A Guerra do Sahel, também chamada de conflito armado no Sahel, insurreição islamista no Sahel ou insurreição jihadista no Sahel é um conflito armado entre os países da região do Sahel (em particular: Mali, Níger, Mauritânia, Burquina Fasso e Chade) e os grupos jihadistas salafistas ligados principalmente à al-Qaeda.
Este conflito é uma consequência indireta da Guerra Civil Argelina quando, em busca bases de retaguarda, os rebeldes islamistas argelinos decidiram se estabelecer no deserto a partir do início dos anos 2000. Progressivamente, passariam a realizar ações de guerrilha, terrorismo e tomada de reféns na região; sobretudo, passariam de modo gradual a criar laços com as populações locais e disseminar o islamismo radical que acabará por levar ao recrutamento dos autóctones, ou mesmo ao surgimento de novos movimentos muito ancorados localmente, como o Ansar Dine, MUJAO ou até mesmo Katiba Macina.
A França intervém militarmente em apoio aos Estados da região: primeiro no Mali em 2013 com a Operação Serval, depois em todo o Sahel em 2015 com a Operação Barkhane.Jihadismo cresce na região africana do Sahel apesar da intervenção da França - O Globo (02/12/2019)
Desenvolvimento Início do estabelecimento jihadista no Sahel A partir de meados da década de 1990, durante a guerra civil da Argélia, rebeldes islamistas argelinos estabeleceram contatos com traficantes no norte do Mali e Níger, a fim de se beneficiar do apoio logístico em combustível, alimentos e peças de reposição.. Porém os jihadistas realmente se estabeleceram no Sahel a partir de 2003. Mokhtar Belmokhtar, líder do Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC) no sul da Argélia estava com problemas contra as tropas do Exército Nacional Popular da Argélia. Em dezembro de 2002, após uma emboscada perto de In Salah, onde vários de seus homens foram mortos, Belmokhtar decidiu atravessar a fronteira e se refugiar no Mali. Ele conquistou Lerneb, perto da fronteira da Mauritânia e forjou uma aliança com a tribo árabe dos brabiches, casando-se com uma filha da influente família Hamaha da chefia de Oulad Idriss. Belmokhtar enriquece seus sogros e agora dispõe de uma base local, beneficia-se da proteção da tribo e encontra maneiras de lavar seu dinheiro. Posteriormente, outros jihadistas seguiram seu exemplo, principalmente Nabil Abou Alqama. O governo do Mali, que não quer atrair a hostilidade dos jihadistas, não reage.
Em 2003, tem inicio a primeira tomada de reféns do Ocidente. Em fevereiro e março, 32 turistas, a maioria alemães e austríacos, foram sequestrados por Abderazak el Para, que para escapar do exército argelino escolheu se refugiar no Mali. Os reféns são divididos em vários grupos, alguns são entregues aos militares argelinos, outros são confiados a Mokhtar Belmokhtar. As negociações são empenhadas entre os sequestradores e dois notáveis enviados pelo governo do Mali; Iyad Ag Ghali e Baba Ould Cheikh. No final das discussões, os reféns são libertados em 18 de agosto em troca de um resgate de cinco milhões de euros, o que enriquece consideravelmente os jihadistas e os permitirá prosseguir com esse tipo de ação.
Por sua vez, Abderazak el Para vai para o Chade, porém acossado pelo Exército Nacional do Chade, auxiliado pela inteligência estadunidense, foge para o norte e é capturado em 16 de março de 2004 pelos rebeldes tubus do Movimento para a Democracia e a Justiça no Chade (MDJT). Em 2004, foi entregue aos líbios, que por sua vez, o remetem aos argelinos..
thumb|direita|upright=1.3|Mokhtar Belmokhtar, local e data desconhecidos, extraído de um vídeo descoberto em 2010.
Em 4 de junho de 2005, em retaliação por uma série de prisões de islamistas mauritanos e pela participação anunciada do exército mauritano em manobras militares coordenadas com o exército estadunidense no Saara, Mokhtar Belmokhtar atacou o quartel militar de Lemgheity, na Mauritânia: 17 soldados mauritanos são mortos e 35 capturados e depois libertados. O combate de Lemgheity obteve algum impacto sobre os jihadistas. Em nome da al-Qaeda, Abu Musab al-Zarqawi, líder da al-Qaeda no Iraque, parabeniza em particular os "mujahideen magrebinos" por sua vitória. Mas, acima de tudo, permite que o GSPC restaure sua aproximação com a al-Qaeda. A lealdade é aceita por Osama bin Laden e, em 24 de janeiro de 2007, o GSPC se torna oficialmente a al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI).
