O Concílio de Florença (originalmente Concílio de Basileia) foi um concílio ecumênico de bispos e outros membros do clero da Igreja Católica Romana. Ele começou em 25 de Julho de 1431 em Basileia e foi transferido para Ferrara em 1438 por ordem do Papa Eugênio IV, movimento que fez com que ele também ficasse conhecido como Concílio de Ferrara (ou, na sua forma portuguesa, de Ferrária). O encontro foi novamente transferido para Florença em 1439 por conta do perigo de peste em Ferrara e por que a cidade de Florença concordou, com promessa de pagamento futuro, em financiar o concílio.. A localização inicial em Basileia refletia o desejo das partes que buscavam a reforma de se encontrar fora dos territórios em poder do Papa, do Sacro Império Romano-Germânico ou dos reis de Aragão e da França, cujas influências sobre o concílio procuravam evitar. Ambrogio Traversari esteve no concílio de Basileia como legado do Papa Eugênio.
O concílio seu reuniu numa época em que o conciliarismo era forte e a autoridade papal, fraca. Sob pressão para promover as reformas eclesiásticas, Papa Martinho V sancionou um decreto do Concílio de Constança (9 de outubro de 1417) obrigando o papado a convocar concílios gerais periodicamente. Ao expirar o período proposto pelo decreto, o Papa cedeu e convocou um concílio em Pávia. Por conta de uma epidemia, a localização foi transferida quase que imediatamente para Siena (veja Concílio de Siena) e cancelado - por motivos ainda não conhecidos perfeitamente - logo que começou a discutir o assunto da reforma (1424).
O próximo concílio se deu ao terminar o prazo de sete anos, em 1431. Martinho V obedientemente o convocou para esta data na cidade de Basileia e selecionou o cardeal Juliano Cesarini para presidi-lo, um prelado muito respeitado. O próprio Martinho, porém, viria a morrer antes da abertura dos trabalhos.
O concílio em Basileia abriu com apenas uns poucos bispos e abades presentes, mas cresceu rapidamente e acabou tendo uma maioria de religiosos de ordens menores sobre os bispos. A postura inicial foi antipapal, proclamando a superioridade do concílio sobre o Papa e prescrevendo uma profissão de fé do sumo pontífice, um juramento que deveria ser feito por todos os Papas em sua eleição. Quando o concílio foi transferido de Basileia para Ferrara em 1438, alguns permaneceram em Basileia (como Nicolau de Cusa), ainda alegando serem parte do "verdadeiro concílio". Eles elegeram Amadeu VIII de Saboia como o Antipapa Félix V. Expulsos de Basileia em 1448, eles se mudaram para Lausanne, onde Félix, o único reclamante ao trono papal a ter feito a profissão de fé proposta em Basileia, renunciou. No ano seguinte, o eles decretaram o fechamento do que eles ainda acreditavam ser o Concílio de Basileia.
O concílio enquanto isso tinha negociado com sucesso a reunificação com diversas igrejas ortodoxas, conseguindo acordos em assuntos como a primazia papal, a inclusão da cláusula Filioque no credo e o purgatório, uma novidade recente no léxico teológico latino. O item mais importante em discussão, previsivelmente, era o poder papal, no sentido de um poder direto e que responde à ninguém, sobre todas as igrejas ortodoxas nacionais em troca de assistência militar contra os turcos otomanos. O partido grego, sob forte pressão do imperador bizantino, aceitou, por razões puramente políticas, as demandas do grupo papal. Apenas Marcos de Éfeso rejeitou a união entre os ortodoxos gregos. Os russos, tendo ouvido rumores desta teologia política, rejeitaram furiosamente a união e expulsaram quaisquer prelados que fossem simpáticos à ideia. A ajuda do ocidente ao Império Bizantino nunca se materializou e a queda de Constantinopla ocorreu em 1453, de forma que a união permaneceu como mera promessa. O concílio declarou também que o grupo que estava reunido em Basileia eram heréges e os excomungou. Finalmente, em 1441, a superioridade do Papa sobre os concílios foi reafirmada na bula papal Etsi non dubitemus de 20 de abril.
Concílio de Basileia Composição do concílio thumb| 300px| esquerda| Papa Martinho V convocou o Concílio de BasileiaCópia de obra de Pisanello (século XV), na Galeria Collona. A característica democrática da assembleia em Basileia foi o resultado tanto de sua composição quanto de sua organização. Doutores em teologia, mestres e representantes de capítulos reliosos, monges e clérigos de ordens inferiores constantemente superavam em número os prelados no concílio. Além disso, a influência do clero superior tinha menos peso pois, ao invés de se separarem em "nações", como no Concílio de Constança, eles se dividiram de acordo com os seus gostos e aptidões em quatro comitês ou deputationes. Um era responsável por questões de fé (fidei), outro sobre as negociações de paz (pacis), um terceiro sobre a reforma da igreja (reformatorii) e o quarto com que eles chamaram de "preocupações comuns" (pro communibus). Cada decisão tomada por três destes comitês — e em cada um, o clero inferior era majoritário — recebia a ratificação formal da congregação geral e, se necessário, levava à promulgação dos decretos na sessão plenária. Por esta razão, os críticos papais chamaram este concílio de "uma assembleia de copistas" ou mesmo de "um conjunto de cavalariços e ajudantes de cozinha".
