Hipoglicemia é uma condição em que a taxa de glicose no sangue diminui para valores inferiores ao normal. A condição causa vários sintomas, entre os quais desorientação, dificuldade em falar, estado de confusão, perda de consciência, convulsões ou morte. Podem ainda estar presentes sintomas como fome, sudação em excesso, tremores e fadiga. Geralmente os sintomas manifestam-se de forma súbita. A condição oposta é a hiperglicemia.

A causa mais comum de hipoglicemia são os medicamentos antidiabéticos usados no tratamento da diabetes, como a insulina e as sulfonilureias. O risco é maior em diabéticos que comeram menos do que é habitual ou que ingeriram bebidas alcoólicas. Entre outras possíveis causas estão a insuficiência renal, alguns tumores como o insulinoma, doenças hepáticas, hipotiroidismo, inanição, erro metabólico hereditário, infeções graves, hipoglicemia reativa e uma série de drogas, incluindo álcool. A hipoglicemia pode também ocorrer em bebés de outro modo saudáveis que não tenham comido durante várias horas.

A taxa de glicose no sangue que define a hipoglicemia varia. Em pessoas com diabetes, o diagnóstico corresponde a uma taxa inferior a (70 mg/dL). Em adultos sem diabetes, o diagnóstico é confirmado quando se verifica simultaneamente sintomas relacionados com a hipoglicemia, baixa glicose no sangue durante os sintomas, e melhoria desses sintomas assim que a taxa regressa ao normal. Quando não se manifestam sintomas, pode ser usado um valor de referência inferior a 2,8 mmol/L (50 mg/dL) em jejum ou após a realização de exercício físico. Em recém-nascidos, uma taxa inferior a 2,2 mmol/L (40 mg/dL), ou inferior a 3,3 mmol/L (60 mg/dL) quando acompanhada de sintomas, indica a presença de hipoglicemia. Os valores de glicose são medidos com análises ao sangue. Entre outros exames que podem ser úteis para determinar a causa estão os valores de insulina e de peptídeos-C no sangue.

Em diabéticos, a prevenção da hipoglicemia consiste em adequar a dieta à quantidade de exercício físico praticado e aos medicamentos usados. Quando as pessoas sentem que a taxa de glicose pode estar a diminuir, recomenda-se o uso de um medidor de glicemia portátil. Como algumas pessoas manifestam poucos sintomas iniciais quando a taxa de glicose diminui, recomenda-se a este grupo que monitorize frequentemente a taxa de glicose. O tratamento consiste em ingerir alimentos ricos em açúcares simples ou na toma de dextrose. Nos casos em que a pessoa não consegue ingerir alimentos pela boca, pode ser necessária uma injeção de glicagina. O tratamento da hipoglicemia sem relação com a diabetes consiste em tratar também o problema subjacente e numa dieta saudável.

Sinais e sintomas Os sintomas hipoglicêmicos podem ser divididos naqueles produzidos pelos hormônios contra-regulatórios (adrenalina e glucagon), acionados pelo declínio da glicose, e naqueles produzidos pela redução de açúcar no cérebro.

Manifestações adrenérgicas (adrenalina) Tremores, ansiedade, nervosismo Palpitações, taquicardia Sudorese, calor Palidez, frio, languidez Pupilas dilatadas

Manifestações do glucagon Fome, borborigmo ("Ronco" na barriga) Náusea, vômito, desconforto abdominal

Manifestações neuroglicopênicas (pouca glicose no cérebro) Atividade mental anormal, prejuízo do julgamento Indisposição não específica, ansiedade, alteração no humor, depressão, choro, medo de morrer Negativismo, irritabilidade, agressividade, fúria Mudança na personalidade, labilidade emocional Cansaço, fraqueza, apatia, letargia, sono, sonho diurno Confusão, amnésia, tontura, delírio Olhar fixo, visão embaçada, visão dupla Atos automáticos Dificuldade de fala, engolir as palavras Ataxia, descoordenação, às vezes confundido com embriaguez Déficit motor, paralisia, hemiparesia Parestesia, dor de cabeça Estupor, coma, respiração difícil Convulsão focal ou generalizada

