A língua guató (endônimo: got͡ʃeuvɨ iˈot͡ʃeuvɨ, traduzido como "língua de gente" ou "fala das pessoas") é uma língua indígena brasileira historicamente falada pelo povo Guató na região do Pantanal, abrangendo áreas dos atuais estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Atualmente é classificada como uma língua isolada, visto que propostas de inclusão no tronco macro-jê não são consideradas conclusivas por falta de evidências genéticas suficientes. O idioma representa o último vestígio das culturas canoeiras que ocupavam as áreas alagáveis da bacia do alto rio Paraguai.

A língua encontra-se em estado critico de extinção. Embora a etnia conte com cerca de 400 pessoas, a maioria é hoje monolíngue em português. O declínio do idioma foi causado por epidemias no século XIX, conflitos territoriais e a dispersão do grupo, resultando na interrupção da transmissão geracional da língua. Historicamente, o guató é uma língua ágrafa, e seus registros científicos foram feitos por pesquisadores utilizando o Alfabeto Fonético Internacional (AFI).

No aspecto fonológico, o guató é uma língua tonal, distinguindo significados através de tons altos e baixos. Seu inventário apresenta 16 fonemas consonantais, incluindo oclusivas aspiradas e velares, além de oito fonemas vocálicos orais. Fenômenos como a nasalidade vocálica são interpretados como resultado de assimilação e não como fonemas independentes. O léxico da língua é fortemente ligado ao ambiente pantaneiro, com um sistema numérico complexo baseado em partes do corpo, como mãos e pés.

Gramaticalmente, o guató é uma língua aglutinante com marcação no núcleo (head-marking), indexando argumentos de sujeito e objeto diretamente no verbo. A língua não possui uma classe distinta de adjetivos, utilizando verbos intransitivos para descrever propriedades. Embora a ordem fundamental da frase tenha sido registrada originalmente como VSO (Verbo-Sujeito-Objeto), o intenso contato com o português consolidou a ordem SVO entre os falantes contemporâneos. Etimologia O nome guató é um exônimo de origem não indígena, empregado desde os primeiros registros etnográficos e históricos sobre o grupo. Dessa forma, a origem do nome guató permanece desconhecida. O endônimo utilizado pelos falantes para se referirem à própria língua é a expressão got͡ʃˈeuvɨ´ iˈot͡ʃeuvɨ´, cujo significado pode ser traduzido aproximadamente como “língua de gente” ou “fala das pessoas”. Essa denominação é morfologicamente composta por um elemento associado a “gente” ou “pessoa” e outro relacionado a “fala” ou “língua”, padrão amplamente atestado em diversas línguas indígenas da América do Sul. O uso desse endônimo reflete uma oposição semântica entre o grupo humano e o que é considerado não humano ou externo, sem implicar necessariamente uma designação étnica formal.

Distribuição miniaturadaimagem|Pintura de Hércules Florence de um Guató pescando A língua guató é uma língua indígena historicamente falada na região do alto rio Paraguai, no Pantanal, abrangendo áreas dos atuais estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Antes do século XX, os Guató ocupavam de forma dispersa as margens dos rios Paraguai e São Lourenço, com um modo de vida altamente móvel, associado aos ciclos sazonais de cheia e vazante do Pantanal. Atualmente, os Guató estão concentrados principalmente em duas terras indígenas: a Terra Indígena Guató, localizada na Ilha Ínsua, em Mato Grosso do Sul, e a Terra Indígena Baía dos Guató, no estado de Mato Grosso. A população total dessas duas áreas é estimada em cerca de 400 pessoas. Atualmente classificada em estado crítico de extinção, a língua guató apresenta um histórico de retração demográfica e geográfica acentuada. Nas décadas de 1960 e 1970, o uso cotidiano do idioma já era restrito a um grupo reduzido de 20 a 30 falantes, localizados sobretudo na Ilha Ínsua. Tal limitação espacial é explicada, em parte, pelo determinismo ambiental do Pantanal: as inundações periódicas condicionaram a mobilidade histórica do grupo, impedindo a expansão da língua para além das fronteiras nacionais e restringindo seu alcance geográfico às áreas de ocupação tradicional.

