miniaturadaimagem|314x314px|O jardim de chá interior (uchi-roji) em Wafūdō, sede da escola Ueda Sōko-ryū. Ueda Sōko-ryū (上田宗箇流) ou Ueda Ryū (ryū, em Japonês, pode ser traduzido como “escola” ou “tradição”, no sentido de “estilo” de uma arte tradicional) é uma escola de cerimónia do chá japonesa. Configura-se também como uma prática cultural e artística cujas origens remontam à classe samurai do período feudal. Tem como fundador Ueda Sōko (1563-1650), um importante senhor de guerra que viveu no período Sengoku (1467-1615), marcado por uma guerra civil e pela instabilidade política e social. Há mais 400 anos, a tradição Ueda-ryū mantém pela prática do chá costumes, valores e etiqueta da classe guerreira.
Ueda Sōko miniaturadaimagem|“Kuginuki-mon”, brasão de arma da família Ueda. Membro da classe guerreira, Ueda Sōko foi pajem de Niwa Nagahide (1535-1585), chefe militar que servia o clã Oda e foi posteriormente escolhido por Toyotomi Hideyoshi para ser seu ajudante e Daimiô. Antes de criar seu estilo próprio de chanoyu, profundamente influenciado pelos valores e costumes dos samurais do período Sengoku, Ueda foi aluno de Sen no Rikyū e Furuta Oribe. Esta tradição vem sendo perpetuada pela escola Ueda Sōko há 16 gerações, segundo o sistema Iemoto. Ueda Sōkei é o atual e 16º Iemoto da escola.
Ueda Sōko é conhecido por ser um dos principais projetistas de jardins do período Momoyama (1568-1603). Os jardins por ele criados estão entre os mais belos do Japão. Entre eles, estão o Shukkeien (prefeitura de Hiroshima), o jardim localizado no Castelo de Tokushima, Ninomaru-teien, dentro do castelo de Nagoya, e os jardins Nishinomaru-teien e Kokuwadera-teien, ambos localizados no castelo de Wakayama.
Um ano depois do Cerco de Osaka (1614-1615), o clã Toyotomi se dissolveu e Ueda se mudou para Hiroshima para servir o senhor Asano Nagaakira, que havia sido nomeado daimiô do Domínio de Geishū (atual Hiroshima). Ueda se tornou o principal administrador do domínio de Asano, recebendo, em troca, um feudo a Oeste de Hiroshima no valor de 17 mil koku de arroz (aproximadamente 2.788 toneladas). A família de Ueda continuou por gerações na administração das terras a Oeste de Hiroshima do Domínio de Geishū e o estilo de chanoyu de Ueda Sōko foi sendo transmitido de geração para geração, de forma a manter viva sua prática até os dias atuais.
História Em 1619 (ano 5 da era Ganwa), Asano Nagaakira foi nomeado daimiô do Domínio de Geishū, e se tornou senhor da província de Aki e da metade da província de Bingo (praticamente a prefeitura de Hiroshima) – terras cujo valor equivalia a 426.500 koku de arroz. Ueda Sōko foi para Geishū para servir Asano e foi nomeado administrador das terras dele. Em troca dos serviços prestados, recebeu um feudo no valor de 17 mil koku de arroz a Oeste de Hiroshima. Sōko nomeou Nomura Kyūmu e Nakamura Mototomo seus vassalos e concedeu a cada um deles um feudo no valor de 100 koku de arroz. Nomura e Nakamura aprenderam o estilo particular de chanoyu de Ueda Sōko e adquiriram o título de Chaji Azukari, ou “guardiões dos ensinamentos de chanoyu”. Estas duas famílias ensinaram e conduziram cerimônias para as famílias Asano e Ueda.
