thumb|Comparativo de bicos (fora de escala) mostrando diferentes formatos que relacionam-se com diferentes formas de adaptações para se alimentar.|688x688px|alt= O bico é uma estrutura anatômica presente nas aves modernas e é constituído pelos ossos das maxilas superior e inferior, conhecidas respectivamente como maxilar e mandíbula, e pela ranfoteca, a qual designa a camada de queratina que recobre ambas as partes do bico. Essa estrutura apresenta adaptações específicas nas diversas espécies de aves existentes atualmente, sendo muitas dessas adaptações decorrentes do ambiente e também de fatores genéticos, tais como: adaptação ao hábito alimentar, ao canto, às estratégias de defesa e aos hábitos comportamentais. Atualmente, muitos especialistas classificam as aves de acordo com sua dieta alimentar, sendo esta constituída por aves insectívoras, frugívoras, piscívoras, carnívoras, carniceiras, nectarívoras e herbívoras. O surgimento do bico ocorreu mais de uma vez na história evolutiva, sendo que a hipótese mais bem aceita é a de que este decorre do processo de perda dos dentes em algumas linhagens de dinossauros não-avianos ascendentes das aves.
Anatomia miniaturadaimagem|229x229px|Esqueleto craniano de uma ave. Nele estão indicado os ossos nasal e pré-maxilar da maxila superior, os ramos mandibulares da maxila inferior e a região sinfisiária. O bico das aves é conhecido anatomicamente como rostro. Apesar de sua anatomia poder apresentar adaptações específicas para grupos de espécies de acordo com o nicho que ocupam,Speer, B. et al. Anatomy and Disorders of Beak and Oral Cavity of Birds. Vet Clin Exot Anim. 2016. 707-736. suas estruturas internas apresentam padrões similares. Os bicos são constituídos pelos ossos das maxilas superior e inferior e pela bainha córnea que os recobre, conhecida como ranfoteca.King AS, McLelland J. Birds–their structure and function. 2nd edition. London: Baillière Tindall; 1984.
Maxila superior (maxilar) O maxilar é formado principalmente pelos ossos pré-maxilar e nasal, sendo a maxila normalmente pequena. O método de movimentação do maxilar influencia na cinética cranial das aves, podendo ser do tipo “prokinesis” ou “rhynchokinesis”. Em um crânio procinético, presente na maioria das aves, o movimento da maxila superior depende da movimentação de outras estruturas cranianas, ocorrendo através da rotação em torno da articulação entre o bico e o neurocrânio. No crânio do tipo “rhynchokinesis”, a maxila superior movimenta-se para cima ou para baixo independentemente de outras estruturas cranianas.Bock WJ. Kinetics of the avian skull. J Morphol. 1964.114(1):1–41. Esse tipo de movimentação do maxilar está presente nas aves conhecidas popularmente como grous, aves limícolas, andorinhões e beija-flores.
Maxila Inferior (mandíbula) O bico inferior é composto por dois ramos mandibulares que se fundem na linha média da porção rostral das aves, denominada região sinfisiária. A primeira ligação entre a mandíbula e o crânio se dá por intermédio do osso quadrado.Costa TVV & Donatelli RJ. Osteologia craniana de Nyctibiidae (Aves, Caprimulgiformes). Pap. Avulsos Zool. 2009. 49(21).
Ranfoteca miniaturadaimagem|Casal de calaus (Rhyticeros cassidix). Observar a modificação do culmen.|229x229px A ranfoteca é histologicamente parecida com a pele, sendo constituída pela derme e pela epiderme. A epiderme, neste caso, apresenta duas modificações importantes quando comparada à da pele: o estrato córneo (camada de queratina) é bastante espesso e suas células contém fosfato de cálcio livre e cristais de hidroxiapatita orientados. A soma dessas características conferem à ranfoteca sua típica rigidez.Carril J, Degrange FJ, Tambussi CP. Jaw myology and bite force of the monk parakeet (Aves, Psittaciformes). J Anat. 2015. 227(1):34–44. esquerda|miniaturadaimagem|271x271px|Tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus). Neste esquema estão representadas as seguintes estruturas: rinoteca, gnatoteca, tomia, culmen e gonys. A queratina é majoritariamente produzida por células epidérmicas e distribuem-se rostralmente ao longo da superfície do bico. A camada queratinosa que recobre o bico superior é conhecida como rinoteca e a que recobre o bico inferior como gnatoteca. É na rinoteca que se encontra o par de narinas.