Dialetos e línguas relacionadas

Não há evidências da existência de dialetos distintos da língua guató. A documentação disponível descreve a língua como relativamente homogênea, sendo registradas apenas variações individuais entre falantes, possivelmente decorrentes do reduzido número de usuários e do intenso contato com o português.

O guató é classificado atualmente como uma língua isolada. Propostas de inclusão no tronco Macro-Jê, baseadas em um pequeno número de possíveis cognatos, não foram consideradas conclusivas. Estudos posteriores argumentam que não há evidências suficientes para estabelecer parentesco genético com outras línguas indígenas conhecidas. A língua apresenta poucos empréstimos lexicais do português, como omamõ (‘mamão’), oɾimão (‘limão’), vaka (‘vaca’) e tʃavẽ (‘chave’), adaptados à fonologia guató. Há também possíveis empréstimos do bororo, notadamente kwabo (‘barba’) e ukwa (‘lobo-guará’). No âmbito gramatical, foi sugerida uma possível influência de contato com o kadiwéu, embora sem consenso na literatura. Comparações lexicais Abaixo, apresentam-se paralelos lexicais entre o guató e as línguas do grupo bororo.

português guató proto-bororo bororo animal/porco-do-mato óku ‘porco-do-mato’ - aku ‘animal’ barba kʷabo - okʷabu beber ókɨ *ku - chuva ve - boe mão ra *era - orelha vi - bia pé abɔ - abore raiz/batata-doce óka ‘batata-doce’ - uka ‘raiz’ raposa ùkwà *oka/*okwa - rio pɔ-ɡɨ́̃ ‘riacho’ (ɡɨ̀̃ ‘água’) *po - História miniaturadaimagem|Pintura em nanquim de uma família da nação Guató. Obra elaborada por Hércules Florence do acervo do Instituto Hercule Florence.

História da língua

A língua guató esteve historicamente associada a um modo de vida canoeiro, altamente móvel, desenvolvido nas áreas mais sujeitas às inundações periódicas do Pantanal. Os Guató constituíam o último povo remanescente dos grupos pescadores-caçadores-coletores que ocupavam de forma permanente as planícies alagáveis da bacia do alto rio Paraguai. Sua autodenominação é got͡ʃˈeuvɨ´, termo que significa ‘gente’ ou ‘pessoa’, enquanto a língua é chamada de got͡ʃˈeuvɨ´ iˈot͡ʃeuvɨ´, literalmente ‘língua de gente’.

O primeiro contato documentado com europeus ocorreu no século XVI, durante as entradas espanholas oriundas de Assunção. Relatos do período mencionam os Guató como habitantes do alto rio Paraguai, envolvidos em alianças e conflitos com outros povos indígenas e com expedições coloniais. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, os Guató também estabeleceram alianças com bandeirantes paulistas, contribuindo para a ocupação portuguesa.

Durante o século XIX, epidemias de varíola e a intensificação da ocupação territorial reduziram drasticamente a população guató. No final do século XIX e início do século XX, conflitos políticos regionais e a expansão dos latifúndios pecuários levaram à dispersão dos falantes e ao progressivo abandono do uso cotidiano da língua.

História da documentação

Os primeiros registros da língua guató consistem em listas vocabulares produzidas por viajantes e exploradores no século XIX. O primeiro vocabulário conhecido foi coletado por Castelnau (1851), com cerca de 164 palavras, posteriormente utilizado em estudos comparativos por Martius (1867). No início do século XX, Max Schmidt realizou trabalho de campo no Pantanal, reunindo listas de palavras, frases e observações etnográficas, além de registrar os primeiros dados gramaticais da língua.

A primeira e, até o momento, única descrição gramatical abrangente do guató foi produzida por Adair Palácio, com base em trabalho de campo realizado entre 1977 e 1984, quando a língua ainda era usada no cotidiano por cerca de 20 a 30 falantes. Desde o século XXI, novos estudos têm sido conduzidos com os últimos falantes remanescentes, ampliando o registro linguístico por meio de elicitação, narrativas e gravações em áudio e vídeo.

