ambas as faixas englobadas no Domínio Rio Grande do Norte. Como divisores desses compartimentos ocorrem expressivas zonas de cisalhamento de expressão regional e grande rejeito direcional. Além disso, esses subdomínios são parcialmente recobertos por sedimentos fanerozóicos relacionados em sua maioria às bacias de margem continentalCAMPELO, R. C. 1999. Análise de Terrenos na Porção Setentrional da Província Borborema, NE do Brasil: Integração de dados Geológicos e Gravimétricos. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 140p.. <div align="justify">

Faixa Noroeste do Ceará

Também chamada de Faixa Médio Coreaú SANTOS, T. J. S.; FETTER, A. H. ; HACKSPACHER, P. C. ; SCHMUS, W. R. V. ; NOGUEIRA NETO, J. A. . Neoproterozoic tectonic and magmatic episodes in the NW sector of the Borborema Province, NE Brazil, during assembly of western Gondwana. Journal of South American Earth Sciences, v. 25, p. 271-284, 2008., está localizada no extremo noroeste da Província Borborema e a sudeste do Cráton de São Luís. A Faixa Noroeste do Ceará é delimitada a leste pela Bacia do Parnaíba e a sul-sudeste pela zona de cisalhamento Sobral-Pedro II, uma megaestrutura de direção NE-SW e caráter transcorrente dextral de idade neoproterozoica, que marca a divisa com o Domínio Ceará Central UFAM. 2011. Província Brasileiras - Borborema. Aula do curso de geologia. Disponível em http://home.ufam.edu.br/ivaldo/Aulas/Geologia%20do%20Brasil/Prov%C3%ADncia%20Borborema%202011.pdf . Acesso em 16/05/2019.. A zona de cisalhamento Sobral-Pedro II expõe uma grande zona milonítica que se estende para nordeste, chegando a África Ocidental (lá denominada falha de Kandi) e para SW, adentrando o interior do Brasil, onde é chamada de Lineamento Transbrasiliano. <div align="justify">

A estratigrafia da Faixa Noroeste do Ceará é formada por rochas gnáissicas-migmatíticas - incluindo metaplutônicas e paraderivadas de metamorfismo de alto grau (anfibolito a granulito) - rochas supracrustais dos grupo Martinópole, São Joaquim e Ubajara, granitos de idade brasiliana e o Grupo Jaibaras, que é interpretado como formado por molassas vulcanossedimentares brasilianas. Também ocorrem coberturas paleozoicas da Bacia do Parnaíba e depósitos meso-cenozóicos litorâneos. As rochas gnáissicas-miloníticas são típicas suítes TTG, consideradas parte de crosta juvenil paleoproterozoica de idade 2,36-2,29 Ga, formando o embasamento das rochas supracrustais citadasCASAGRANDE, P. I. 2013. Mapeamento geológico da região de Quitaiús (CE) - Complexo Granjeiro - Província Borborema. Trabalho de conclusão de curso. Universidade Estadual de Campinas. p89.. A geocronologia U-Pb em zircão aponta idades entre 775 e 808 Ma e metamorfismo em torno de 650 Ma (U-Pb em titanita)SANTOS, T. J. S. 1999. Evolução tectônica e geocronológica do extremo Noroeste da Província Borborema. Universidade Estadual Paulista, Rio Claro. Tese de Doutorado. para as rochas supracrustais. <div align="justify">

O Grupo São Joaquim, considerado por alguns autores como sendo uma formação do Grupo Martinópole, é formado por quartzitos e, de forma subordinado, micaxistos, paragnaisses, mármores e metavulcânicas. Por sua vez, o Grupo Martinópole apresenta micaxistos, filitos, arenitos, quartzitos e intercalações de metavulcânicas e metacarbonatos. Os dois grupos mostram sinais de deformação polifásica e grau metamórfico variando de xisto verde a anfibolito. <div align="justify">

O Grupo Ubajara é constituído por sedimentos clastopelíticos e por um expressiva fácies carbonática, que por sua vez é superposta por outra porção clastopelítica, sendo todo o grupo interpretado como fruto de sedimentação em ambiente flúvio-marinho. Essas rochas mostram um grau metamórfico de xisto verde baixo a médio e pouca deformação, estando bem preservadas as estruturas primárias. Há controvérsia na literatura sobre a temporalidade dos eventos tectônicos que afetaram o Grupo Ubajara, porém parece conclusivo que os corpos graníticos intrusivos pós-tectônicos indicam uma idade mínima para a deposição desse grupo, que seria em torno de 532 MaSANTOS, T.J. S., FETTER A. H., NETO, J. A. N., HACKSPACHER, P. C., VAN SCHMUS, W. R. 1998. Geochronology and geochemistry of the Médio Coreaú domain, NW Borborema Province. Anais XL Congresso Brasileiro de Geologia. 1:29. Belo Horizonte.. <div align="justify">