Jacob Levy Moreno ( - ), foi um médico psiquiatra e dramaturgo romeno-judeu nascido na Romênia, crescido na Áustria (Viena) e naturalizado americano criador do psicodrama e pioneiro no estudo da terapia em grupo. Tem grandes contribuições no estudo dos grupos, em psicologia social e é o criador da sociometria.
Sua obra possui uma dimensão filosófica e existencial que combinou psiquiatria, psicologia social, sociologia, teatro, filosofia, religião e métodos de investigação das relações interpessoais. Moreno desenvolveu uma concepção relacional do ser humano, segundo a qual a experiência individual deve ser compreendida também a partir das relações, dos grupos e dos papéis desempenhados pelos indivíduos.
Biografia Jacob Levy MorenoMARINEAU, René F. (1992) Jacob Levy Moreno, 1889-1974: pai do psicodrama, da sociometria e da psicoterapia de grupo. São Paulo: Editora Ágora - nascido como Jacob Levi - foi o primeiro filho do comerciante judeu sefardita Moreno Nissim Levi e de sua esposa Pauline Iancu, também proveniente de uma família judaica sefardita. A família mudou-se para Viena quando Moreno ainda era criança. Foi na capital austríaca que ele passou grande parte de sua infância e juventude e desenvolveu as experiências intelectuais, religiosas, teatrais e sociais que posteriormente influenciariam sua obra.
alt=Casa antiga de Moreno Levi, pai de Jacob Levy Moreno, em Pleven na Bulgária e a placa comemorativa. |miniaturadaimagem|Casa antiga de Moreno Levi, pai de Jacob Levy Moreno, em Pleven na Bulgária e a placa comemorativa.
Entre aproximadamente 1907 e 1910, Moreno envolveu-se com experiências comunitárias que posteriormente seriam associadas à chamada "Religião do Encontro". Essas experiências enfatizavam espontaneidade, fraternidade, comunidade e relações humanas imediatas. O conceito de encontro posteriormente tornou-se uma das ideias centrais de sua filosofia e de sua teoria das relações interpessoais. Para Moreno, o encontro não correspondia simplesmente à presença física de duas pessoas, mas a uma relação recíproca na qual os participantes se afetam e transformam mutuamente.
Moreno ingressou no curso de medicina da Universidade de Viena em 1909, onde formou-se em 1917. Logo se interessou por teatro, tornando-se adepto do teatro de improviso, que em Viena experimentava um extraordinário florescimento neste momento. Ele via elementos que podiam ser trazidos ao teatro, observando a espontaneidade e a criatividade das brincadeiras infantis, observando crianças no parque público de Augarten em Viena.
Ele foi um dos círculos artísticos expressionistas em Viena (editor da revista Daimon). Na efervescência intelectual e cultura vienense da época, Moreno teve contato com nomes importantes como Max Brod, Franz Werfel, Alfred Adler, Martin Buber, Theodor Reik, Otto Pötzl, Paul Schilder e Helene Deutsch.
Durante seus estudos ele se concentrou em grupos marginalizados. Na Primeira Guerra Mundial, Moreno teve contato com refugiados nos campos austríacos de Barackenlager Mitterndorf, em Mitterndorf an der Fischa, na Áustria. Também desenvolveu atividades com prostitutas em Viena, procurando estimular formas de organização e apoio entre elas. Essas experiências contribuíram para seu interesse posterior pela estrutura dos grupos e pelas relações entre indivíduos. Suas observações o levaram a suspeitar de atração social e forças de repulsão e visto no grupo mais do que a soma de seus usuários. Essas experiências serviram de base para seu trabalho posterior sobre sociometria, pesquisa-ação e para o desenvolvimento do método de psicodrama.
De 1919 a 1925 ele trabalhou como um médico em Kottingbrunn e depois como administrador de saúde pública em Bad Vöslau, a cerca de 35 km de Viena.