A superfície queratinosa de ambas as maxilas são constituídas por um tipo de queratina de cobertura (mais fina) e um tipo de queratina de suporte de pressão (mais espessa). A queratina do tipo cobertura é encontrada nas superfícies externas e laterais dos bicos superior e inferior. A queratina do tipo suporte de pressão é encontrada na parte inferior do bico superior, no ponto de corte do bico superior e nas bordas cortantes do bico superior e inferior (tomia). miniaturadaimagem|228x228px|Filhote de andorinha do ártico. Seu dente de ovo ainda está presente e é visto como uma pequena projeção branca perto da ponta do bico superior.|alt=O comprimento de toda a linha média dorsal da rinoteca é denominado culmen, enquanto o comprimento de toda a linha média ventral da gnatoteca é denominado gonys. A base do culmen em algumas aves é aumentada formando estruturas ornamentais. Exemplos desses casos são o escudo frontal de galeirões e o ornamento massivo dos calaus (bicos-de-corno). A rinoteca possui uma borda cortante presente nos lados direito e esquerdo, conhecida como tomium, a qual se encaixa com o tomium de cada lado da mandíbula.
Apesar de sua rigidez característica, a ranfoteca é normalmente desgastada pelo seu uso e exposição e está sendo constantemente reposta. Um exemplo da sua constante reposição pode ser visto em papagaios-do-mar, em que as ranhuras da ranfoteca podem ser utilizadas como forma para se estimar a idade da ave.Harris MP. Aging Atlantic Puffins Fratercula arctica in summer and winter. SEABIRD. 2014. 27:22-40.
“Dente de ovo” O dente de ovo é o nome dado a um pequeno processo queratinizado e pontudo, presente na parte rostral do bico superior de filhotes recém nascidos de aves. Ele é usado na eclosão para quebrar a casca do ovo e é perdido logo depois. A perfuração é alcançada através de fortes movimentos com a cabeça e é posteriormente ampliada pelo bico.
Termorregulação Recentemente, foi demonstrado que o bico do tucano-toco tem a notável capacidade de desempenhar a função de um radiador térmico transitório, ao passo que pode regular a distribuição de calor modificando o fluxo sanguíneo dos vasos presentes no bico.Tattersall GJ, Andrade DV & Abe AS. Heat Exchange from the Toucan Bill Reveals a Controllable Vascular Thermal Radiator. Science. 2009. 325:468-470.
Adaptação Alimentar As adaptações para o hábito alimentar concentram-se no bico, uma vez que os membros anteriores das aves estão comprometidos com modificações para o voo, estando assim impedida a sua utilização na captura do alimento.SILVEIRA, LUÍS FÁBIO. "Pescadores habilidosos." O caso alimentar é consagrado na literatura científica principalmente pelo exemplo dos Tentilhões de Darwin, o qual teve grande importância na disseminação do conceito de evolução. Neste, é ilustrado como a seleção natural conduz às mudanças fenotípicas, já que esses pássaros apresentam variações morfológicas impressionantes na estrutura do bico que relacionam-se com o contexto de diferentes nichos alimentares ocupados.Podos, Jeffrey, and Stephen Nowicki. "Beaks, adaptation, and vocal evolution in Darwin's finches." AIBS Bulletin 54.6 (2004): 501-510. A dieta alimentar como fator adaptativo do bico, portanto, pode ser abordada por seu aspecto relacionado a fatores bióticos, que corresponde ao tipo de alimento consumido pelas aves, mas também por fatores abióticos e pela sazonalidade, como será abordado adiante.
