O Castelo de Alferce, oficialmente designado como o Sítio Arqueológico do Cerro do Castelo de Alferce, e igualmente conhecido como Castelo da Pedra Branca, é um monumento situado na freguesia de Alferce, parte do Município de Monchique, na região do Algarve, em Portugal. Corresponde a uma antiga povoação fortificada da Idade do Bronze, que foi depois transformada numa fortaleza durante o domínio muçulmano. O Castelo foi classificado como Sítio de Interesse Público em 2013.

thumb|left|190px|Mapa do Barlavento Algarvio em 1965. O Castelo de Alferce está situado a cerca de 2 Km a Sul da aldeia com o mesmo nome, num ponto que permitia vigiar tanto a serra como o litoral algarvio.

Descrição Localização e composição O castelo está situado a cerca de um quilómetro de distância da aldeia de Alferce, no alto de um cabeço elevado, denominado de Cerro do Castelo, com uma altura máxima de 488 m. Este monte situa-se num ponto isolado, fazendo parte da zona oriental da Picota, na Serra de Monchique.

Este ponto terá sido escolhido por apresentar boas condições naturais de defesa, e por permitir a vigilância de uma grande extensão de território, que incluía a Picota, a faixa litoral, as estradas de Silves a Monchique, e a bacia da Ribeira de Odelouca. O acesso ao sítio arqueológico é feito a partir da Estrada Municipal 1073.

O castelo possuía três ordens de muralhas, de dimensões diferentes. A muralha exterior foi instalada de forma a adaptar-se ao terreno, rodeando todo o cerro, e protegendo uma vasta área, com cerca de 2,1 Ha, de forma alongada no sentido Norte-Sul. Junto ao limite meridional da muralha, do lado de dentro, existe um edifício residencial moderno. No interior existia uma segunda muralha, enquanto que uma terceira foi identificada como um reduto fortificado no centro do cerro. Esta fortificação situava-se no ponto mais alto do monte, tendo sido identificado como um qasr ou alcácer (recinto fortificado muçulmano), e estava situado a cerca de 3 a 4 m da segunda muralha. Também no recinto da segunda muralha existia uma zona residencial, situada imediatamente a Oeste e Norte do forte, e que foi identificada devido aos vestígios de cerâmica. Uma possível segunda zona habitacional foi encontrada junto ao cume do cerro, no lado ocidental, entre as cinturas de muralhas central e exterior. Ambas as cinturas de muralhas e o forte foram construídas com blocos de sienito, unidos com barro de grão fino. As muralhas do forte também apresentam vestígios de reboco com cal, tendo a camada de argamassa cerca de 5 cm de espessura. Segundo Fábio Capela, arqueológo da Câmara Municipal de Monchique, este processo de rebocar as paredes do forte poderá ter servido para a destacar na paisagem envolvente, tornando-a mais visível, e dessa forma reforçando a ideia do poder militar dos Omíadas. As muralhas foram construídas com um aparelho de pedras muito regular, que nas faces interiores das paredes ocidental e oriental tomou uma forma conhecida como espinha de peixe. Enquanto que o forte central apresenta uma estrutura de boa qualidade, constatou-se que não houve o mesmo cuidado durante a construção da cintura de muralhas intermédia.

A alguns metros da face interna do lanço Sul da muralha interior foi descoberta uma cisterna, de forma possivelmente rectangular, construída com um aparelho argamassado de cal, e que tinha 4 m de comprimento por 2,2 m de largura, e 1,5 m de altura. Esta cisterna era necessária devido às necessidades em obter água, já que a ribeira mais próxima estava situada a cerca de 300 m de distância, no fundo do vale. Tinha cerca de 2,6 m de profundidade e teria provavelmente uma cobertura em arcos, formando uma abóbada com telhas em cerâmica, sendo parecida à do Castelo dos Mouros, em Sintra. Nas paredes da cisterna, em argamassa, foram encontrados várias possíveis gravações, como desenhos. O fundo era composto por lajes de pedra, sendo acedido por vários degraus igualmente revestidos de argamassa. Na zona fora do castelo, junto do circuito mais antigo das muralhas, foram descobertos vários silos, que foram provavelmente utilizados para guardar cereais e outros alimentos, e que depois de abandonados foram preenchidos com pedras e fragmentos de cerâmica. Segundo Fábio Capela, no seu interior foi encontrado um interessante conjunto de espólio, incluindo um «fundo de cântaro inteiro, fragmentos de panelinhas», peças datadas dos séculos IX a X.