O teatro desempenhou papel central no desenvolvimento das ideias de Moreno. Em 1921, criou o teatro da espontaneidade, baseado na improvisação e na criação de cenas sem roteiro previamente estabelecido. Durante estes experimentos teatrais, ele criou o "Jornal Vivo", em que ele e o grupo de atores dramatizavam notícias veiculadas nos jornais diários. O episódio conhecido como caso Bárbara–Jorge tornou-se posteriormente um dos relatos clássicos da história do psicodrama. Segundo o relato de Moreno, uma atriz que representava papéis idealizados passou a dramatizar aspectos de seus conflitos conjugais, e a experiência teria repercutido em sua relação fora do palco. A narrativa é frequentemente apresentada como um marco na transição do teatro da espontaneidade para o teatro terapêutico. Define-se a primeira sessão psicodramática ou sociodramática como sendo o evento, em 1º de Abril de 1921 no Komödienhaus de Viena.
Em 1925, Moreno migra para os Estados Unidos, onde desenvolve seus estudos sobre esta modalidade de expressão catártica proveniente do teatro da espontaneidade. Em sua autobiografia, ele afirma que, de todos os lugares do mundo "só em Nova York, o caldeirão das nações, a grande metrópole, com toda a sua liberdade de todas as noções preconcebidas, eu poderia ser livre para prosseguir a investigação em grupo sociométrico no grande estilo eu tinha imaginado".
Em 1928, Moreno introduziu o teste de espontaneidade no Departamento de Pediatria e na Mental Hygiene Clinic do Mount Sinai Hospital, em Nova York. No mesmo ano, promove trabalho psicodramático com crianças no Plymouth Institute. Em 1929, conduz trabalhos Grosvenor Neighborhood House, Hunter College e inicia apresentações pública do que viria a se tornar o método do psicodrama no Impromptu Theatre, Carnegie Hall.
Em maio de 1932, o Dr. Moreno introduzido pela primeira vez o termo "psicoterapia de grupo" na Reunião da American Psychiatric Association na Filadélfia. Para os próximos 40 anos, ele desenvolveu e introduziu sua teoria das relações interpessoais e ferramentas para as ciências sociais que ele chamou de 'sociodrama', 'psicodrama', 'sociometria', e 'sociatria'. Em 1936, inaugurou o sanatório de Beacon Hill, ambiente que fomentou a prática psicodramática durante muitos anos. O termo psicodrama aparece pela primeira vez na literatura especializada em 1937.
Entre 1937-1938, ele foi professor visitante na New School for Social Research e entre 1938-1939, também professor visitante Universidade de Columbia. Em 1937, Moreno iniciou uma colaboração com William Alanson White, então superintendente do St. Elizabeths Hospital, em Washington, D.C., com o objetivo de desenvolver o uso do psicodrama em contexto psiquiátrico. Em 1941 foi inaugurado no hospital o Therapeutic Theatre of Psychodrama (Teatro Terapêutico de Psicodrama), dedicado à aplicação do método psicodramático. Entre 1951 e 1966, Moreno foi professor adjunto no departamento de sociologia da New York University.
Psicoterapia de Grupo A origem da psicoterapia de grupo não é atribuída exclusivamente a Moreno. Um dos marcos históricos frequentemente citados é o trabalho do médico norte-americano Joseph H. Pratt, que, a partir de 1905, reuniu pacientes com tuberculose em encontros coletivos nos quais combinava educação em saúde, apoio mútuo e estímulo entre os participantes. Outros pioneiros, como Edward W. Lazell e outros médicos e psiquiatras das primeiras décadas do século XX, também desenvolveram formas de tratamento grupal antes da consolidação da abordagem moreniana.
A contribuição específica de Moreno consistiu em desenvolver uma concepção do grupo como fenômeno terapêutico e social, atribuindo importância às relações entre os participantes, à participação ativa dos membros e à utilização de métodos de ação. Entre 1931 e 1932, Moreno, em parceria com E. Stagg Whitin, conduziu um trabalho com métodos grupais e sociometria no presídio de Sing Sing, na cidade de Ossining. O relatório foi apresentado à American Psychiatric Association e publicou, no mesmo período, Group Method and Group Psychotherapy, obra dedicada às aplicações do método grupal e da sociometria.