História do ensino

Não há evidências de um sistema formal de ensino tradicional da língua guató anterior ao contato prolongado com a sociedade nacional. A transmissão do idioma ocorria predominantemente no âmbito familiar e comunitário. Com a interrupção da transmissão intergeracional ao longo do século XX, o guató deixou de ser ensinado como língua materna.

A partir da década de 1970, processos de reorganização política e territorial do povo guató levaram à retomada da identidade indígena e à demarcação da Terra Indígena Guató em Mato Grosso do Sul, concluída em 1996.Mais recentemente, projetos acadêmicos passaram a incluir ações de documentação e revitalização linguística, com oficinas e atividades educativas junto às comunidades guató. Fonologia A fonologia do guató foi descrita com base em dados de campo coletados com três falantes bilíngues e analisados segundo a teoria autossegmental e a geometria de traços. Os padrões silábicos predominantes descritos para o guató são: CV e V. Há evidências limitadas de codas consonantais em registros antigos, mas elas não aparecem nos dados da autora.

O sistema prosódico combina acento e tom, e a entonação pode variar conforme o contexto discursivo, sem eliminar os contrastes tonais distintivos. Há variação fonética contextual e livre em vários segmentos, como alternâncias entre formas aspiradas e não aspiradas e variações condicionadas pelo ambiente fonológico. Consoantes O guató possui 16 fonemas consonantais no inventário fonético, incluindo oclusivas simples e aspiradas, fricativas, nasais e aproximantes. + Inventário fonético consonantal do guató Bilabial Alveolar Pós-alveolar Palatal Velar Glotal Oclusiva Oclusiva sonora Fricativa Nasal Aproximante A aproximante [w] ocorre apenas em coarticulação com velares, formando segmentos complexos [kʷ] e [gʷ].

O inventário fonológico consonantal agrupa os fonemas em classes naturais com base em traços como [±contínuo] e [±sonoro], distinguindo, por exemplo, obstruintes surdas /p t k kʷ/ e sonoras /b d g gʷ/. Vogais O guató identifica como fonemas orais: + Fonemas vocálicos do guató Anterior Central Posterior Fechada Média fechada Média aberta Aberta

As vogais nasais são analisadas como resultado de assimilação do traço de nasalidade, não como fonemas independentes.

Um exemplo de variação fonética é a vogal /i/, que pode ocorrer como [ɪ] em sílabas com tom baixo. Tons O guató é descrito como uma língua tonal, isto é, a altura melódica das sílabas possui valor distintivo e pode diferenciar palavras. Em sistemas desse tipo, cada sílaba pode portar um tom fonológico contrastivo, que integra a estrutura lexical e não apenas a entonação.

Descrições recentes indicam que o sistema tonêmico distingue dois valores básicos, tom alto, marcado graficamente, e tom baixo, não marcado, cuja oposição pode produzir pares mínimos. A posição do tom alto varia conforme o número de sílabas da palavra, podendo ocorrer em diferentes padrões distributivos, e ainda não há descrição conclusiva sobre sua interação com um possível sistema de acento. Transformações fonológicas Os processos fonológicos mais produtivos descritos são: Inserção de [j] em sintagmas verbais: Ocorre como um processo de epêntese para evitar o encontro de vogais na junção de morfemas em verbos. Por exemplo, ao unir o prefixo de terceira pessoa do sujeito nɛ- com a raiz verbal okɨ 'lavar', insere-se a semivogal [j], resultando em nɛjokɨ 'ele lava'. Inserção de [dʒ] em sintagmas nominais:Semelhante ao processo anterior, a epêntese de [dʒ] (consoante africada) é utilizada para evitar hiatos em nomes (substantivos). Um exemplo é a junção de te 'unha' e abɔ 'pé', que resulta em tedʒabɔ 'unha do pé'. Elisão de vogais [a] e [o] em certos morfemas: corre a supressão das vogais finais dos morfemas ma- e go- quando estes se ligam a raízes que iniciam por vogal. Este processo evita sequências de vogais diferentes ou idênticas, como em ma + itir → mitir 'veado'.