Gerônimo (Goyaałé, lit. "aquele que boceja", ; 16 de junho de 1829 – 17 de fevereiro de 1909) foi um proeminente líder militar e curandeiro do bando bedonkohe do povo apache ndendahe. De 1850 a 1886, Gerônimo uniu-se a membros de três outros bandos apaches centrais — os tchihende, os tsokanende (chamados de chiricahuas pelos estadunidenses) e os nednhi — para realizar numerosas incursões, bem como lutar contra as campanhas militares mexicanas e estadunidenses nos estados de Chihuahua e Sonora, no norte do México, e nos territórios estadunidenses do sudoeste do Novo México e do Arizona.
As incursões de Gerônimo e as ações de combate relacionadas foram parte do prolongado período das Guerras Apache, que se iniciou quando os estadunidenses continuaram a tomar terras, incluindo territórios apaches, após o fim da guerra com o México em 1848. A vida nas reservas confinava o povo apache, até então acostumado à liberdade de movimento, o que gerou profundo ressentimento pelas restrições impostas ao seu modo de vida tradicional.
Gerônimo liderou fugas das reservas em tentativas de devolver seu povo ao antigo estilo de vida nômade. Durante seu último período de conflito, de 1876 a 1909, ele se rendeu três vezes e acabou aceitando o confinamento nas reservas apaches. Embora muito conhecido, Gerônimo não era um chefe de seu bando bedonkohe, mas um xamã, assim como Nokáy-doklini era entre os apaches ocidentais. No entanto, por ser um líder soberbo em incursões e conflitos, frequentemente comandava grandes grupos de 30 a 50 guerreiros apaches.
Em 1886, após uma intensa perseguição no norte do México pelas forças dos Estados Unidos, que se seguiu à sua terceira fuga da reserva em 1885, Gerônimo rendeu-se pela última vez ao tenente Charles B. Gatewood. Posteriormente, ele e outros 27 apaches foram enviados para se juntar ao restante da tribo chiricahua, que havia sido exilada anteriormente para a Flórida. Enquanto o mantinha como prisioneiro, o governo dos Estados Unidos aproveitou-se da fama de Gerônimo entre os não-indígenas, exibindo-o em várias feiras e exposições. Em 1898, por exemplo, ele foi atração na Trans-Mississippi Exposition em Omaha, Nebraska; sete anos depois, o Gabinete de Assuntos Indígenas autorizou sua participação em um desfile na segunda posse do presidente Theodore Roosevelt. Ele morreu no hospital do Forte Sill em 1909, ainda como prisioneiro de guerra, e foi sepultado no Cemitério dos Prisioneiros de Guerra Apaches no próprio Forte Sill, junto aos túmulos de seus parentes e de outros apaches cativos.
Antecedentes Apache é o termo coletivo para vários grupos culturalmente relacionados de nativos estadunidenses residentes no sudoeste dos Estados Unidos. A atual divisão dos grupos apaches inclui os apaches ocidentais, yavapais, coyoteros, aravaipas, mojaves, chiricahuas, tontos, bylas, san carlos, mescaleros, jicarillas, lipans e apaches das planícies. As primeiras incursões apaches em Sonora e Chihuahua ocorreram no final do século XVII. Para conter os primeiros ataques aos assentamentos espanhóis, presídios foram estabelecidos em Janos (1685) em Chihuahua e em Fronteras (1690) no que é hoje o nordeste de Sonora, território então pertencente ao povo ópata. Em 1835, o México havia estipulado uma recompensa por escalpos apaches. Dois anos depois, Mangas Coloradas tornou-se o chefe principal e líder de guerra, iniciando uma série de ataques contra os mexicanos. As incursões apaches em vilas mexicanas eram tão numerosas e brutais que nenhuma área estava segura. Somente entre 1820 e 1835, cerca de 5 000 mexicanos morreram em ataques apaches e 100 assentamentos foram destruídos.
