A Operação Savana, conhecida pelo lado angolano como Invasão Sul-Africana de 1975-1976 e Campanha Sul-Africana para Conquista de Luanda, foi uma intervenção militar realizada pela Força de Defesa da África do Sul em 1975-1976 no âmbito da Guerra sul-africana na fronteira, da Guerra de Independência de Angola e da subsequente Guerra Civil Angolana.

Com vitória decisiva do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), apoiado principalmente por Cuba e União Soviética, sobre as forças combinadas da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), do Zaire e da África do Sul, com o apoio de Zâmbia e Estados Unidos, a derrota da operação foi vital para garantir a proclamação da independência de Angola. A operação também serviu para dar terreno e fortalecer a UNITA, que seria o principal rival do MPLA na guerra civil que iniciava, sendo também o grande ponto de inflexão da FNLA, que ficou desestabilizada.

Antecedentes

A "Revolução dos Cravos" ou revolução de "25 de Abril" de 1974 pôs fim ao governo colonial de Portugal, mas as três principais forças independentistas de Angola, a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) começaram a competir pelo domínio do país.

Os combates começaram em novembro de 1974, começando na capital, Luanda, e espalhando-se rapidamente por toda Angola, que logo foi dividida entre os combatentes. A FNLA ocupou o norte de Angola, a UNITA o centro-sul, enquanto o MPLA ocupou principalmente a costa, o extremo sudeste e, após capturá-la em novembro de 1974, Cabinda. As negociações para a independência resultaram na assinatura do Tratado de Alvor em 15 de janeiro de 1975, nomeando a data da independência oficial como 11 de novembro de 1975. O acordo pôs fim à guerra pela independência, mas marcou a escalada da guerra civil. Dois grupos dissidentes, a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda e a Revolta de Leste, nunca assinaram os acordos, pois foram excluídos das negociações. O governo de coligação estabelecido pelo Tratado de Alvor rapidamente terminou quando as facções nacionalistas, duvidando das intenções umas das outras, tentaram controlar o país pela força. Os combates entre as três forças recomeçaram em Luanda apenas um dia depois do governo de transição ter tomado posse, em 15 de Janeiro de 1975.

As forças de libertação procuraram tomar pontos estratégicos, principalmente a capital, até ao dia oficial da independência. O MPLA conseguiu tomar Luanda da FNLA enquanto a UNITA se retirava da capital. Em março de 1975, a FNLA dirigia-se para Luanda a partir do norte, acompanhada por unidades do exército zairense que os Estados Unidos tinham encorajado o Zaire a fornecer. Entre 28 de abril e o início de maio, 1.200 soldados zairenses cruzaram para o norte de Angola para ajudar a FNLA.

A FNLA eliminou toda a presença remanescente do MPLA nas províncias do norte e assumiu posições a leste de Quifangondo, na periferia leste de Luanda, de onde continuou a ameaçar a capital. A situação do MPLA em Luanda tornou-se cada vez mais precária. O MPLA recebeu suprimentos da União Soviética e solicitou repetidamente 100 oficiais cubanos para treinamento militar. Até finais de agosto, Cuba tinha alguns assessores técnicos destacados em Angola. Até 9 de julho, o MPLA ganhou o controlo da capital, Luanda.

A partir de 21 de agosto, Cuba estabeleceu quatro centros de formação (CIR) com quase 500 homens, que deveriam treinar cerca de 4.800 recrutas das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) em três a seis meses. Esperava-se que a missão fosse de curto prazo e durasse cerca de 6 meses. O CIR de Cabinda contava com 191 instrutores, enquanto Benguela, Saurimo (antiga Henrique de Carvalho) e em N'Dalatando (antiga Salazar) tinham 66 ou 67 instrutores cada. Alguns foram colocados na sede em Luanda ou noutros locais do país. Os centros de formação estiveram operacionais entre 18 e 20 de outubro.