Moreno posteriormente reivindicou para si a introdução dos termos "group therapy" e "group psychotherapy". Essa reivindicação foi objeto de debate entre autores do campo, e a literatura histórica distingue a origem dos termos da história mais ampla das práticas terapêuticas em grupo.
Na concepção moreniana, o grupo não deveria ser entendido apenas como uma reunião de indivíduos submetidos individualmente a um tratamento. As relações estabelecidas entre os membros constituíam parte fundamental do fenômeno terapêutico. A sociometria permitia investigar a configuração dessas relações, enquanto a psicoterapia de grupo utilizava a própria interação grupal como componente do processo terapêutico.
A abordagem de Moreno também se diferenciava de modelos predominantemente interpretativos ao enfatizar a participação, a interação e a ação. O psicodrama constituía uma das formas de psicoterapia de grupo desenvolvidas nesse contexto, permitindo que experiências e relações fossem representadas dramaticamente diante do grupo. Os participantes podiam assumir diferentes papéis e atuar como egos auxiliares, enquanto o protagonista dramatizava uma situação considerada relevante para o processo terapêutico.
Em 1942, Moreno participou da formação da American Society of Group Psychotherapy and Psychodrama e posteriormente denominada American Society of Group Psychotherapy and Psychodrama (ASGPP). A organização contribuiu para a institucionalização e difusão do psicodrama e da psicoterapia de grupo nos Estados Unidos e internacionalmente.
A influência de Moreno sobre o desenvolvimento posterior da psicoterapia de grupo coexistiu com outras tradições, incluindo as abordagens psicanalíticas, psicodinâmicas, humanistas o terapêutico.
Sociometria A sociometria é um método de investigação das relações interpessoais e da estrutura dos grupos desenvolvido por Moreno, com colaboração importante da psicóloga Helen Hall Jennings. O termo designa tanto um conjunto de procedimentos para investigar empiricamente as relações sociais quanto, em sentido mais amplo, uma perspectiva teórica segundo a qual as estruturas dos grupos podem ser estudadas a partir das relações entre seus integrantes. Ela foi aplicada em áreas como psicologia social, pesquisa sobre pequenos grupos, educação, serviço social e estudos comunitários, contribuindo para o desenvolvimento de métodos quantitativos de investigação das relações interpessoais.
Moreno desenvolveu estudos sociométricos em instituições como escolas, reformatórios e prisões. Nos Estados Unidos, suas pesquisas com grupos de jovens e detentos contribuíram para o desenvolvimento de métodos quantitativos e gráficos destinados ao estudo das relações interpessoais. A colaboração de Helen Hall Jennings foi particularmente relevante para o desenvolvimento dos procedimentos de coleta, representação e análise das relações sociais.
A obra Quem sobreviverá? (1934) apresentou uma formulação abrangente da sociometria, articulando o estudo das relações interpessoais à investigação das estruturas sociais. Moreno procurava deslocar a atenção da análise exclusiva dos indivíduos para as relações que se estabelecem entre eles e para a posição de cada pessoa dentro de uma configuração grupal. Criou algumas das primeiras representações gráficas de redes sociais (sociogramas). Nesse livro, ele apresentou uma explicação célebre para o surgimento de uma verdadeira pandemia de fugas na New York Training School for Girls, em Hudson.
A sociometria moreniana utiliza conceitos como tele, atração, rejeição, reciprocidade e estrutura sociométrica. O conceito de tele refere-se, na formulação de Moreno, a uma forma de relação interpessoal caracterizada pela percepção e resposta recíprocas entre pessoas. A distribuição das escolhas e rejeições poderia produzir configurações relativamente estáveis dentro de um grupo, algumas das quais seriam pouco visíveis por meio da observação convencional.
miniaturadaimagem|Sociograma