Nova Milano é um sítio histórico e a sede do quarto distrito do município brasileiro de Farroupilha, considerada o berço da colonização italiana no estado do Rio Grande do Sul. Originalmente sede da Colônia Caxias, ali foi montado em 1875 um pavilhão de acolhida dos imigrantes que esperavam pela colocação nas colônias da região. Em 1876 a sede colonial foi transferida para o Campo dos Bugres, mas Nova Milano, às margens de um caminho muito transitado, transformou-se em povoado, e em 1902 tornou-se a sede do terceiro distrito de Caxias. A chegada do trem em 1910 determinou uma reorganização na estrutura viária e econômica da região, prejudicando o crescimento de Nova Milano, que em 1934 foi incorporada ao novo município de Farroupilha como seu quarto distrito, permanecendo até hoje com características principalmente rurais.
Em 1975 os governos da Itália e do Rio Grande do Sul organizaram uma ampla série de festividades e eventos comemorativos dos 100 anos da colonização italiana no estado. Em Nova Milano foi construído o Parque da Imigração Italiana, com um monumento, um museu e diversos memoriais sobre a imigração, além de espaços recreativos. O distrito preserva diversas edificações históricas e tem potencial turístico.
Localização Distante cerca de 100 km da capital Porto Alegre e a 8 km do centro de Farroupilha, Nova Milano fica às margens da rodovia RS-122, que liga Porto Alegre à região da Serra. Em termos de limites, faz divisa com o município de Carlos Barbosa a Sudoeste, pela linha divisória da Sesmaria Machado. Limita-se com o município de Alto Feliz ao sul, fazendo divisa em parte da antiga Estrada Júlio de Castilhos. Limita-se com o município de Vale Real ao sudeste, após Caravaggieto no acesso a Forqueta Baixa. Limita-se com o município de Caxias do Sul a leste.
História
A história de Nova Milano teve início em 1870, quando ali acampou a comissão demarcadora de terras enviada pelo governo imperial para traçar os limites da nova Colônia Caxias,Baretta, Rubens Cesar. Estudo toponímico dos bairros e distritos de Farroupilha-RS. Mestrado. Universidade de Caxias do Sul, 2012, p. 13 parte de um ambicioso projeto do governo imperial para o povoamento da região serrana do estado com trabalhadores livres, os quais seriam instalados em lotes unifamiliares, onde deveriam viver como agricultores e artesãos. O governo pretendia melhorar o abastecimento interno de produtos básicos e branquear a população com imigrantes europeus. Os candidatos recebiam ajuda governamental para instalação. Duas outras colônias foram demarcadas na época: Conde d'Eu e Dona Isabel, mas a administração do projeto foi tumultuada e pouco eficiente, e os primeiros imigrantes enfrentaram uma série de dificuldades ao chegar ao Rio Grande do Sul. As terras mais próximas aos rios e vales já estavam ocupadas por alemães, e as colônias destinadas aos italianos se localizavam nas encostas da serra, regiões acidentadas e previamente pouco exploradas.De Boni, Luís Alberto & Costa, Rovílio. "Os Italianos no Rio Grande do Sul". In: Cichero, Lorenzo (org.). Cinquantenario della Colonizzazione Italiana nel Rio Grande del Sud, 1875-1925. Edição fac-similar [De Boni, Luís Alberto & Costa, Rovílio (eds.)]. Posenato Arte & Cultura, 2000, vol. I, pp. i-xxiiIotti, Luiza Horn. "Política emigratória e diplomacia italiana". In: Dal Bó, Juventino; Iotti, Luiza Horn; Machado, Maria Beatriz Pinheiro (orgs). Imigração Italiana e Estudos Ítalo-Brasileiros — Anais do Simpósio Internacional sobre Imigração Italiana e IX Fórum de Estudos Ítalo-Brasileiros. EDUCS, 1999, pp. 173-189
A maioria dos italianos que chegou ao Brasil no fim do foi remetida para São Paulo, trabalhando nas fazendas de café, onde eram empregados mal pagos e viviam em péssimas condições. No sul o esquema foi outro: seriam proprietários de pequenos lotes unifamiliares organizados em colônias rurais. Os imigrantes viajavam por mar até o porto do Rio Grande, de lá ainda por barco subiam a Lagoa dos Patos até Porto Alegre, onde eram recebidos em um pavilhão e esperavam encaminhamento ao destino final. De Porto Alegre, seguiam por barco ou caravana até Montenegro ou São Sebastião do Caí, de onde os caminhos se ramificavam para, respectivamente, as colônias Conde d'Eu/Dona Isabel e Caxias.Maestri, Mário. "A travessia e a mata: memória e história". In: Dal Bó, Juventino; Iotti, Luiza Horn; Machado, Maria Beatriz Pinheiro (orgs). Imigração Italiana e Estudos Ítalo-Brasileiros — Anais do Simpósio Internacional sobre Imigração Italiana e IX Fórum de Estudos Ítalo-Brasileiros. EDUCS, 1999, pp. 190-207