Adaptação ao tipo de alimento Devido às suas especializações comportamentais, como o voo, e principalmente morfológicas, como o bico e as asas, as aves são capazes de explorar diversos tipos de ambiente, resultando na apresentação de uma ampla variedade de alimentaçãoGill FB. Ornithology. New York: Freeman; 2007. e permitindo sua classificação em dois grandes grupos que refletem seus hábitos: aves generalistas e aves especialistas. As espécies de aves generalistas, ou também chamadas de onívoras ou eurifágicas, são capazes de utilizar uma ampla gama de recursos, se alimentando do que é sazonalmente abundante. As aves especialistas ou estenofágicas, por sua vez, são aquelas que usam apenas uma quantidade estreita de algum tipo de recurso, não tão variado.LOVETTE, Irby J.; FITZPATRICK, John W. The Handbook of Bird Biology. 3. ed. Wiley-Blackwell, 2016. miniaturadaimagem|284x284px| Corvus corax (família Corvidae) Exemplo de bico generalista. A diversidade de dietas e comportamentos das aves é evidente quando se analisa aspectos de sua anatomia, como os pés, asas, cauda e principalmente seus bicos. As diferentes adaptações, principalmente anatômicas supracitadas, são importantes para lidar com os diversos itens alimentares, resultando, dessa forma, em uma ampla variedade no formato de bicos.JR, Cleveland P. Hickman et al. Princípios integrados de zoologia. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.Kissling, W. D., Sekercioglu, C. H. & Jetz, W. Bird dietary guild richness across latitudes, environments and biogeographic regions. Global Ecol. Biogeogr. 21, 328–340 (2012a).
Neste aspecto, tem-se que algumas espécies se especializaram em sondar vegetação como folhas, troncos de árvore e solo enquanto outras se restringem ao consumo de pequenos lagartos, anelídeos, moluscos, crustáceos, sapos, répteis, mamíferos, peixes, néctar e até mesmo outras aves. Assim, uma outra subdivisão mais específicas das aves ocorre de acordo com o tipo de alimento que compreende sua dieta principal (pelo menos 50% de um alimento em particular), mas não única, como por exemplo:Burin, G., Kissling, W. D., Guimarães, P. R., SekercioGlu, Ç. H., & Quental, T. B. (2016). Omnivory in birds is a macroevolutionary sink. Nature Communications, 7, 11250. doi:10.1038/ncomms11250
Insetívoros: são aves que se alimentam de insetos, como por exemplo, andorinhões e andorinhas. A maioria dos grupos com essa dieta têm o bico achatado e largo na sua base, sendo relativamente longo. Isso facilita no alcance dos insetos no momento da captura. Contudo, outros grupos com essa mesma alimentação, capturam presas com bicos curtos e semelhantes a pinças. Podem ser observadas em volta do bico grande número de vibrissas que atuam auxiliando na captura de insetos. Algumas espécies insetívoras possuem um pequeno gancho na ponta do bico, que ajuda na quebra da carapaça quitinosa de artrópodes.SILVEIRA, L. F. Apostila de Ornitologia Básica. Museu de Zoologia da USP;. Disponível em :http://www.ib.usp.br/~lfsilveira/pdf/d_2012_ornitologiabasica.pdf Frugívoros: são aves que comem frutos e frutas. Os papagaios possuem o bico bastante curvado e forte, de forma que esse bico o possibilita quebrar frutos e sementes duras. Essas aves podem possuir um bico cônico, onde as bordas cortantes descascam as sementes. Este é o tipo de bico encontrado, por exemplo, no canário doméstico. Piscívoros: aves que comem peixes, como martim-pescadores, garças, pinguins e gaivotas. Diversas adaptações são necessárias para capturar peixes. Geralmente, essas aves possuem pescoços longos com bicos retos e pontiagudos para “esfaquear” a presa. Outras aves, como papagaios-do-mar, possuem serrilhas em seu bico conseguindo agarrar os peixes de forma que essa ave possa abrir a boca logo após uma pescaria para coletar mais peixes, já que os que estão na sua boca não conseguem escapar. Carnívoros: alimentam-se de vertebrados. Essas aves possuem o bico adaptado para rasgar a carne de suas presas. Alguns exemplos são falcões, águias, garças e gaviões. Carniceiros: se alimentam de material em decomposição, como o exemplo de abutres e urubus.