Durante as décadas de conflitos apaches-mexicanos e as guerras entre apaches e estadunidenses, as incursões haviam se enraizado no modo de vida apache, servindo tanto para propósitos estratégicos quanto econômicos. Falando sobre o início do conflito espanhol e mexicano com os apaches, a historiadora Angie Debo afirma: "Assim os apaches foram empurrados para as montanhas, e as incursões às comunidades estabelecidas tornaram-se um modo de vida para eles, um empreendimento econômico tão legítimo quanto colher frutas ou caçar veados", havendo frequentemente uma sobreposição entre ataques por necessidade econômica e guerra aberta. Os ataques iam desde o roubo de gado e saques até a captura e a morte de victims, às vezes sob tortura. Os mexicanos e estadunidenses responderam com ataques de retaliação que não foram menos violentos e raramente se limitaram aos inimigos adultos individualmente identificados. As incursões e as retaliações alimentaram o fogo de uma violenta guerra de vingança que ecoava repetidamente entre apaches e mexicanos, e, mais tarde, entre apaches e estadunidenses. De 1850 a 1886, Gerônimo e outros líderes apaches realizaram ataques, mas Gerônimo foi movido por um profundo desejo de vingar o assassinato de sua família por soldados mexicanos, acumulando um histórico de brutalidade inigualável entre seus contemporâneos nesse período. Sua notável habilidade de combate ao longo de 30 anos constitui a principal característica de sua figura histórica.
Mesmo dentro de sua própria tribo chiricahua, muitos nutriam sentimentos mistos em relação a ele. Embora respeitado como um líder habilidoso e eficaz nas incursões e guerras, ele não era visto como alguém amigável, tampouco era amplamente popular entre os demais apaches. Isso ocorreu principalmente porque ele se recusava a ceder às exigências do governo estadunidense, fazendo com que alguns apaches temessem as represálias americanas. Contudo, o povo apache maravilhava-se com os poderes de Gerônimo, que ele demonstrou em diversas ocasiões. Tais habilidades indicavam aos outros apaches que ele possuía dons sobrenaturais, os quais poderia usar para o bem ou para o mal. Em relatos de testemunhas oculares, Gerônimo era capaz de se inteirar de eventos distantes no exato momento em que ocorriam, além de antecipar acontecimentos futuros. Ele também demonstrava ter poderes de cura sobre outros membros da tribo.
Biografia Gerônimo nasceu no bando bedonkohe dos apaches perto de Turkey Creek, um afluente do Rio Gila no atual estado do Novo México, que à época fazia parte do México, embora os apaches contestassem a reivindicação mexicana sobre a região. Seu avô, Mahko, havia sido chefe dos apaches bedonkohes. Ele tinha três irmãos e quatro irmãs.
Seus pais o criaram de acordo com as tradições apaches. Após a morte do pai, sua mãe o levou para viver com os tchihende, e ele cresceu entre eles. Gerônimo casou-se com uma mulher chamada Alope, do bando nedni-chiricahua, quando tinha 17 anos; eles tiveram três filhos. Ela foi a primeira de suas nove esposas.
Massacre em Janos Em 5 de março de 1851, uma companhia de 400 soldados mexicanos de Sonora, liderada pelo coronel José María Carrasco, atacou o acampamento de Gerônimo nos arredores de Janos (conhecida como Kas-Ki-Yeh em apache), enquanto os homens estavam na cidade comercializando. Carrasco alegou que havia seguido os apaches até Janos após eles terem realizado uma incursão em Sonora, levado gado e outros saques, e derrotado gravemente a milícia mexicana. Entre os mortos no ataque de Carrasco estavam a esposa, os filhos e a mãe de Gerônimo. A perda de sua família fez com que Gerônimo passasse a odiar todos os mexicanos pelo resto da vida; ele e seus seguidores atacavam e matavam frequentemente qualquer grupo de mexicanos que encontrassem. Durante toda a sua vida adulta, a antipatia, suspeita e aversão de Gerônimo em relação aos mexicanos foram comprovadamente maiores do que em relação aos estadunidenses.