O alcácer apresentava uma forma sensivelmente pentagonal, tendo sido identificadas seis torres anexas às muralhas, podendo igualmente existir uma sétima. Quatro destas torres estão situadas nos extremos Norte, Este, Sudoeste e Nordeste da muralha, enquanto que a quinta está situada na face Noroeste, junto à entrada, e a sexta na face Sul. A torre que ainda está por confirmar situa-se na ponta sudeste das muralhas. Por seu turno, a muralha intermédia também era pentagonal, embora não apresentasse a mesma orientação do que o alcácer, uma vez que a sua quinta parede estava orientada para poente, enquanto que a do alcácer estava virada para nascente. Os motivos para esta divergência não são conhecidos, embora Fábio Capela tenha avançado que poderia ter sido por motivos militares ou para uma melhor adaptação ao terreno. Alguns dos lanços de muralhas apresentavam contrafortes, que poderão ter sido instalados para impedir que estas caíssem devido ao seu avançado estado de ruína, danos que poderão ter sido causados por um sismo.

Gravuras rupestres Num afloramento granítico, situado nas imediações de um dos vértices a Nordeste da muralha mais antiga, foram escobertas várias gravuras rupestres, correspondendo a covinhas e uma figura em forma de pé, conhecida como podomorfo. Esta última é de de especial interesse por apontar para nascente, podendo indicar, segundo Fábio Capela, a cidade de «Córdoba, a ribeira, a fuga, onde nasce o sol». Esta possível indicação no sentido de Córdova pode ser explicada pela cidade ser então a capital do território islâmico, durante o período omíada. Porém, a cronologia do podomorfo poderá ser muito difícil de determinar, uma vez que, segundo Fábio Capela, este tipo de gravuras são comuns tanto «pré-história recente, mas também do período medieval islâmico».

Espólio No Castelo de Alferce foi recolhido um vasto espólio arqueológico de períodos distintos, destacando-se a descoberta de doze artefactos líticos junto ao topo da colina, que foram identificados como três polidores, dois machados de pedra polida, dois moventes de mó manual de vaivém, dois percurtores, duas enxós, e uma lâmina. No local também foram encontradas diversas peças de cerâmica, incluindo uma pedra de jogo de formato semicircular com um grafito numa das faces, dois bojos com mamilos decorativos, fragmentos de três possíveis pratos e de telhas de meia cana decoradas, uma peça com furos a intervalos regulares, que poderia ter sido parte de uma queijeira, a pega de um candil islâmico e a ponta de outra cadeia, e o bordo de um pote, que segundo o arqueólogo Fábio Capela, apresentava um fabrico típico do Século X, do período Omíada. Foram igualmente recolhidas partes de telhas de meia cana a Norte da segunda muralha, o que pode indicar a presença de estruturas na zona fora dos muros. Também foram descobertos neste local e no lado Norte do cerro alguns fragmentos de cerâmica de fabrico mais grosseiro, que provavelmente terão sido produzidos antes do período islâmico, revelando que a ocupação humana durante a pré-história recente poderá ter sido não só no lado Oeste ou outeiro, como se calculou anteriormente.

Junto a uma das muralhas foi encontrada uma zona de lixeira, onde foi recolhido carvão e uma grande quantidade de vestígios faunísticos, como espinhas de peixe, conchas de amêijoas, e ossos de porco, vaca, veado e coelho.

