A Palavra Pintada (no original em inglês, The Painted Word) é um ensaio do jornalista Tom Wolfe que satiriza o sistema de arte e a dependência da produção e experiência da arte em relação à teoria da arte. Foi publicado primeiro na revista Harper's Magazine em 24 de junho de 1975, depois foi publicado como livro pela editora Bantam Books,Santos, Luís Sérgio "A Palavra Pintada". Revista Senhor, 1987 (345) recebendo várias reedições e traduções.

O argumento central do livro é que desde o modernismo até a época em que escreveu a arte se tornou cada vez mais dependente da teoria para ser compreendida e apreciada, e ao mesmo tempo se tornou progressivamente reducionista, eliminando não apenas o realismo e a representação figurativa mas também "linhas, cores, formas e contornos", "molduras, paredes, galerias, museus", para se tornar "teoria da arte pura e simples, purificada de toda a visão", um processo que culminava na arte conceitual, que ele considera uma experiência puramente literária e não artística. O autor declara no início que a ideia para a obra veio da leitura de um artigo do crítico Hilton Kramer no The New York Times, onde dizia que uma teoria convincente era crucial para a compreensão e desfrute da arte."A Palavra Pintada". Suplemento Cultural, 01/10/2009"On The Painted Word". Abbeville, 08/01/2009

Wolfe também satiriza o sistema de arte como um clube fechado composto de poucas pessoas, onde os principais interessados na teoria e na arte são os próprios críticos e artistas, deixando de fora o público em geral, que segundo ele não desempenha o menor papel na evolução do gosto e das ideias. Os críticos Clement Greenberg, Harold Rosenberg e Leo Steinberg, que efetivamente dominaram a crítica norte-americana entre os anos 1950 e 1960, são seus principais alvos, alegando que suas palavras eram tomadas como dogmas inquestionáveis, forçando a arte produzida na época se tornar uma mera ilustração de suas teorias. Como disse o autor, não se trata mais de "ver é crer", e sim de "crer é ver" — "sem uma teoria para endossá-la, é impossível ver uma pintura".Martins, Lindevania. "Yves Klein – Além do Azul". Catálogo de Indisciplinas, 12/05/2010

Quando foi publicada A Palavra Pintada desencadeou uma forte reação negativa entre a crítica, que denunciou várias falhas, distorções e simplificações indevidas, e deplorou o seu pobre conhecimento do campo e sua escassa compreensão dos méritos da arte contemporânea. Wolfe de fato não faz uma crítica de arte consistente no sentido de estudar em profundidade o contexto histórico e estético que levou ao surgimento e legitimação das novas escolas, e não articula um verdadeiro debate entre as ideias que critica e sua própria visão.

Apesar das insuficiências apontadas, alguns críticos já na época da publicação a entenderam como uma crítica válida dos costumes, da sociedade e do mercado, e Viven Raynor no The Washington Post a chamou de "obra-prima". É uma das obras mais conhecidas de Tom Wolfe,"Morre escritor e jornalista americano Tom Wolfe". Deutsche Welle, 15/05/2018"Tom Wolfe, pai do 'New Journalism', morre aos 87 anos em Nova York". Revista Época, 15/05/2018 e atualmente permanece controversa, mas a ampla rejeição encontrada no início em parte se dissolveu, sendo adotada como referência obrigatória para discussão em muitas academias e cursos de Artes Visuais, História da Arte, Letras e Comunicação.Veras, Eduardo. "Elogio de um esquecimento. In: Arte & Crítica, 2018; XVI (46) Vários autores apreciam a forma como ele explora, com um humor vivo e sarcástico, as contradições e o dogmatismo insustentável das teorias que se sucedem denunciando umas às outras, os modismos passageiros, a roda das vaidades e a ânsia pela fama, o glamour mistificador, as discussões bizantinas, o elitismo excludente, o formalismo excessivo e vazio de sentido, os interesses mercadológicos dissimulados e os pontos cegos do sistema de arte e seus agentes."The Painted Word, by Tom Wolfe". Kirkus Reviews, 13/10/2011Kramer, Hilton. The Revenge of the Philistines: Art and Culture, 1972-1984. Simon and Schuster, 1985, pp. 301-302Westphal, Ana. "A expressão e a margem". In: Paralaxe, 2016 (5) Suas observações sobre o processo de desmaterialização da arte e a ascensão da teoria ao longo do século XX são essencialmente corretas.Shomette, Doug. The Critical Response to Tom Wolfe. Greenwood Press, 1992, pp. xix–xx Segundo Leão & Lopes,

"Tom Wolfe, em seu clássico livro A Palavra Pintada, escrito em 1975, apresenta um retrato ácido dos mecanismos que estavam por trás das redes de poder que possibilitaram a emergência daquilo que veio a ser considerado uma arte moderna nos EUA. A hipótese defendida por Wolfe é que a arte abstrata americana está intrinsecamente atrelada à formação e ao desenvolvimento da tríade relacional composta por capital, redes de jornalistas e críticos e implantação de museus e galerias".Leão, Lucia & Lopes, Vanessa. "Consumo e arte na era transestética: um estudo sobre as poéticas transmidiáticas de Rafael Rozendaal". In: Anais do II Congresso Internacional de Comunicação e Educação. São Paulo, 2018

Para Eduardo Veras, o texto tem um "fôlego curto, mas pontaria precisa":

"Não era nada tão diferente daquilo que, em outros contextos, Pierre Bourdieu descreveu a partir da análise das práticas de consumo cultural nas sociedades contemporâneas — em suas relações com o capital simbólico, o habitus de classe e a distinção social. Ocorre que Wolfe, se não errava o alvo, forçava demais no curso do projétil. Ignorava as estruturas de poder, seus modos de funcionamento e suas ambiguidades e, de um ponto de vista superior, sempre gaiato e zombeteiro, ridicularizava os personagens que se propunha a examinar: em última instância, artistas, críticos e curadores emergiam do livro como vilões de desenho animado, dando risadinhas e torcendo as mãos, ou, ainda pior, como uns sujeitos tontos, sedentos por glória e reconhecimento, tanto quanto por canapés e champanhe. [...] O equívoco de Wolfe — suponho — esteve antes nas tintas que escolheu do que no retrato em si".

Uma resenha na Kirkus Reviews a analisou da seguinte forma:

"O interesse do ensaio de Wolfe, com todas as suas distorções e simplificações, está em sua observação muito justa de que a arte contemporânea tem sido larga e presunçosamente elitista, e seu mercado e valores, definidos por um grupo pequeno. Mais difícil é aceitar sua alegação de que as pinturas ilustram os textos, ou que existe uma conspiração entre os artistas e críticos. Wolfe entende pobremente as motivações de Rothko, Stella ou Pollock. Mesmo assim, seu golpe populista contra o reducionismo da arte contemporânea desde o expressionismo abstrato até o minimalismo e a arte conceitual é bem lançado, especialmente se pensarmos que esta arte carece de recompensas visuais e impacto emocional".

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