Em meados do período Edo, o número de praticantes de chanoyu cresceu consideravelmente. As escolas de chá das famílias Sen foram as primeiras a desenvolver o sistema Iemoto (Iemoto Seido, que permite a transmissão de conhecimento de forma sistemática de geração para geração), assim como a instaurar o sistema Sōden de transmissão e graduação durante as eras Bunka e Busei (1804-1819). A escola de chanoyu de Ueda começou a se difundir para além da classe samurai de Geishū e passou a ser praticada por pessoas de outras camadas sociais nas regiões de Kansai e Cho-Shikoku, o que gerou a necessidade de formalizar os ensinamentos da escola. Os guardiões dos ensinamentos de Ueda – Nomura Yokyū e Nakamura Taishin – estabeleceram um novo sistema Sōden em 1839 (ano 10 da era Tenbō), que permitiu a sistematização da transmissão do conhecimento do estilo de chá Ueda Sōko-ryū por gerações. O sistema determinou que o grau mais alto – Shin Daisu – se mantém dentro da família Ueda e as outras licenças poderiam ser concedidas pelo Chaji Azukari. Há um registro no Sōko sama o-kikigaki (“Notas de Sōko”) segundo o qual “Sōko recebeu uma licença de Oribe”, demonstrando a influência de Furuta Oribe na tradição de Ueda Sōko, que tem a licença de Shin Daisu como a mais alta a ser alcançada.
O sistema feudal foi dissolvido no Japão com a Restauração Meiji, e, consequentemente, os mestres de chá que serviam os daimiôs perderam seus postos. Ueda Yasuatsu, 12º Iemoto da escola Ueda durante os últimos anos do xogunato Tokugawa e o início da era Meiji, se retirou dos assuntos mundanos em 1870 (ano 3 da era Meiji). Teve uma vida muito similar à de Ueda Sōko, pois se converteu em monge budista sob o nome Jōō, dedicando-se inteiramente à prática do chanoyu até sua morte em 1888 (ano 21 de Meiji). Nakamura Kaidō e Nomura Ensai continuaram sendo empregados de Jōō como Chaji Azukari. Durante toda a era Meiji, estas duas famílias continuaram ocupando este posto até 1955 (ano 30 de Showa). A tradição Ueda Sōko segue como uma referência das escolas de chá da classe samurai nascidas no período Momoyama (1568-1598) – tempos difíceis em que os senhores feudais viviam sob constante ameaça de morte. Isso se reflete na busca de quietude mental desse estilo de chanoyu que surgiu na classe samurai. A tradição Ueda é uma prática que proporciona a busca da verdade interior pelo caminho do chá.
Características da escola A tradição de chanoyu de Ueda Sōko é: Uma escola de chá que surgiu na classe samurai no período Momoyama (1573-1603) e desde então mantém sua prática intacta. Uma escola que possui uma estética particular que mescla influências de (a) a beleza e tranquilidade de Rikyū: uma beleza que emerge do movimento sutil a partir de um mundo de quietude e sombras e (b) a beleza da liberação de Oribe: uma atmosfera de liberdade que emerge de um mundo de luz, espaço e formas sem restrições. Ueda Sōko combinou influências de seus dois mestres para criar uma estética elegante, forte e graciosa que pode ser definida pela expressão “utsukushiki”. A única escola que restaurou sua sede central de acordo com a arquitetura típica de uma residência samurai do período Edo, incluindo o complexo de salas de chá Wafudo e a recepção em estilo shoin. A escola também possui utensílios históricos de cerimônia do chá, artefatos e textos antigos significativos para a história do chanoyu. Os movimentos característicos da cerimônia de preparação do chá (temae) na tradição Ueda Sōko são elegantes e belos, compostos por linhas retas e sem gestos desnecessários. Há uma ênfase no equilíbrio entre yin e yang que se expressa em uma estética mais forte e dura para praticantes homens e mais graciosa para mulheres (alinhada com a cultura samurai do período Momoyama).