Intervenção militar miniaturadaimagem|Carros blindados Eland sul-africanos em uma área de preparação pouco antes da Operação Savana. O envolvimento da Força de Defesa da África do Sul (SADF) em Angola, como parte dos confrontos correlacionados com a Guerra sul-africana na fronteira, começou em 1966, quando a Organização do Povo do Sudoeste Africano (SWAPO) iniciou uma luta armada pela independência da Namíbia. Os militantes da SWAPO fundaram um braço armado, o Exército Popular de Libertação da Namíbia (PLAN), que operava a partir de bases na Zâmbia e na zona rural da Ovambolândia.

Com a perda da administração colonial portuguesa como aliada e a possibilidade de novos regimes simpatizantes da SWAPO nas ex-colônias de Lisboa, Pretória reconheceu que perderia a barreira (ou cordão sanitário, como era denominado pela própria SADF) entre o Sudoeste Africano e os Estados da Linha da Frente. O PLAN poderia buscar refúgio em Angola, e a África do Sul seria confrontada com outro regime hostil, com uma fronteira aberta potencialmente militarizada, permitindo a passagem livre de guerrilheiros namibianos.

Com a União Soviética e os Estados Unidos a armar as principais facções da iminente Guerra Civil Angolana, o conflito se transformou num importante campo de batalha da Guerra Fria. A África do Sul ofereceu assessoria e assistência técnica à UNITA, enquanto várias tropas de combate cubanas entraram no país para lutar ao lado do MPLA marxista. Moscou também equipou seus aliados angolanos com armas pesadas. A ajuda americana à UNITA e à FNLA foi inicialmente realizada com a Operação IA Feature, mas esta foi encerrada pela Emenda Clark em outubro de 1976. A ajuda não retornaria até a revogação da Emenda Clark em 1985. A China retirou posteriormente os seus conselheiros militares no Zaire, findando o seu apoio tácito à FNLA.

O instrutores cubanos começaram a treinar o PLAN na Zâmbia em abril de 1975, e o movimento conseguiu 3.000 novos recrutas já no final de abril. A atividade de guerrilha intensificou-se, com a movimentação pelos boicotes eleitorais ocorrendo na Ovambolândia, acontecendo o assassinato do ministro-chefe daquele bantustão. A África do Sul respondeu convocando mais reservistas e colocando de prontidão as forças de segurança existentes ao longo da fronteira. As incursões em Angola tornaram-se comuns depois de 15 de julho de 1975.

Suporte à UNITA e FNLA Consequentemente, com a assistência secreta dos Estados Unidos através da Agência Central de Inteligência (CIA), os sul-africanos optaram por auxiliar militarmente a UNITA e a FNLA, numa tentativa de garantir um governo pró-África do Sul em Luanda. Em 14 de julho de 1975, o primeiro ministro da África do Sul, Balthazar Vorster, aprovou secretamente a venda de armas para a FNLA e a UNITA no valor de 14 milhões de dólares, dos quais os primeiros carregamentos chegaram à Angola em agosto de 1975.

Ocupação do complexo Ruacaná-Calueque miniaturadaimagem|Soldados sul-africanos em outubro de 1975. A Operação Savana iniciou-se informalmente em 9 de agosto de 1975, quando uma patrulha de 30 homens da SADF deslocou-se para uma área a 50 quilômetros ao sul de Angola, lançando um ataque que resultou na ocupação do complexo hidroelétrico Ruacana-Calueque, além de outras instalações no rio Cunene. O complexo hidroelétrico era estratégico para a Ovambolândia, que dependia do fornecimento de água e energia vindos de Angola. As instalações haviam sido concluídas no início de 1975 com financiamento sul-africano. Vários incidentes hostis da UNITA e da SWAPO contra os trabalhadores estrangeiros forneceram a justificativa para a ocupação. A defesa da instalação no sul de Angola também foi a justificativa da África do Sul para a montagem do primeiro destacamento permanente de unidades regulares da SADF dentro de Angola.

Em 22 de agosto de 1975, a SADF iniciou a "Operação Balão de Observação II" (ou Sausage II), uma grande incursão contra a SWAPO no sul de Angola. Após essa operação, em 4 de setembro de 1975, o primeiro-ministro Vorster autorizou que a UNITA e a FNLA recebessem formação militar, aconselhamento e assistência logística, enquanto ajudassem os sul-africanos a combater a SWAPO.