Tentativas de dissolvê-lo Da Itália, França e Alemanha, os religiosos chegaram atrasados à Basileia. Cesarini vinha devotando todas as suas energias à guerra contra os hussitas, até que a batalha de Domažlice (chamada de "desastre de Taus") forçou-o a evacuar a Boêmia apressadamente. O Papa Eugênio IV, o sucessor de Martinho, perdeu as esperanças de que o concílio pudesse ser útil dado o progresso da heresia, os problemas relatados na Alemanha, a guerra que tinha recentemente iniciado entre o Duque da Áustria e o Duque da Borgonha e, finalmente, o pequeno número de religiosos que tinham respondido à convocação de Martinho V. Esta opinião, somada ao desejo de presidir sobre o concílio em pessoa, induziram-no a reconvocar os padres da Alemanha, cancelando o concílio. Ele apontou Bolonha como novo local do concílio, a ser realizado dali dezoito meses, com a intenção de fazer as sessões do concílio coincidirem com algumas conferências com a Igreja Ortodoxa que já estavam marcadas para ocorrer na cidade e já com o objetivo de fomentar a união ecumênica.
thumb| direita| 300px| Embaixada da Boêmia no Concílio de Basileia.
A suspensão do concílio provocou uma forte reação entre os padres que já estavam reunidos e provocou uma enorme insatisfação no legado papal responsável, o cardeal Cesarini. Eles argumentaram que os hussitas iriam pensar que a Igreja estava com medo de enfrentá-los e que os leigos iriam acusar o clero de estarem adiando a reforma, ambas as acusações com efeitos desastrosos. O Papa explicou suas razões e cedeu em alguns pontos, mas o padres ali reunidos não mudaram de opinião. Consideráveis poderes tinham sido decretados para os concílios da Igreja pelo Concílio de Constança que, envolvido nos problemas do cisma de Avinhão, tinha proclamado a superioridade dos concílios sobre o Papa em alguns casos. Com base nisto, os padres em Basileia insistiram em seu direito de permanecerem reunidos e realizaram sessões, interferiram com o governo do Condado Venaissino (o condado papal à volta de Avinhão), fizeram tratados com os hussitas e, como representantes da Igreja universal, propuseram leis regulando até mesmo o próprio Sumo-pontífice.
Eugênio IV resolveu resistir às alegações de supremacia do concílio, mas ele não ousou repudiar diretamente a doutrina conciliar, considerada por muitos como sendo a real fundação da autoridade dos papas antes do cisma. Ele logo percebeu a impossibilidade de tratar com os padres de Basileia como um rebeldes ordinários e tentou uma solução intermediária. Porém, conforme o tempo passava, os padres lá reunidos se tornaram mais e mais firmes, criando entre as partes uma barreira insuperável.
Abandonado por uma parte de seus cardeais, condenado pela maioria dos poderes laicos, sem poder militar sobre seus domínios por causa dos condottieri, que abertamente invocavam a autoridade do concílio, o Papa fez concessões atrás de concessões e terminou, em 15 de dezembro de 1433, com uma lamentável rendição de todos os itens em discussão numa bula papal, ditada pelos padres na Basileia, que efetivamente cancelava sua bula de dissolução anterior - tida agora como nula e inválida - e reconhecendo que o a reunião em Basileia era legítima. Porém, Eugênio IV não ratificou todos os decretos vindos do concílio e nem concedeu uma subsmissão definitiva à supremacia do concílio. Ele se recusou a realizar qualquer pronunciamento sobre o assunto e seu silêncio forçado escondia um desejo secreto de salvaguardar o princípio da soberania do Papa.
Os padres, desconfiados, só permitiriam que os legados do Papa presidissem sobre os trabalhos sob a condição de que eles reconhecessem a superioridade do concílio. Os legados de fato se submeteram a esta humilhante (para eles) formalidade, mas em seus próprios nomes, como se descobriria depois, reservando assim a decisão final à Santa Sé. Além disso, as dificuldades de todos os tipos que Eugênio tinha que lidar, como a insurreição em Roma, que forçou-o a escapar através do Tibre deitado no fundo de um barco, o deixaram sem condições de resistir às maquinações do concílio.
thumb| 300px| direita| Batalha de Domažlice, vitória dos hussitas e tema do Concílio de Basileia.Por Josef Mathauser.
Questões de reforma Encorajados pelo seus sucessos, os padres reunidos então enfrentaram o assunto da reforma, sendo o item principal a redução ainda maior do poder papal e dos recursos à disposição do Papa. Eles tomaram decisões sobre medidas disciplinares que regulavam as eleições, sobre a celebração dos serviços religiosos, sobre a realização periódica de sínodos diocesanos e provinciais, todos assuntos que eram comuns nos concílios católicos. Eles também emitiram decretos sobre alguns dos direitos assumidos pelos quais os papas tinham estendido o seu poder e melhorado suas finanças às custas das igrejas locais. Assim, o concílio aboliu os "anados" ("Primeiros frutos"), limitou muito o abuso das "reservas" de concessão de benefícios pelo Papa e completamente aboliu o direito alegado pelo Papa de gratiae expectativae. Outros decretos conciliares limitaram fortemente a jurisdição da corte de Roma e trataram até mesmo das regras dos conclaves e da constituição do Colégio Sagrado. Os padres continuaram a se devotar também à subjugação dos hussitas e também intervieram, rivalizando com o Papa, nas negociações entre a França e Inglaterra que levaram ao Tratado de Arras, concluído por Carlos VII da França com o Duque da Borgonha. Também, a circuncisão foi considerada como sendo um pecado mortal. Finalmente, eles investigaram e julgaram diversos casos privados — processos legais entre prelados, membros de ordens religiosas e recipientes de benefícios - cometendo assim um dos mais sérios abusos aos olhos da corte de Roma.
Concílio de Ferrara - Florença A estratégia oriental de Eugênio IV thumb| left| João VIII Paleólogo durante a sua visita à Florença.Por Pisanello (1438).