Nem todas as manifestações anteriores ocorrem em casos de hipoglicemia. Não há ordem certa no aparecimento dos sintomas. Manifestações específicas variam de acordo com a idade e com a severidade da hipoglicemia. Em crianças jovens com hipoglicemia matinal, há vômito frequentemente acompanhado de cetose. Em crianças maiores e em adultos, a hipoglicemia moderadamente severa pode parecer mania, distúrbio mental, intoxicação por drogas ou embriaguez. Nos idosos, a hipoglicemia pode produzir efeitos parecidos com uma isquemia focal ou mal-estar sem explicação.

Em recém-nascidos, a "hipoglicemia" pode produzir irritabilidade, agitação, ataque mioclônico, cianose, dificuldade respiratória, episódios de apneia, sudorese, hipotermia, sonolência, hipotonia, recusa a se alimentar e convulsões. Também pode parecer asfixia, hipocalcemia, sepse ou falha cardíaca.

Em ambos, pacientes de longa data ou não, o cérebro pode se habituar a níveis baixos de glicose, com redução dos sintomas perceptíveis em momentos de neuroglicopenia. Diabéticos insulinodependentes chamam a neuroglicopenia incondicionalmente de hipoglicemia, e que é um problema clínico importante quando tenta-se melhorar o controle glicêmico desses pacientes. Outro aspecto desse fenômeno ocorre em glicogenose tipo I, onde a hipoglicemia crônica antes do diagnóstico pode ser mais bem tolerada do que episódios agudos após o início do tratamento.

Quase sempre a hipoglicemia severa a ponto de ocasionar convulsões ou inconsciência pode ser revertida sem danos ao cérebro. Os casos de morte ou dano neurológico permanente que ocorreram com um único episódio envolvem ocorrências conjuntas de inconsciência não tratada ou prolongada, ou interferência na respiração, ou doenças concorrentes severas ou outros tipos de vulnerabilidade. De qualquer maneira, hipoglicemias severas podem eventualmente resultar em morte ou dano cerebral.

Causas Consumo de álcool: é a causa mais frequente Jejum: alimentação insuficiente ou que não fornece açúcares e carboidratos em quantidade suficiente; pode se tratar de um problema pontual, mas também nutricional (dieta muito rígida, diagnóstico de anorexia, desnutrição de causas variadas, etc.) Esforço físico: o funcionamento dos músculos pode ter consumido a glicose disponível no sangue e o corpo pode não ter tido tempo de liberar suas reservas; é sempre temporário nos indivíduos sadios Consumo de medicamento: certos medicamentos podem produzir hipoglicemia; é notavelmente o caso dos medicamentos antidiabéticos, como a insulina e os antidiabéticos orais. Outros medicamentos também podem ser a causa: aspirina, anti-inflamatórios não-esteróides, beta-bloqueadores não-cardiosseletivos, quinidina

Mais raramente, a hipoglicemia pode revelar: uma patologia endócrina: hipersecreção de insulina, no caso por exemplo de um insulinoma, tumor secretante do IGF-1; antecedentes de gastrectomia (ablação do estômago), patologia mais frequente após o câncer gástrico

Fisiopatologia Da mesma forma que a maioria das células de animais, o metabolismo cerebral depende primeiramente de glicose para trabalhar. Em casos de privação de glicose, pode-se conseguir uma quantidade limitada dela armazenada nos astrócitos, mas que é consumida em minutos. De qualquer forma, o cérebro é dependente de fornecimento contínuo de glicose, que difunde do sangue ao tecido intersticial dentro do sistema nervoso central, e aos próprios neurônios.

Por isso, se a quantidade de glicose suprida pelo sangue cai, o cérebro é um dos primeiros órgãos a percebê-lo. Na maioria das pessoas, a eficiência mental parece diminuir quando a glicemia cai abaixo de 65 mg/dL (3,6 mM). Ocorre limitação de ações e de julgamento geralmente quando a glicemia cai abaixo de 40 mg/dL (2,2 mM). Se cair ainda mais, podem ocorrer convulsões. Próxima ou abaixo de 10 mg/dL, a maior parte dos neurônios fica eletricamente desligada, resultando no coma.