Conservação O Sítio Arqueológico do Cerro do Castelo de Alferce foi classificado como sítio de interesse público pela Portaria n.º 429-A/2013, de 28 de Junho, publicada no Diário da República n.º 132, Série II, de 28 de Junho de 2013.PORTUGAL. Portaria n.º 429-A/2013, de 28 de Junho de 2013. Presidência do Conselho de Ministros - Gabinete do Secretário de Estado da Cultura. Publicado no Diário da República n.º 132, Série II, de 28 de Junho de 2013.

História Ocupação original A ocupação do sítio do Castelo de Alferce foi feita principalmente em dois períodos distintos, primeiro durante a pré-história, e depois entre os séculos IV e XI. A primeira fase de ocupação remonta aos finais da Idade do Bronze, desde os finais do segundo milénio a.C. até ao primeiro quartel do século I d.C., sendo uma povoação fortificada com alguma importância a nível político e cerimonial. No entanto, é possível que o local tivesse já sido habitado anteriormente, desde o período do Calcolítico, entre os terceiro e segundo milénios a.C.. Na freguesia de Alferce também foram encontrados outros indícios da presença humana durante a pré-história, nomeadamente um conjunto de sepulturas junto à povoação, que remontam ao Neolítico e à Idade do Bronze. O sítio do castelo pode ter sido igualmente habitado durante a época romana, tendo o investigador Joaquim Botto registado a presença de uma camada de vestígios luso-romanos, entre os estratos neolíticos e islâmicos. Os vestígios daquele período em Alferce são muito raros, consistindo apenas em vários fragmentos de cerâmica dispersos na zona do Cerro do Mourão, a Sul do castelo. Porém, na estância termal das Caldas de Monchique, situada nas proximidades, foram encontrados importantes indícios da presença romana, que já tinham ali um estabelecimento para aproveitar as propriedades curativas das águas.

A segunda fase iniciou-se no século V e terminou com o abandono do castelo, nos séculos X ou XI, e pode ser subdividida em dois períodos, um correspondente à Antiguidade Tardia e ao Reino Visigótico, e outro ao domínio muçulmano. O castro terá sido construído durante o século V, como parte do processo de povoamento da região que se iniciou nos finais do século IV, e depois aproveitado como um hisn, ou recinto fortificado islâmico, a partir do século VIII. A segunda cintura de muralhas foi construída talvez durante o século IX, sendo definitivamente mais antiga do que o recinto central, que foi cronologicamente integrado na segunda metade do século X, durante o período Omíada. Esta fortificação serviria provavelmente como apoio ao Castelo de Silves, sendo parte do grupo das fortificações do periodo emiral no Algarve, entre os séculos X e XI, que inclui igualmente o Castelo Velho de Alcoutim e o Castelo das Relíquias. Com efeito, a partir da sua posição permitia vigiar as ribeiras de Odelouca e de Monchique, que no passado foram eixos de transporte entre a zona montanhosa e o litoral, e uma das principais vias de acesso a Silves, situação semelhante à do Castelo Belinho, situado igualmente nas imediações daquela cidade.GOMES, 1998:135 Segundo Fábio Capela, a sua construção, em cima das estruturas defensivas anteriores, e rebocada com cal de forma a ser mais visível da distância, poderá ter sido utilizada como um símbolo do poderio militar da dinastia Omíada. Por volta do século XI foram construídas estruturas de apoio nas muralhas, devido ao avançado estado de ruína em que se encontravam, e que poderá ter ser causado por um terramoto.

O Castelo de Alferce pode ter sido o local referido nos documentos islâmicos como o Munt Šāqir, que era descrito como uma montanha com boas defesas e próxima do oceano, que tinha sido ocupada por rebeldes de origem muladi e berbere em dois períodos distintos, durante o século IX.