No verão de 2007, contudo, Abdelmalek Droukdel, chefe do GSPC e depois da AQMI, considerando Belmokhtar muito independente, o removeu do posto de "Emir do Saara" e chefe da "região IX", o qual entregou a Yahia Djouadi, conhecido como Abu Amar.. Droukdel divide a área do Saara em duas: a primeira, compreendendo o sudoeste da Argélia e o norte do Mali e Mauritânia, vai para Belmokhtar; enquanto a segunda, compreendendo o nordeste do Mali, norte do Níger e oeste do Chade, vai para Abou ZeïdMarc Mémier, AQMI et Al-Mourabitoun : le djihad sahélien réunifié? IFRI, 6 de janeiro de 2017. Belmokhtar se opõe à decisão do comando da AQMI de estabelecer uma nova katiba no sul e rapidamente uma forte rivalidade o opõe a Abu Zeid. Os desacordos entre ambos dizem respeito, em particular, à estratégia de financiamento ou aos métodos operacionais.
Mauritânia 220px|esquerda|thumb|Jihadistas da AQMI na Mauritânia, em 2011
Em 24 de dezembro de 2007, três homens do katiba de Belmokhtar, o katiba al-Moulathimin (Les Enturbannés), atacam um grupo de cinco turistas franceses e matam quatro deles perto de Aleg, na Mauritânia. Este massacre resulta no cancelamento do Rali Dakar de 2008.2008 Paris Dakar rally cancelled due to terrorist threats surthemotorreport.com.au
Após o ataque de Lemgheity em 2005, outros confrontos ocorreram entre grupos jihadistas e forças mauritanas.Mauritanie: "guerre sainte" pour décimer Aqmi et venger 5 ans de violences, AFP, 21 de setembro de 2010. Durante a noite de 14 a 15 de setembro de 2008, uma patrulha do exército foi emboscada em Tourine, perto de Zouérat: doze cadáveres foram encontrados decapitados uma semana depois.Deuil national après la découverte des corps de 12 soldats décapités, RFI, 21 de setembro de 2008.
Entre 2005 e 2008, a Mauritânia passou por dois golpes de Estado e mostrou pouca atividade contra os jihadistas. A chegada ao poder do general Mohamed Ould Abdel Aziz muda a situação, este último assume o exército e a inteligência com a ajuda da França e dos Estados Unidos, e então continua a ofensiva contra a AQMI. Em 2008, grande parte do deserto mauritano - 800 quilômetros de comprimento e 200 quilômetros de largura - foi declarado zona militar interdita, nenhum civil tinha o direito de adentrar.Taoufik Mjaied et James André, Mauritanie : face à l’ennemi invisible, France 24, 9 de novembro de 2011. O país também forma o grupo especial de intervenção (groupement spécial d'intervention, GSI), unidades móveis responsáveis por patrulhar o deserto.
Em 2010, segundo documentos estadunidenses recebidos pela agência Reuters, a Mauritânia tentou vincular um pacto de não agressão com a AQMI. Esses documentos foram apreendidos pelas forças especiais estadunidenses durante a incursão ao esconderijo de bin Laden. Em troca, a al-Qaeda exigiu o fim dos ataques do exército mauritano a seus homens, a libertação de prisioneiros e o pagamento de 10 a 20 milhões de euros por ano para evitar o sequestro de turistas.La Mauritanie a-t-elle conclu un pacte de non-agression avec Aqmi?, RFI, 2 de março de 2016.