Entretanto, o MPLA ganhou terreno contra a UNITA no sul de Angola e, em meados de outubro, controlava 12 das províncias de Angola e a maioria das cidades. O território da UNITA estava encolhendo, restando apenas o centro de Angola, tornando-se evidente que não tinha qualquer capacidade de capturar Luanda no dia da independência, fato que nem os Estados Unidos e nem a África do Sul estavam dispostos a aceitar. A SADF estabeleceu um campo de treinamento perto de Silva Porto (hoje Cuíto) e preparou as defesas de Nova Lisboa (hoje Huambo). Eles montaram a unidade de ataque móvel Foxbat ("Morcego-Raposa-Voadora") para repelir a aproximação das unidades das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), com as quais entraram em conflito em 5 de outubro, garantindo assim Huambo para a UNITA.

Força Operacional Zulu

miniatura|200px|esquerda|Veículo de guerra sul-africano Eland Mk7 andando pelas ruas de Sá da Bandeira, em 1975. A Força Operacional Zulu era um batalhão convencional misto das forças armadas sul-africanas, que contava também com indivíduos da UNITA e da FNLA. Os membros foram treinados por instrutores do 1º Comando de Reconhecimento da Força de Defesa da África do Sul, o qual foi liderado pelo Coronel Jan Dirk Breytenbach. A unidade concentrou-se em empreender marcha veloz contra qualquer posição angolana.

Em 14 de outubro de 1975, os sul-africanos iniciaram oficialmente a Operação Savana (pois informalmente desde agosto já estavam ocupando territórios ao sul de Angola), quando a Força Operacional Zulu cruzou da Namíbia para o Cuando-Cubango. A operação previa a eliminação do MPLA da zona da fronteira sul angolana, depois o sudoeste, a região central e finalmente a captura de Luanda (a facção política que controlasse a capital Luanda seria reconhecida por Portugal no dia da independência como o governo oficial). De acordo com John Stockwell, um ex-agente da CIA, "houve uma estreita ligação entre a CIA e os sul-africanos" e "'altos funcionários' em Pretória afirmaram que a intervenção em Angola tinha sido levada a cabo após um acordo de 'cooperação' com os Estados Unidos". A intervenção também foi apoiada pelo Zaire e Zâmbia.

Com as forças de libertação ocupadas lutando entre si, a SADF avançou muito rapidamente. A Força-Tarefa Foxbat juntou-se à invasão em meados de outubro. O território que o MPLA acabara de ganhar no sul foi rapidamente perdido com os avanços sul-africanos. Depois que os conselheiros e as armas antitanque sul-africanos ajudaram a deter o avanço do MPLA sobre Nova Lisboa (Huambo) no início de outubro, a Força Operacional Zulu capturou Pereira d'Éça (Ondijiva) no dia 19 do mesmo mês, Roçadas (Xangongo) no dia 20 e Sá da Bandeira (Lubango) em 24 de outubro. miniaturadaimagem|Placas memoriais no Monumento Voortrekker para quatro militares sul-africanos mortos durante a Operação Savana, em Pretória. Três dos falecidos eram soldados que tripulavam carros blindados Eland Mk7. O quarto era um piloto observador da SAAF. Com os sul-africanos movendo-se rapidamente para Luanda, os cubanos tiveram que encerrar as operação do Centro de Instrução Regional (CIR) em Salazar (Nadalatando) apenas três dias após dar início às operações ali, concentrando a maioria dos instrutores e recrutas angolanos em Luanda. Em 2 e 3 de novembro, 51 cubanos do comando CIR Benguela e sul-africanos tiveram seu primeiro encontro direto perto de Catengue, onde as FAPLA tentaram em vão impedir o avanço da Força Zulu. Este encontro levou o comandante sul-africano Breytenbach a concluir que suas tropas haviam enfrentado a melhor oposição organizada das FAPLA até à data.