Lembrando que na época seu bando estava em paz com os mexicanos, Gerônimo relatou o incidente da seguinte maneira: No final de uma tarde, ao retornar da cidade, fomos recebidos por algumas mulheres e crianças que nos disseram que tropas mexicanas de outra cidade haviam atacado nosso acampamento, matado todos os guerreiros da guarda, capturado nossos pôneis, roubado nossas armas, destruído nossos suprimentos e matado muitas de nossas mulheres e crianças. Rapidamente nos separamos, escondendo-nos da melhor forma possível até o anoitecer, quando nos reunimos no local de encontro combinado – um matagal próximo ao rio. Silenciosamente chegamos um a um, sentinelas foram posicionadas, e quando todos foram contados, descobri que minha velha mãe, minha jovem esposa e meus três filhos pequenos estavam entre os mortos.
Guerra com o México O chefe de Gerônimo, Mangas Coloradas (espanhol para "mangas vermelhas"), enviou-o ao bando de Cochise em busca de ajuda para se vingar dos mexicanos. Foi durante este incidente que surgiu o nome Gerônimo. Essa denominação originou-se em uma batalha na qual, ignorando uma saraivada mortal de balas, ele atacou repetidamente soldados mexicanos com uma faca. A origem exata do nome é alvo de controvérsia entre os historiadores; alguns escrevem que se tratavam de apelos dos soldados a São Jerônimo ("¡Jerónimo!") por ajuda divina. A historiadora Angie Debo repete essa hipótese, mas especula também uma alternativa tida como improvável em termos fonéticos, de que poderia ser a pronúncia mais próxima que os soldados mexicanos conseguiam emitir dos sons guturais que compunham o seu nome verdadeiro.
Ataques e contra-ataques com os mexicanos tornaram-se rotineiros. Em dezembro de 1860, 30 mineradores iniciaram um ataque surpresa a um acampamento de apaches bedonkohes na margem oeste do Rio Mimbres. Segundo o historiador Edwin R. Sweeney, os mineradores "mataram quatro índios, feriram outros e capturaram treze mulheres e crianças". Novos ataques por parte dos apaches se seguiram, incluindo incursões contra cidadãos e propriedades dos Estados Unidos.
Em 1873, os mexicanos atacaram os apaches mais uma vez. Após meses de combates nas montanhas, apaches e mexicanos decidiram por um tratado de paz em Casas Grandes. Após concordarem com os termos, as tropas mexicanas ofereceram mezcal aos apaches e, enquanto estavam embriagados, os militares atacaram, matando 20 deles e capturando outros. Os apaches viram-se forçados a recuar para as montanhas mais uma vez.
Apesar de estar em desvantagem numérica, Gerônimo lutou contra as tropas mexicanas e estadunidenses, tornando-se famoso por suas façanhas ousadas e inúmeras fugas de encarceramentos entre 1858 e 1886. Uma dessas fugas, segundo a lenda, ocorreu nas Montanhas Robledo, no sudoeste do Novo México. A história conta que Gerônimo e seus seguidores entraram numa caverna enquanto soldados dos EUA aguardavam do lado de fora, mas ele nunca saiu de lá. Mais tarde, espalharam-se boatos de que Gerônimo havia sido visto do lado de fora, nas proximidades. A segunda entrada pela qual ele teria escapado nunca foi encontrada, e o local é hoje chamado de "Caverna de Gerônimo", embora não existam registros históricos ou orais conclusivos desse evento. Na verdade, há muitas histórias apócrifas desse tipo em que apaches entram em cavernas fugindo das tropas e desaparecem sem serem vistos saindo.
Campanha de Gerônimo O conflito entre apaches e Estados Unidos foi um desdobramento direto de um conflito bem mais antigo entre apaches e mexicanos, que ocorria na mesma área geográfica geral desde o início da colonização espanhola no século XVII.
miniaturadaimagem|Gerônimo (Goyaałé), um apache bedonkohe, ajoelhado com um rifle, 1887.|345x345px miniaturadaimagem|Da direita para a esquerda: o líder apache Gerônimo, Yanozha (cunhado de Gerônimo), Chappo (filho de Gerônimo com sua segunda esposa) e Fun (meio-irmão de Yanozha) em 1886. Foto tirada por C. S. Fly.|264x264px