direita|thumb|220px|Soldados do exército mauritano em 2011
Contudo em 2010 e em 2011, o exército mauritano realizou vários raides contra a AQMI no Mali. Em 22 de julho, na região de Timbuktu, o exército mauritano atacou um campo da AQMI com forças especiais francesas para libertar um refém, Michel Germaneau. Seis jihadistas são mortos durante a operação, mas o refém francês não foi encontrado no local. De 17 a 19 de setembro, um novo raide foi realizado no Mali, em Areich Hind. Em 24 de junho de 2011, o exército mauritano e o exército maliano atacaram a floresta de Wagadou, perto de Nara. Em 5 de julho de 2011, as tropas mauritanas e a AQMI confrontam-se em Bassikounou.Aqmi a attaqué une base militaire en Mauritanie, RFI, 6 de julho de 2011. Segundo fontes mauritanas, cerca de cinquenta jihadistas foram mortos nesses combates contra dez mortos do lado do exército, a AQMI por sua vez reconhece apenas cinco mortos ou desaparecidos entre seus combatentes e afirma ter matado pelo menos quarenta soldados mauritanos.Attaque de Bassiknou/version d’AQMI : Avons visé des troupes françaises et un poste avancé de l’armée mauritanienne, ANI, 14 de julho de 2011.
Mali
upright=1.3|thumb|esquerda|Uma pick-up do Ansar Dine em Timbuktu, em agosto de 2012.
No Mali, jihadistas são implantados no norte do país, em áreas povoadas pelos tuaregues. Em 27 de setembro de 2006, um conflito opõe os rebeldes tuaregues do Aliança Democrática de 23 de Maio para a Mudança (ADC) e o Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC). Em fevereiro de 2007, houve um intenso conflito entre a AQMI e os homens de Ibrahim Ag Bahanga em Tin Zaouatine, mas subsequentemente, as duas forças passaram a coexistir e evitaram se confrontar. Em 2005, uma pequena célula de dois ou três homens do Grupo de Combate Islâmico Líbio também foi desmantelada em Bamako com a assistência da DGSE.
Até o início dos anos 2010, o Mali mostrou passividade contra os jihadistas, o que seria fortemente criticado pela Mauritânia, França e Argélia.. No entanto, em 8 de junho de 2009, o presidente do Mali, Amadou Toumani Touré, prometeu represálias após a execução de um refém britânico; Edwin Dyer. Em resposta, na noite de 10 a 11 de junho de 2009, a AQMI assassinou no tenente-coronel Lamana Ould Bou de Timbuktu, um agente dos serviços de inteligência do Mali. Foi a primeira vez que os jihadistas mataram um militar maliano. O exército maliano decide retaliar e atacar em 16 de junho um esconderijo da AQMI em Garn-Akassa, em Timetrine: cerca de vinte jihadistas são mortos. A AQMI responde em 4 de julho derrotando uma patrulha do exército maliano perto de Araouane, onde reivindica a morte de 28 soldados malianos.Mali: al-Qaida affirme avoir tué 28 soldats, AFP, 8 de julho de 2009.
Em janeiro de 2012, a Guerra do Mali estourou. Uma nova insurgência é conduzida desta vez pelos rebeldes tuaregues independentistas do Movimento Nacional de Libertação de Azauade (MNLA), insurgentes árabes da Frente de Libertação Nacional de Azauade (FLNA), mas também por grupos salafistas jihadistas: Ansar Dine, al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) e o Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental (MUJAO). Em 17 de janeiro, Ménaka foi a primeira cidade atacada.. No dia 24, Aguel'hoc foi conquistada e sua guarnição massacrada.. Tessalit foi tomada em 18 de janeiro e o acampamento militar de Amachach, cercado, finalmente caiu em 11 de março, após longos combates.. Os rebeldes podem então atacar Kidal e conseguem captura-la de 30 de março.. O exército maliano derrotado abandona Timbuktu e Gao, que foram capturados sem combates em 31 de março e 1 de abril. O governo do Mali perde o controle de todo o território do norte..
Depois de confrontar o exército do Mali, os rebeldes islamistas e os separatistas não tardam a se desassociar. Os combates eclodiram em junho, e favoreceram o MUJAO e a AQMI, que expulsaram o MNLA de Gao em 27 de junho.. Os jihadistas repelem uma ofensiva em Ansongo em 17 de novembro.. e depois tomam Ménaka em 19 de novembro..
No final de 2012, os jihadistas ocuparam a maior parte do norte do Mali, no qual anteriormente compartilhavam o controle. Ansar Dine controla os arredores de Kidal e a região de Timbuktu até Léré, o MUJAO controla os arredores de Gao, enquanto a AQMI domina principalmente no extremo norte da região de Kidal. Quanto ao MNLA, possui apenas localidades menores, principalmente no nordeste e perto das fronteiras..
upright=1.4|thumb|Soldados franceses em patrulha em Gao em março de 2013