Os pontos acima se desenvolvem em características como: O conjunto de movimentos para o preparo do chá (temae) são diferentes para homens e mulheres. Os cumprimentos e reverências são diferentes para homens e mulheres. O lenço vermelho utilizado na purificação (fukusa) é pendurado no obi (faixa que sustenta o quimono) do lado direito do corpo. O lado esquerdo do obi é deixado livre em respeito à espada (sempre colocada deste lado do corpo) – na época, havia um sentido prático também, caso houvesse a necessidade de deixar uma cerimônia do chá abruptamente e sair em batalha, este lado estaria livre para embainhar a espada. O modo de utilizar a concha de bambu (hishaku) e de purificar com o fukusa é diferente na tradição Ueda. Em momentos diferentes do temae, os homens seguram o hishaku como se estivessem segurando as rédeas de um cavalo, desembainhando uma espada ou disparando uma flecha. Os movimentos do temae seguem linhas retas e fluem junto com a respiração. Ao conduzir o preparo do chá de forma que os movimentos estão sincronizados com a respiração, o anfitrião experimenta a renovação de seu espírito: há uma ênfase em liberar e descarregar energia pela respiração “de dentro para fora”.
Wabi-cha e a tradição samurai do chá Wabi-cha é um estilo de chanoyu que se desenvolveu no período Momoyama, precedendo o estilo praticado em salas koma (tamanho de quatro tatames e meio ou menor), com utensílios rústicos e atmosfera sombria – expressões que enfatizam o conceito estético wabi. A escola Ueda Ryū, além de valorizar a estética wabi pelo wabi-cha, é uma das únicas tradições do chanoyu conhecida como buke-cha, ou “chá da classe guerreira”, por ter se originado e desenvolvido pela classe samurai. A tradição Ueda, que teve origem no período Momoyama (1568-1598), tem a reputação de ser representante de uma tradição de chá que incorpora os costumes e a cultura samurai. Eram tempos duros em que a morte permeava o cotidiano devido à iminência constante de batalhas. O estilo de chá que se desenvolveu preza então a busca quietude mental e força espiritual.
Os temae da tradição Ueda Sōko Os temae (conjunto de movimentos para o preparo do chá) da tradição Ueda são considerados belos e elegantes. O primeiro aspecto que condiciona tais características está relacionado ao gestual que privilegia linhas retas e evita movimentos desnecessários. Isso resulta em uma expressão pura e centrada, em que a energia circula e se revigora para quem pratica. O segundo aspecto é a sincronia entre inspiração/expiração e os movimentos realizados no chasendōji (purificação do chasen, o batedor de chá), para girar a tigela ou na hora de bater o chá. Com a prática, os movimentos fluem naturalmente em harmonia com o ritmo da respiração.
A cerimônia do chá na tradição Ueda se baseia em “firme núcleo em expansão” a partir do qual parte uma ação assertiva. Para canalizar isso em um temae, os movimentos acontecem de forma enérgica com a entrada e saída de ar no fluxo da respiração.
Estes dois aspectos: (1) ações revigorantes e movimentos em linhas retas e (2) ações executadas em harmonia com o fluxo da respiração contribuem para a construção de uma expressão bela, elegante, forte e graciosa no temae da tradição Ueda.
Utensílios e corpo Um dos ideais da tradição Ueda é tornar uno corpo e utensílios. Os objetos não são manipulados apenas com mãos e braços, mas o movimento parte do eixo central do corpo, com a postura encaixada e estável. As ações acontecem na altura do umbigo, cerca de 3 centímetros distantes dos joelhos e mantendo o espaço de um ovo sob as axilas (como na meditação zazen). Os objetos são segurados com firmeza pelos dedos médio e polegar, enquanto o dedo indicador é acionado com mais leveza, apenas para dar um apoio. O engajamento de todo o corpo é acionado não apenas na hora de pegar os objetos, mas ao colocá-los de volta ao chão. Durante uma ação, olhos e olhar estão direcionados para o utensílio que está sendo manipulado. A harmonia é alcançada quando utensílio, corpo, braços, respiração, olhos e olhar se movimentam em conjunto.
Furuta Oribe, o meste de Ueda Sōko Furuta Oribe 古田 織部 (cerca de 1544 – 6 de julho de 1615) é o mestre de chá mais famoso da história depois de Sen Rikyū, que foi seu mestre. Ao contrário de Rikyū, que era comerciante, Oribe pertencia à classe samurai e liderou o desenvolvimento de um estilo de chá alinhado aos valores da cultura samurai que ficou conhecido como buke-cha (chá da classe guerreira samurai). Antes de obter o título de daimiô, Oribe serviu como samurai a Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e o clã Tokugawa.