Embora o caminho para a Colônia Conde d'Eu já existisse em 1871, esta colônia até o fim de 1875 só recebeu imigrantes prussianos, portugueses, espanhóis, alemães e suíço-franceses,Fachin, Gabriela. Imigração italiana na colônia Conde D'Eu e a Societá Italiana di Mutuo Soccorso Stella D'Itália. Centro Universitário UNIVATES, 2016, p. 31 foi a partir do início de 1875 que o fluxo de imigrantes italianos iniciaria, concentrando-se no caminho que levava até a Colônia Caxias, porque conectava com o importante caminho dos tropeiros que levava às vacarias dos Campos de Cima da Serra, e de lá conduzia ao Rio e São Paulo, e porque passou a ser de Caxias que a maioria dos imigrantes era redirecionada para as colônias da região serrana.César, Pedro de Alcântara Bittencourt. "Roteiros turístico-culturais na Serra Gaúcha (RS-Brasil): escolha e formação dos percursos e seu apelo histórico memorial". In: Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, 2016; 10 (3): 416-434
Nova Milano foi a primeira sede da Colônia Caxias, instalada na sua 1ª Légua, no extremo Sudoeste do seu território, e lá se pretendia construir um centro urbano, que concentraria o governo, o comércio e os serviços oferecidos aos ocupantes dos lotes rurais de toda a colônia. Pouco depois o local foi considerado inadequado, e a sede foi transferida para um local mais central e menos topograficamente acidentado a cerca de 20 km a Nordeste, no Travessão Santa Teresa da 5ª Légua, onde havia uma planura descampada chamada Campo dos Bugres, situada no atual centro histórico de Caxias do Sul.Adami, João Spadari. História de Caxias do Sul 1864-1970. Edições Paulinas, 1971, pp. 67-93
De acordo com Thales de Azevedo, em 3 de janeiro de 1875 chegou ao sítio o imigrante Angelo Feraboni, seguido por Giacomo Varaschini, Luigi Barbante e Angelo Magioni,Azevedo, Thales de. Italianos e gaúchos: os anos pioneiros da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Nação, 1975, p. 100 mas quem levou o crédito como pioneiros foram Luigi Sperafico, Tomaso Radaelli e Stefano Crippa, todos da região de Milão, que teriam chegado ali em 20 de maio."Terceira reportagem especial traz relatos de descendentes das três primeiras famílias que chegaram à região". Rádio Caxias, 20/05/2015 Em setembro já havia 110 italianos em Nova Milano, em grande parte oriundos de Milão, mas a maioria logo foi transferida para a área em torno do Campo dos Bugres."Farroupilha". Biblioteca IBGE, 2022 O local acabou consagrado no imaginário popular como o "berço" da colonização italiana no estado por ter acolhido os primeiros recém-chegados,Sgorla, Celso. "Encontro das Tradições Italianas é adiado para 2022". Correio do Povo, 17/06/2021Kanaan, Beatriz Rodrigues. "As Italianidades: Um estudo dos diferentes modos de representação de pertencimento entre descendentes de imigrantes italianos na Serra Gaúcha". In: Anais do XXV Simpósio Nacional de História. Fortaleza, 2009 e embora contestada por alguns historiadores, a data de 20 de maio de 1875 se tornou oficial como o início da colonização das terras rio-grandenses.Dornelles, Soraia Sales. "O protagonismo histórico indígena no Rio Grande do Sul do : a experiência de Luis Bugre". In: X Encontro Estadual de História da ANPUH, 2015
Para receber os recém-chegados e alojá-los temporariamente até que escolhessem seus lotes e se instalassem, em 1875 foi construído um barracão,Felice, Renzo De. Cenni storici sull'emigrazione italiana nelle Americhe e in Australia. Franco Angeli, 1979, p. 50 ampliado ou reconstruído em 1876, que acabou batizando o local em seus primeiros tempos: Barracão, onde os agentes do governo mantinham alguma estrutura jurídica, administrativa e técnica, viabilizavam a distribuição fundiária, encaminhavam os imigrantes e suas famílias para as propriedades, e lhes davam ajuda com sementes e ferramentas. Posteriormente o local passou a se chamar Nova Milano, em homenagem à origem das primeiras famílias ali registradas. O nome já aparece na planta da colônia de 1885 batizando o Travessão Milanês.