A importância de um fornecimento adequado de glicose ao cérebro é clara pelo fato de ocorrerem inúmeras respostas nervosas, hormonais e metabólicas para combater uma hipoglicemia. A maior parte delas é defensiva ou adaptiva: ou tentando aumentar o açúcar no sangue via gliconeogênese e glicogenólise, ou providenciando formas de energia alternativas.

Diagnóstico Embora se cite que 70 mg/dL (3.9 mmol/L) seja o limite inferior da glicemia normal, podem definir-se diferentes valores como baixos em diferentes populações, propósitos e circunstâncias. O nível preciso de glicemia considerado baixo o bastante para se definir uma hipoglicemia depende de: (1) método de medição; (2) idade da pessoa; (3) presença ou ausência de sintomas.

Método de medição O nível de glicose neste artigo é o de plasma venoso ou em soro, medido por métodos-padrão de glicose oxidase usados em laboratórios. Para finalidades clínicas, tanto o nível no plasma quanto o no soro são similares o bastante para serem intercambiados. O plasma arterial ou em soro são levemente superiores do que os níveis venosos, e os níveis capilares estão entre os arteriais e os venosos. A diferença entre os níveis arterial e venoso é pequena sob jejum, mas é amplificada e pode ser até 20% maior em estado pós-prandial. Por outro lado, os níveis de glicemia totais (por exemplo os medidos por glicosímetros digitais) são cerca de 10-15% menores do que os níveis em plasma venoso. Além disso, os glicosímetros disponíveis garantem apenas exatidões de 15% em relação a valores de laboratórios clínicos.

Dois outros fatores afetam significantemente a medição da glicose. A disparidade entre a concentração venosa e a concentração total é maior quando o hematócrito é alto, como no caso de recém-nascidos. Em segundo, a menos que a amostra tenha sido colocada em um tubo de fluoreto ou processada imediatamente para separar o soro ou plasma das células, a glicose mensurável será gradualmente metabolizada in vitro.

Diferença devida à faixa etária Dados estatísticos de crianças e adultos saudáveis mostram que glicemias em jejum abaixo de 60 mg/dL (3,3 mM) ou acima de 100 mg/dL (5,6 mM) são encontradas em menos de 5% da população. Em até 10% dos recém-nascidos e crianças jovens, foram encontrados níveis abaixo de 60 mg/dL depois de jejum noturno. Em outras palavras, muitas pessoas saudáveis podem eventualmente ter níveis glicêmicos na faixa de hipoglicemia sem apresentar sintomas ou distúrbios.

A faixa glicêmica normal de recém-nascidos ainda é motivo de debate. As estatísticas e a experiência revelam níveis de açúcar frequentemente abaixo de 40 mg/dL (2,2 mM) e, mais raramente, abaixo de 30 mg/dL (1,7 mM) em bebês saudáveis de gravidez a termo nos primeiros dias de vida. Foi proposto que os cérebros de recém-nascidos são mais facilmente capazes de usar combustíveis alternativos quando os níveis glicêmicos estão baixos, em relação a adultos. Os especialistas continuam o debate quanto à significância e ao risco desses níveis glicêmicos, embora a tendência seja recomendar a manutenção dos níveis de glicose acima de 60–70 mg/dL (3,3-3,9 mM) após os primeiros dias de vida. Em bebês prematuros, adoecidos ou abaixo do peso é mais comum encontrar baixos níveis de glicose, mas há um consenso de que os açúcares devam ser mantidos ao menos acima de 50 mg/dL (2,8 mM) nestas circunstâncias. Alguns especialistas defendem 70 mg/dL (3,9mM) como um objetivo terapêutico, especialmente em circunstâncias tais como hiperinsulinismo, onde combustíveis alternativos podem ser mais escassos.

Presença ou ausência de sintomas