2I/Borisov, originalmente designado C/2019 Q4 (Borisov), é o primeiro cometa interestelar confirmado e o segundo objeto interestelar identificado no Sistema Solar, após o 1I/ʻOumuamua e antes do 3I/ATLAS. Descoberto em 30 de agosto de 2019 pelo astrônomo amador e construtor de telescópios Gennadiy Borisov na Crimeia, o cometa possui excentricidade orbital de 3,36, confirmando que não está gravitacionalmente ligado ao Sol. Atingiu o periélio em 8 de dezembro de 2019 a cerca de 2 UA do Sol, e fez sua aproximação mais próxima da Terra em 28 de dezembro de 2019, a 1,9 UA (aproximadamente 284 milhões de quilômetros).

Descoberta

2I/Borisov foi descoberto em 30 de agosto de 2019 (horário local da Crimeia; 29 de agosto em UTC) pelo técnico de telescópios e astrônomo amador Gennadiy Vladimirovich Borisov, com um instrumento de 65 centímetros de abertura construído por ele mesmo, no Observatório MARGO, em Nauchnyi, na Crimeia. Ao fotografar o objeto, Borisov atribuiu-lhe a designação temporária interna gb00234.

Com base nas primeiras observações, soluções orbitais calculadas pelo NASA/JPL apontaram excentricidade entre 2,9 e 4,5, sugerindo origem interestelar. Em 11 de setembro de 2019, após análise de 151 observações ao longo de doze dias, o Centro de Planetas Menores (MPC) oficializou a descoberta e atribuiu ao objeto a designação provisória C/2019 Q4 (Borisov). A natureza interestelar foi confirmada independentemente por diversos astrônomos, incluindo Davide Farnocchia (JPL/NASA), Bill Gray e David Tholen.

Nomenclatura e designação

O nome 2I/Borisov foi conferido pela União Astronômica Internacional (UAI) em 24 de setembro de 2019. O prefixo 2I designa o segundo objeto interestelar (I de interstellar) identificado no Sistema Solar, na sequência iniciada com o 1I/ʻOumuamua. O sobrenome Borisov segue a tradição de denominar cometas em homenagem ao seu descobridor, sendo esta sua oitava descoberta de cometa.

Antes da designação definitiva, o objeto recebeu os seguintes nomes temporários: gb00234 (código atribuído pelo próprio descobridor e registrado no NEOCP), C/2019 Q4 (Borisov) (designação oficial do MPC) e, informalmente, Cometa Borisov na imprensa popular.

Trajetória miniaturadaimagem|Trajetória de entrada de saída do cometa 2I/Borisov

2I/Borisov entrou no Sistema Solar proveniente da direção da constelação de Cassiopeia, próximo à divisa com Perseus, o que indica que sua origem está no plano galáctico da Via Láctea, e não no halo galáctico. O cometa cruzou o plano da eclíptica em 26 de outubro de 2019, próximo à estrela Régulo, e o equador celeste em 13 de novembro de 2019, passando a ser visível no hemisfério sul do céu.

O periélio ocorreu em 8 de dezembro de 2019, quando o cometa se encontrava a pouco mais de 2 UA do Sol, próximo à borda interna do cinturão de asteroides. Em 28 de dezembro de 2019, fez sua aproximação mais próxima da Terra, a 1,9 UA (cerca de 284 milhões de quilômetros). A inclinação orbital de 44° impediu qualquer encontro próximo significativo com os planetas do Sistema Solar.

Com excentricidade de 3,36, a trajetória de 2I/Borisov é fortemente hiperbólica: a gravidade solar alterou sua trajetória em apenas 34°, e o cometa passou pelo Sistema Solar em uma única visita, atingindo velocidade de cerca de 177 000 km/h. Em meados de 2020, o cometa retornou ao espaço interestelar, em direção à constelação do Telescópio, onde poderá derivar por milhões de anos antes de eventualmente se aproximar de outro sistema estelar.

Características físicas

Núcleo e coma

Ao contrário do 1I/ʻOumuamua, de aparência asteroidal, 2I/Borisov desenvolveu uma coma — nuvem de gás e poeira ao redor do núcleo — ao se aproximar do Sol. Imagens obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble em outubro e dezembro de 2019 revelaram concentração de poeira em torno do núcleo, mas o núcleo em si era pequeno demais para ser resolvido diretamente. O limite superior do seu tamanho, derivado da amplitude das acelerações não gravitacionais, é de cerca de 0,4 km, consistente com o limite superior de 0,5 km estimado pelo Hubble.

Em novembro de 2019, astrônomos da Universidade Yale estimaram que a cauda do cometa se estendia por um comprimento equivalente a 14 vezes o diâmetro da Terra. Em março de 2020, observações do Hubble indicaram que um fragmento havia se desprendido do núcleo.

Composição

Uma das descobertas mais notáveis sobre 2I/Borisov foi sua composição química incomum. Observações com o radiotelescópio ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), no Chile, realizadas em 15 e 16 de dezembro de 2019 por equipe liderada por Martin Cordiner e Stefanie Milam, do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, revelaram que o cometa liberava monóxido de carbono (CO) em concentração de 9 a 26 vezes superior à média dos cometas do Sistema Solar observados a distância similar do Sol.

Observações complementares com o Espectrôgrafo de Origens Cósmicas (COS) do Hubble confirmaram que a quantidade de CO superava a de água (H₂O) na coma do cometa. O monóxido de carbono é extremamente volátil: em condições típicas, sublima a distâncias muito grandes do Sol (acima de 17 bilhões de km), mas no núcleo de 2I/Borisov estava preservado nas camadas internas, sendo liberado apenas quando o calor solar removeu as camadas externas de gelo de água.

Origem provável

A direção de entrada no Sistema Solar, a partir de Cassiopeia, sugere que 2I/Borisov tem origem no plano galáctico da Via Láctea, e não no halo estelar difuso. A alta concentração de monóxido de carbono indica que o cometa se formou em um ambiente muito frio, compatível com o disco circumstelar de uma anã vermelha — cujos discos protoplanetários são suficientemente frios para que o CO se mantenha no estado sólido. Pesquisadores propõem que um planeta de grande massa, semelhante a Júpiter, pode ter ejetado o cometa de seu sistema de origem rumo ao espaço interestelar.

Rastreamentos da trajetória passada identificaram ao menos catorze estrelas que se aproximaram a menos de 1 parsec de 2I/Borisov, incluindo Kruger 60, que passou a 1,74 parsecs há cerca de 1 milhão de anos. No entanto, nenhuma pôde ser conclusivamente apontada como sistema de origem.

Referências

Ligações externas

Categoria:Objetos astronômicos descobertos em 2019 Categoria:Cometas Categoria:Objetos interestelares