O Orógeno Araçuaí é um orógeno confinado localizado no Brasil, formado entre o Neoproterozoico e o início do Paleozoico durante a amalgamação do supercontinente Gondwana.

O Orógeno Araçuaí ou Faixa de dobramentos Araçuaí foi definido primeiramente pelo professor Fernando Flávio Marques de Almeida em 1977. Este orógeno representa o segmento setentrional da Província MantiqueiraM Heilbron, Geologia do Continente Sul-Americano, Cap. Província Mantiqueira, Editora Beca Produções Culturais, p. 203-234 2004 e localiza-se a leste do Cráton do São Francisco, entre os paralelos 15° e 21°SAntônio Pedrosa-Soares, The Araçuaí–West Congo orogen in Brazil: An overview of a confined orogen formed during Gondwanland assembly, Precambrian Research, 110: 307-323, 2001 sendo limitado a Norte por este cráton e ao Sul pela Faixa Ribeira.

Durante a década de 1990 obteve-se o resultado de grandes projetos de mapeamento geológico, além de diversos dados como seções estruturais regionais, dados litoquímicos e estudos isotópicos pelos métodos U-Pb, Sm-Nd e Pb-Pb. Este conhecimento foi essencial para a interpretação geotectônica da área e possibilitou a definição do Orógeno Araçuaí.

Com base nesse conhecimento adquirido, na correlação entre as faixas Araçuaí e Congo OcidentalB Brito Neves, Tectonic evolution of South America during the Late Proterozoic, 1991R. Trompette, Geology of Western Gondwana (2000-500 Ma). Pan-African-Brasiliano aggregation of South America and Africa, 1994 e na relação crono-espacial dos conceitos de orógeno e cráton definiu-se o Orógeno Araçuaí-Congo Ocidental (Araçuaí-West-Congo Orogen) para referir o conjunto orogênico neoproterozóico-cambriano contido na grande reentrância delineada pelos crátons do São Francisco e Congo. Nesta conceituação, este orógeno é identificado por um conjunto de componentes geotectônicos que caracterizam um orógeno colisional sucessor de um orógeno acrescionário de margem continental ativa.

Estágios Os componentes geotectônicos são representados por rochas originadas durante diversos estágios evolutivos, passando desde a bacia precursora até o edifício resultante da orogenia.

Os principais estágios evolutivos da bacia precursora são:

Rifte continental com magmatismo bimodal; Margem continental passiva com associação arenito-pelito-carbonato, turbiditos; Oceânico com rochas magmáticas ofiolíticas, sedimentação pelágica;

Os estágios orogênicos são:

Pré-colisional com subducção da litosfera oceânica ativa e geração de arco magmático; Sin-colisional representando a interação direta entre as partes em colisão, espessamento crustal, fusão parcial e geração de magma tipo S; Tardi-colisional com escapes laterais e geração de granito tipo S por fusão parcial sob descompressão adiabática; Pós-colisional com colapso gravitacional, plutonismo tipo I e A2;

Em decorrência da abertura do Atlântico Sul, no Cretáceo, a contraparte Araçuaí herdou dois terços do Orógeno Araçuaí-Congo Ocidental ficando com unidades do rifte-continental, a margem passiva ocidental com restos ofiolíticos, a zona de sutura, o arco magmático e as bacias relacionadas. A Faixa Congo Ocidental guardou espessa pilha vulcano-sedimentar da fase rifte continental, a margem passiva oriental e uma bacia molássica.

Como a contraparte brasileira do Orógeno Araçuaí-Congo Ocidental contém todos os componentes geotectônicos necessários para se caracterizar um orógeno colisional simplifica-se a denominação neste texto para Orógeno AraçuaíAntônio Pedrosa-Soares Orógeno Araçuaí: síntese do conhecimento 30 anos após Almeida 1977 Geonomos 15, 2007.

Bacia precursora A bacia precursora deste orógeno configura um golfo, ensiálico a norte e oceanizado a sul, que desembocaria em amplo oceano.

Estágio Rifte continental Diversos processos de rifteamento ocorreram no paleocontinente São Francisco-Congo entre o Estateriano e o Toniano, mas nenhum deles foi capaz de romper a litosfera continental na região do futuro Orógeno Araçuaí. Registros destes processos são abundantes no orógeno, e incluem rochas do Supergrupo Espinhaço e da base do Grupo Macaúbas, além de várias suítes magmáticas anorogênicas.