Mesmo depois da mudança da sede e da abertura de novos acessos à região colonial, Nova Milano continuava sendo importante, pois lá ainda passavam muitos que vinham do Caí. A contínua passagem de viajantes fez com que em torno do antigo barracão tomasse forma um povoado, constituído em sede do 3º distrito de Caxias em 25 de setembro de 1902, recebendo cartório, padre, igreja e sub-intendente. A atividade econômica principal era a agricultura. A partir do ano de 1910, a passagem da ferrovia Montenegro-Caxias do Sul entre Nova Milano e Nova Vicenza (parte da antiga Colônia Sertorina) e a construção de um ponto de parada em Nova Vicenza fez surgir um novo eixo econômico, e a urbanização passou a se concentrar em Nova Vicenza, estagnando o crescimento de Nova Milano, situação acentuada quando perdeu sua condição de sede do 3º distrito caxiense para Nova Vicenza em 1918. Em 1934 foi criado o município de Farroupilha, incorporando o distrito de Nova Sardenha do município de Montenegro, a Linha Jansen de Bento Gonçalves (antiga Colônia Dona Isabel), Nova Vicenza e Nova Milano, que foi absorvida como seu quarto distrito com o nome de Emboaba. Em 1949 seu território foi aumentado às expensas de Nova Palmira e o nome Nova Milano foi reinstalado."História de Farroupilha". Associação dos Municípios da Encosta Superior do NordesteBaretta, pp. 16-17
Nas grandes comemorações dos cem anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul em 1975, integradas ao Biênio da Colonização e Imigração 1974-1975, que foram acompanhadas por uma explosão na bibliografia acadêmica sobre o tema, Nova Milano consolidou sua imagem como "berço da colonização italiana". O ponto culminante das festividades ocorreu em 20 de maio, na Praça da Imigração — reafirmando a data como o início oficial do processo de povoamento organizado pelo governo — incluindo um desfile de carros alegóricos, atrações artísticas e folclóricas, discursos, hasteamento de bandeiras e encenação da chegada dos imigrantes, com a presença do Presidente da República general Ernesto Geisel, do Ministro do Trabalho, do Governador do Estado, do Embaixador da Itália no Brasil e do Subsecretário das Relações Exteriores da Itália, entre outras autoridades. Em 13 de dezembro, novamente entre grandes solenidades, foi inaugurado um Parque-Monumento em homenagem aos pioneiros, situado à beira da estrada na área do antigo barracão.Lima, Tatiane de. Os usos políticos no passado nas comemorações oficiais do Biênio da Colonização e Imigração do Rio Grande do Sul (1974–1975). Mestrado. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2017, pp. 59-83Relatório do biênio da colonização e imigração. Governo do Estado do Rio Grande do Sul, 1977, pp. 20-22Manfio, Juliana Maria. A construção de uma memória : as comemorações do centenário da imigração italiana na região da ex-colônia Silveira Martins (1975-1993). Doutorado. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2019, pp. 53-59 Carlos Tenius, criador do monumento, disse a seu respeito: