O Partido Justicialista (PJ), também conhecido como Partido Peronista, é um dos principais partidos políticos da Argentina e o maior ramo do peronismo.
Fundado por Juan Perón e sua esposa, a primeira-dama Eva Perón, o partido seguiu, com base em suas políticas econômicas, uma agenda de esquerda. Historicamente, a posição efetiva do partido foi enfraquecida pelas divisões que surgiram na década de 1990 e perduraram até 2020; o PJ foi marcado por um conflito entre duas correntes peronistas: o kirchnerismo, a principal facção e de cunho populista de esquerda, e o peronismo federal, que se situava entre o centro e a centro-direita do espectro político. A divisão chegou ao fim com o fracasso do peronismo federal em desafiar a predominância da facção kirchnerista em 2019. O peronismo federal deixou de constituir uma facção interna do partido. Esse processo foi consolidado com a eleição de Cristina Kirchner, líder do kirchnerismo, para a presidência do partido, e com a criação de um partido dissidente separado (o agora extinto Consenso Federal). Atualmente, o partido adota uma ideologia baseada no intervencionismo econômico, em políticas de Estado de bem-estar social e na independência econômica em relação aos países mais ricos; situa-se majoritariamente entre a centro-esquerda e a esquerda do espectro político.
Além de Juan Perón, que governou a Argentina em três ocasiões entre 1946 e 1955 e posteriormente entre 1973 e 1974, outros onze presidentes argentinos pertenceram ao Partido Justicialista: Héctor Cámpora, Raúl Alberto Lastiri, Isabel Perón, Carlos Menem, Ramón Puerta, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Camaño, Eduardo Duhalde, Néstor Kirchner, Cristina Fernández de Kirchner e Alberto Fernández. Os justicialistas têm sido, de forma quase ininterrupta desde 1987, o maior partido no Congresso.
História
Visão geral O Partido Justicialista foi fundado em 1946 por Juan Perón e Eva Perón, unificando o Partido Trabalhista (Partido Laborista), a União Cívica Radical - Junta Renovadora (Unión Cívica Radical - Junta Renovadora) e o Partido Independente, as três legendas que haviam apoiado Perón na eleição. Após a promulgação do sufrágio feminino, também foi criado o Partido Peronista Feminino, liderado pela primeira-dama. Todas as organizações peronistas foram proibidas de disputar eleições após 1955, quando a Revolução Libertadora depôs Perón, e as tentativas dos governos civis de suspender a proibição do peronismo nas eleições legislativas e locais, em 1962 e 1965, resultaram em golpes militares.Crassweller, Robert. Perón and the Enigmas of Argentina (em inglês). W.W. Norton & Company, 1988.
Baseando-se nas políticas defendidas por Perón como presidente da Argentina, a plataforma do partido concentrou-se, desde sua fundação, no populismo, tendo historicamente como sua base de apoio mais consistente a Confederação Geral do Trabalho (Confederación General del Trabajo, CGT), a maior central sindical da Argentina. Perón ordenou a nacionalização em massa dos serviços públicos, das indústrias estratégicas e do setor agrícola exportador; promulgou leis trabalhistas progressistas e reformas sociais; e ampliou os investimentos em obras públicas.
Seu governo também favoreceu as escolas técnicas, importunou membros do corpo docente universitário e promoveu a urbanização ao aumentar os impostos sobre o setor agrário. Essas medidas conquistaram a lealdade de grande parte da classe trabalhadora e das camadas populares, mas contribuíram para afastar as classes média e alta da sociedade. A censura e a repressão intensificaram-se e, após perder o apoio da influente Igreja Católica Argentina, Perón acabou sendo deposto pelo violento golpe de 1955.
O alinhamento entre grupos favoráveis e contrários ao peronismo manteve-se, em grande medida, ao longo do tempo, embora as políticas do próprio peronismo tenham variado significativamente nas décadas seguintes, assim como as defendidas por seus diversos líderes concorrentes. Durante o exílio de Perón, o partido tornou-se um partido pega-tudo, unido quase exclusivamente pelo objetivo comum de garantir o retorno de seu envelhecido líder. Uma série de episódios violentos, somados às negociações de Perón com o regime militar e diferentes facções políticas, contribuíram para seu retorno à Argentina em 1973 e para sua eleição presidencial em setembro daquele ano.Poneman, Daniel. Argentina: Democracy on Trial (em inglês). Paragon House, 1987.
Seguiu-se um impasse no qual coexistiam, dentro do partido, organizações armadas de extrema-esquerda, como os Montoneros, e facções de extrema-direita, como a Aliança Anticomunista Argentina (Triplo A), liderada por José López Rega. Após a morte de Perón, em 1974, esse frágil equilíbrio desfez-se e uma onda de violência política tomou conta do país, culminando no golpe militar de março de 1976. A Guerra Suja do final da década de 1970, que custou a vida de centenas de peronistas, entre milhares de outras vítimas, consolidou a orientação populista do partido, especialmente após o fracasso das políticas de livre comércio e desregulamentação implementadas pelo ministro da Economia José Alfredo Martínez de Hoz depois de 1980.
Nas primeiras eleições democráticas após o fim da ditadura do Processo de Reorganização Nacional, em 1983, o Partido Justicialista foi derrotado pela União Cívica Radical (UCR). Seis anos depois, retornou ao poder com Carlos Menem, durante cujo mandato a Constituição foi reformada para permitir a reeleição presidencial. Menem (1989–1999) adotou políticas neoliberais que alteraram profundamente a imagem do partido.
O Partido Justicialista foi derrotado em 1999 por uma coalizão formada pela UCR e pela Frente País Solidário (FrePaSo), sendo esta última uma dissidência de esquerda do próprio PJ. No entanto, recuperou força política nas eleições legislativas de 2001 e acabou encarregado de conduzir o processo de escolha de um presidente interino após o colapso econômico de dezembro daquele ano. O justicialista Eduardo Duhalde, escolhido pelo Congresso, governou durante 2002 e parte de 2003.
Nas eleições de 2003, o eleitorado do partido dividiu-se entre três candidaturas presidenciais: Carlos Menem, Néstor Kirchner (apoiado por Duhalde) e Adolfo Rodríguez Saá, cada um liderando uma coalizão distinta. Após a vitória de Kirchner, o partido passou gradualmente a alinhar-se em torno de sua liderança, deslocando-se ligeiramente para a esquerda.
O Partido Justicialista sofreu uma ruptura efetiva nas eleições legislativas de 2005, quando duas facções disputaram uma vaga no Senado pela província de Buenos Aires: Cristina Fernández de Kirchner (então primeira-dama) e Hilda González de Duhalde, esposa do ex-presidente Duhalde. A campanha foi particularmente acirrada. O grupo de Kirchner aliou-se a outras forças menores e apresentou-se como a Frente para a Vitória (FpV), de orientação heterodoxa e inclinada à esquerda, enquanto o grupo de Duhalde manteve a tradição peronista mais antiga. A derrota de Hilda González de Duhalde marcou, segundo muitos analistas políticos, o fim da predominância de Duhalde na província, sendo seguida pela migração gradual de seus apoiadores para o campo vencedor.
Em fevereiro de 2008, Néstor Kirchner propôs a entrada do partido na Internacional Socialista. Sua liderança, contudo, foi enfraquecida pelo conflito entre o governo argentino e o setor agropecuário em 2008, desencadeado por um projeto de aumento dos impostos sobre exportações, apoiado pela presidência. As paralisações promovidas pelos produtores rurais contribuíram para a saída de diversos peronistas da bancada da Frente para a Vitória, e as perdas nas eleições legislativas de 2009 fizeram com que a FpV perdesse a maioria absoluta em ambas as casas do Congresso.
Em 2015, o PJ, com Daniel Scioli como candidato presidencial, foi derrotado pela coalizão de centro-direita Cambiemos. Mauricio Macri tomou posse como presidente da Argentina, encerrando doze anos de governos kirchneristas. Entretanto, nas eleições de 2019, o PJ integrou a coalizão Frente de Todos, vencedora da eleição presidencial. O partido retornou ao poder com Alberto Fernández na presidência da República. Em 10 de dezembro de 2019, Alberto Fernández, de centro-esquerda e filiado ao Partido Justicialista, assumiu a presidência após derrotar o então presidente Mauricio Macri nas eleições gerais daquele ano.
O sucesso eleitoral de 2019 contrastou com o fracasso dos peronistas federais dissidentes em desafiar a maioria kirchnerista dentro do partido. Os peronistas federais não conseguiram diferenciar-se dos movimentos antiperonistas e fracassaram na tentativa de lançar listas próprias para competir com o kirchnerismo. O resultado das eleições representou o “desmantelamento da alternativa do peronismo federal”.
Em 22 de março de 2021, Alberto Fernández foi eleito pelo congresso nacional do Partido Justicialista como novo presidente nacional da legenda, sucedendo José Luis Gioja. Fernández foi eleito sem oposição, liderando a chapa Unidade e Federalismo, apoiada por diversos setores do movimento peronista, incluindo La Cámpora.
A União pela Pátria (Unión por la Patria, UP) é uma coalizão política e eleitoral de centro-esquerda à esquerda formada por partidos peronistas na Argentina para disputar as eleições gerais de 2023. A coalizão sucedeu a antiga Frente de Todos e está centrada no Partido Justicialista e em seus aliados nos âmbitos federal e provincial, incluindo o partido centrista e peronista federal Frente Renovadora, liderada por Sergio Massa.
Em abril de 2023, o presidente Alberto Fernández anunciou que não disputaria a reeleição. Nas eleições primárias de agosto daquele ano, Sergio Massa derrotou Juan Grabois por uma margem de quase 16 pontos percentuais, embora esse tenha sido o pior desempenho de uma coalizão peronista governista desde a implementação das PASO em 2009.
No segundo turno das eleições presidenciais de novembro de 2023, o candidato conservador-libertário Javier Milei derrotou Sergio Massa por 55,7% dos votos contra 44,35%, obtendo a maior porcentagem de votos desde a redemocratização da Argentina. Massa reconheceu a derrota pouco antes da divulgação oficial dos resultados.
Em 2024, Fernández renunciou a presidência do partido devido acusações de violência de gênero contra sua esposa, buscando não afetar a imagem do partido ao mesmo tempo que negava tais acusações. Ainda no mesmo ano, Cristina Kirchner retornou à liderança do PJ.
Início O Partido Justicialista foi criado em novembro de 1946, dez meses após Juan Perón ser eleito presidente da nação, com o nome de Partido Único da Revolução Nacional (Partido Único de la Revolución Nacional); posteriormente, passaria a ser chamado de Partido Peronista. O partido surgiu da fusão de três legendas que haviam sido criadas em 1945 para sustentar a candidatura presidencial de Perón: o Partido Trabalhista (Partido Laborista), a União Cívica Radical - Junta Renovadora (Unión Cívica Radical - Junta Renovadora) e o Partido Independente.
Peronismo
O peronismo é uma corrente política que se consolidou entre novembro de 1943 e outubro de 1945, como resultado de uma aliança entre um grande número de sindicatos, principalmente de orientação socialista e sindicalista revolucionária, e dois militares (Juan Domingo Perón e Domingo Mercante). Seu objetivo inicial era dirigir o Departamento Nacional do Trabalho (posteriormente elevado à categoria de Secretaria do Trabalho e Previdência Social) e promover a aprovação de leis e medidas em benefício dos trabalhadores. A Secretaria foi dirigida por Perón, que, ao longo desses anos, tornou-se o líder de um novo movimento político que, durante 1945, passou a ser conhecido como peronismo.