No Criogeniano, novo episódio de rifteamento teve início, durante a glaciacão Sturtiana. Este evento é registrado por magmatismo anorogênico e sedimentação glacial, presentes na Província Alcalina do Sul da Bahia e no Grupo Macaúbas.

Estágio Margem Continental Passiva O rifte evolui para uma margem passiva, com formação de assoalho oceânico e sedimentação em contexto pós-glacial, registradas por rochas pelíticas, localmente com termos químico-exalativos, e ofiolitos. A bacia oceânica gerada tinha uma geometria confinada, a exemplo do que ocorre hoje com o Mar Vermelho. Os registros do estagio de margem passiva estão presentes no Grupo Macaúbas, Complexo Jequitinhonha, e unidades correlatas.

Os registros de assoalho oceânico O setor oriental da Formação Ribeirão da Folha inclui sucessão vulcano-sedimentar de assoalho oceânico, caracterizada por pelitos pelágicos (micaxistos peraluminosos ricos em estaurolita, granada, cianita e/ou sillimanita, e cianita-grafita xisto), chert sulfetado (uma rocha rara que sugere depósito de conduto exalativo), formações ferríferas bandadas dos tipos óxido, silicato e sulfeto, e raro orto-anfibolio de granulação fina. Desta forma, a parte distal da Formação Ribeirão representa a seção superior, sedimentar, incluindo parte da seção vulcânica, de uma coluna ofiolíticaM. Suita Complexos Ofiolíticos do Brasil e a Metalogenia Comparada das Faixas Araçuaí e Brasília. In: Pereira, E. (org.), Complejos Ofiolíticos en Iberoamérica. Madrid, CYTED, p. 101-132, 2004.

Componentes e Estágios Orogênicos No Orógeno Araçuaí são reconhecidos 4 estágios orogênicos caracterizados pelas relações estruturais entre foliação regional e estruturas locais, assinaturas geoquímicas e isotópicas e idades U-PbA. Pedrosa-Soares, C. Wiedemann-Leonardos, Evolution of the Araçuaí Belt and its connection to the Ribeira Belt, Eastern Brazil, Tectonic Evolution of South America. São Paulo, Sociedade Brasileira de Geologia, p. 265-285, 2000A. Pedrosa-Soares, Similarities and differences between the Brazilian and African counterparts of the Neoproterozoic Araçuaí-West-Congo orogen Geological Society, London, Special Publications, 294p., 2008L. Silva The Neoproterozoic Mantiqueira Province and its African connections, Precambrian Research, 136: p. 203-240, 2005.

Estágio Pré-colisional – 630-580Ma Também denominado estágio acrescionário, durante o qual foi edificado o arco magmático do Orógeno, representado pela Suíte G1 e pelas rochas vulcânicas do Grupo Rio Doce. A Suíte G1 é formada por batólitos e stocks e é composta principalmente por rochas tonalíticas e granodioríticas e apresenta tanto autólitos dioríticos e máficos quanto xenólitos de rochas metassedimentares.

Os corpos dessa suíte apresentam a foliação regional, muitas vezes milonítica, além de estruturas formadas durante a deformação sincolisional.

As rochas da suíte G1 apontam uma assinatura litoquímica e isotópica cálcio-alcalina expandida, híbrida e com contribuição de magmas crustais sobre magmas mantélicos (εNd -5 a -13 e idades modelo TDM 1,2-2,2 Ga). Tal assinatura representa um arco magmático de margem continental ativa de idade 630Ma a 585Ma.

Na base do Gr. Rio DoceV. Vieira. Significado do Grupo Rio Doce no Contexto do Orógeno Araçuaí. Belo Horizonte, IGC-UFMG, Tese de Doutorado, 2007V. Vieira, et al. Significado do Grupo Rio Doce no Contexto do Orógeno Araçuaí. In: Simpósio de Geologia do Sudeste, 10, Diamantina. SBG-MG, Resumos, 2007 ocorrem rochas vulcânicas de composição dacítica e assinatura geoquímica de arco vulcânico continental, com idades de cristalização magmática (zircão, U-Pb LA-ICPMS e TIMS) de 585Ma. Foram interpretadas como preenchimento de bacias intra e ante arco no estágio tardio do desenvolvimento do arco magmático.

Na porção proximal da bacia de retro arco, ocorre a Fm. São Tomé, recobrindo as vulcânicas e é responsável pela contribuição sedimentar do arco (595Ma). Na porção distal da bacia de retro-arco ocorrem os paragnaisses de protólito pelítico grauvaquiano, com assinatura de fonte sedimentar em arco magmático com intercalações calcissilicática do Complexo Nova Venécia.Noce et al. Ages of sedimentation of the kinzigitic complex and of a late orogenic thermal episode in the Araçuaí orogen, northern Espírito Santo State, Brazil: Zircon and monazite U-Pb SHRIMP and ID-TIMS data. Revista Brasileira de Geociências, 349: p. 587-592, 2004A. Pedrosa-Soares et al. Magmatismo e Tectônica do Orógeno Araçuaí no Extremo Leste de Minas Gerais e Norte do Espírito Santo. Geonomos, 14 (2): p.97-111. 2006.

Estágio sin colisional 580-560Ma Apresenta granitogênese do tipo S (582-560Ma) e deformação e metamorfismo regionalNalini et al. Syncollisional peraluminous magmatism in the Rio Doce region: mineralogy, geochemistry and isotopic data of the Urucum suite (eastern Minas Gerais State, Brazil) Revista Brasileira de Geociências, 30: p. 120-125, 2000. Durante a colisão foram desenvolvidas as feições dos dobramentos e empurrões com sentido para oeste, contra o Cráton do São Francisco e com sentido para leste, contra o Cráton do Congo.

Em termos gerais, o metamorfismo cresce de oeste para leste e de norte a sul, desenvolvendo os minerais metamórficos com aumento sucessivo de temperatura, desde as fácies xisto verde baixo nas proximidades do Cráton, até as fácies granulito no núcleo orogenéticoF. Almeida et al. A Faixa de Dobramentos Araçuaí na região do Rio Pardo, Congresso Brasileiro de Geologia, 30, Recife. SBG, Anais, v. 1, p. 270-283, 1978. A quantificação dos dados metamórficos, realizados através de análises geotermobarométricas apontam 530-600°C e 5,5kbar na Fm. Ribeirão da FolhaA. Pedrosa-Soares et al., Potencial aurífero do Vale do Araçuaí, Minas Gerais: história da exploração, geologia e controle tectono-metamórfico, Brasília, IG-UnB, Tese de Doutorado, 1995Queiroga et al. A unidade metassedimentar do ofiolito de Ribeirão da Folha, Orógeno Araçuaí, Minas Gerais: petrografia, geotermobarometria e calcografia. Geonomos, 14 (1): p.25-35, 2006, 470-640°C a 4,5-5kbar no Gr. Rio Doce e 770-930°C a 5-7kbar nos complexos Jequitinhonha e Nova VenéciaMunhá et al. Petrologia e termocronologia de gnaisses migmatíticos da Faixa de Dobramentos Araçuaí(Espírito Santo, Brasil). Revista Brasileira de Geociências, 35: p.123-134, 2005. Na Fm Salinas há uma zona de baixa pressão, com temperaturas variando de 450-650°CCosta Evolução petrológica para uma sequência de rochas metamórficas regionais do tipo baixa pressão, Itinga, NE-MG. Revista Brasileira de Geociências, 19: p.440-448, 1989A. Pedrosa-Soares et al. Duplo regime metamórfico na Faixa Araçuaí: Uma reinterpretação à luz de novos dados. In: Congresso Brasileiro de Geologia, 39, Salvador. SBG, Anais, v. 6, p. 5-8, 1996.

A granitogênese do tipo S é representada pela suíte G2, composta por granitos peraluminosos com granada sempre presente e cordierita e/ou sillimanita frequentes, além de granito duas micas e granodiorito granatífero subordinados. Xenólitos são comuns. Os corpos da suíte G2 são batólitos e stocks que registram a deformação regional pela foliação, por vezes milonítica e usualmente paralela à orientação do fluxo ígneoCelino et al. Genesis of Neoproterozoic Granitoid Magmatism in the Eastern Araçuaí Fold Belt, Eastern Brazil: Field, Geochemical and Sr-Nd Isotopic Evidence. Revista Brasileira de Geociências, 30: p.135-139, 2000.